De Berlim a Lisboa

E nós ficávamos sentados nas folhas secas que murmuravam um pouco sob a respiração lenta da nossa espera e a respiração lenta da terra e a calma atmosfera de Outubro.

William Faulkner, O Som e a Fúria

 

I (Wilmsstrasse, Berlim)

partiste e as águas correram na sua lamacenta lassidão
onde os cisnes permanecem em sua suave travessia
sugerindo aos amantes o bucolismo doado pelos canais
somente quando a chuva cai e o outono se instala na cor folheada

ou nas madrugadas de geada que em cristal brilha o inverno
aos primeiros raios da manhã e ninguém por aí caminha
na despedida não houve lenços baldeados ao vento
lágrimas se furtivas caíram foram pelos olhos dela

 – quem afinal soltava as amarras para a aventura que ajudaste
a proporcionar por solene promessa à vida – todos os caminhos e o amor
ainda estão para serem feitos antes que a morte te entre valsando

despede-te das diatribes e insónias dessa morada tão hermética
salta para o carro cheio como uma carroça com mudos e ledos cães
e segue viagem junto a ela lentos como um caracol no himalaias do tempo

II (Bad Meinberg)

  longe está o tempo das epopeias
tudo se move e foge da terra
só se sente a gravidade
quando o pensamento se faz corpo
ou a lama do caminho nos incita a lentidão
essa qualidade rara do amor ordenando a casa

aqui aprendemos a passagem das horas
procurámos purgar o percorrido
persistindo a ecoar no tímpano
nestas línguas de sílex prontas a embater
e incendiar o coração na iminência
de um obstáculo até o amansar da fera

composemo-nos com o mundo
desenhámos um mapa de errância
e se neste templo os nomes se renegam
por outros juntos abrimos o horizonte
da pele à fulgurância da vida
essa epopeia escrita justo ao último suspiro

shanti shanti shanti

  

III (Steffeshausen)

a aurora irisava-se na janela suada
e o zurro de um burro fremia os citadinos
ouvidos desaprendidos do diverso

eis como se ergue uma manhã
separando as águas de um gelo adormecido
segundo o passo do homem e da terra

a noite (a)guarda demasiados silêncios
moradas a habitar pela palavra
nas desoras das vidas aldeãs enquanto

os milagres surgem onde o horizonte
se ilumina na abertura plúmbea da poalha
vê-mo-los ao longe do topo para o vale

presos pela tensão que nos corrói
essa agma no interior de cada corpo
que o amor elogia e escarnica

estar perdido é momentâneo um intervalo
na passagem das horas pelo rosto quando o voltares
verás o olhar do acontecimento de nós

  

IV (Bagneux, Paris)

e a terra foi ficando para trás
embebida em orvalho e vapor

de esterco elevando-se em torre e o horizonte
inclinado de verdes colinas lentas vacas

suspensas nos seus olhares pestanudos e desinteressados
de toda a tecnologia e dos corpos que as olham e comem

nós corremos e passamos com as nossas curiosas
sombras até a cor se dissociar do chão e das copas

e de novo o outono afirmar a sua paleta
enterrando a sua espada cobrindo de cobre o mundo

descansámos como a lebre da nossa tartaruga
viagem onde o fabulista nasceu e nunca veio a contar

a nossa passagem ou imaginar que um e o outro nascesse
ou sequer nos juntássemos para uma ulissíada europeia

descemos quase ao longo do sena vendo as vinhas brotando-
nos a volúpia de um vinho futuro ameaçado pelas máquinas

e seus condutores sedentos da protecção das suas casas correndo
o risco de a elas não chegar porque o tempo de um dia é insuficiente

para uma vida que pode acabar a qualquer momento
assim escolhemos a calma periferia da luz e do movimento

e nessa cidade apreciámos nas restantes horas disponíveis a fonte
das imagens dos amantes as pontes suicidas dos corações alocados

onde hoje como outrora o que mais se joga é a sorte
de baralhos viciados ou a fácil momentânea vida

ficou prometido o retorno um desejo mais na lista do limbo
onde tantos já foram esquecidos menos o desse tinto na noite parisina 

