Apreço pelo passado

E isso é história: a sombra retorna,
sussurra seu nome em bocas futuras (...)

Dirceu Villa

 

apreço pelo passado:
se é caro o que é querido
quem aprecia é o mesmo
que sabe o preço de algo. 

contemos em
nossos pés
um cúmulo
infindável
de passos.

mas pelo que
barganharemos
nossos mortos?

            que consciência
            se entranharia
            na anônima

            ascendência
            de nossos
            ossos? 

‘quem somos?’:
medula a pergunta
com a qual
sonhamos
              a pergunta real,
              a pergunta impossível:

‘depois de tudo,
com quem, afinal,
nós vamos?’

GRAVURA ANTIGA: CRIANÇAS COM GIRINO APRISIONADO

Foram parar a uma gravura antiga
não sabem que as nuvens felizes sobre o mar
iluminação, devaneio, dia aberto
são cúmulos de um século passado

De um século passado, o olhar que suspende
o salto da rã para o charco primitivo
e o coaxar que promete um mundo de aventuras
abelhas industriosas, os louva-a-deus irrequietos
A vida fica mesmo à frente, estirada na relva
o odor inequívoco, a flagrante actualidade

Não sabem da inocente ferrugem liquefeita
que avança nas pupilas ainda surpreendidas
não sabem da ascensão pueril dos incêndios
porque eles já consomem prados viçosos
e passos decididos, enquanto, inspiradas
inventam jogos mortais
não pisar pauzinhos, saltar de pedra em pedra
e correm tantas nuvens felizes sobre o mar
como perfeitos desenhos do desejo

Algum desconhecido do lugar
marcou a data no granito em que se sentam
e depois o pintor e, enfim, o fiel gravador
O preciso, exacto dia
em que vive cada um a sua vida
o girino aprisionado pelos olhos infantis
e os exactos, precisos olhos
que agora se escrevem
e que tu, leitor, fecharás nas tuas pálpebras
enquanto correm, olha apenas em volta
as tuas nuvens felizes sobre o mar

in Música de Anónimo (recentemente publicado pela Companhia das Ilhas)

O Caso Heidegger

O “caso heideggeriano” continua aberto, ferida que gangrena uma parte do corpo filosófico, ao mesmo tempo que alimenta um dos temas mais apaixonantes dos “amigos do saber”: será que ao pensar as condições de verdade do mundo e do homem se devem tirar consequências éticas e políticas de circunstância, denunciando horizontes de acção e os respectivos juízos de valor, culturais e morais que os constituem? Noutros termos, deve o pensamento heideggeriano ser lido à luz das escorregadelas que o autor de Sein und Zeit teve em direcção ao Nacional-Socialismo e ao anti-semitismo?

Entre os dias 22 e 25 de Janeiro deste ano decorreu em França o colóquio Heidegger et “Les Juifs” (assim, com aspas, introduzindo logo o tom da polémica, mesmo se a expressão é tomada de empréstimo a J.-F. Lyotard). A organização esteve a cargo de bibliotecas, universidades, centros culturais, televisões, rádios e jornais (nenhuma instituição importante da Alemanha, onde Heidegger é menos conhecido, e reconhecido, do que em França). Recolherei as principais ressonâncias do encontro para sumariar as (poucas) linhas principais do que se pensou nestes 4 dias em torno de um dos maiores filósofos do séc. XX.

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