False start

O primeiro beijo deles foi na marquise. 
Rezaram depois a primeira missa. 

No dia seguinte, ouvia-se nas paredes, 
tratavam já de simplificar o outro - 
por razões afectas ao clima, 
iriam estar – tinha-de-ser – um tempo fora. 

Tudo tem o seu começo – 
em janeiro, em abril, a meio de setembro. 

Em marquises, 
o que começa, 
tende a anunciar, 
desde logo,  
sonhos perdidos, 
um equívoco, 
uma falsa partida.

Zero-a-zero - diz o Senhor Presidente

Dizem que é para ti tarde para interails e ramos de noiva, que para ti é sempre novembro - que já pedalas com as pernas abertas. 

Sempre foste curva normal, percentil sessenta, diziam que ninguém te iria esperar num dia de vento e chuva grossa. 

Tens hoje dias cheios de horas, picas cebola como a tua mãe fazia. Compras cornetos, dormes a sesta, nadas costas, quinhentos metros bruços - casaste uma vez num cartório, tanta papelada, pensa na touca a tua cabeça. 

Vais para casa, vês as colheitas, regas, descalço, os lírios, que te guardam o polibã. 

Sais, tens horas até às duas, no café sempre aberto até à borra espessa. Falas com o Senhor Presidente - do duodeno, dos elevadores em luanda, do mar da figueira, de almoços de sandes, as fortunas aneladas, promoções de fiambre, as famílias que têm de vender as pratas. 

Zero-a-zero - responde sempre o Senhor Presidente, quando alguém pergunta o resultado de um jogo preso num entretanto – o Senhor Presidente nunca acreditou na divisão dos vivos em vencedores e vencidos, em jovens promessas, manhãs desejadas, bem-conseguidas, a história escrita com a glória, alta, subida, dos vencedores. 

Regressas a casa, lembras as virtudes de teres ido ao quadro, miúdo, na escola. 

Deitas-te, pensas em arroz de tomate, na lena d`água, pequenina, olhas o teu dedo indicador direito, um prodígio na discussão de jurisprudências. 

Apagas a luz, envias uma mensagem, afinal sempre vais – e levas mousse para a sobremesa. 

Foi o Senhor Presidente que o disse, ao redondo da mesa, interrogando a esperança no final da noite - nunca é tarde para se dizer presente. Levantou-se, depois, aparentando gravidade e conhecimento de causa, e apontou o dedo para a chuva que caía encosta acima. 

Adjectivo

A proximidade do adjectivo revela, por vezes, que por baixo da sua singela roupagem, as suas costas são profundamente tortas.

O adjectivo decifrado num palco feito de usura quotidiana, não se intimida, e oferece gentilmente a sua fragilidade - um interior habitado de memória.

Adjectivar é, como sempre foi, uma coreografia sempre refeita. Uma tecnologia mais-que-perfeita. Ou melhor, um corpo em plano inclinado para a direita.