 

V (Damvix)

ao largo desse rio joana ouviu
um anjo e por deus matou

quando morreu um apaixonado
enlouqueceu e abriu um novo capítulo

no livro da crueldade humana
aqui ficámos o tempo de uma passagem

o suficiente para influências mais nefastas
não nos corromperem

desconhecíamos os caminhos
seguimos as marcas das vias

apenas legíveis pela luz
e porque víamos chamámos de atalhos

vindo a noite e o silêncio
a cegueira das trevas

veio a ocultação da anterior presença
de corpos e o caminho um trilho de perdição

andámos sem rumo
nos canaviais do fim do mundo

um passo em falso
desacompanhados de anjos e

humanos e demónios que nos guiassem
e não mais se encontrariam as nossas bocas

estávamos no limbo de joana e gil
equilibrados num fio de prumo

estendido entre alucinação e bestialidade
até que chegámos onde nos aguardavam

um verde labirinto de uma veneza natural
de manhã abandonada para outras paragens

  

VI (St. Hélène, Bordeaux)

não és beatriz nem eu sou dante
e por guia esteve ausente vergílio

na nossa descida pelos labirintos
por estradas ladeadas de castelos

cruzando vilas vazias quase desertas
como esse lugar erigido por monges

hoje habitado por fugazes turistas
mijando onde calha crendo-se invisíveis

jovens empregados ensonados bocejando
e velhos pescadores que mal soltam as amarras

do barco que são passando o tempo olhando o mar
como se do rebate escutassem os mortos

ou a cantiga de uma sereia para uma última partida
e porque rolamos a sul lentamente perdemos

o ferry de outubro para a quase ilha
forçando-nos um novo desvio

outra travessia de perdição e a chegada
ao destino incumprindo o compromisso temporal

aí a meio caminho desta viagem
encontrámos a serenidade para o recobro

um paraíso para o corpo e o estupor
tivemos também o nosso pessoal inferno

com a limpeza de um jardim e de uma piscina artificial
de águas paradas como um lago tomado pelo inverno

e esquecido pelos banhistas como afinal foi esta região
passado o verão aqui fizemos breves incursões

entre oceano e floresta até à antiga cidade de Bordéus
onde renovámos laços afiançámos um retorno

e no regresso a casa para nossa surpresa
sermos recebidos com a afirmação

inesperada de uma amizade uma breve nota de
esperança para as relações entre estranhos

  

VII (Cap Breton, Bayonne, Biarritz)

napoleão fez aqui uma investida ao mar
para o domar e dá-lo à mão do homem
teve sucesso o pontão persiste ainda contra as ondas
onde tantos se passeiam e se fotografam para se preservarem
nos seus raras vezes visitados arquivos de inveja
e embora também nós tenhamos aqui passado
é mais pela escrita em todo o meu corpo que guardo
esta estadia neste cabo em suas grossas areias e pôr-de-sol
acompanhado a vinho e bem-estar que se arruinaria
em poucas horas porque mais indomável que o mar é o ego
sentado no seu trono de ideias e solitárias vontades

tivemos de buscar outro abrigo para a noite fria caindo
com chuva e desiludida como uma notícia de despedida
que te convida a partir mãos nos bolsos na direcção oposta
percorremos os fundilhos francófonos e montámos praça no país basco
invertemos a carroça rearranjámos as suas dimensões
partilhando todos o mesmo espaço como numa longínqua e inexistente
idade do ouro de acordos mudos olhares significativos carícias protetoras
no estacionamento de um parque pleno de amantes de hóquei em gelo

quando não mais suportávamos o desconforto brotando entre osso e ferro
amanhecemos com o mesmo mar que banha Cap Breton fora a fúria
que quase nos levou perder a esperança conquistada em St. Hélène
e de uma quase insónia o dia fez-se mole e arrastou-se tornando-nos na cova
onde o moribundo espera a morte adiada pelo médico acabando em Bayonne
por içarmos a âncora e passarmos a fronteira ofuscando-nos com a opulência
de Biarritz suscitando em nós o desejo obscuro da riqueza que ninguém escapa
o qual pode nada mais ser que a possibilidade de viver ligeiramente livre e à tona
da água com uma casa onde dormir e receber amigos e permitir-mo-nos um pouco do luxo
do lazer e da cultura que também nos alimentam no seu modo de inutilidade económica

mas repara como poucos podem percorrer meia europa por própria vontade
e ver esta velha com um só rosto dividido e desfigurado por plásticas
parte constante novidade e renovação parte conservadorismo e tradição
talvez tenha sido esse o sentimento que nos convidou a esquecer
a nossa temporária condição enquanto comíamos churrasco numa duna 

