Reminiscências Circadianas

Lembras-te do rio no crepúsculo lento daquela cidade antiga, quando passo perto dele
Nunca sou o que conheces, também esse ficou algures entre as portas do elevador,
Que se fechou atrás de mim e encerrou até o para sempre de hoje, o teu cheiro misturado
Com aquele perfume, que tantas vezes encontrei depois, nunca exactamente o mesmo
Ao Sol, será que hoje me pagavas o jantar antes de me encerrares contigo numas águas
Furtadas com vista para o castelo, ou darias pelos anos no meu cabelo, o que me fez o tempo,
Naquele tempo lia Kierkegaard no comboio e passava horas a tentar equilibrar o humor
Na almofada, levava as fodas contadas e depois era tudo um risco que aceitavas também correr,
Tinha mais medo à falência hepática que hoje, apesar de ter mão para tudo, que me fez o tempo,
Tornei-me demasiado amigo dos sofás vazios e dos dias somados aos sonhos rasgados,
Hoje de certeza que não me pagarias um jantar, nem me deixarias adormecer exausto na tua cama,
Sem saberes dizer bem o meu nome, não me chuparias antes do látex, quase desajeitada,
Tu que rejeitaste o senhor arquitecto e deixaste entrar quem te levou uma garrafa de vinho
Do porto, barato, simples, uma cerveja também, em copo de plástico enchendo-se
De pôr-do-sol, tudo fica a brilhar quando se apaga nos olhos, longe, o que me fez o tempo até aqui,
Não sabias que te escrevia, hoje sabes e continuas a não poder ler-me, é pena,
Tantos que me preferem as entrelinhas e os espaços em branco, o tempo que me gastou
E me afastou dos comboios e das cidades antigas, redescobertas na carne exótica,
Será que pensas em mim de vez em quando, e se tivesse ido pelas escadas, teria passado
O tempo como passou, hoje os meus olhos são cansaço, desilusão e uma fome de quem
Comeu sempre demasiado e ficou sem dentes num mundo cada vez mais farto de confusão.

Turku 24/08/2014 

O livro de Jón e uma Língua que não era a sua

É um livro, mas são cartas, mais precisamente 28, escritas por Jón, personagem fictícia e real, à sua mulher Þórunn. Ambos separados por uma ilha, ela no norte, ele no sul, onde se refugiou numa gruta após ser acusado de assassinar o abade que era seu superior e simultaneamente marido da mulher com quem veio a casar. Jón, o pastor sem congregação perseguido por obscuros rumores e que se diz ter realizado um milagre ao desviar um rio de lava, é ainda um desconhecido que chega com o seu irmão a um local estranho, um homem que passa a ser visto com mais suspeita do que aquela que lhe mereceria apenas a deslocação para terras mais meridionais devido às suas ideias, às melhorias que introduz na gruta e nas terras que pertencem por direito à esposa e, sobretudo, aos seus planos optimistas para uma nova Islândia livre do jugo e do monopólio comercial dos invasores dinamarqueses, tema recorrente na literatura histórica islandesa, onde o veio nacionalista se funde com o orgulho de um povo. Rumores, ideias, planos: são estes últimos aquilo que mais partilha com Skúli, seu frequente visitante, também ele – como muitos neste livro – um homem de carne e osso antes de o ser no papel, o meirinho geral que deseja reinventar a Islândia e torná-la um país independente e exportador dos mais variados bens.

                  O livro de Jón é, na sua língua, um romance sobre Jón, e se o último é o mais irmão à originalidade que lhe compõe o título, o primeiro não lhe será menos fiel, pois este é um livro sobre e de Jón: ele é o narrador presente, o autor das cartas, é ele quem nos descreve a Islândia, os episódios bizarros, o clima, as viagens, as suas frustrações, desejos, crenças, ideias filosóficas, desilusões, enquanto somos leitores e, simultaneamente, Þórunn, essa mulher amada e abandonada num período de angústia, num país em que – no ano maldito de 1755 – a terra treme e a lava corre em rios.

Ófeigur Sigurðsson.jpg

A escrita de Jón, que é, por sua vez, também ele Ófeigur Sigurðsson, é um misto de crença nas ideologias e na religião transmitida de geração em geração e das luzes que se fazem sentir na Europa, tardiamente chegadas a uma ilha remota nos confins do mundo habitável; Jón não esconde essa dualidade na sua escrita, nas cartas que envia, feitas de frases longas, onde se usa e abusa da /barra/, composto por afirmações e interrogações longas, repletas de referências culturais islandesas e europeias que tornam difícil a vida ao tradutor de um livro que, com poucos anos de impressão, têm na linguagem o peso de mais de três séculos e a distância de um mar que o separa de um país marginal mas unido ao continente que ambos partilham, tornando o seu trabalho pesaroso, extenuante, envolvente, duros de meses sentados a secretárias dolorosas.

                  Felizmente, para o leitor português, O Livro de Jón será bem mais fácil e celeremente tragado em toda a sua beleza linguística e sumarento conteúdo e, certamente, lido em peças de mobiliário que unirão o conforto da leitura ao das costas…

Ulises debería ser nuestro único dios

Ulises debería ser nuestro único dios
No digo esto sólo por habitar Lisboa
aun habiendo llegado desde más lejos
Lo digo como hijo de un oficio ingrato
que nadie paga salvo con amor perdido
cuidar las palabras y todas sus heridas
amores extraviados sin patria conocida
Debía ser Ulises nuestro único dios
Y cuando digo dios quiero decir amigo
el que nos escucha cuando atardece
y las sombras son suaves y regresan
Sin Ulises no hay historia del futuro.

