Apresentação de Cabeça de Cavalo de Mariano Alejandro Ribeiro e Muimbu de André Capilé (Colecção Casa de Barro, Edições Macondo, 2017)

O poeta argentino, radicado em Portugal, Mariano Alejandro Ribeiro, convida o leitor a penetrar em uma poética densa, capaz de nos gerar o incômodo das leituras que não passam em desapercebido. O primeiro título da nova coleção das Edições Macondo, “Casa de barro”, Cabeça de cavalo é também a estreia do poeta no Brasil. Mariano Alejandro Ribeiro é uma dessas vozes que ficam, e demonstra toda a potencialidade da poesia contemporânea. No mesmo dia vem a público o segundo livro dessa coleção, Muimbu, de André Capilé. Nesse recente título o poeta reinventa sua prática litúrgica, exigindo da acústica o ritual da poesia, que perpassa a sua religiosidade e o “sensível invisível”, que se confunde com a “dimensão de autoria”. As Edições Macondo, Mariano Alejandro Ribeiro e André Capilé convidam para o lançamento de seus livros inéditos, que acontecerá no Museu Ferroviário de Juiz de Fora, no dia 01 de julho, às 15h. A partir das 17h ocorrerão leituras com os poetas que estarão apresentando suas obras, além de Prisca Agustoni, que já anuncia o próximo título dessa coleção.  

APRESENTAÇÃO DA COLEÇÃO CASA DE BARRO
DIA 01/07/2017 A PARTIR DAS 15:00
MUSEU FERROVIÁRIO
(AV. BRASIL, 2001 – CENTRO – JUIZ DE FORA, MG)

SE ISTO AQUI NÃO É UM PRADO

Mariano Alejandro Ribeiro

Se isto aqui não é um fado
Decerto um amanhecer claro
O homem nu sai da cama
E abre as persianas
Da varanda
Com trezentos pássaros para nos recordar
Que nada do que temos é
Assim tão permanente
– Escuta,
Se isto aqui não é o prado
É certamente o pomar
Onde íamos ver as miúdas giras
Longe das ruas com nomes de marechais
Alemães
A mãe dizia que era por causa do colégio
Alemão
Figuras impolutas e ligeiramente suspeitas
Da cena pública imigrante na Argentina
Mas aqui ó todos dentro do mesmo saco
De papel
A sacudir o vento da revolução e a revolução
Que começa sempre ligeiramente ao lado
Do lugar previsto
E ligeiramente depois
Da hora marcada
E eu que nessa altura já estou à espera do 36
No Rossio
Para voltar
A casa
Enfim,
Se isto aqui não é um poema
Então é a graça do menino que ainda não
Cresceu
Baboseiras são lindas e macacos no nariz
A debruçar-se nas esfregas de Verlaine
E Rimbaud
Enquanto os pais fingem que entendem o que se passa
Na aparelhagem do jazz
Desemaranha os cabos
Liga a Nintendo
Ninguém está
A olhar
Tu seguras uma ponta da ponte, Charles
Eu seguro a outra
Ah Um
Ah Um
Dez anos depois o céu é rosado
O amanhecer, é claro
O homem nu abre as persianas da varanda
E volta para a cama
Não dá tempo sequer aos lençóis
De arrefecer  

KISANGA

André Capilé

se forem feito passarinhos
vou dançar em suas alas 

toda alegria de pluma
vou dar parto aos passarinhos 

e se vierem com saúde
vou saber que se recusam
a irem ao bico dos ricos 

o que recusam os passarinhos
nos converte em felizes miseráveis 

pois para os que veem
o desespero da casa 

eles tornam os pobres abastados

que invistam na casaca do desprezo
são muitos os fios do ninho 

onde um ninguém vai se tornar famoso

e falam do ó da casa que abriga

lá farinha é pouca
o pirão dividido 

e falam do ó da casa que abriga

chegarão soltos no mundo
para dizer se a água é boa ou não 

não precisa medir cada fundo de vala
quem provou a doçura da terra 

saudarei o olhar da esposa rival
se chamarem o mal voltará bem eu sei 

cadeados não vão os trancar
nem eu os trancarei 

um deus fica na entrada
outro mora na minha divisa 

os feitiços não vão nos pegar
nosso lar tem o rei da gargalhada 

sou pomba que delira no meio da águia
sou frente autoridade e aperto as mãos das deusas 

