Carta sobre "cinema circular" de Frederico Klumb

 

Fred, mano,

na segunda eu terminei de ler o seu cinema circular. você ter encasquetado, ido pro quarto de noite e ficado trabalhando numa plaquete em casa que na mesma noite já era uma plaquete impressa, feita, com selo - "transferidaça", que é um baita nome - capa, dois tipos de papel, achei tudo isso uma loucura bonita, foda. no mesmo dia ou depois de ter comprado a plaquete, não lembro, fui pra internet olhar preço de impressora, olhar guilhotina, me deu vontade de transformar o escritório num cacete de uma gráfica e aí ninguém seguraria a gente. esbarrei nos preços mas continuo animado. isso foi de uma vitalidade imensa. a gente fermentando livros na madrugada, quase clandestinos, eu imaginando aqui que seu livro tá pronto há bastante tempo e não sai e você resolveu publicar outro, um novo, na calada da noite. isso foi bonito, me encheu de orgulho e de suingue, coragem, nó na garganta também porque tenho ficado frouxo esses dias. nada mais acertado dizer que o verso de um dos primeiros poemas do cinema, "todos os dias há alguém parindo a noite". e é legal isso ter vindo de você, que é notívago, talvez não por opção, mas por circunstância agora. acho que uma hora isso muda. não quero que deixe de amar a noite. eu amo. mas desconfio que logo você vai estar esse trem bala de dia também.
e depois vem um "o sol esquenta as penas", com a referência ao Gullar do "Galo galo", mas autônomo, porque realmente as penas são infinitas e aquecer o coração delas é importante. ah, dá uma olhada na p.16, tomara que faça outras tiragens, tem um “do olhos”, que acho que devia ser “dos olhos”, e talvez, agora não tenho certeza, um “a terra” em que cabe crase se eu tiver entendido direito. você se vendo no gato e terminando o texto com desespero por conta de um cachorro que está alto, "o cachorro está alto" é a frase, isso é uma joia, e a conversa entrecortada dessa e da outra prosa da plaquete, a primeira uma conversa desconfiada, a segunda um sonho, mostram uma vontade nossa de contar, de narrar, que eu imaginei que viria, e veio. no seu caso é justo porque já vem do roteiro pra cinema antes, mas a prosa é incontornável. eu também devo ir pra cima dela se deixar de chororô um dia.
vi o Ítalo do seu "moro do rio" que fecha um dos haiku, no seguinte achei bonito um aprendizado do sono que você foi caçar nas traças, é legal ir vendo o poeta e a pessoa dentro do texto, sei que pena pra dormir às vezes. como é doce o livro. é doce. doce como o sergio uma vez me disse que o chacal era doce, doce como quando a gente tá triste mas começa a achar as coisas bonitas mesmo estando triste, doce como o Gagarin do Eucanaã. bonito, doce.
o último poema antes da terceira parte foi o que mais me chamou atenção na primeira lida, acho que pela semelhança de traquejo, mas também porque, pensando agora, a noite que vinha até aqui sendo a noite doce, do trabalho, da criação, da invenção da própria noite a cada noite, muda de figura. a noite que você vinha armando era a noite divina, uma que só existe se empenharmos trabalho e fé, como se ela precisasse ser fabricada pelos fiéis. agora não, a noite vem como Saturno, no último poema da segunda parte aparecem os pastores de ovelhas e o canto deles que sei que te encantou num filme, que filme era mesmo? e os bichos se substanciam naquilo que os mata, passam a ser feitos de lâmpadas. o céu é imenso, os pastores menores, as ovelhas ainda menores, os bichos que batem a cabeça nas lâmpadas no verão menores ainda e o poema ganha a proporção que precisa para falar das abelhas que a noite engole. a noite imensa, voltando à proporção do céu que inicia o poema, se indigna a ir comer as abelhas. e come porque são dela: eu as faço, eu as como. concordam a noite e saturno num "mundo irremediavelmente aceso". e aceso pra contrastar com o breu da noite e da morte, mas também pra lembrar dos holofotes da guerra do Pasolini no tantas vezes retomado texto dos vagalumes, eles também tão pequenos e arriscando serem comidos pelos holofotes num mundo claro e branco e aceso que nos tem cegado e nos cega.
quando vem a prosa que na prática fecha círculo do cinema circular, a gente larga tudo, já que é um sonho, larga a noite, os bichos, e vai pra uma cena arquétipo. como pode algo ser tão signo de uma comunidade como uma jangada com casais e seus bebês carregando um oráculo pelo mar. o oráculo é jovem e gordo e grita "miracolo! miracolo!", como num Fellini, o som estourado e algo espantoso que só espanta o espectador. 
o absurdo permanece comum para quem o fabrica. deve ser isso. queria ver isso desenhado. essa jangada com o miracolo.

