PODEM SER PEDRAS

Podem ser pedras
mas não é o que importa
para explicar porque me dói a pele.
Pode ser o sal do mar que seca
ao sol de fim de tarde
ou os últimos instantes de um puzzle
a que falta uma peça.
Pode ser um olhar venenoso
ou o rasgar de um avental velho
que deito fora de tão imundo.
Pode ser o cheiro acre
e o queimar dos olhos
depois da experiência com maus resultados.
Ou mesmo o silêncio
do homem calado
a quem perguntei onde ficava o destino.
E do velho banco de jardim
que nunca precisou de responder
a pergunta alguma.
Pode ser da falta de atenção
ou da ignorância preguiçosa
que não me oferece nada 
para além de ruído.
Até da boca longa do tubarão
e dos dentes afiados da inveja.
Pode ser da entrevista 
que queria fazer ao arquiduque antes de morrer.
Mas já foi em 1914.
Ou da conversa que ficou por terminar
com a Marie Curie.
E que ficou também
por começar.
Pode ser das plantas
que precisam morrer para germinar.
Ou do pó que fica depois de tudo
e da caminhada longa
para lá chegar.
Pode ser de Vinicius, Cortázar 
ou mesmo de Pound.
Pode ser de todos os que estão
aqui dentro
sem que bilhete lhes tenha sido pedido.
Poeta precisa também de comer
e de estar na avenida
a sentir os carros poluir por dentro.
Precisa do escuro
e da mais iluminada surpresa.
Precisa da dor
e das mais férteis vitórias.
Pode ser disso.
De toda a vontade de viver.
Pode ser da vontade de dançar
ou de ficar sentado sem mais.
A redenção não é metafísica
e as respostas não brotam de folhas em branco.
Pode ser até de mim,
Mas há tantas perguntas que ficam por fazer.

Três poemas

1.

A cidade desaparece dentro da cidade
como o mar naufraga em outro mar.
Mas e a alma – impura
porque lirismo – em que claridade
ela oscila e cai como um fruto
inventado, como um poema
apócrifo? Termina em mim
e eu termino como um pássaro
aprisionado em seu vôo?

2.

Não existe mais o cinema
da Rua Etrusca – não existe
nem sequer a Rua Etrusca:
outro modo de inventar
um território poético,
outro modo de nomear
a Rua São Sebastião, onde
há um extinto cinema (Cine
Etrusco) e o cheiro que antes irradiava
- fina e clara poeira de mármore -
esvaiu-se em outro cheiro de ontem
e ambos sucumbiram, diáfanos
como uma música que apenas a memória
escuta – um resto
de dias embalsamados
que nunca pertenceram a ninguém
(fina, clara, fria, ardente poeira ebúrnea).

3.

A tarde de sol retorna
apenas para o nosso engano.
Haverá quem estremeça e diga
é Setembro reencontrado
enquanto outro afirma na verdade
é o pior dos meses
renascido. A tarde de sol
é lenta como não estar mais aqui
e parte dela fica retida
nas copas das árvores e outro
tanto nos homens que cheiram a terra
remexida durante exumações.

o muro não sustenta o rosto

choraste as últimas lágrimas enquanto a noite vinha
soubesses a diferença na pesagem do sal
e discernirias se de felicidade ou tristeza
no seio deste cenário tão permissivo

vê tens o lençol verde e ondulado diante dos teus olhos
e nele andorinhas predam nuvens negras de insectos
patos e cisnes deslizam sereníssimos escondendo
de quem os olha as incansáveis patas membranosas

o frio e a pouca vida que resta sob estas águas escuras
mas atrás de ti escutas o chiar do metal do comboio
como um prenúncio sombrio no ranger dos gonzos do tempo

pouco interessa o significado dessas lágrimas
os muros interiores difíceis de se quebrar ruem
quando o seu rosto se encosta ao teu na noite já instalada