Rente à Realidade

Ponto prévio: não acredito numa realidade categórica, composta por leis, coisas, espaço e tempo incondicionados. Vejo-a antes como uma mistura de regularidades e de interpretações, milhares de interpretações que assentam nas regularidades e fazem regularidades, umas mais consistentes (“ciências duras”), outras menos (“ciências moles”), outras quase nada (gostos literários – excepção para José Rodrigues dos Santos, em quem podemos confiar).

É a esta realidade (que, na verdade, devia estar no plural), instável e irónica, que declaro, e trata-se de uma decisão irrevogável, total obediência. Quero viver rente à realidade, numa grande frugalidade discursiva e consumista, feliz pela irrelevância e penúria de ideias e produtos. No sentido em que não invento, como os idealistas, novos mundos, bem mais fáceis de pincelar linguisticamente (daí serem tão exuberantes e moralmente puros).

Por exemplo, quando me chamam “pequeno-burguês” já não saco de dez contra-argumentos vindos da teoria política ou da história das ideias (também os há no Correio da Manhã). Respondo, sem pressa, que meço 1m80, que por isso não posso ser “pequeno”, e se não posso ser “pequeno”, então não posso ser “pequeno-burguês”. Desarmante, não é? É que já não podem emendar a mão e dizer que, afinal, sou um “médio-burguês”, é que às vezes, menos do que devia, infelizmente, o ridículo mata.

Se ao menos fossem idealistas mergulhados no real das calçadas por levantar, viessem para a rua levar porrada da polícia, ou de outras forças opressivas do statu quo dominante, pegassem nos sem-abrigo e os carregassem para as suas casas, enfrentassem corpo-a-corpo os avatares do fascismo salazarento..., em resumo: pusessem as mãos na massa. Mas não, são burocratas do idealismo, fabricam mundos novos, taxando este de espúrio, sentados à secretária (muitas vezes recebendo ordenado). Por isso são simplificadores, o mal actual é simples, o bem futuro também será simples. Reduzem as realidades a slogans, aquelas a encaixar nestes.

Nietzsche dizia que se “dá um passo atrás quando se quer dar um grande passo em frente”. Os idealistas querem, só, substituir este mundo, estas realidades, por outro, o que vão inventando à secretária. Passo de gigante frustrado. Bem sei que só com esperança se pode encontrar o inesperado (Heraclito), mas esse “inesperado” será feito, pelo menos sempre foi, de pequenas coisas, de partículas menores, relações em filigrana. Mesmo as ditas grandes revoluções não alteraram, por exemplo, a nossa tendência para o amor-paixão ou a acumulação de capital, eu acumulo livros mesmo sendo bastante crítico em relação ao capitalismo. Por isso, a “esperança” de que falou Heraclito (alguns gregos niilistas consideravam-na o pior elemento da Caixa de Pandora) deve ser mais poética do que burocrática.

Rente à realidade, amo as coisas básicas que nos mantêm vivos, a exactidão dos animais simples, mais do que o nosso racionalismo insatisfeito e sobranceiro, prefiro a exactidão dos operários à feitiçaria dos génios, sou eu próprio um operário, passo mais tempo em pé do que à secretária. E já não vou a missas ideológicas, mistura frenética de história e teologia.

ESTUDOS PARA O FOGO

outra chama, não perceptível, e tão mais devastadora
Carlos Drummond de Andrade 

p/ waltencir oliveira

 

1.

nada à água se consome
tanto só ao fogo
como faminto filho 

que ao envolver macera
em trabalho dessimétrico
o ventre da mãe 

e de turva face parido
ascende em invulgar gesto ambíguo                              

 

2. 

como desejo e morte                                                 
animais de sua fisionomia                                       
seu ágil corpo é                                                             
de violência vestido                                                     

sendo impossível divisar                                          
aquilo que engendra                                                   
do que em si aniquila                                                  

qual terço se reza                                                         
mensagens de pele                                                      
que de sua própria                                                       
ao invocar-se se livra                                                  

 

3.

mas ao corpo do fogo
aceso e abcesso só
seus contrários aderem 

e as iguarias que ingere
no duro intestino são
seus abismos suas falhas 

porque de inconciliáveis feita
é sua sede convulsiva
de findando desfindar 

e é de sede convulsiva
sua atração núbil do fim
seu numinoso querer 

de sede brutal faiscante
que dilata a necessidade
de tal desfecho perseguido 

4. 

ígnea fábrica de espelhos
que gera no engenho de si
sempre em si o seu inverso 

igual que como às estátuas
que de plateias em pressa
carregam todos seus gestos 

igual que como o infinito
que corrói com rachaduras
a didática dos números 

igual também que como à
imagem que a outro fogo
irmão é lançada e a outros 

fogos espelhos contrários
que por mais cruzada vai
sendo de si refratada 

daquela imagem primária
de ruína inacessível
perdendo-se o fio da meada 

que o fogo é como a navalha
de extrema ambiguidade a
conciliar na vida a morte

*

Ernesto von Artixzffski é o pseudónimo de Sergio Maciel.