Um abraço, obrigado por mais essa.


Heyk
21 de março de 2018.
 

Tadeusz Rożewicz, Monumentos

Tradução de João Ferrão e Anna Kuśmierczyk

Os nossos monumentos
são ambíguos
têm a forma de um buraco

os nossos monumentos
têm a forma
de uma lágrima

os nossos monumentos
construiu sob a terra
a toupeira
os nossos monumentos
têm a forma do fumo
vão direitos ao céu

1958


Tadeusz Rożewicz (1921-2014) foi poeta e dramaturgo polaco. Nasceu em Radomsko, perto de Łódż, filho de uma judia convertida ao Catolicismo. Estudou em Cracóvia e no final dos anos 1940 mudou-se para Gliwice, seguindo mais tarde para Wrocław, onde morreu. Durante a Segunda Guerra Mundial foi soldado da Armia Krajowa (Exército Nacional), o mais importante movimento de resistência polaca. O seu irmão Janusz, também ele um promissor poeta e membro da AK, foi assassinado pela Gestapo em 1944.

A sua poesia é marcada pela experiência do Holocausto e pela responsabilidade de quem lhe sobreviveu. Face ao aforismo de Adorno de que não se pode escrever poesia após o Holocausto, Rożewicz procurou uma poética nova, longe dos artifícios retóricos até então comuns na Literatura Polaca. Os seus poemas caracterizam-se por versos curtos, quase como se fossem esqueletos de poemas, um vocabulário minimalista e a ausência de metáforas. 

Foi também um dramaturgo inovador e bem-sucedido, e as suas peças continuam a ser encenadas nos principais teatros polacos, principalmente Kartoteka (Ficheiro), publicada em 1960. Recebeu em 2007 o Prémio Europeu de Literatura pela sua obra, e foi várias vezes candidato ao Prémio Nobel. 

OU!

 

Io sono un partigiano.

A Gauguin, o cão que nunca viu os sassi1 e a Giorgio, que os partilhou comigo.

1.A cidade escondida

Em Matera, vive-se de fora para dentro. Não de um fora para dentro em que o dentro é mercado, reboliço, azáfama, gente que corre, motocicletas velozes, tomates pelo chão, pregões de vozes cheias ou cães vadios que cheiram e lambem os pés. Em vez disso, um fora para dentro em que o dentro é como uma pérola, fechando-se a cidade como concha sem a olhar, aconchegando-a sem a tocar, protegendo-a sem o (se) saber.

A concha, cinzenta, dura, ondulada, às camadas de cebola presas umas às outras com cola forte, tem em torno de si o mar (as colinas), os peixes (as cabras), as algas (a urze), as bolhas de dióxido de carbono que ascendem (o ar), as correntes fortes (o vento africano), as ondas (de calor?), as rochas (as rochas). No seu interior (vale?), a pérola. Um conjugar de beleza branca e brilhante intacta, ainda que de cabelos (paredes) acinzentados, com a tranquilidade opaca de um Alentejo em dia de sol, plácido, quente, estanque, com esparsos anciãos que conversam sob uma oliveira, de boina na cabeça e cajado paralítico, dia, após dia, ou ainda dias, que são sempre os mesmos dias, porque duram para sempre e se estendem como a planície. Um museu do calor que tanto sobe do centro da terra como viaja (voa) em ventos africanos, em que a arte se constrói escavando montanhas, pouco a pouco, como um grande formigueiro sobre a terra, ao acaso, por acaso, sobrevivendo ainda que de areia e, por isso, criando magia. Isso é Matera: uma pérola tranquila e velha, numa planície quente alentejana, guardada por uma ostra cebola, que a esconde de quem passa.

