Nec spe nec metu

Mas enfim, acabou a era dos gigantes: porque tudo nesta vida, e mais depressa o que é grande, acaba e passa.

P.e António Vieira

 

O que retenho de tudo isto é violentíssimo.  Impulso por impulso, são as horas que acabam e passam. Gigantes. A cada tempo, impulsivamente, acabam e passam.
Isto não é sobre deus. Seria, possivelmente, sobre a paz. Mas creio que nem um nem outro existem já para se visitarem. Isto é violentíssimo para quem há já algum tempo deixou cair o rio que tinha no cabelo, deixou cair as mãos cujas linhas foram entregues a uma velhinha tardia. Aqui, agora, tudo é mar e respiração - eis os meus pés! É violentíssimo.
Eu tive confiança no tempo. Confiei na água, nas flores (mesmo nas desertas), tive confiança no oráculo das nuvens, no arco-íris.  Confiei a gigantes a minha cria (-ção) com a inocência de uma criança. E não era nada disto. Nada disto. O que se pretendia, o que eu pretendia, era uma era de caminhos longos sem buracos de guerra, oceanos em barda, caminhos livres de crianças abatidas a tiro e dadas a comer a cães sarnentos. Mães sujas com o sangue dos filhos. Isto são as fezes de deus e da paz todas juntas. É violentíssimo.
Mas eu também sei ser gigante; vou comer do céu, beber galáxias inteiras e soprar ventos de cheiro lindo por este universo todo. Espalhar, com umas mãos enormes, brilhos cósmicos por cima da terra e de cada criança nela. Os gigantes não acabaram nem passaram. O gigante sou eu. E estou aqui, pronta para ensinar a deus e à paz o que são e para que servem. Como se um sonho. Como se um ponto brilhante, e ser livre. Como se assim.
Como se para tudo isto houvesse uma só violentíssima magia.

Selfies em caleidoscópio

Para a Tatiana Faia, que sabe selfiar bem

Voltemos às selfies, “auto-retratos”, como lhe chama um amigo meu, querendo esquivar-se à banalidade. No Verão, as redes sociais regurgitam de gestos narcísicos, o culto do eu redobra de vigor em período de férias. Da praia à viagem no estrangeiro, da esplanada ao concerto musical, do museu à caminhada na montanha... aumentam exponencialmente os cenários que emolduram a ouro a figuração pessoal. Os críticos, especialistas da negatividade, caem em cima desta avalanche de eus em pose, transbordando de felicidade; deplorando a esterilidade das partilhas egocentradas e as paradas exibicionistas, revelam, a partir do seu tribunal de costumes, os sintomas de decadência civilizacional no umbiguismo fotografado.

Mas em boa verdade, de Montaigne a Proust, de Thomas Mann a Robert Musil, de Fernando Pessoa a Friedrich Nietzsche, de Van Gogh a Goya... foi através de linhas de desenvolvimento partindo do sujeito que se produziram algumas das obras de arte mais universais. Neste sentido, não é tanto o número incomensurável das exibições que nos deve preocupar, mas a sua monotonia. O problema está mais no mimetismo dos gestos e textos que os enquadram do que na quantidade de selfies. A partilha de si só é desinteressante quando não introduz um pequeno fragmento de novidade, não acrescenta nada ao que já existe, não desbarata o hábito.

Por isso, em vez de se condenarem apressadamente as redes sociais digitais (Facebook, Twitter, Instagram...) – cai-se normalmente aí –, numa mistura paradoxal de intelectualismo progressista e reaccionário, talvez se deva pensar melhor, sobretudo mais livremente, retirando dos factos conclusões menos... estéreis. Parece-me que os avatares circulando pela Webesfera são principalmente, nos casos menos infantis, formas de des-subjectivação, dão a ver, ouvir, ler... como outros os originais. As selfies não fixam necessariamente o “eu”, são desenhos complexos do “si”, outras personagens que, apesar das ligações, se afastam das origens antropológicas do baptismo; à semelhança dos dispositivos heteronómicos. Nas redes sociais, o “eu” parece afastar-se da sua própria realidade e inventar uma projecção de si, que tanto pode ser narcísica (a normalidade) como experimental, irónica, fantasista, poética... Por outro lado, a multiplicação exponencial de eus carentes de elogios fáceis e imediatos faz com que um narciso se confunda com todos os outros, tornando-se irrelevante (a não ser para o pequeno círculo de conhecidos, a que de qualquer modo teria acesso).

