Salvatore Quasimodo, AUSCHWITZ

Lá em baixo, em Auschwitz, longe do Vístola,
amor, ao longo da planície nórdica,
num campo de morte: fria, fúnebre,
a chuva na ferrugem dos postes
e os enredos de ferro dos recintos:
e não há árvore ou pássaros no ar cinzento
ou acima do nosso pensamento, mas inércia
e dor que a memória deixa
ao seu silêncio sem ironia ou ira.

Tu não queres elegias, idílios: só
razões da nossa sorte, aqui,
tu, branda aos contrastes da mente,
incerta a uma presença
clara da vida. E a vida está aqui,
em cada não que parece uma certeza:
aqui escutaremos chorar o anjo o monstro
as nossas horas futuras
badalar o além, que é aqui, em eterno
e em movimento, não numa imagem
de sonhos, de possível piedade.
E aqui as metamorfoses, aqui os mitos.
Sem nome de símbolos ou de um deus,
são crónica, lugares da terra,
são Auschwitz, amor. Como de súbito
se esfumou em sombra
o querido corpo de Alfeu e de Aretusa!

Daquele inferno aberto por uma inscrição
branca: «O trabalho vos libertará»
saiu o fumo contínuo
de centos de mulheres empurradas fora
dos canis ao amanhecer contra o muro
do tiro ao alvo ou sufocadas gritando
misericórdia à água com a boca
de esqueleto sob os chuveiros a gás.
Encontrá-las-ás tu, soldado, na tua
história em formas de rios, de animais,
ou és também tu cinzas de Auschwitz,
medalha de silêncio?
Ficam longas tranças fechadas em urnas
de vidro ainda cerradas por amuletos
e infinitas sombras de pequenos sapatos
e de xales de hebreus: são relíquias
de um tempo de sageza, de sapiência
do homem que se faz medida de pelas armas,
são os mitos, as nossas metamorfoses.

Nas planícies onde amor e pranto
apodreceram e piedade, debaixo da chuva,
lá em baixo, pulsava um não dentro de nós,
um não à morte, morta em Auschwitz,
para não repetir, daquela cova
de cinzas, a morte.

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Nick Laird, Da Beleza

Tradução de Hugo Pinto Santos

Não, não poderíamos fazer a lista
dos pecados que não nos podem perdoar.
Aos mais belos não falta uma ferida.
Começa a nevar permanentemente.

Para os pecados que não nos podem perdoar,
as palavras são maravilhosamente inúteis.
Começa a nevar permanentemente.
Os mais belos sabem disto.

As palavras são maravilhosamente inúteis.
São as malditas.
Os mais belos sabem disto.
Deixam-se ficar por ali com a falta de naturalidade de uma estátua.

São os malditos,
e, portanto, a sua tristeza é perfeita,
delicada como um ovo poisado na palma da mão.
Quando endurece, é decorada com a cara deles

e, portanto, a sua tristeza é perfeita.
Aos mais belos não falta uma ferida.
Quando endurece, é decorada com a cara deles.
Não, não poderíamos fazer a lista.

Nick Laird, To a Fault, Faber & Faber, 2005

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Nick Laird, Alba

Tradução de Hugo Pinto Santos

Vai para casa. Há semanas que não durmo
sozinho e preciso de me estender
sobre os lençóis até encontrar não o calor mas a perda.
E é essa falta que me vê agora tão gordo
e nada satisfeito – com isso quero eu dizer-me
incapaz, seja de dureza, seja de amabilidade.
Inapto para falar a homem ou animal,
Não seria capaz de te deixar
veres-me assim tirado pelo avesso,
o que quer dizer que o que importa é lá estar.
Não aqui. Se soubesses o suficiente, saberias
que é na remoção que se é amado.
Levanta-te. Leva-te até à noite.
Percorre ruas que jazem contrárias e se atravessam
a si mesmas numa prece por sombra, depois luz.

 

Nick Laird, To a Fault, Faber & Faber, 2005

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Salvatore Quasimodo, À NOVA LUA

No princípio Deus criou o céu
e a terra, depois no seu exacto
dia pôs os luminares no céu
e ao sétimo dia descansou.

Após mil milhões de anos o homem,
feito à sua imagem e semelhança,
sem nunca descansar, com a sua
inteligência laica,
sem temor, no céu sereno
de uma noite de Outubro
pôs outros luminares iguais
àqueles que giravam
desde a criação do mundo. Amen.

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