 

2.A cidade imaginada

Em Matera, os sassi estão vazios. Para um observador externo, este nada oferece uma cena montada à espera das luzes e das personagens. A primeira frase de uma história que será o leitor (viajante) a escrever. O cenário está montado: as casas sucedem-se encavalitadas, encruzilhadas, labirintadas, desaparecendo de dentro para fora umas das outras. Matera oferece-se assim, estática, como se vivesse apenas para servir a imaginação. Alberga infinitas possibilidades: pelos seus caminhos tanto poderiam correr bárbaros, como extraterrestres. As suas portas abrem-se em túneis contínuos que contêm em si movimento e ruído invisíveis, mas sentidos. É um era uma vez, um alçapão para um sótão desconhecido, uma arca do tesouro cujo conteúdo pode ser tudo o que quisermos. Uma viagem no tempo instantânea às histórias que têm modelado as vidas de por quem lá passa. Nada mais está entre a cidade e este transporte a-espacial senão a vida de quem a vê, os livros que leu, os filmes que viu e o imaginário que transporta.

Para um observador interno, porém, o guião para este cenário já esteve escrito. Sabem como se vivia, em que direção se caminhava e de que janela se debruçava quem. Este cenário vazio não é um mundo de possibilidades infinitas, mas antes a memória das possibilidades que finiram. Como uma instalação de homenagem ao abandono, é uma lembrança constante do quão silencioso é não ter vida(s) dentro de si.

Em Matera, eu fui uma observadora externa. Para mim, foi bela porque me ofereceu papel para os meus contos de fadas. Imagino burros, rios de excrementos, mulheres fortes e redondas, vegetais que chegam em carroças, fardos de palha, festas com vinho jorrando diretamente da pipa para enormes canecas de barro, danças iluminadas por fogueiras.

Entre mim e quem de Matera a olha, está uma das dicotomias mais cruas do turismo de passagem. Onde se sente abandono, vêem-se contos de fadas; onde a memória dói, o futuro é consumível; onde a precariedade se entranha, a beleza é descartável. O viajante seguirá para outras paragens em branco, ainda que talvez não tão disponíveis para a viagem dentro delas como esta. O Materano permanecerá, olhando a cidade de frente com a memória e virando-lhe as costas com o que há-de-vir.

Ele sabe: a verdadeira cidade não se olha, vive-se. E não se faz de casas vazias.

 

3. A cidade libertada

A águia perdera-se. A aranha também se tinha perdido, ainda que, tendo-se perdido, tenha encontrado um novo lugar onde, na verdade, estava muito melhor. Desta forma, depois de se ter perdido no verdadeiro sentido literal da palavra, a aranha perdera-se também num sentido um pouco mais figurado da palavra, embora na mesma verdadeiro. Perdera-se de ser uma aranha, e transformara-se em ser numa formiga. Não por maldade, ou por querer gozar da comida com que a alimentavam as outras formigas. Nem sequer por apropriação cultural do universo das pobres formigas, mais pequenas e indefesas. Apenas porque era uma formiga, e não uma aranha. Pertencia a um mundo diferente, sob uma pedra, comendo migalhas.

Talvez em vez de se ter perdido, a aranha se tenha encontrado, na verdade. Porque se uma aranha não está presa ao lugar ou à família de aranhas em que nasceu, ela não está sequer cativa de ser uma aranha. É livre.

Talvez a águia encontre uma cidade onde pairar. Uma em que as casas tenham todas uma cor que se assemelha à sua. Talvez encontre esta cidade, e permaneça para sempre como a única águia em Matera, olhando-a do cimo, imóvel. Talvez a águia se transforme em falcão (muito mais comuns no céu materano) e se encontre depois de se ter perdido, tal como aconteceu com a aranha. Ou talvez continue mesmo sendo águia, ainda que só. Majestosa, enorme, voadora, corajosa: símbolo, para todos os habitantes de Matera, de que se pode sempre encontrar-se depois de ter perdido, de qualquer forma, em qualquer lugar.

E, mais importante, de que, tal como a aranha ou a águia, também eles são livres.

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1 Sassi: Casas pré-históricas escavadas nas montanhas de Matera, na Basilicata.

Jogando [GTA]

Para Ricardo, meu irmão.

 

‒ Não vou mais a esses lugares [pega o beco]. Por quê? Porque estou cansado e velho [corre, corre!]. Eu sei, tenho trinta e seis, mas sinto nos ombros cinquenta. Há tanto tempo tenho cinquenta! Posso não ter cara, é verdade, mas a idade está na cabeça, não no tempo [ele subiu no telhado]. Sabes muito bem que tempo é movimento. Dentro de mim ideias e desejos tanto se moveram que dizer cinquenta é pouco, talvez sejam milênios. Não exagero, me escuta [cadê tu pra me dar cobertura?].