 

VIII (Muskiz, Bilbao)

recolheu-nos a pobreza
a névoa a lama
um verde esmorecido
um mar em novelos de areia
o frio a contrariedade
como se a descida pelo litoral
aliasse o literal e o metafórico
para o justo sentido da queda

quando queríamos ficar partíamos
quando para partir ficávamos
e a tristeza ajustava-se a toda a paisagem
e corpos desde o céu ao mole dos passos
até os esgotos corriam envergonhados
para pluviosos ribeiros a um ritmo pastoso
tudo se arrastava pelas serras num aparecer
e desaparecer do mundo sem perder a sua presença

a cidade reticulada no vale com a gigante aranha
não tinha qualquer brilho nem nos deslumbrou
o museu que a recolocou no mapa dos arquitectos
só a tensão se acumulava electricamente como a cúpula
de redoma nublada antes da tempestade seca cobrindo-nos
uma pele voltaica e o trovão prestes a ribombar na garganta
pensámos ser este o fim da viagem e de todas as surpresas
já que nem a casa laranja e rústica incendiava o dia ou a noite

o sufoco enodava-se em torno do porquê
termos principiado a necessitada mudança que tardava
como se a pergunta pedisse qualquer resposta
mas tanto acontece que o óbvio tem de ser demonstrado
e o amor do outro reconhecido até ao justo sentido
da queda e em caindo façamos aí amor
e como duas crianças aprendamos
a pôr-nos de pé e novamente caminhar

 

IX (Camino de la Ermita, Granón, La Rioja) 

descer ainda continuamente e mais fundo
como testando limites de varas secas entre mãos
e é uma beleza pobre e deixada que se define
de searas e montes arados expostos a gralhas
e caminheiros de bastão e concha com basta felicidade
percorrendo terras para chegar a um deserto
mais interior atolado de inutilidades
onde estão tão sós como chegaram
e partirão um dia nessa viagem sem retorno
que um a um cabe fazer sem nada nem ninguém

acolhe-nos a ermida pelo caminho
com frio frugalidade e vento fustigando
e dois cães sedentos de atenção e amor
como tu e eu mais abertamente ou em secreto
silenciado orgulho (talvez esta chamada e anseio
sejam a chave da história humana em todos os seus modos
mesmo no apelo do carpinteiro pelo abandono do pai)
chegámos também nós ao oásis e tratámo-nos como reis
banhámo-nos como nos achámos merecidos em águas quentes
e demos graças aos nossos corpos mergulhados em volúpia 

 

 

X (Valladolid, Burgos)

o tempo deixou aqui a sua pátina
uma terra infértil onde caminham
corvos gralhas debicando altivos
os restos da revolução do arado
exumando restos de ossos palha cascas
de sementes ou carochas necrófagas pelo lixo
de plástico de sacos garrafas latas as armas
da nossa arrogância e ódio à natureza

do céu uma morrinha incansável livrando Burgos
aos seus e a nós esfomeados e com o dever
para com as nossas sombras igualmente necessitadas
de pisar o chão ou dar à terra com que criar nova vida
tal como em Château-Thierry subimos para junto das águias
e do alto sobrevoámos pelo miradouro a vista até sermos
tomados pela vertigem do feio que o tempo dirá de outro modo
não havendo mais que a vontade sustivesse

