Selima Hill, 'Posso, por favor, ter um homem '

Tradução de Hugo Pinto Santos

Posso, por favor, ter um homem que use bombazine.
Posso, por favor, ter um homem
que saiba 100 nomes diferentes de  rosas;
que não se importe com os meus coelhos distraídos
 que vagueiam por aqui e por ali
como se fossem donos disto,
que me faça um caril cremoso com erva-cidreira fresca,

que caminhe como Belmondo em A Bout de Souffle;
que pendure todos os meus postais cuidadosamente selecionados -
mandados de cidades exóticas
às quais ele não espera ir comigo,
mas aonde iria se lhe pedisse, o que farei -
com mais niguém, na parede do seu quarto,
a começar por Ivy, o Famoso Porco Mergulhador,

de cujo retrato, em acção, comprei dez cópias;
que também fale como Belmondo, com lábios tão suaves
e tão firmemente desenhados como botões de peónia
cobertos de chocolate (chocolate fundente);
que saiba que postar-se ébrio sobre mim
como um edredão com estofo de livros da biblioteca e sacos de compras
é muito fácil: posso, por favor, ter um homem

que não esteja disposto a fazer isso.
Nem esteja disposto a dizer-me que estou bonita.
Que, quando eu saio apressada da casa de banho,
como um leitãozinho aprumado,
que não quer mais do que uma pândega
de afecto e indisciplina, sem complicações,
abra os braços como uma gamela para eu mergulhar. 

Selima Hill, Violet, Bloodaxe, 1997

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Mark Leech, Desafectação

Tradução de Hugo Pinto Santos

Lá fora, pulsam táxis,
esferas inchadas batem
janelas encharcadas; o ar quente do bar
expulsa uma canção e põe-na a tocar,
menos poeirenta do que devia.

O tipógrafo faz uma pausa
depois coloca-te nos dentes
de um sorriso de lábios e olhos
antes que a imagem se dissolva
se torne inexpressiva.

Mark Leech, Orbis n.º132 – Primavera, 2005

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Elizabeth Garrett, Comutação

Tradução de Hugo Pinto Santos

Nessa altura, eu era mergulhadora:
em cada membro, o tumulto
e o impulso de um poema — nem o céu
me podia deter. O fresco
no rosto a arder, o ar
sobrecarregado de mistério,
cindido à minha passagem.
A graça, como dor mitigada,
pecado perdoado, chamava
este anjo obscuro até à sua sombra.
Nada há que a mente calcule
e o coração não possa desfazer:
vê — a prodigiosa janela
da água mantém-se intacta.

Elizabeth GarrettA Two Part Invention, Bloodaxe Books, 1999

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Selima Hill, «De Visita ao Zoo »

Tradução de Hugo Pinto Santos

As altas girafas nunca podem sentar-se. 
Chamam-se Valerie e Gwendoline. 
Eu sou o reticulado filho delas. 
Isto é a nossa areia e o nosso feno. 
Segue a nossa faixa doirada até à sagrada Tassília, 
loiras borboletas de cauda de andorinha, lebres, algum leite. 
 
És uma linda menina. Ele nunca vai saber 
que estás apaixonada por alguém e que não é por ele. 
 
Selima Hill, My Darling Camel, Chatto & Windus, 1988 

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Elizabeth Garrett, «Canção»

tradução de Hugo Pinto Santos

Já outros assim jazeram antes de nós —
lado a lado dormidos, brandura a brandura,
osso com osso — e sonharam que, nem pasto,
nem pedra, cresciam onde carne e figura assim se fundem.

Sob a ampulheta do céu, estendem-se os amantes,
Detritos contínuos, vogando fora do alcance do mundo,
juntos jazem, indiferentes ao contacto do sol,
aos grãos do tempo cuja lenta filtragem sob eles se dá.

Já outros assim jazeram antes de nós — 
lado a lado dormidos, cinzas a cinzas,
pó contra pó — e ainda sonham enquanto, infatigável,
a chuva enxuga as suas pedras; entre eles, apenas pasto.

Elizabeth Garrett, A Two Part Invention, Bloodaxe Books, 1999

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