Sim, há mulheres. Tantas belezas. Sim, divirto-me, mas só porque bebo, e no vício meu corpo se dissolve, expulso de mim estes anseios [vou ter que parar na loja pra comprar armas]. Sim, há música: danço, ébrio, quando enfim me perco. Sim, há a busca multiplicada, seres que tateiam e que, talvez, se toquem e se encontrem. A necessidade de contato é, ainda, o único fio que me prende, mas que agora quero cortar [fica aí que te dou uma carona]. Por quê? Porque enxergo com clareza a ilusão. Tu não a vês porque és um vitorioso. Vives ali como um peixe dentro d'água. Eu não, nasci pássaro, ainda que com asas deformadas, que só servem para curtos e baixos voos [se pular desse telhado vai morrer, putz!, eu avisei]. Escuta, as pessoas não se buscam ‒ elas buscam outra coisa.

Digo-te o seguinte, com toda sinceridade: na imersão de embriaguez, na visão de tão candentes olhares, na dor dos espinhos que me espetam – tamanho é o desejo – ataca-me um veneno que é vontade de distância [vai, entra no carro]. Não sou eu ali; sou o outro que exigem que eu seja. Fantasma que age por impulso, impulso que se asseverou, pela repetição, destituído de clareza [preciso comprar lanche também...]. Quero fugir, e quanto mais quero, mais me desce pela goela a bebida que ludibria a vontade. Meus olhos vagueiam, a pele sente o bafo desesperado da esperança [... e coletes balísticos].

Entenda: não a minha esperança; estou definitivamente perdido. Sinto a delas e a deles, que se traduz nessa falsa alegria. Quem é realmente feliz, convenhamos, não precisa de tanto barulho, sequer de esperança [o esquiloadoidado está nos perseguindo]. Na felicidade, seja isto o que for, não te parece que há silêncio? [fodeu, vai lançar um míssil]. Quando se espera, há dor, e começo a sentir, dentro de tamanha euforia, largado e supostamente feliz como os outros, começo a sentir a dor dos outros. Sua infelicidade, o vácuo de seus corações, manta invisível que impregna minha pele. Sinto arrepios [quase!]. Não posso consolá-los, como não posso consolar a mim mesmo, porque como eles sou bruto sofrimento, estado concreto de incerteza.

Quero ir-me, asseguro-te. Se me perguntam o que tenho, como posso responder-lhes? Que tenho o mesmo que todos os que me cercam? A necessidade a todo custo mascarada de ser visto e amado? A necessidade disfarçada sob roupas de grife, em conquistadores sorrisos, em poses de grandeza? Que me responderão eles? Farão como tu, que dirás: deixa de viagem [vamos matá-lo antes de]. Mas não é viagem. Tudo bem, pode ser que a tristeza seja só minha e que meus compatriotas sejam o povo mais feliz do mundo. Pois bem, que seja. Mas não sou compatriota de ninguém, ao que parece [ele pegou a rua à esquerda]. Irmãos, só reconheço os que como eu sentem a ambiguidade desses lugares [direita, quero dizer].

E lá dentro quase sou engolido, confesso [visse?]. Há tanto aqui embaixo que ainda me fascina [pulou o muro da casa]. Corpos femininos, amigo, me inquietam [vamos cercá-lo]. Meu sangue ferve e, artista que sou, contemplo o Belo nas mulheres, deixo-me arrastar pelo desejo – e pela frustração que inevitavelmente lhe sucede [não vai escapar]. Você bem sabe, só os exímios esgrimistas desse jogo de egos são felizes. É preciso estratégias, ataques e recuos, habilidade, desfaçatez e malícia [eu por um lado, você pelo outro]. Manejo muito mal o florete, quero vencer sem engajar o ferro ou fazer um a fundo. Minha alma se estampa no rosto, e ninguém quer se deparar com uma alma, esse buraco negro e misterioso. Deixo o terreno de guerra para os verdadeiros soldados, os que não temem a morte ou as feridas da batalha [filho da mãe, tirou metade do meu sangue].

Então vivo nesse inferno e o mereço. Nas minhas mediocridade e cegueira, também não enxergo almas ‒ medo de assombrações, talvez. Entristeço-me com a estética, a proximidade da perfeição carnal me ilude, distorce a percepção [pega o flanco, ele vai fugir]. Há uma crença arraigada em mim, a de que ao externo impecável corresponde o sentimento interno de pura satisfação. A de que é possível consumir a beleza e de que ela é verdadeiro alimento [morri]. Sou como um cão faminto em meio à mais absurda abundância. Babando, sim, como um cão. Não como um lobo, que atacaria, devoraria, lutaria por sua sobrevivência, mas como um cachorro, domesticado pela educação puritana do mundo. Hás de convir que isto não é agradável [mas nasci perto, espera].

