tradução de João Coles
olhem para eles.
este lugar é como um bar,
vendido,
poeta e público ambos bêbedos.
de quando em vez uma lâmpada flash apaga-se,
o microfone ainda não funciona,
o poeta está sentado,
uma oportunidade para beber mais.
uma rapariga aproxima-se,
fofa, sexy, psicótica,
tem um dos livros do poeta
aberto para o autógrafo,
ele escreve, "rachava-te toda em três minutos",
esquece-se de assinar o seu nome,
faz uma pausa para beber outra vez.
o microfone funciona,
agora sim, o poeta lê,
sentido-se incitado,
esquecendo-se que aceitara ler por dinheiro.
depois de vários poemas o poeta levanta-se,
anuncia, "suas grandessíssimas merdas ranhosas,
vocês julgam que isto é fácil, isto não é nada mais do que a porra de uma sangradura".
"dá-nos mais sangue!", grita um jovem rapaz lá
do fundo.
é o melhor poema da noite.
o poeta emborca meio copo de whiskey puro,
acende o charuto, exala o fumo.
por vezes riem,
por vezes aplaudem,
confundem-no, como a maioria das coisas.
ele vai beberricando até ao final,
e então outra miúda fofa, sensual e psicótica aproxima-se da sua mesa,
diz que é do jornal regional, que gostaria de fazer algumas perguntas.
ela senta-se,
ele responde à primeira pergunta,
olhando para o seu cabelo e para os seus olhos,
imaginando-a na cama com ele,
"o que pensa sobre F. Scott Fitzgerald?", pergunta,
"eu nunca", responde, "penso nele",
abanando a mão em ênfase despreocupada
entorna a cerveja em cima das suas calças de ganga justas
dizendo, "meu Deus, meu Deus, peço desculpa",
esfregando as suas mãos pelos joelhos e pelas coxas molhadas dela acima
como a secasse.
ela vai-se embora e o promotor aguarda-o com o dinheiro,
$432.
"merda", diz o poeta, "vocês prometeram-me $500",
"bem, tivemos de pagar $68 a estes dois matulões para impedir que o público lhe caísse em cima",
"quer dizer que fui assim tão bom?", perguntou o poeta,
"tão mau", diz o promotor,
levantando-se e indo-se embora.
o poeta serve outra bebida,
pega no microfone, "ouçam, ainda não acabei,
vou ler-vos outro poema",
alguém corta a corrente ao microfone.
ninguém protesta.
o poeta abandona a mesa
e consegue chegar à casa de banho.
está de pé e de pé mija.
um homem a seu lado também está a mijar.
o poeta vira-se para o homem,
"ouça, amigo, onde é que posso arranjar um belo naco?",
"estava para lhe perguntar a mesma coisa", disse ele.
Da última leitura pública de Bukowski, em Redondo Beach CA, 31 de Março, 1980