Para me pôr agora do lado dos críticos: este campo de futilidade selfiesta prevalece sobre os restantes, e desvirtua a boa comunicação. Já que em vez de a usar na autodescoberta e envio de pretextos para os receptores investigarem melhor a sua personalidade caleidoscópica, o faz para se camuflar e insuflar, mostrando-se nos paraísos efabulados que tem à mão e acha socialmente prestigiantes. Mas nenhum eu tem de se transformar num objecto genérico, as férias não têm de parecer um desfile de selfies cor-de-rosa. Vamos, mais um esforço para que cada vida se transforme numa obra de arte.

To the Wonder

Ben Affleck é o actor perfeito para To the Wonder (2013). É  dos melhores actores sempre que o papel exija silêncio. Affleck não poderia representar Macbeth ou qualquer outro papel que requeira mais do que gestos e testas enrugadas. Este filme de Terrence Malick, unanimemente desprezado, merece mais atenção por parte de quem liga a temáticas como o sentido da vida, o amor e a sua efemeridade. O amor começa como um nascer do sol, sobe do estômago até à cabeça, e em certo momento toma conta do sujeito irremediavelmente afectado por uma obsessão, a de possuir a amada. Affleck é perfeito neste filme por nada dizer, por gesticular quando zangado, por abraçar quando apaixonado, por cruzar os braços quando confuso. O amor é silencioso, ataca-nos do nada e igualmente do nada entrega-nos a outros sentimentos como a raiva, o ódio ou o desprezo. O amor é  um homem à mercê da força do mar.

As personagens interpretadas por Affleck e Olga Kurylenko apaixonam-se e deixam de se ver. O amor que os une não morre mas aparece a personagem interpretada por Rachel McAdams a encobrir esse amor. O homem sozinho procura apaixonar-se outra vez, mesmo que seja impossível, procura apaixonar-se correndo atrás da loira. Porém, Olga Kurylenko reaparece com a sua paixão e na cara de McAdams só vemos tristeza. Ben Affleck vai cumprir o seu destino, que é estar ao lado da pessoa que ama. Sucede que estar ao lado da pessoa que se ama não equivale a ser feliz. Colocam-se diversas questões. Com quem estiveste na minha ausência? Por que motivo não conseguiste esperar? O que faremos com estas horas mortas? Discute-se por razão nenhuma. Agride-se por pouco. Duas criaturas que nunca deixarão de se amar não suportam a companhia uma da outra e separam-se. Separam-se para sempre. O homem fica sozinho no aeroporto vendo a amada partir. Há um sofrimento atroz. Aquelas duas pessoas amam-se e não podem, não sabem estar juntas, não se entendem. O que fazer com aquele amor que não deixará de existir? Ela viverá na Europa, ele nos Estados Unidos. Talvez nunca mais se voltem a ver. O que fazer com aquele amor que nunca se extinguirá? Esperar que apareça outra Rachel McAdams ou deambular ou beber, beber até cair ou esperar sentado na casa vazia pela serenidade que permitirá aceitar que aquele amor nunca poderá conduzir à alegria?

O homem não tem respostas, o filme não é de respostas, o filme é sobre sentimentos, sobre nuvens, marés, amor, desaparecimento, esquecimento e dor. Talvez não seja um grande filme, como a unanimidade crê. Que importa se lá se encontra a poesia que não se vislumbra em tantas centenas de livros?

Sexta conjugação, 3

Adeus - disse - com ar de montanha -
fosse como fosse haveria sempre caminho
para quando as pedras fossem terra.
Não que partisse sem regressar,
apenas porque gostava de o dizer -
- adeus - como se fosse tempo de existir.
Uma a uma, silvestres, as folhas
não tem recordação de ela partir,
quando nos vales os rochedos sorriem
com o sol entre os braços.
Nem quando sair é em silêncio
deixa de haver som no horizonte.
Ela agora, penosamente agora, faz horas
até ter alguém de quem se despedir.
Porque tão bem lhe fica essa palavra
na doce cor dos seus lábios.