Julho
/De Julho,
o que fica
são as noites tépidas,
quando os velhos de mangas cavas
se põem a contar as feições lendárias
das suas conquistas antigas.
«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
De Julho,
o que fica
são as noites tépidas,
quando os velhos de mangas cavas
se põem a contar as feições lendárias
das suas conquistas antigas.
Cartaz de João Alves Ferreira
tempo é desconfortável:
verde-água percutido de ouro,
gaivotas se bicando
por postas de peixe no mercado,
caixas de madeira-balsa em pilhas.
tempo não flui congestionado,
seja no pulso, na estação de trem,
no último momento de relance em que
eu vi seus olhos: não flui.
carros descem a avenida,
pneus são cachoeiras ao ouvido,
luzidio porta-torradas de prata
jaz na rica mesa recém-posta
e palavras holandesas se misturam
a frases francesas no café
e eu tenho uma colher
e a espuma forma uma galáxia
no centro da qual está o tempo,
dobrando-se diante de mim.
velho néon intruso em nosso quarto
pobre, provisório, nesta noite
em que leio os lados de seu corpo;
mãos nas rochas da cidade,
pés no limo de outra sob a sombra
daquela torre vicentina, a sorte
do azul dos olhos, protegido.
pego o tempo na ponta
dos dedos, ou da mente?
se contorce , uma minhoca
já sem terra, já sem lisa pele
que deslize úmida, cilíndrica.
desconfortável: pouco tempo
em nossas mãos. um sopro.
Tradução de João Miguel Henriques et al.
O número do B.I. expirado pressiona-te as costas,
o pátio incendeia-se como carboneto.
A criança volta a sentar-se durante o sono,
sonha com a bicicleta roubada e com o chefe de polícia,
de elmo de prata e farda de marinheiro fluvial,
conduzindo o ladrão da bicicleta para o cadafalso.
Remamos sombrios para as delícias
da madrugada sobre o Estige.
A voz da velha estridula no pátio,
o nosso sono pisa abóboras podres.
Amo-te, minha querida
tu olhas-me com fogo nos olhos
no teu relance há um incêndio de arbustos.
Fogo-posto no lençol bolorento.
Paredes húmidas
transpiram o tormento amoroso,
o frigorífico começa a ferver.
A margarina arde no papel dourado.
A madrugada
prepara-se para atacar. Nem tu podes salvar-me.
O contador de gás lateja. Tomas banho. As crianças
esperam. Como és capaz de olhar para elas?
Não paro de pensar nisso. Não sei…
não quero saber... Resolvemos a vida
entre portas, depois enrolamo-nos,
cadáver por cadáver, à pressa, caindo aos bocados.
Apaixonei-me por um livreiro
que me dá livros e me tira a roupa,
que me guia pelo esqueleto do livro
mostrando a importância do tamanho
das palavras escritas
sobre o papel opaco e pesado
entre os dedos que se molham
antes de virar páginas.
Mas.
Num dos dedos já secos
abriu-se a fenda invisível de um corte de papel,
esse sítio onde ainda me mantém.
O pó cobre agora
os espaços vazios das estantes,
dentes arrancados de uma boca torta
e as roupas ainda mornas
jazem sobre o colchão
onde uma mancha esbranquiçada
é mutante quando vista
aos olhos dos amantes:
do meu lado da cama é vírgula,
do dele,
ponto final.
Livros, filmes, ideias.