Às vezes, meu amigo ‒ a ti posso dizê-lo ‒, sinto essa saudade sem nome, que nem a palavra saudade é capaz de expressar. Porque o sentir, em si, é tão mais amplo. Incomensurável. Vaga de tristeza, não é falta de alguém, mas de uma sensação peculiar, captada, alhures, por um eu criança, ou por um eu apaixonado [matasse ele?]. É ausência daquilo, da expansão inexplicável de mim mesmo, que me deixou na boca um gosto doce, não mais degustado. Sinto tanto por não estar mais aqui dentro, energia pura e imaculada, ainda que tudo no mundo seja o oposto, impureza, caos e violência [é, vamos sair daqui]. O sagrado, sim, o sagrado impronunciável, como o é o nome de Deus: santificado seja.

Não, amigo, não falo de religião [preciso de armas mais poderosas]. Que entendem os homens de religião? Falo do que nem sei e tento explicitá-lo com palavras, mas é possível? Não sei. Tento [já usasse essa metralhadora de combate?]. Porque se não tentar, sufoco. Há uma estopa molhada no meu peito e algo que se move entre os olhos ‒ parecem lágrimas, mas é choro. Choro da alma, silencioso, sem a matéria líquida e salgada que expulsaria toda tristeza [comprei, tô armado e perigoso]. Não me insultes, não pode um homem às vezes dizer o que sente? Também não é isso, não quero um corpo feminino ao meu lado, entenda. Quero a alma do feminino, quero a mulher. Não aquela, não esta, mas a que seria capaz de executar um mergulho comigo, a que destruiria os muros dessa distância que eu criei [tenho granadas].

É verdade, isso me ataca quando as vejo, as belas, com sua insustentável beleza. Com seus gestos tão inocentes de mexer nos cabelos, de sorrir espontâneas, de dançar em deleite [tem um grupo ali]. Ah, como meu coração se aperta então, esmagado pela magia do mundo! [perto do parque]. Expulso, sou dor no exílio, incapaz de dar um passo, submisso, total escravo das formas. E repito: não é a forma que busco. Se eu pudesse, como tu fazes, graças a teu queixo quadrado de macho alpha, me lambuzar nesses corpos com tamanha destreza – e tantas e tantas vezes ‒, certamente já teria me colocado de lado, na certeza da irrelevância, a forma ter-se-ia extinguido em mim, veste surrada, ilusão desfeita, mas não: é pela forma que desconfio da presença. Por trás dela adivinho o caminho de retorno, aquele estado de graça pelo qual tanto anseio [hahaha, explodi todo mundo].

Elas me enganam o tempo todo, as mulheres. Não que sejam culpadas de culpa a se apontar com o dedo. É o feminino que se sumiu de mim, homem racional, projeto de rispidez e brutalidade [vão revidar, cadê tu?]. É o não-ser que me atrai e que, absurdamente, também me rejeita. Ah, como é difícil a rejeição da beleza quando se crê que só nas suas entrelinhas [um tá no metrô], nos bastidores de curvas tão perfeitas [acho que o outro na esquina], se encontra a Verdade. É como se Deus te renegasse um canto onde repousar, um oásis de alegria. Deportado do Reino, tento retornar, mas me batem a porta na cara, temem a poesia a remover-se, como larva vulcânica, nesse trôpego suspeito [é guerra!]. Na superfície dos machos, queixos e ombros como os teus, no alto dos teus oitenta metros, o sorriso maroto, incitação natural ao sexo, é que apostam. E é bom para você, meu amigo, tire proveito. Mas entenda, eu sou o avesso, sabes o que é se sentir o avesso? [atira daí mesmo].

E quando, além de ser avesso, julgas que ser assim é divino, imaginas a dor? [vou no banheiro, segura a onda aí]. Quando se vive em poesia, imaginas o que é ser apartado, escanteado, tratado como bicho esquisito, animal de zoológico, que se observa, curioso, do outro lado das grades? Não sabes, nunca soubeste. E que assim seja. Bom para ti. Sei que sofres por coisas que eu não sofro. Cada qual com suas misérias. Ninguém, nesse mundo, escapa do seu cálice de abandono. Sim, era esta a palavra que buscava. Estou no meio de todos, de muitos, abandonado, exposto como um inseto que se pode esmagar – frágil fingindo firmeza, cumprindo meu papel de homem.

