Podridão Poética

Há livros com corpos vertidos dentro,
que só a morfina do olhar
impede de sentir.
Lá dentro
a imundície e a podridão.
As respirações mortas
e os restos de carne ainda pulsante.
Os gritos ainda perfuram.
As lâminas continuam a cortar.
Os corpos vertem-se lentamente 
escorrendo dos dedos do autor.
Sangram gota a gota para as páginas
que, fétidas, me vêm depois visitar.
Mas nenhum livro sem este cheiro
merece ter a oportunidade de existir.

A carta

 Um qualquer dia/ de qualquer mês/ de qualquer ano

           

            A um leitor,

            Esta cidade podia ter um qualquer nome, podia até nem existir. A sua capital é a nossa, não conhece os confins que limitam o mundo. Aliás, posso garantidamente dizer que o mundo habita aqui, não me sinto daqui ou de acolá, mas sim, pedindo licença ao grego mestre, cidadão do mundo, e talvez por esta razão não me é estrangeira. Na verdade, sinto-me como se nunca tivesse saído de casa, não que isso signifique a completa ausência de novidade, há-la aqui e em abundância, seja em que província for; refiro-me à inusitada sensação de familiaridade ao saltar, digamos desta maneira para bem ilustrar, de uma página para a outra. Se fosse possível reunir todas as cidades do mundo numa só, seria este o local. Não me peçam que a localize no mapa, por favor, seria uma perda de tempo, todos vós lá estivestes.

            Podemos em cada região contemplar exemplos sublimes de arquitectura, maravilhas de  engenharia, belas articulações de palavras; podemos misturar-nos nas rumorosas avenidas ou fecundar o sossego de uma viela, abrigar-nos sob as copas das árvores de jardins frondosos de cores de Outono, ou perder-nos nas ruas em descuido e decadência rodeadas de prédios abandonados onde os brados morrem e se sentem as preces de piedade e boa vontade, ou pode acontecer que nos percamos no mais obscuro beco que a nossa imaginação ouse recriar. Afinal de contas, uma cidade não é feita de turismo, não é feita apenas do belo que ofusca o obscuro, muito menos uma plural em cidades como esta. 

           Há, sobretudo, que saber distinguir o turista do habitante, este último, se aguçarmos os nossos dotes de observação, revela a sua verdadeira identidade pela familiaridade com que olha para tudo o que compõe a cidade, para um monumento, por exemplo, como se o saudasse, passada já a condição de forasteiro com que inicialmente aqui se entra, num acto preambular de introdução, e uma vez ultrapassadas as cortesias ali nos deixamos ficar em diálogo, no silêncio que nos conta sobre as pedras de que também somos feitos.

            Nem seria oportuno discorrer sobre os costumes da população, pois note-se que o único hábito verdadeiramente consueto é a alternância do quotidiano conforme o visitante, coisa que parece aplicar-se às próprias ruas, históricas ou novas, aos parques viçosos ou aos bares de eleição que transmigram alegremente a sua existência para outra morada; imagine-se que encontrei o Bar Utopia cinco quarteirões depois do lugar que me fora indicado, e a Praça Calípole ao fundo da rua à esquerda, chegando à encruzilhada, e não à direita. As paredes desta grande metrópole estão recheadas de testemunhos deste tipo, autênticas margens de apontamentos e reflexões de toda a natureza. Quem visita esta cidade fá-lo geralmente sozinho, porém, ainda que acompanhado, a urbe estender-se-á para cada um consoante o modo com que os olhos absorvem a paisagem tingida, que se erguerá com o orto do sol a Este para um, e a Oeste para o outro.

            Os aspirantes a futuras viagens sintam-se perdidos, sem rumo, não importa para onde vão desde que saibam que todos os caminhos vão dar além de Roma. Existem uns tantos que conduzem até cidades inexistentes, com mais população do que aquela que ousamos imaginar, onde melhor e livremente somos errantes a cores através de preto estampado no branco.

Caderno 3

Enfermaria 6, Lisboa, Abril de 2015, 108 pp.

8€

Uma versão digital deste livro ficará disponível a 11 de Maio.

Uma versão impressa deste livro pode ser comprada na Fyodor Books ou enviando-nos a sua encomenda para enfermariaseis@gmail.com.

 

Autores
André Domingues | Bruno Sousa Villar | Catarina Santiago Costa | César Rina | Daniel Francoy | Dirceu Villa | Ernesto von Artixzffski | Filipe Teles | Frederico Pedreira | Gonçalo Mira | Ismar Tirelli Neto | João Bosco da Silva | Júlia de Carvalho Hansen | Luís Quintais | Maria Sousa | Makki Ahtisaari | Marco Mackaaij | Miguel Cardoso | Nuno Brito | Otávio Campos | Patrícia Lino | Pedro Braga Falcão | Pedro Mexia | Raquel Nobre Guerra | Ricardo Domeneck | Rui Almeida | Susana Araújo | Vasco Macedo | Victor Heringer | João Moita | Manuel A. Domingos | Helena Bento & Rui Pedro Gonçalves | Cassandra Jordão & Hugo Milhanas Machado

Capa 
João Alves Ferreira

A Enfermaria 6 é uma plataforma editorial sem fins lucrativos. Todo o dinheiro resultante da venda dos exemplares será usado para financiar futuras publicações.

Graal

Há quem queira um porsche 
um t8 no chiado 
e uma ninhada de infantário 
eu não, 
do kit social nunca quis nada 
nem palácio 
nem putos 
nem descapotável 
chegava-me achar o verso santo 
                                      coronário 
onde coubesse este mundo pouco beato 
                        esta raça de papas 
como que um piropo de padre 
onde coubesse tudo tudo, 
do papagaio burocrata grasso 
ao carocho magro só a dieta 
de pão e poesia chutada 

Desse verso fiz soviético 
minha foice martelo e causa 
tentei educá-lo 
idolatrando poetas mortos 
e fantasmas 
romantizá-lo 
em pieguices de amor 
fogo que arde 
simplificá-lo 
tipo ken com barbie 
zangá-lo 
à cowboy de western sem bala 
sombra ou cavalo 
sofrê-lo 
como mágoa amália da 
saudade fado 
arrancá-lo 
a pele e pulso de xizato 
fodê-lo todo caralhadas 
numa alameda inteira 
de atrizes gastas, 
sem plateia só táxis 
gritá-lo mordê-lo rasgá-lo 
tê-lo tentei tê-lo 
mas nada 
nem verso 
nem lenine na praça 

Houve dia que desisti, 
o ideal virou vácuo 
dei comigo engenheiro gelado 
só quente na pestana de álgebra, 
quando vejo um lúcido cair 
do 11º andar a salto voluntário 
farto do peso 
farto da gravidade 
voando pássaro 
             frango de aviário 
caindo homem 
            à velocidade do estável 
até que paraquedista mal aterrado 
que estampa no chão raso 
que morto solitário 
apesar do currículo exemplar 
apesar da apólice do carro 
e só então vi que o verso justo 
para este tempo de umbigos e máscaras 
não se faz de palavras 
mas do erro matemático: 

1+1=1.