Adam Zagajewski, "Violoncelo"

Tradução de João Ferrão e Anna Kuśmierczyk

Os que não gostam dizem: é apenas
um violino que sofreu uma mutação
e foi expulso do coro.
Não é verdade.
O violoncelo tem muitos segredos,
mas nunca chora,
canta apenas em voz baixa.
Porém, nem tudo transforma
em canto. Por vezes pode-se ouvir
um sussurro ou um murmúrio:
estou sozinho,
não posso adormecer.

Charles Bukowski, «se leccionasse escrita criativa, perguntou, o que lhes diria?»

Tradução de João Coles

dir-lhes-ia que tenham uma história de amor
infeliz, hemorroidas, dentes podres
e que bebam zurrapa,
que evitem a ópera e o golfe e o xadrez,
que mudem a cabeceira da cama
de uma ponta à outra
e que logo a seguir tenham
outra história de amor infeliz
e que nunca usem uma fita prateada
para a máquina de escrever, 
que evitem piqueniques em família
ou que sejam fotografados num jardim de
rosas;
leiam Hemingway só uma vez,
saltem Faulkner
ignorem Gogol
cravem os olhos em fotografias da Gertrude Stein
e leiam Sherwood Anderson na cama
ao mesmo tempo que comem bolachas de água e sal Ritz,
reparem que as pessoas que falam
insistentemente sobre libertação sexual
têm mais medo do que vocês.
ouçam E. Power Biggs e ponham a tocar o
órgão na rádio enquanto
enrolam Bull Durnham no escuro
numa cidade alheia
com apenas um dia de sobra de renda
depois de terem desistido
de amigos, parentes e trabalhos.
nunca se considerem superiores e/
ou justos
e nunca tentem ser.
tenham outra história de amor infeliz.
olhem para a mosca sobre a cortina de Verão.
nunca tentem ter sucesso.
não joguem bilhar.
fiquem legitimamente zangados quando
descobrirem que o vosso carro tem um pneu furado.
tomem vitaminas, mas não levantem pesos nem corram.

depois de tudo isto
invertam o procedimento.
tenham uma história de amor feliz.
e o que
talvez aprendam
é que ninguém sabe nada -
nem o Estado, nem os ratos
ou a mangueira do jardim, ou a Estrela Polar.
e se alguma vez me apanharem
a leccionar escrita criativa
e me lerem isto de volta
levam logo nota 20
sem tirar nem pôr,
na muche.

In Love Is a Dog from Hell


now, if you were teaching creative
writing, he asked, what would you
tell them?

i’d tell them to have an unhappy love
affair, hemorrhoids, bad teeth
and to drink cheap wine,
avoid opera and golf and chess,
to keep switching the head of their
bed from wall to wall
and then I’d tell them to have
another unhappy love affair
and never to use a silk typewriter
ribbon,
avoid family picnics
or being photographed in a rose
garden;
read Hemingway only once,
skip Faulkner
ignore Gogol
stare at photos of Gertrude Stein
and read Sherwood Anderson in bed
while eating Ritz crackers,
realize that people who keep
talking about sexual liberation
are more frightened than you are.
listen to E. Power Biggs work the
organ on your radio while you’re
rolling Bull Durham in the dark
in a strange town
with one day left on the rent
after having given up
friends, relatives and jobs.
never consider yourself superior and /
or fair
and never try to be.
have another unhappy love affair.
watch a fly on a summer curtain.
never try to succeed.
don’t shoot pool.
be righteously angry when you
find your car has a flat tire.
take vitamins but don’t lift weights or jog.

then after all this
reverse the procedure.
have a good love affair.
and the thing
you might learn
is that nobody knows anything–
not the State, nor the mice
the garden hose or the North Star.
and if you ever catch me
teaching a creative writing class
and you read this back to me
I’ll give you a straight A
right up the pickle
barrel.

