o muro não sustenta o rosto

choraste as últimas lágrimas enquanto a noite vinha
soubesses a diferença na pesagem do sal
e discernirias se de felicidade ou tristeza
no seio deste cenário tão permissivo

vê tens o lençol verde e ondulado diante dos teus olhos
e nele andorinhas predam nuvens negras de insectos
patos e cisnes deslizam sereníssimos escondendo
de quem os olha as incansáveis patas membranosas

o frio e a pouca vida que resta sob estas águas escuras
mas atrás de ti escutas o chiar do metal do comboio
como um prenúncio sombrio no ranger dos gonzos do tempo

pouco interessa o significado dessas lágrimas
os muros interiores difíceis de se quebrar ruem
quando o seu rosto se encosta ao teu na noite já instalada

fais-toi une cuirasse secrète

armaduras no castelo     no museu
na feira de antiguidades     armaduras
no cinema saem voando    outras presas
sob a pele calcificam em algo rijo 

o visor é um ponto fraco   as axilas
a virilha e as dobras do flectido movimento
não são inteira proteção     cobrir-se só
é inútil como um tanque sob espada samurai 

umas pesadas    outras leves    elegantes
armaduras de desfile ou de torneio
onde põem fitas multicores   adereço
venusino que compõe a antiga alegoria
marte amante      a proporção 

duram armaduras mais que os homens
que as vestiram     mas que triste condição
porém não esta que cresce como espinhos
sob a pele    esta cota   fina malha   de mithril 

bem menos que um adorno      bem mais
que o tigre altivo     como um elmo de pavor
a fúria do leão que em neméia se calou
hercúlea caça     sua couraça     [a ironia] 

o protegia      mas foi ela que o matou

Ulla Hahn, Este verão

[Tradução de Juliana Brina]

Este verão me ensina 
a amar minhas cicatrizes 
a enfeitar-me com marcas de estrangulamento o pescoço 

Este verão me ensina 
que trancar a amargura me torna 
bonita roliça redonda como se saudável 

Este verão me ensina 
a berrar o bel canto 

Este verão me ensina 
que a solidão descansa 
e se expande em um abraço 

Este verão me ensina 
a não confundir um corpo 
disponível 
com a ânsia pela alegria 

Este verão me ensina 
a ser um espelho de água para cada pedra 

Este verão me ensina 
a amar pequenas e grandes bolas de sabão 
antes que rebentem 

Este verão me ensina 
que mesmo sem alguém 
tudo continua 

Este verão me ensina 
um rosto congelado de satisfação 

Este verão me ensina 
que devo bater eu mesma os tambores 
se quiser dançar 

Este verão me ensina 
a ser por alguns segundos sem felicidade sem tristeza 
aliada de Deus 

Este verão me ensina 
a acordar de manhã. Grata. Sozinha. 

Este verão me ensina 
que a folha do limoeiro apenas exala seu aroma 
quando esmagada entre os dedos. 

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