e digo
não terão eles a cara do pai 

é tempo de ter glória nessa vida
vou esfregar meus cabelos grisalhos 

se quiser ver o cobre
pergunte aos cabelos grisalhos
se quiser ver sarar
pergunte aos cabelos grisalhos
se quiser paciência
pergunte aos cabelos grisalhos 

se quiser um cativo
pergunte a sua cabeça primeiro 

por favor hoje não tranque o portão
eles estão vindo
vão fazer minha vida muito próspera 

os saúdo
em honra de meus ancestrais  

serão lindos passarinhos

não devem fazer nada
além de vir de mim

Obediência 

Haviam-lhe dito que um descanso. E Pedro que sim, que uma paz, embora qualquer som, mesmo que só a antecipação, o arrastar miúdo que vem antes de falarem, o fizesse embater em estranheza. 

Na noite, ninguém que uma palavra. Percebera-o a um toque de batuta que ninguém deu, mas que é o que há quando a mínima suspeição. A busca azeda do fim em que se metera o avô findara. E que com isso um descanso. À reação de Pedro, uma mão toda decisão com um hipnótico, com um apagão. 

Acordara na manhã seguinte montada, igual. Gente como se marioneta, carros rotineiros, ponteiros no sentido comandado de sempre. E com isso a ida para a escola, como se dia. Como se dia, imagine-se. 

(O meu avô morre, procura-se na morte, e há quem coma, quem trabalhe, quem como se nada, como antes de tudo.) 

O absurdo, implodido em elasticidade, prolongara-se anos atrapalhados em anos. E nunca a certeza do que acontecera porque a mão em ordem com o hipnótico e com isso os músculos travados. E a manhã como se fosse possível voltar a ser dia depois de o avô. 

(E a terra? Que restos? Braços ainda que abraçar? Olhos que conforto?) 

Mais anos enovelados noutros numa incerteza de traça de ter de facto havido morte, porque só a ausência, só o nunca mais o ter visto, vendas, partilhas, uma força centrífuga em tios, primos. 

É hoje 8 de dezembro de 2013. Agora o corpo em resignação de uma escrita. Estático. Alguns movimentos desde 23 de março de 1997, mas só coisa de ir passando. Haviam-lhe dito que também Deus e que com isso alguma coisa, mas Pedro que Não, que Se Deus, refinadíssimo, a um deslize, criara a morte, por que motivo a destruiria? Se os despojos de um corpo criação Dele, por que motivo a reconstrução do que está dentro? Por penitência Sua?! E que fazer com o absurdo de tudo isso? 

(Avô?) 

Agora nenhuma paz, todos os sons. Com isso a escrita. 

o tempo tem no máximo 30 graus centígrados ao quadrado

          -cheiro a meia-de-leite cheira a casa
          -não
          -preciso de um pai para esta dor
          um dia hei-de aprender latim
          jarros falsos com flores falsas
          muito metódico muito angustiado
          muito muito muito angustiado
          e eu sinto que ele te entregou a mim
          cada vez mais longe do cordão umbilical
          um mosquito acabou de morrer só por pousar
          na minha anti-mão
          há pessoas que chegam a velhas
          como será receber a reforma?
          secretarias, praias, balcões, colchão,
          morte, em todo o caso Gaspar


- vê se fumas pouco; se vais fumar, fuma à minha frente
     não tenho tempo não tenho tempo não tenho
          tempo tem de ser marcado
com muita antecedência

          o amor o amor o amor
          a angústia a angústia a angústia
          a conta por favor


isto e aquilo

não me contentaria com uma morte discreta
dizia-me depois de acabarmos de ouvir
um álbum dos The Smiths e
admirando o vazio questionamos
a nossa existência com mais tédio que êxtase
talvez a vida seja afinal um sonho perverso isto
até a fome se instalar e então o mistério
da descoberta da linguagem outra vez:
o prato vegetariano Esse Sim
Posso pagar com uma nota de dez?

