Postal de Lagos

Ao contrário do habitual, não apanho o comboio da 9h de Lagos para Faro, decido apanhar o das 10.30 na estação seguinte, Meia Praia, e vou pela areia até à estação. 

Às 9 horas, a praia já estava a ficar com gente. As gaivotas tinham dado o lugar às pessoas e deixado na areia pegadas e penas. 

Vou pela praia. No caminho poiso o saco, visto o fato de banho e tomo banho.  Depois prossigo. 

Chego um pouco antes da 10 à frente da estação. Tiro o fato de banho e volto a pôr a  saia e blusa com que comecei a jornada. Ainda tenho tempo de beber um café no bar da praia. 

Apanho o comboio das 10.30 e ponho-me  a fazer contas. 

De Lagos a Faro a viagem é de 1h40m. Mas da Meia Praia a Faro é apenas 1.36 minutos. Poupei portanto 4 minutos na viagem de comboio.   

E paguei menos 20 cêntimos de bilhete.  

Sabendo que ñ posso somar cêntimos a minutos, decido atribuir uma equivalência a esse  dinheiro em tempo. Digamos que 20 cêntimos corresponde a 2 minutos e os 4 minutos a menos da viagem Meia Praia-Faro ficam em 6. Seis minutos a menos.   

Ainda me restam 44. 

Que desperdicei ou poupei? Eis a questão. 

E enquanto o comboio rola e os números enchem a folha de papel surge a soma límpida como a manhã. 

Em 6 minutos fiz 2 quilómetros, tomei um banho, nadei, despi e vesti roupa, bebi um café. 

Chego a Faro exactamente à mesma hora que teria chegado se tivesse apanhado o comboio em Lagos e não tivesse gasto 50 minutos a andar. Aparentemente os 44 minutos a mais não me fizeram perder nem o comboio nem Faro nem a hora a que deveria chegar a Faro. De onde concluo, que às vezes, ñ sempre mas às vezes, podemos dilatar o tempo. 

A volta foi sem sobressaltos: 1h40m, 7€30.  

Por acaso é mentira. Havia um incêndio na linha e cheguei a Lagos exactamente 44 minutos depois da hora prevista. Há coisas inacreditáveis!  

PODEM SER PEDRAS

Podem ser pedras
mas não é o que importa
para explicar porque me dói a pele.
Pode ser o sal do mar que seca
ao sol de fim de tarde
ou os últimos instantes de um puzzle
a que falta uma peça.
Pode ser um olhar venenoso
ou o rasgar de um avental velho
que deito fora de tão imundo.
Pode ser o cheiro acre
e o queimar dos olhos
depois da experiência com maus resultados.
Ou mesmo o silêncio
do homem calado
a quem perguntei onde ficava o destino.
E do velho banco de jardim
que nunca precisou de responder
a pergunta alguma.
Pode ser da falta de atenção
ou da ignorância preguiçosa
que não me oferece nada 
para além de ruído.
Até da boca longa do tubarão
e dos dentes afiados da inveja.
Pode ser da entrevista 
que queria fazer ao arquiduque antes de morrer.
Mas já foi em 1914.
Ou da conversa que ficou por terminar
com a Marie Curie.
E que ficou também
por começar.
Pode ser das plantas
que precisam morrer para germinar.
Ou do pó que fica depois de tudo
e da caminhada longa
para lá chegar.
Pode ser de Vinicius, Cortázar 
ou mesmo de Pound.
Pode ser de todos os que estão
aqui dentro
sem que bilhete lhes tenha sido pedido.
Poeta precisa também de comer
e de estar na avenida
a sentir os carros poluir por dentro.
Precisa do escuro
e da mais iluminada surpresa.
Precisa da dor
e das mais férteis vitórias.
Pode ser disso.
De toda a vontade de viver.
Pode ser da vontade de dançar
ou de ficar sentado sem mais.
A redenção não é metafísica
e as respostas não brotam de folhas em branco.
Pode ser até de mim,
Mas há tantas perguntas que ficam por fazer.

Três poemas

1.

A cidade desaparece dentro da cidade
como o mar naufraga em outro mar.
Mas e a alma – impura
porque lirismo – em que claridade
ela oscila e cai como um fruto
inventado, como um poema
apócrifo? Termina em mim
e eu termino como um pássaro
aprisionado em seu vôo?

2.

Não existe mais o cinema
da Rua Etrusca – não existe
nem sequer a Rua Etrusca:
outro modo de inventar
um território poético,
outro modo de nomear
a Rua São Sebastião, onde
há um extinto cinema (Cine
Etrusco) e o cheiro que antes irradiava
- fina e clara poeira de mármore -
esvaiu-se em outro cheiro de ontem
e ambos sucumbiram, diáfanos
como uma música que apenas a memória
escuta – um resto
de dias embalsamados
que nunca pertenceram a ninguém
(fina, clara, fria, ardente poeira ebúrnea).

3.

A tarde de sol retorna
apenas para o nosso engano.
Haverá quem estremeça e diga
é Setembro reencontrado
enquanto outro afirma na verdade
é o pior dos meses
renascido. A tarde de sol
é lenta como não estar mais aqui
e parte dela fica retida
nas copas das árvores e outro
tanto nos homens que cheiram a terra
remexida durante exumações.