Queda Medea

Queda Medea

Queda Medea es el primer proyecto de Skaenika Teatro, grupo teatral creado en el seno del curso de Literatura Latina de la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad de Granada que tiene por objetivo difundir, desde un abordaje contemporáneo, algunas de las obras literarias de la Antigüedad Clásica, no exclusivamente los teatrales. El espectáculo propone una relectura de la más famosa matricida griega, Medea de Cólquida, una de las más trágicas figuras femeninas de todos los tiempos. Desde una experimentación dramatúrgica sobre los textos de Séneca y Ovidio –mezclándolos, borrándolos, poniendo a prueba los límites dramáticos del uno y del otro–, presentamos a una Medea múltiple, polifónica y sobre todo actual. ¿Por qué habrá que leer el caso de Medea como algo más que la acción extremada frente a un amor traicionado?

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Sophokles

Sófocles,  Filoctetes  (versão de Frederico Lourenço, encenação de Luís Miguel Cintra), Teatro da Cornucópia, 2007 

Sófocles, Filoctetes (versão de Frederico Lourenço, encenação de Luís Miguel Cintra), Teatro da Cornucópia, 2007 

A maior parte dos argumentos com que se tem afirmado que Sófocles é singularmente sofocleano não sobrevivem se forem questionados. Parece que, acima de tudo, ainda existe um desejo de o conformar a um modelo de firmeza ou solidez de alguma espécie. Num soneto muito citado, Matthew Arnold agradecia a Sófocles “cuja alma equilibrada em justa medida... viu a vida firmemente, e viu-a inteira.” Mas as peças propriamente ditas constantemente desequilibram esta afirmação com sobressaltos e reviravoltas, tanto de enredo quanto de ponderação ética. Arnold estava mais perto do alvo quando escreveu (em Dover Beach) que Sófocles escutava “o turvo fluir e refluir da maré da miséria humana.” E esse turvo sofrimento do mundo humano não é (tanto quanto me parece) mais bem medido ou justo ou explicável nas peças de Sófocles do que em qualquer outra literatura trágica. Nem as peças dele são, como muitas vezes se tem defendido, distintamente conservadoras ou particularmente piedosas. As linhas finais d’ As Traquínias incluem uma condenação tão feroz do comportamento dos deuses em relação aos homens como qualquer outra em literatura. Há mais verdade em dar a Sófocles o rótulo de “pessimista”. A tragédia não é lugar onde ir se é de optimismo que se anda à procura, mas pode ser verdade que Sófocles ofereça menos alívio compensatório ou consolação do que a maior parte do drama trágico. Ao mesmo tempo, as suas peças não acabam em desespero inqualificável ou resignação: antes o contrário, à sua maneira fortalecem-nos.

O que torna Sófocles tão bom não é tanto uma visão de vida ou uma “filosofia”, mas uma intensa e inabalável visão do mundo humano no meio da dor que ele contém. Não é tanto uma questão de perspectiva do mundo quanto de clareza atmosférica, como num daqueles dias em que se pode ver cada pormenor de colinas que estão muito lá ao longe. Isto serve para dizer que as peças de Sófocles fazem o que a tragédia costuma fazer, mas com um poder particularmente forte. “O que a tragédia costuma fazer” é uma frase ambiciosa. Eu diria que isso é (em termos muito simples e breves) isto: lançar uma teia complicada e inextricável de emoções fortes e de pensamentos que desafiam através de um largo espectro de experiência humana, para que cheguemos a estar ao alcance de fazer algum sentido do sofrimento humano. Essa mistura de emoção e envolvimento cognitivo produzem uma forma que encontra expressão em movimento, poesia e música.