ou nos pedisse a paciência seguimos o embalo
de uma pressa que nos tomava conta e com subtileza
ditava as novas regras do jogo estendendo-se por esse território
que é o corpo cansado pelas expectativas goradas
nos percursos tortuosos percorridos lentamente
perfazendo uma lonjura interminável ainda hoje palmilhada
e iniciada antes desta viagem impondo os nossos
encontros e desencontros os mesmo outros silêncios

como os de nenhuma resposta e esperar a chegada do sol
uma chave uma hora enfim permitindo que nos dispamos
destas roupas e espinhos e encontremos por momentos
nessa casa de catálogo uma bonança quando tantos quilómetros
ainda nos separam do destino e esta ansiedade dobra o mundo
mal nos deixa respirar ou imergir por inteiro nessa estranha luz
envolvendo Valladolid ou o parque junto ao rio onde nos saiu a multa
por ocuparmos demasiado espaço no pouco tempo que ficámos

 

XI (Bragança, Porto)

 ficava suspensa e'spelhada
a planura de chuva e língua
onde nós não quiséramos medrar
havia um projecto a cumprir
traçando entre realidade
e desejo um território
fomos nómadas pelas estradas
do granito órfão entregue ao
esquecimento só retornando
lentamente à língua usada
quando só a voz no pensamento
ou para refregar o coração

tu denodavas o desânimo
ártico e pelos passos sob o
sol vi o teu corpo enlevar-se
e o sorriso ostracizado
abrir-se doando as pérolas
assisti um novo nascimento
esperança fora da mortalha
onde este amor se acercou
como testemunha amparando
a mão moribunda ou prestes a
abandonar-se a seu lado em
exaustão decidida mas nunca

lancei a toalha ao chão senão
para me desnudar a teus olhos
eis dois lázaros solevantados
sacudindo os trapos mórbidos
da tristeza e do fastio para
conquistar a invicta ao chegar
buscámos valhacouto no monte
cativo um menor paraíso
tornado aos poucos um inferno
roubando-nos a privacidade
suspendendo a intimidade
pedida pelos corpos sedentos

primeiro e depois com o comum
mal-entendido que prevalece
sendo o oposto um acaso
porém entre tormentas vogámos
pelas colinas de casas baixas
palacetes e ruelas onde
estava o lar de uma outra
vida que teremos noutro mundo
entre o rio e eléctricos
bebemos ao que virá e passou
preparámos a ceia sabendo
próxima a última etapa

 

  

XII (Lisboa, Sesimbra)

tanto foi o desejo e a espera para chegar
a esse lugar que em nós foi a idade do ouro
e o romance que nos enlevou nos nossos primeiros dias
nesta cidade e depois a vila e casa e aqui chegados
o frio e o cinzento que fundam a solidão do inverno
acobardaram o sol que nos ardia e a memória ainda vibrante
esse vírus que nos consome sempre um pouco mais os restos
de uma sacralidade que nem o cínico escapa de procurar proteger

estávamos ambos desgastados desta dupla viagem
foi afinal meia europa cruzada para oeste por terras
montes planícies e rios e várzeas e pântanos e terrenos
florestas e campos silvestres entre o lado da montanha
e o lado do mar e tantas variações de cores vidas línguas
chuva vária grossa miúda pontuada vaporosa
sol abrasivo ou oculto apanhado nos olhos que se fechavam
ou no dorso onde as mãos aconchegavam as vértebras

céu aberto ou nubladamente coberto ou rasgado por milagres
enquanto por dentro tudo se aprofundava e se fazia mais longínquo
vinte e poucos dias dobrados no tempo duro vertiginoso de uma queda
tendo também nós as nossas paragens em lugares diferentes
numa outra europa noutras cidades do mundo
continentes da nossa mais interna geografia
espaços que eram o sentido da proximidade gravítica do outro
ou cavando uma distância que a mão tocando a do outro não encurtava

outras vezes ainda esbatendo o corpo num território como só a dança
de estrelas ou buracos negros com suas poeirentas extremidades
seus limites estelares aliados num abraço numa nova entidade no imenso
universo poderia dar uma imagem que ainda falha a sua representação
mas aqui conheci a breve loucura amámo-nos e odiámo-nos com a subtil brutalidade
das palavras pedras imateriais provando a real porosidade da pele
fomos estranhos e estrangeiros a familiares e amigos mais presentes
quando aqui não estávamos e nos cobravam a ausência em gramas de saudade

