«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
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fais-toi une cuirasse secrète
/armaduras no castelo no museu
na feira de antiguidades armaduras
no cinema saem voando outras presas
sob a pele calcificam em algo rijo
o visor é um ponto fraco as axilas
a virilha e as dobras do flectido movimento
não são inteira proteção cobrir-se só
é inútil como um tanque sob espada samurai
umas pesadas outras leves elegantes
armaduras de desfile ou de torneio
onde põem fitas multicores adereço
venusino que compõe a antiga alegoria
marte amante a proporção
duram armaduras mais que os homens
que as vestiram mas que triste condição
porém não esta que cresce como espinhos
sob a pele esta cota fina malha de mithril
bem menos que um adorno bem mais
que o tigre altivo como um elmo de pavor
a fúria do leão que em neméia se calou
hercúlea caça sua couraça [a ironia]
o protegia mas foi ela que o matou
Ulla Hahn, Este verão
/[Tradução de Juliana Brina]
Este verão me ensina
a amar minhas cicatrizes
a enfeitar-me com marcas de estrangulamento o pescoço
Este verão me ensina
que trancar a amargura me torna
bonita roliça redonda como se saudável
Este verão me ensina
a berrar o bel canto
Este verão me ensina
que a solidão descansa
e se expande em um abraço
Este verão me ensina
a não confundir um corpo
disponível
com a ânsia pela alegria
Este verão me ensina
a ser um espelho de água para cada pedra
Este verão me ensina
a amar pequenas e grandes bolas de sabão
antes que rebentem
Este verão me ensina
que mesmo sem alguém
tudo continua
Este verão me ensina
um rosto congelado de satisfação
Este verão me ensina
que devo bater eu mesma os tambores
se quiser dançar
Este verão me ensina
a ser por alguns segundos sem felicidade sem tristeza
aliada de Deus
Este verão me ensina
a acordar de manhã. Grata. Sozinha.
Este verão me ensina
que a folha do limoeiro apenas exala seu aroma
quando esmagada entre os dedos.
Noutro comboio
/Cá estamos nós outra vez, no tal comboio, que tantas vezes se perdeu,
Fecharam várias estações, agora, como alguns fazem com as memórias
E os velhos amigos, nostalgia engolida pela ruína e pelo monte, inúteis,
A ingratidão pelo que já não se precisa, passou, engoliu, limpou-se,
A estação é outra, a terra ainda espera o teu nome na pedra
E devo dizer que tenho vergonha do meu egoísmo inocente, mas lá está,
Apesar de tudo, sou do país dos vampiros azeiteiros, dos doutores mamões,
Dos umbigos imensos, supermassivos, a cerveja baixa como sempre,
A cada gole sake à sombra de uma cerejeira, na língua algo como aquela vez
Em que ela me disse à beira da estrada na serra, já não aguento com a segunda,
E eu a sentir aqueles anéis apertados, cada vez mais longe, o preço ignora-se,
Esconde-se o recibo da morte, a vida é melhor pagá-la de uma vez,
Pode não se viver para a pagar toda e a eternidade é muito tempo para
Passar vergonha de caloteiro, mesmo que se viva às prestações,
Fica tudo ruínas e curva apertada, espalhado por fragas e oliveiras,
Será que me perdoas o cansaço, juro que tentei levar a vida na linha,
Mas aborrece-me passar o dia a olhar o mundo que passa pela janela,
Ela agora deve dizer ao segundo marido que hoje foi um dia difícil na loja
E que não pode com a cabeça, imagino os anéis e os dedos, o meu
Cheio de mim e dela a brilhar ao luar, a pingar numa dúvida de aquilo ainda nós,
Eu a preocupar-me com os estofos do carro, agora tudo tão longe neste comboio
E tu ainda anónimo para quem te conheceu, ainda verde no monte das minhas saudades.
Inkoo
23.06.2015