27 de Janeiro

Dia gelado. Sol frio. Bafos brancos. 
Mas nessa Sexta-feira não sabíamos ao certo
o que celebrar, o que lamentar
– porque era ao mesmo tempo
o dia da memória pelas vítimas do Holocausto
e o solene aniversário de Mozart. 
A nossa memória não sabia o que fazer. 
A nossa imaginação estava perdida. 
A vela no parapeito chorava
(pediram-nos que acendêssemos velas), 
mas das colunas chegava a música tranquila
do primeiro Mozart, Rococó, 
época de perucas de prata, e não dos cabelos cinzentos
que conhecíamos de Auschwitz, 
época de trajes, e não de nudez, 
de esperança, não de desespero. 
A nossa memória não sabia o que fazer, 
a imaginação perdia-se em especulações. 

Charles Bukowski, «ruiva de cima a baixo»

Tradução de João Coles

ruiva
pura
torceu uma mecha de cabelo
e perguntou
“o meu rabo ainda é firme?”

que comédia.

há sempre uma mulher
para nos salvar de outra

e assim que essa mulher nos salva
apronta-se para nos
destruir.

“odeio-te às vezes,”
disse ela.

saiu porta fora e sentou-se
no alpendre a ler o meu exemplar
de Catulo, e permaneceu lá fora
durante uma hora.

as pessoas andavam de um lado para o outro
passando por minha casa
perguntando-se onde um homem
velho e feio arranjara
uma beldade daquelas.

nem eu sabia.

quando ela voltou a entrar agarrei-a
e sentei-a ao meu colo.
levantei o meu copo e disse-lhe
“bebe isto.”

“eh pá,” disse ela, “misturaste
vinho com Jim Beam, vais ficar
insuportável.”

“tinges o cabelo, não
tinges?”

“tu não olhes,” disse ela e
levantou-se e baixou as
calças e as cuecas e
o pêlo lá em baixo era
da mesma cor que o cabelo
dela.

o próprio Catulo não poderia ter desejado
por graça mais histórica ou
maravilhosa;
depois ficou
apatetado

por rapazitos tenros
não suficientemente loucos
para se tornarem
mulheres.


In Love Is a Dog from Hell


red up and down

red hair
real
she whirled it
and she asked
“is my ass still on?”

such comedy.

there is always one woman
to save you from another

and as that woman saves you
she makes ready to
destroy.

“sometimes I hate you,”
she said.

she walked out and sat on
my porch and read my copy
of Catullus, she stayed out
there for an hour.

people walked up and down
past my place
wondering where such an ugly
old man could get
such beauty.

I didn’t know either.

when she walked in I grabbed
her and pulled her to my lap.
I lifted my glass and told
her, “drink this.”

“oh,” she said, “you’ve mixed
wine with Jim Beam, you’re gonna
get nasty.”

“you henna your hair, don’t
you?”

“you don’t look,” she said and
stood up and pulled down her
slacks and panties and
the hair down there was the
same as the hair
up there.

Catullus himself couldn’t have wished
for more historic or
wondrous grace;
then he went
goofy

for tender boys
not mad enough
to become
women.

Adam Zagajewski, "O blusão verde"

Tradução de João Ferrão e Anna Kuśmierczyk

Quando o pai caminhava em Paris,
muitas vezes num blusão verde,
que mandou fazer para si à medida
(um dos poucos luxos
na sua vida bastante modesta)
quando passava longas horas no Louvre,
estudando as obras de Corot e de outros pequenos
mestres dos séculos passados,
eu ainda não sabia, não podia saber,
quanta destruição se escondia
nos anos que então se aproximavam,
como se esse blusão verde
lhe trouxesse infelicidade,
mas, contudo, compreendo agora,
desconfio, que a catástrofe
foi cosida por dentro de todas as suas roupas,
independente das cores ou das formas,
e até o maior dos mestres da pintura
em nada o podia ajudar.