tudo ou quase se eclipsou e fez-se silêncio nas nossas bocas e cegaram-se os olhos
ao choro pela exaustão da fala e da escuta deprimida pela desilusão
tornando-nos ainda mais impacientes aos gestos amorosos às solicitações e apelos
para arredar o estupor ensombrecendo-nos experimentámos caminhar para escapar
ao isolamento de uma estância balnear empobrecida e irrecuperável e só acolhendo
as ondas ao longo das dunas da Lagoa de Albufeira ou do Meco e um castelo que aguarda
o nosso casamento para quando todos em melhores dias a par dos nossos sonhos
porque por aqui tudo se perdeu e nos ocámos com a frustração desfigurando-nos

e exaustos pela aventura corrida ao gosto do vento sem plano e guia
perdidos ao tempo e durações embatendo contra a realidade e o carro noutro
fomos tomados por um turbilhão de sentimentos e caímos desamparados
cada vez mais dentro e ninguém viu ou vê ainda nem um ao outro até já estarmos
cada um próximo do ponto sem retorno mas que nos resta senão uma louca
crença de que o amor e com ele o futuro nos dará com que rir
quando tudo relembrarmos um ao outro coincidindo finalmente os mapas
e as vias dos encontros e desencontros desta vadiagem marcados nos nossos rostos

nunca é tarde afinal para uma decisão e o tempo sabemo-lo é volúvel e dúctil
a temer só temos o que é interno isolando-se até ser intransponível e calado
não é o momento que vale a pena antes a provocação em cada agora
para o acontecimento de um e do outro e do que nos une e vai para além de nós
ainda aqui estamos e ainda tentamos para lá de todas as distâncias que nunca faltarão
e os lugares que nos prendem de si não escapam só pela imaginação mudam
eu e tu e tu somos nódulos de linhas cruzadas ligando uns e outros e tempos e espaços
até ao adeus o silêncio ou de tal forma enrodilhados que só resta esperar o beijo da aranha

Anatomias

Demora muito tempo a encontrar o corpo de um poema.
O difícil é a curva perfeita da anca,
ali onde as palavras se tornam repletas de sons admiráveis
e o destino se aproxima rapidamente
por entre pausas, respirações e uma vírgula final,
ao interior de tudo.

Eu era da sua família.
Partilhávamos apelido, cor de cabelo e gosto por orangina.
Acompanhámos, sempre, o florir dos jacarandás
como se isso significasse vida nova.
Demos as mãos muitas vezes na escola.
Vi-o crescer, lentamente, como eu


-     se bem que eu dei um pulo aos dez anos -
e a continuar a gostar de ver desportos motorizados ao domingo de manhã.
Tão parecidos, em muita coisa,
até ao momento em que cada um ganhou identidade.

Ele segue o rumo das palavras que lhe vou dando,
eu esqueço-me tantas vezes de o retomar.
Cada um por si, até ao momento
do reencontro.
- Estavas por aí nessa gaveta e agora precisas de ser terminado.
A curva perfeita ainda está por desenhar
e os sons, sons, sílabas sonoras, sentidas, salientes,
os sons estão quase lá.

Bato na mesa e deixo inundar a sala
como a da vizinha do outro lado da rua depois da chegada dos bombeiros
para resolver um pequeno incêndio de cozinha.
Inundado de palavras
basta pescá-las, uma a uma,
e colocá-las no cesto certo.

Depois,
já não partilhamos os mesmos gostos, nem apelidos, nem destino.
És outro. Livre.

Clarissa Comin, dois textos

vestíbulo para uma anti-prosa 

 

Tenho o demo dentro de mim e assim floresce a grande prosa.  

Caminho cabeça baixa, fuçando os vãos daquela tarde – inverno de 2003 – o chão de bancos rosados, ao lado da casa assaltada pelos policiais, beijos e anões; chegam os informes sobre uma mancha escura grudada nua num canto invisível, crime inafiançável! Meus leões disfarçam para não voarem tuas veias abaixo, para poderem adubar e raptar o diesel e o carvão, para devorarem na porta o disco, bolacha-canção, e deixar só verocidade.  

