Zero-a-zero - diz o Senhor Presidente

Dizem que é para ti tarde para interails e ramos de noiva, que para ti é sempre novembro - que já pedalas com as pernas abertas. 

Sempre foste curva normal, percentil sessenta, diziam que ninguém te iria esperar num dia de vento e chuva grossa. 

Tens hoje dias cheios de horas, picas cebola como a tua mãe fazia. Compras cornetos, dormes a sesta, nadas costas, quinhentos metros bruços - casaste uma vez num cartório, tanta papelada, pensa na touca a tua cabeça. 

Vais para casa, vês as colheitas, regas, descalço, os lírios, que te guardam o polibã. 

Sais, tens horas até às duas, no café sempre aberto até à borra espessa. Falas com o Senhor Presidente - do duodeno, dos elevadores em luanda, do mar da figueira, de almoços de sandes, as fortunas aneladas, promoções de fiambre, as famílias que têm de vender as pratas. 

Zero-a-zero - responde sempre o Senhor Presidente, quando alguém pergunta o resultado de um jogo preso num entretanto – o Senhor Presidente nunca acreditou na divisão dos vivos em vencedores e vencidos, em jovens promessas, manhãs desejadas, bem-conseguidas, a história escrita com a glória, alta, subida, dos vencedores. 

Regressas a casa, lembras as virtudes de teres ido ao quadro, miúdo, na escola. 

Deitas-te, pensas em arroz de tomate, na lena d`água, pequenina, olhas o teu dedo indicador direito, um prodígio na discussão de jurisprudências. 

Apagas a luz, envias uma mensagem, afinal sempre vais – e levas mousse para a sobremesa. 

Foi o Senhor Presidente que o disse, ao redondo da mesa, interrogando a esperança no final da noite - nunca é tarde para se dizer presente. Levantou-se, depois, aparentando gravidade e conhecimento de causa, e apontou o dedo para a chuva que caía encosta acima. 

Questão de estilo I (Charles Bukowski)

“Style is the answer to everything.
A fresh way to approach a dull or dangerous thing
To do a dull thing with style is preferable to doing a dangerous thing without it
To do a dangerous thing with style is what I call art

Bullfighting can be an art
Boxing can be an art
Loving can be an art
Opening a can of sardines can be an art

Not many have style
Not many can keep style
I have seen dogs with more style than men,
although not many dogs have style.
Cats have it with abundance.

When Hemingway put his brains to the wall with a shotgun,
that was style.
Or sometimes people give you style
Joan of Arc had style
John the Baptist
Jesus
Socrates
Caesar
García Lorca.


I have met men in jail with style.
I have met more men in jail with style than men out of jail.
Style is the difference, a way of doing, a way of being done.
Six herons standing quietly in a pool of water,
or you, naked, walking out of the bathroom without seeing me.”

Charles Bukowski

Como enxertar especulativamente este poema? Não terá ele quase esgotado o nosso entendimento sobre o estilo? Claro que se pode escrever ainda uma biblioteca inteira, ela está com certeza, aliás, a ser escrita, prossegue-se o incansável preenchimento de estantes sobre o estilo (também porque temos horror ao vazio). Mas ao mesmo tempo parece que nada consegue confrontar-se, em agonismo ou reverência, a este vitalismo poético. Bukowski (soube ontem que infelizmente está na moda) é aqui um repórter selvagem abrindo a lata de sentidos que o assombram, a ele e a um entourage pós-Beatnik. Não como profilaxia, antes para radicalizar mergulhos de apneia em buracos negros, talvez à procura da pureza da luz. Outra forma de vertigem Iluminista.

Volto à pergunta: “como continuar especulativamente este poema?”. Justamente, especulando, suplementando-o com a arte burguesa da explicação, do comentário, da alternativa racional, impondo Apolo a Dioniso. É preciso acalmar a tempestade, só quase Leibniz preferia o mar aberto ao porto seguro.

Este esclarecimento afigura-se como uma torção desajeitada à linha lógica, ou estética, que obrigaria ou a pôr Bukowski fora de jogo ou a deixá-lo brilhar a solo (estrela dançante dominando fatalmente a constelação). Mas este poema, no interior e exterior, é a melhor das epígrafes para se falar do estilo porque: 1) fará um vigoroso contraponto, invencível, quem sabe, ao que disser teoricamente a partir de agora; e 2) é ele próprio uma amostra perfeita de uma acto de “estilo singular”.

Por outro lado, guardo Friedrich Nietzsche, a sua ideia de “grande estilo”, para outra oportunidade. Hoje mantenho-me numa via de pensamento bastante dufrenniana.

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DIA DE TRABALHO

Há homens para os quais a liberdade
é um acaso incompreensível
e ameaçado por toda a sorte de casos
estes, sim, muito compreensíveis.
Acorda um homem com a manhã escura.
Sai de casa. Está na praça central
quando um homenzinho de quepe
na cabeça grita o seu nome.
Então ainda se bate continência?,
espanta-se e o homenzinho
responde mas é claro que se bate,
ignorá-lo é o tipo de delito
que não se perdoa a ninguém.