Não, não aguento mais [voltei]. Ou melhor, aguento sim, eis o pior. Ver que é possível suportar, está aí a via crucis. Porque se não suportasse, morria e pronto [matasse alguém?]. Mas não morro, minha covardia tem essa coragem em si embutida. Eu suporto a cisão do mundo que me pôs desse lado, na margem dos que observam, já que não lhes pertence o gozo querido [foge, foge!]. Sei que não compreendes tudo que falo, teu sucesso no ambiente cega a visão, torna invisível o que é eternamente não-visto. Botar-se na pele do outro é sempre o mais impossível [se eu fosse tu, saía daí]. Mas se pudesses ver essa angústia como um corpo concreto, me dirias, como amigo, “tudo bem, te deixo no teu canto” [então fica, mas o cerco tá montado]. Porque os amigos são aqueles que não querem ver o outro sofrer. Se te faz feliz esta exuberante dança de brilhos, desejo-te que nela estejas. Mas como a mim só me provoca desamparo, deixa que me recolha ‒ e que me esconda [tu vai se foder aí atrás, estão te vendo].

Houve um tempo tão simples, meu irmão. Em que não havia pena. Eu era um com tudo. Depois veio o resto que hoje se esfacela: veio o amor, a decepção, as mágoas, o amadurecimento, enfim, tanto que não consigo dizer [boa, vou tentar matar os outros]. Veio o adulto do qual quero agora me livrar, porque o adulto ainda é um conceito que me aprisiona [errei]. Porque o adulto é essa construção social que precisa agir como o desprezível ser humano normal [porra, matasse o outro, pega o terceiro]. E por isso ir a festas, embriagar-se, sair em busca de mentiras. Preso num papel [errei de novo, ele tá bem perto, cuidado!]. Não dá mais. Minha liberdade é essa nostálgica escrita, meu refúgio. O mundo brilha bastante, mas qual o valor real desta joia dourada? Na escuridão de mim [do outro lado, porra!], canto a linguagem, uso-a para me instilar nas veias o antídoto da inominável doença. Injeto no sangue o único remédio contra a rejeição dos outros [morresse?].

Não espero que compreendas.

‒ Morri.

‒ Vamo pra onde hoje? Ouvi falar de uma festa que é o pipoco! Só gata!

Emparedado

Construo os muros da minha solidão, apátrida. Quero ter para onde ir, quando se apagam as luzes todas. Vou-me governando, e só preciso de três paredes. As minhas costas, e tudo o que está para trás delas, são o suficiente para ser a parede que falta, para encerrar o espaço da minha prisão voluntária. Crio listas, tento não me esquecer de nada, desde ontem, de tudo aquilo que necessito enquanto não volto. Tapo as tomadas todas, quase para sempre, para me proteger da tentação da carne ligada à corrente. Hidrato-me, bebo de uma garrafão de água destilada e os meus rins agradecem. Neste espaço de paredes, tenho um caixote de madeira com um cheiro de fruta da época que já passou, apodrecida na memória. É a minha única mobília sólida, se não contar com os outros objectos. Em cima deste caixote, de lado, coloco o meu gato empalhado. Malvado companheiro, que desertou da minha vida antes do tempo. E não conseguiu sequer esconder um sorriso, ele que tinha as minhas paredes para o fazer. Mantive-o assim, sorridente, com três flores cada uma da sua cor secas, cravadas no seu corpo peludo. Sou um criativo moderado, que a minha mobília não me deixa muito espaço para imaginar outro espaço. O chão, sobra. De livros, também estou servido. Tenho aqui o Camões, para não me esquecer dessa outra pátria que é Portugal, e um outro sobre os segredos e as virtudes das plantas medicinais. Apanhei muitas nos caminhos, e ainda não sei para o que servem. Noutro canto, tenho um elefante pequeno, do barro que eu próprio moldei, com uma figura triste. Fica com a expressão virada para uma das paredes, a ver se a comove. Ainda uma imagem, que trago comigo dobrada ao meio. Coloco-a no centro do caixote, por cima de um naperon de renda branca. Esta imagem pode ser tudo, e é também a minha origem. É a fotografia do casamento dos meus pais, onde aparecem com as mãos fechadas um no outro. Há prisões que se escolhem.