Isso foi ontem, segredos encontrados numa caverna. 

Deixei-me enganar pela toalha dobrada em A4, se querendo livro, salpicada de letrinhas corante-86.  

Não sou Champollion.  

Sou estraga-prazeres: proparoxítona terminada em ó 

 

nebulosa nº 3 

 

apontar os mesmos defeitos usando o dedo do meio esquerdo porque a última vez que estive aqui era essa mesma ponte agarrada a uma coisa cheiro de casa mal amarrada à cara clara exalando coisas amargas e perguntava de onde vinha o gastro amor imaginário de onde vinha esse fantasma engarrafado há milhas que me lia daí de onde vinha aquela água pesada levando ao mesmo tempo para longe esse medo tolo de deixar sentir também tinha aquilo do aumento impreciso das taxas cambiais e do cultivo de feromônios em campos fechados regados com água mineral livre de metais nodosos e eu pegava o caderno amassado mentia que estava tudo pago percorrendo imagens looping and roll de uma noite cinema em que o dedo roçou a ponta do cabelo alheio o brilho do passo estreito forçando a barra pra caber num espaço exíguo 50 x 50cm bom seria ter senso ser meu do-it-yourself atacar quimeras chamar umas fadas vestidas de tapetes numa ilha etérea etc etc mas o povo é viciado em dar corda para boi dormir espantam inimigos pra depois sentir-lhes falta acostumei-me com o desalinho da falta de tempo visto-me de pinho e escovo sapatos cabelos dentes com uma mão só mas agora não tinha mais isso sobraram relicários de gravatas camisas botas mal passadas sangrando a céu aberto uma perna enfiada de qualquer jeito ocupa a reta entre dois pés um não e um quadrado mágico só você sabe montar no entanto saberia você dizer por quê começou a chover esse cheiro de ontem de letra posta de molho sem fermento no fim eu só peço uma coisa no fim se pudesse dizer algo à toa à deriva último respiro antes de fechar a página seria ver a fonte nascer uma família inteira para nos dizer. 

[Ver Perfil de Clarrisa Comin aqui]

A presença em si de Johannes

O diálogo demasiadas vezes forçado entre a Literatura e o cinema consegue ser interrompido por excepções relevantes. A Palavra, livro a partir do filme homónimo de Carl T. Dreyer, é um desses casos.

Datando de 2007, A Palavra reúne um texto introdutório de João Bénard da Costa, fotografias de Rita Azevedo Gomes, desenhos de José Loureiro e poemas e testemunhos de João Miguel Fernandes Jorge. E é a presença aí do poeta João Miguel Fernandes Jorge que queremos destacar. Chamamos-lhes “testemunhos”, na medida em que serão apontamentos, re-leituras do filme: o poeta parte dessa obra de Dreyer, mas não lhe cingindo já que se acrescenta intimamente. É em especial em torno de Johannes, protagonista do filme, que JMFJ forja o testemunho aporético da sua própria leitura.

O poema Duas Rosas começa com os seguintes versos: “No caminho para deus viu-se obrigado/a parar várias vezes./Vinha do tempo das quimeras./Partia, a passos rápidos, sem direcção/definida”. Assim, o poema não narra – não tem um começo definidor -, antes surge num interstício, a saber, a revelação desde logo do objectivo de Johannes: a procura do encontro com o transcendente; para mais, essa “procura” alude à persistência – caminho não linearmente progressivo. 

Porque “Levava dentro de si a cumplicidade de um/relâmpago, trazia recados de si mesmo/para mais dentro de si próprio./ todas as suas forças ficaram isoladas/e o tempo tinha o valor físico de um deserto.”, a dialéctica interior-exterior mostra-se com especial vigor, uma vez que o “para mais dentro de si próprio” se relaciona (motivo?) com o isolamento das forças e com o tempo, aqui veemente e indómito - “valor físico de um deserto”.