 

*

olha: mãos inexperientes
isto é o mais próximo que estive da indigência
o rio corre esta tarde e a menina da televisão
anunciou
     a) chuva ligeira sem sombra de ironia
     b)  quebra do verso já não é
motivo para ter medo.

 

*
delicadeza como se delicadeza
fosse uma palavra comum
que rola do bolso das calças
o seu nome e ao que vem?
um longo ano em perspectiva
com fortes probabilidades
de amor e burguesia

 

*
encolhido debaixo da mesa
sabes o que vem a seguir
foste feito para o evitar
mas não o conseguirás
as palavras deles não deitam som
eu não não – M – quase feliz
as patinhas a proteger a cara
e as costas contra a parede
daqui não saio

nada disso
essa trampa que lês nos livros não serve para nada
isso são só histórias inventadas com que enches a cabeça
a realidade é bem diferente

demasiado jovem para sofrer

o espectador diletante diria
como um animal acossado

            nada disso
já está na idade           ou
andei contigo às costas muitos anos ou
já é tempo de começares a contribuir

6 poemas

ORADOUR-SUR-GLANE

 

El origen del mundo es de ceniza

 

Cuando no puedo cantar
recuerdo el fuego

EDUARDO LANGAGNE

 

Con frecuencia recuerdo el fuego,
su racha venidera, su ceniza natal entre las manos.

El fuego me recuerda un padre muerto,
un feto abortado por la llama de las inmolaciones.
Es, sin embargo, objeto frenético del llanto.

Cuando recuerdo el fuego la cordura se desprende:
veo las colinas de vísceras quemadas,
los letreros que apenas señalan una dirección.

A la mujer que amé la incineraron con mi llanto.

Surjo desnudo de la llama,
surjo desnudo de las ruinas,
de Oradour-sur-Glane,
surjo desnudo de sus llamas, ajeno a la inclemencia del olvido.
Vomito el fuego que me han dado los años,
algo que es ceniza se incendia y vuelve a ser ceniza.

Escalda como rabia calcinar los recuerdos,
las horas impregnadas con aceite inflamable.
Sus faldas, sus espejos, me traen la sangre evaporada.

Cuando recuerdo el fuego, la raíz se fragmenta
en bólidos de crimen de esa ciudad fantasma.
Caen serpientes de fuego y carne piedra consumida
con las lágrimas de mundo.

Junto a Oradour-sur-Glane he incinerado el llanto.

Hoy tengo las manos negras por mucho recordar.

A veces recuerdo el fuego,
a veces recuerdo el fuego y la ceniza.
Las ruinas del fuego en la memoria,
esa quemazón de largos bulevares.

Vuelve a incendiarse el mundo con su ceniza natal.
La mujer que amé, y todos, nacieron con el fuego.

 


TEOS

 

Yo no creo en las estatuas,
las estatuas son dioses que nunca he conocido.

JAVIER BELLO

 

Los dioses, porque no los vemos,
son cuerpos saturados de granito.
Bestias que preñan ídolos desnudos
delante de las plazas.

Laceran el tiempo con la presión del mármol;
resisten, por qué no decirlo, contra nuestra imagen.
Son chivos expiatorios estoicamente admirados.

Los dioses, porque no los vemos,
dan la purificación del odio,
a través de la piedra, de todas las miserias.

Los dioses, fetos deformes que se evaporan al cielo,
se plantan por medio de estatuas intestinas
con todas las falacias de nuestro corazón.


 

LA CASA

 

Schimmelgrün is das Haus des Vergessens.

PAUL CELAN

 

Verde moho es la casa del olvido,
vuelve negras las horas de la plaza,
arropa nauseabundo al sueño,
corteja a la belleza frente a la alcaldía,
prende antorchas a la paz,
incinera cadáveres de humo.