Oliver Taplin é professor emérito de Estudos Clássicos na Universidade de Oxford e autor de vários livros, sobretudo dedicados a literatura e cultura gregas (sobretudo tragédia e Homero), entre os quais The Stagecraft of Aeschylus (Oxford University Press, 1989), Greek Fire (Atheneum, 1990), Homeric Soundings (OUP, 1995), Greek Tragedy in Action (Routledge, 2002, 2ª ed.). Greek Fire tem uma tradução portuguesa (Fogo Grego, Gradiva, 1990).

O excerto que aqui publicamos fará parte de uma tradução (a publicar em breve) de algumas tragédias de Sófocles. 

*Tradução do inglês: Tatiana Faia (em colaboração com o autor).

Ésquilo, Coéforas, 585-630

Coro das  Coéforas  na   Oresteia  encenada por Peter Hall (National Theater, 1981)

Coro das Coéforas na  Oresteia encenada por Peter Hall (National Theater, 1981)

estr. 1

Coro (cantando:)

A terra cria muitos seres
     temíveis, causa de medo e dor,
e os braços do mar
de monstros hostis
estão repletos; entre o céu e a terra as tochas[1]
no alto ferem
as criaturas aladas e as que caminham sobre a terra: elas podem
falar do ressentimento ventoso das tempestades.[2]

 

ant. 1
Mas do espírito excessivamente audaz
     do homem quem pode falar
ou das paixões da mente ousada
da mulher, capazes de tudo ousar,
parceiras nas desgraças dos mortais?
Os laços que unem o casal
a perversa paixão que domina a fêmea[3] desfaz,
tanto entre as feras como entre os homens.

 

estr. 2

Ficará a sabê-lo aquele cuja inteligência
     não voa longe
ao conhecer o desígnio que a destruidora do filho,
     a miserável filha de Téstias[4]
     
formou,
mulher que premeditadamente ateou o fogo,
     
incendiando o tição cor de sangue
da mesma idade do filho, desde que ele saiu
     
do ventre materno e chorou,
medindo a vida deste pela sua
até ao dia marcado pelo destino.

 

ant. 2

Uma outra há nos mitos para se detestar,[5]
     
uma donzela
manchada de sangue, a que tomou o partido dos inimigos
     
e matou o próprio pai,
     
persuadida
por um colar cretense
em ouro forjado, dádiva de Minos,
privando Niso do cabelo
imortal, quando ele, desprevenido,
no sono – cadela sem coração! – exalava um sopro.
E Hermes alcançou-o.[6]

 

estr. 3

Uma vez que recordei feitos
desapiedados, não distinto é o casamento odioso
     e abominável para a casa[7]
e os desígnios e maquinações de uma mulher
contra um homem que brandiu armas,
†homem respeitado até pelos inimigos†.
Honro o lar onde a lareira não é acendida pela paixão
e a lança da mulher não ousa.

 

Edição utilizada: M. L. West, Aeschylus, Choephoroe, Teubner, 1991.

[1] Provavelmente meteoros ou cometas.

[2] Esta estrofe está pejada de problemas textuais e o texto traduzido é bastante incerto.

[3] Expressão ambígua. O adjectivo θηλυκτρατής (thêlyktratês), que só ocorre neste passo em toda a literatura grega e que se traduziu por «que domina a fêmea», pode também significar «de uma fêmea dominadora» ou «pela qual a fêmea domina».

[4] Alteia, mãe de Meleagro, quando este nasceu ela foi informada de que o filho morreria quando o tição que então ardia na lareira fosse totalmente consumido pelo fogo. Ela tirou o tição da lareira e guardou-o numa caixa, mas mais tarde devolveu-o ao fogo, quando Meleagro matou os irmãos numa disputa.

[5] Cila, filha de Niso, rei de Mégara. Quando a sua cidade foi sitiada por Minos, rei de Creta, ela cortou a madeixa de cabelo que conferia imortalidade ao pai e sem o qual ele não podia viver, a troco de um colar de ouro, causando assim a sua morte.

[6] Hermes guiava as almas dos que morriam até ao Hades.

[7] O casamento de Clitemnestra com Egisto.