Os últimos versos não finalizam, antes reforçam o carácter des-regulado do objectivo de Johannes: “Vivia sob lentidão extrema,/ não muito longe do que jamais acontecera./ Regressou ao inanimado do seu corpo, aos objectos do próprio quarto.”

Regresso que não fecha ou baliza, antes amplia e interrompe, o poema de JMFJ, na sua linguagem específica – rente, pouco ou mesmo nada metafórica e cujo teor performativo é discreto se bem que impressivo -, postula a discordância com um tempo saturado e impossibilitador da escolha por um caminho singular. Por isso, Johannes serve de arquétipo ao consentimento relativamente a um Logos não necessariamente revelado, como o é, nomeadamente, para o cristianismo.

Com efeito, o poema referido é complementado pelo texto O Lustre, sendo ambos, porém, autónomos. Aí, JMFJ considera A Palavra “o melhor exercício que conheço de deus; sobre a suspensão do tempo”, acrescentando depois que “Johannes pertence a esse meu corpo de intenções de escrita.” (p. 21). Esta última expressão - “corpo de intenções de escrita” - mostra-se sintomática da ressonância que a linguagem poética tem. Desejo que pode nem se concretizar (intenção), a escrita de JMFJ salienta o comprometimento, tal como Johannes para quem o tempo é indissociável do gesto de Deus (aí-ser que não significa de modo nenhum alheamento). Tratar-se-á, assim, da certeza absoluta de quem acredita.

Ao propor formas que permitam pôr-em-causa a finitude, JMFJ coloca a personagem de Dreyer em Madrid; “Mãos de condutor de sonhos, mais do que de almas” (p. 23), Johannes cria o que é da ordem do difusor, ou seja, passagem e passagens que re-fazem o curso da vida: “É verdade que há um futuro, mas o tempo em que um rosto vive não é um tempo absoluto. Não vai além de um momento: o da passagem da transparência da mão à circunstância quietante do lustre” (p. 23). A irredutibilidade do diferenciado faz-se como Johannes pelo tal caminho instável mas múltiplo, pela busca do presente em si, i.e., repetindo.

Em Kierkegaard – presença no livro e no filme – a repetição marca o salto ético precisamente através de um comprometimento, ou seja, a possibilidade estética materializa-se eticamente. Ao contrário da anamnese que é em grande medida um dado, a repetição pressupõe a (re)confirmação não-sistemática; será excepcional e em constante relação com a memória (passado vertido no presente): “porque a excepção não justificada reconhece-se precisamente pelo facto de querer contornar o universal. Este combate é extremamente dialéctico e infinitamente matizado” (A Repetição, p. 137). Não obedecendo a um programa, o salto ético repetido efectiva-se, como salienta José Miranda Justo, no kayros (momento oportuno) que, como bem se entende, afigura-se aqui complexo por definição. Será, cremos, muito através da presença em si que a singularidade da repetição acontece. Para Kierkegaard, “O infeliz está sempre ausente de si mesmo” porquanto “está num tempo passado ou num tempo futuro” (Ou-Ou I, p. 258). O indivíduo, contaminado pela memória e pela expectativa, não consegue des-unificar o tempo e, por isso, mergulha na infelicidade ou angústia.

“Falta-me sempre tempo para perseguir até final uma imagem, um sentido, uma cor” (p. 21); este lamento de JMFJ encontra saída, ou espaço de sucessão, na figura de Johannes e na sua repetição até Deus. Investigação aproximativa, a linguagem póetica dos testemunhos de JMFJ exercita(-se) na revelação por si que o poema inventa. Não se trata de copiar a personagem do filme, mas sim da comutação com o indivíduo que os espaços de reflexão abertos pela poesia consentem. É que a linguagem não tem de ser uma amarra ou um mal necessário para o poeta; a doxa do Logos assimilado a um princípio fundador – o Verbo – não impossibilita que a presença em si do autor jogue com o determinismo. No fundo, o que JMFJ nos diz é que a poesia se coloca de modo original em relação com a referida falta de tempo, ou seja, com a perda.

As Aventuras do Senhor Lourenço (§20 os restos do dia, bacanal III)

(cont.)

