O casaco

 Alex Colville

Alex Colville

O casaco estava lá mas ele não. Estava à espera de qualquer coisa, um som, ou a sensação que se experimenta quando um tendão se rasga. Era aquilo ali e agora, mas não era bem isso. Assim, tão banal como uma gaveta de roupa que não se compõe porque faltam duas camisas. Atirou as tralhas para dentro da pasta, o moleskine, os livros, o computador. Na sua imaginação lírica, a parte mais atraente da sua imaginação, pensava que devia haver uma reacção física que tornasse isto objectivo, por exemplo, gritar ou sangrar do nariz. 
Reage, mulher, pensou. Pensou, levanta-te!, e sentou-se no sofá. 
Apoiou os cotovelos nos joelhos. Nada. Então daí entendeu. Sacanice. Estava à espera disto. Qualquer coisa em modo Cassandra, de longe, muito antes, eu conheço este cheiro. E, no entanto, estava ainda à espera de qualquer coisa vinda de fora que pudesse traduzir a mudança. Torná-la real. Um acontecimento pode ocorrer sem que cheguemos a ver nenhum gesto, muitas coisas se fazem sem o sangue, até isso, era uma frase naquele livro que tinha andado a ler a semana toda. Até isso. Uma coisa pode acontecer sem que nada no mundo a manifeste. Sem que haja qualquer testemunha do seu movimento. Viste? Não vi. Isto não foi vivido. Lá fora, água a bater contra os vidros. Gritinhos de crianças de escola a chapinhar nas poças, armados de galochas e fatos térmicos, descendo em bandos, lembravam miniaturas de caçadores. Eram duas janelas enormes, de noite via-se tudo para o lado de dentro. Estar exposta. Sabia-o de lhe ter seguido o rasto. Os botões coloridos da camisa, às vezes de cores diferentes. Várias séries de botões. Dedos destros, etc. Estar dentro dos gestos e passar. Conversa, mas não há conversa nenhuma. Bico calado. Olhos de galinha. 
Um pouco de bondade, às vezes, a coisa que estava entre isto e abrir uma ferida até ao osso era só a fragilidade dessa fina película que a mantinha a uma distância de segurança do leão. Um pouco de bondade. E de chegar ao pensamento mais cruel, ao tom mais baixo. Um pouco de bondade também para isso. Bondade, paciência. Virtudes sólidas. Eis o limite. Se chegares ao extremo, comporta-te, volta para trás enquanto é tempo. Tem tino. Tinha entendido, mas era tarde demais. O limite corre dentro do tempo. Escolhe as suas ocasiões. É para nós próprios que armamos com cuidado as nossas armadilhas mais eficazes, mais bonitinhas. Connosco, resultará sempre melhor do que com qualquer outro. De longe. Tinha a garganta seca. Puxou o casaco para si. Cobriu os joelhos. Compõe-te. Disfarça agora.
*
A água tinha apagado os trilhos todos e entrava agora por cada um dos hangares. A avioneta desceu com um aviso de luzes brancas e vermelhas a cortar a noite e tossidelas de fumo escuro. Foi com dificuldade que viu a pista, com o vento pelo lado e a puxar com demasiada força o aparelho era demasiado leve e velho, ao longe íamos dizer que não ia aterrar. A fuselagem parecia que ia ser arrancada com uma facilidade de puxão de abre-latas. Quando finalmente pousou foi a custo que a conduziu até um dos armazéns. Como um elefante com uma trela pelo pescoço. Aquela ruína já nem eram bem hangares e não havia nada nem ninguém por muitas milhas em redor. Tentar sofrer. Criar uma imagem que finalmente acomodasse o mundo. Não o mundo. Nunca o tinha visto todo e pela maior parte não lhe dizia nada. Há esta teia de coisas que comunicam umas com as outras, pelas quais nos tornamos parecidos uns com os outros, mas nada disto se liga por uma universalidade, por ser igual para cada um. É sempre único. 
Correu de um hangar a outro. No segundo armazém um carro apodrecia a um canto, o tempo fazia o seu trabalho de teias de aranha, mal disfarçado por um oleado verde. Uma máquina em decomposição. Tinha sido um carro vermelho. Mustang, impecável cavalo. Tirou as galochas. Pontapeou-as. Os pés estavam encharcados. Tirou as meias. Todo um cuidado doméstico em meias. Mãos femininas as tinham dobrado e nunca acabavam, havia sempre meias. Mas ela teimava em existir fora disso. A mulher tinha vida para lá das meias. Um pouco demasiado nua para o que ele podia suportar. Apesar do cuidado com as meias. Um pouco sem a poder ler à superfície, um imenso mapa de noite e uma cegueira de água. As mãos tocam a pele e por baixo sabes que é o teu amor que esta máquina bombeia. Mas não é o teu sangue e, portanto, não és tu. Eis um problema a complicar tudo. Ela deu-te alguma coisa e depois tirou-a e depois deixou-te à espera. E então. Ir embora. 
Casaquinho deixado para trás. Guarda o teu cuidado tagarela, que ele não me serve. Nenhum cuidado te serve, foi o que ela disse. Não é sobre cuidado. Está quieta. Às vezes parecia que ela ia simplesmente ir-se embora. Sem deixar rasto e ia ser como se nunca tivesse existido. A história da minha vida não existe. Não existe porque não carrego comigo nenhuma marca mais funda na carne. Eu perco tudo, deixo ir. Não há marca nenhuma porque não deixei que houvesse. Ela nunca me tocou, diria anos mais tarde a Clara sentado num restaurante muito agradável de Lisboa, numa tarde de calor. Uma tempestade desaba sobre este lugarejo e estes hangares estão vazios e vai levar-me dias até conseguir sair daqui. Eu criei o meu próprio labirinto. Queria dizer-lhe: puta, repara na minha força agora. Estou no centro. E de súbito veio-lhe o  riso dela, quase infantil, que o humilhava porque não o humilhava, porque passava sobre ele leve como asas e não o escolhia. Ela diria, como o Minotauro. Riu-se e despiu a camisola. Riu-se porque imaginou o riso fácil dela. Qualquer coisa ali que outros tinham mutilado por ele mas que nunca lhe tinha sido tirado a ela. Desapertou um a um os botões da camisa. Quando é que tinham falado um com o outro? Nunca. Nunca tinham tido uma conversa. Nunca se tinham conhecido. Nunca se tinham protegido como fazem os amantes. O último tango em Paris, mas aqui e agora, este lugar afogado em água, ela algures posta com vista sobre outro lugar, a compor o quadro, e que raio eu não hei-de morrer. Puta de mulher. Riu-se e com o riso estava à procura ainda de qualquer coisa que já tinha partido. Tão rápido que podia agora durar completamente até acabar.