Brincos do Sol

 O que só com as mãos pode ser soletrado / só nos teus olhos nos teus olhos escrito 
Mário Cesariny, Corpo Visível 
 
 

Enquanto um sol recém-nascido admira as suas mãos 
e descobre que elas são suas, 
O guizo, que agarra cada vez melhor 
com o polegar que se fecha: 
As mãos que percecionam o milagre são as mãos que fazem o milagre 
E o planeta ri-se com o riso cheio das mãos que nos expandem, 
Brincos de prata na memória solar 
 
Porque o planeta é a luz que dá no planeta, e a perfeição 
o campo mais amplo com que vemos aquilo a que viraríamos as costas 
 
Correm pequenos sóis debaixo da ponte 
onde um olhar líquido se veio banhar 
Pelo lóbulo da orelha, eles batem na folha que cai 
O veio desenhado na folha de prata, rasgada a meio 
e os brincos nas orelhas um pouco perfeitas
Eu quero que o coração ganhe sempre - 
Eu vou fazer com que o coração ganhe sempre, 
Há alguém que se ri para iluminar o planeta todo, 
para que ele ganhe 
 
Agora mesmo com os dedos que mergulham na fonte 
Acima, por trás, contornando as orelhas 
 mais fundo na fonte. - As mãos são uma onda 
Têm os dedos de menina, com que a luz contorna o planeta, 
levanta o trigo, eriça os cabelos, penteia as cidades, 
enche e pulsa no que toca, dá-nos o coração cheio . 
Um Sol recém nascido ri-se e os girassóis incham de prazer 
As sementes, que não aguentam mais um segundo, – irrompem, rasgam - Aparecem à 
superfície, como fios de cabelos novos, felizes: 
Prontos para nascer. 

 

O insulto

O insulto

Já nasceste a saber o que eu não sei 

António Franco Alexandre, «19», Duende

 

Em certas povoações da Sardenha, de Malta ou da Turquia, se um homem esmurrasse outro ou o esfaqueasse enquanto ambos estivessem entretidos a trocar insultos perante quem se juntasse para ver, isto podia ser entendido como falta de habilidade do que insultava para responder com um grau equivalente de elaboração e criatividade ao insulto que acabava de receber. Esfaquear um homem ou esmurrá-lo na Sardenha, em Malta ou na Turquia podia ser uma forma de fraqueza, porque sinal de falta de perspicácia.

            Quando Andrei começou a perceber o que se ia passar—na verdade cometeu o erro de confundir a dor com um desses estados de ansiedade que nos últimos tempos experimentava frequentemente—pobre coração de passarinho, diria a sua mãezinha e agora finalmente com alguma razão—experimentou uma tontura, uma breve sensação de desequilíbrio que correu ligeira como um gato do braço para o lado esquerdo do peito numa trajectória que se afundou numa vertigem e, segurando com mais força o copo de papel cheio de leite com café, sentiu a sala começar a girar, como se estivesse num carrossel, como se ele próprio não fosse um corpo fixo no tempo e no espaço. Quando a dor se descerrou inteira como um vidro que estava um pouco rachado mas que finalmente se decidiu a partir-se por completo, Andrei experimentou o breve momento de alívio que sentem os irreparavelmente culpados.

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Queda Medea

Queda Medea

Queda Medea es el primer proyecto de Skaenika Teatro, grupo teatral creado en el seno del curso de Literatura Latina de la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad de Granada que tiene por objetivo difundir, desde un abordaje contemporáneo, algunas de las obras literarias de la Antigüedad Clásica, no exclusivamente los teatrales. El espectáculo propone una relectura de la más famosa matricida griega, Medea de Cólquida, una de las más trágicas figuras femeninas de todos los tiempos. Desde una experimentación dramatúrgica sobre los textos de Séneca y Ovidio –mezclándolos, borrándolos, poniendo a prueba los límites dramáticos del uno y del otro–, presentamos a una Medea múltiple, polifónica y sobre todo actual. ¿Por qué habrá que leer el caso de Medea como algo más que la acción extremada frente a un amor traicionado?

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SUSIE AND THE MERMAN

Os gregos antigos e os nativos americanos não sabiam, mas deram o mesmo nome à Ursa Maior.    
(Desculpe se te dou notícias velhas)    
A constelação sequer parece com um urso, parece?    
Não, não parece.    
Não deveríamos acreditar tanto nesse tipo de milagre.    
Aos franceses parecia uma caçarola, aos nórdicos a carruagem de Odin, aos egípcios um    
carro de boi.    
(E o que mais você viu na vida foram milagres)    
Qual a diferença?    
Bom, a mim parece um joystick com fio.    
Posso configurá-lo:  

-Prima Dubhe para fazê-la girar sobre o próprio eixo.    
-Prima Merak para fazê-la adormecer.    
-Prima Megrez para fazê-la redistribuir a temperatura.    
-Prima Alioth para fazê-la recordar conversas antigas.    
-Prima Benetnasch para fazê-la trocar de anéis.    
-Prima Phecda para para trazê-la para perto se estiver longe e para longe se estiver perto.    
-Prima Mizar para fazê-la despertar em duas tentativas.        
-Prima Alcor para fazê-la respirar mais devagar.    

(Desculpe se não lhe dou notícia alguma)    
Não há o que se fazer com elas - mas o que mesmo você pretendia fazer com uma notícia?    
Eu já não me chateio mais com esse tipo de coisa.    
Agora peço ao carteiro que deixe sempre a minha correspondência no café ao lado.    
Digo-te uma frase que ouvi: "Não há duas pessoas no mundo que comam da mesma
maneira".    
Digo-te uma coisa que lembro: o ritmo de um número de telefone.    
E que os cavalos marinhos também não se lembram de  seus próprios nomes se eles tiverem
mais de três sílabas.