El moho invade recuerdos aledaños,
vuelve verdes el presagio y la añoranza;
constipa células vitales, las gangrena.

La tierra se desploma, surgen mares de odio.
El olvido da asilo en su casa de verano,
hay en sus muebles un ansia de inclemencia.
¡Qué verde es el fuego de la desmemoria!

La amnesia se apodera de la preñez del cielo,
hay muertos en las calles que lloran epitafios.

El olvido se extiende llenando la memoria,
en su casa habitan cadáveres de cada quemazón.

¡Qué verde, verde, es esa casa de locos!


PREMONICIONES Y PRESAGIOS

 

Algo sé de nunca haber conocido el mar.

Los presagios de una voz, de acciones –tal vez del dios de los mil ojos–

me dieron la respuesta y el boleto para salir de casa.

No pretendo pasar por un profeta que lee milagros en las huellas de arena holladas por los “sueños” –sin “sueños” por favor (que anticuada palabra en la poesía) –;

sin embargo la digresión obliga a mirar los contornos de esos pre, siempre presentes,

que llegan de repente y dejan claros estigmas que es casi imposible enumerar.

Algo sé de haber nunca conocido el mar y la memoria

–no del amor, qué palabra tan gastada, digo–.

La memoria me dice que nunca he conocido el mar aun cuando antes el cristal del bar, el desayuno con desconocidos, algunos cuadros en el último piso de algún edificio circundante empalmaban con el beso de una mujer ahogada al lado de mi cama.

No creo en el mar de la premonición y del presagio, no a los oráculos;

mas postergo el deseo de hallarme de nuevo con los pies sobre la huella en la arena herida por la ola de una mujer de clase media alta habitante del oeste.

Algo sé de nunca haber conocido nunca el mar, de la memoria. No es un engaño.

El único presagio definible es la muerte.

 


HAMBURGO ES UN ESTADO

 

Salí a vagar por las calles con faroles rojos.
(…)
“A Puerto Trakl los poetas vienen a morir”,
me dijeron
sonriendo en todos los idiomas del mundo.

JAIME HUENÚN

 

Hamburgo tiene la misma sombra junto al mar:
las estaciones toman tonalidades de puerto
por encima de los rostros de mujeres,
la ruta del Elba ensordece los perfumes
de todos los muertos que son la misma piel.

Hamburgo es la ciudad donde los cantos se pierden
y entre ellos descubro mi camisa
teñida del rojo de los faros
sobre el edredón de la tarde y las gaviotas.

Todos los muertos son la misma piel de Hamburgo,
cada uno de ellos cambia una moneda
por un poco de jabón contra lagañas
esperando abrir los ojos de sus morgues
y descubrir perros y mujeres, gatos de puerto.

Recorro el muelle donde atracan cinturas
entro y salgo de los bares sonriendo a cerveza:
todos los muertos son la misma piel del horizonte,
los muertos sonríen en islas-peces-salvavidas.

La ruta del Elba ensordece los perfumes
de la piel de los muertos, cuya sombra está al norte,
entre ellos me hallo en zona de litigio. Sombra.
Más allá de la playa y de la isla Neuwerk,
Hamburgo es un estado que entierra sin visa.

 


MADRUGADA EN LA CARRETERA

 

e tropeçou no céu como se ouvisse música.

Chico Buarque

 

La madrugada fue la carretera
donde tropezó mi pie.
La música alegre y los poemas de Sabines
que le dediqué a mi padre
llenaron mi cabeza con reproches
(porque a él nunca le gustó Sabines).

La lluvia cayó y abandoné el hospital en mi automóvil.
Del camino hasta la casa sumaron diez kilómetros,
y los árboles, las prostitutas, la misma agua
se apartaron de mi paso furioso por la carretera.

Tropecé con la rabia de alejarme de ahí.
Atrás iba la carroza con mi padre adentro.
Tropecé con la lluvia y con la madrugada
después de que el viejo tropezara conmigo.

La música alegre y el espejo empañado
casi me hicieron chocar por el kilómetro siete.