Pensa-se que o delírio afirmativo é mais intenso do que o negativo, mas creio que é justamente o oposto.

[para os que me ignoram, eu não sou um especialista em tragédia, mas hoje teria feito um curso embebido de classicismo grego, em vez de me banhar na opacidade dos velhos conceitos, emoldurados por categorias racionais bastante duvidosas. Vejam que na história da humanidade só os gregos, querendo a perfeição, aceitaram a imperfeição. O cristão, por exemplo, no final só consente uma felicidade metafísica, ligada à realidade sem erros e acasos]

Quando a festa acabou, Lourenço iniciou o percurso em espiral até ao buraco mais negro de que há memória, uma obscuridade sem qualquer redenção, um grito surdo que desloca as costelas. Joaquim, sabia-o bem, nada podia fazer. Mas continuava ali, adivinhando a tragédia. O fiel e amedrontado Tirésias que conhecia tudo, sem os detalhes supérfluos, panfletários, dos adivinhos actuais, quase todos na política. Sabia que um fluxo de angústia iria rasgar as entranhas de Lourenço. Manuela dissera alto e bom som que “nunca mais o queria ver. Nem pintado.”

[a estupidez lógica desta expressão deve ser pesada junto com o desespero emocional que a provoca, sempre]

É verdade que Lourenço também se sentia incapaz de continuar com a Manuela, sofria sem remédio, antecipando o mais que provável abandono. Como um cão especial que no dia da adopção pressentisse que dali a um ano, ou menos, regressaria ao canil. Antes continuar lá, nunca sair de lá, que o biológico só sofre quando há termos de comparação. Mas isto não evitou que Lourenço caísse num abismo, sem que o Joaquim, ou eu (embora na altura tivesse uma valente depressão, atestada pelo médico para poder faltar à escola. Nem à festa do Plateau fui), pudesse fazer alguma coisa. A beleza e o heroísmo tinham posto Lourenço em contacto com o Universo, mas quando se é professor e se vive em Portugal é muito difícil justificar a vida. A dúvida não cai de uma só vez, desenvolve-se através de insinuações, de viés, com argumentos de treta. Do tipo: “só há adeptos para um Quinto Império numa comunidade moralmente falida”; ou, “só se espera que um rei idiota nos venha salvar numa manhã de nevoeiro quando o delírio derrotou o bom senso”. Depois, há ainda os peregrinos de Fátima a morrer no caminho, em pleno exercício de pagamento de promessas. Só um Deus muito desiludido com o seu povo permite esta ironia cruel (e não me venham com “escrever direito por linhas tortas”). Sem Deus, sem mitos explosivos, sem festa, sem esperança... E todos os dias com as colegas, sempre iguais, com os alunos, mais interessados na libido do que em Sócrates. Todos os dias a provar um pouco de sem-sentido e a cheirar o hálito nauseabundo do Joaquim. Todos os dias a imaginar a Manuela com um novo namorado, desses que conduzem Mercedes e vestem camisa azul e blazer. O pior, Lourenço não tinha ninguém com quem partilhar esta tristeza, a psicanálise está pelas horas da morte e os padres já não sabem confessar. Só professores, cada vez mais histriónicos, concentrados na aposentação e em técnicas, por vezes sofisticadas, que evitem a chatice de preparar aulas e avaliar.

[a quantidade de professores que se esganiça tem vindo a crescer exponencialmente. Os educadores, tantas vezes pais substitutos, estão doentes. Têm um cansaço auto-induzido que nada parece debelar]

Quando chegou à rua, Lourenço não olhou para as estrelas (erro de principiante ou gesto suicidário?). Cabisbaixo, desceu as escadas e, lado a lado com Joaquim, foi apanhar um táxi (a Uber ainda não tinha desbaratado a cangalhada desta seita retrógrada). Despediu-se de Joaquim – a quem Manuela tinha dito: “tu, nem para o inferno vais, vais para a sucata!” – como se estivesse a despedir-se da vida. Deu a morada ao taxista e adormeceu. Tudo correu bem até casa, um hiato de felicidade. O problema estava estacionado no dia seguinte.