High windows

When I see a couple of kids 
And guess he’s fucking her and she’s   
Taking pills or wearing a diaphragm,   
I know this is paradise 

Everyone old has dreamed of all their lives—   
Bonds and gestures pushed to one side 
Like an outdated combine harvester, 
And everyone young going down the long slide 

To happiness, endlessly. I wonder if   
Anyone looked at me, forty years back,   
And thought, That’ll be the life; 
No God any more, or sweating in the dark
 

About hell and that, or having to hide   
What you think of the priest. He 
And his lot will all go down the long slide   
Like free bloody birds.
And immediately 

Rather than words comes the thought of high windows:   
The sun-comprehending glass, 
And beyond it, the deep blue air, that shows 
Nothing, and is nowhere, and is endless.


Philip Larkin
, Collected Poems, Faber & Faber, 2003

 

 

Elogio do Riso

 No §327 da Gaia Ciência, Friedrich Nietzsche denuncia o intelecto como “uma máquina pesada, tenebrosa e rangente, difícil de pôr em movimento”. Enorme campo de preconceitos imbricados que visam “tomar a coisa a sério”, é que os bem-pensantes defendem que o processo de compreensão deve ter o rigor mortis de um cadáver positivista. 

A taciturnidade não passa de um fingimento epistemológico, todos, ou quase, sabem que para pensarmos bem devemos rir dos métodos e conclusões, começar, aliás, por rir dos problema formulados (ainda agora olhei para a Via Láctea, e todos os átomos que suportam os “maiores problemas do mundo” entraram num frenesim dançante, parecido ao do velho Ritz Club de outrora). Reparem no que fez e faz a seriedade divina! Não seria preferível, como queria Nietzsche, um deus dançante, que aos sábados fizesse Stand Up Comedy? Vejam os cientistas seriamente instalados nos laboratórios, descobrindo, envoltos pela crença de um serviço público bem remunerado, a próxima molécula da felicidade, porque afinal parecem ser as interacções químicas e eléctricas a definirem a exclusividade do nosso estilo de vida. Olhem para a supina seriedade com que os burocratas legislam a mais ínfima parcela da realidade (e.g., parece que somos obrigados a escrever certas palavras sem algumas letras que certos iletrados omitiam por óbvia ignorância fonética). Enfim, os ditadores, como está plasmado na história, sempre foram de uma seriedade irrepreensível, porque só quem se leva muito a sério pode radicalizar o proselitismo da sua visão do mundo.

Rir, sobretudo de si mesmo, distende os músculo faciais, evitando as estrias dogmáticas precoces. Resvalamos então para o relativismo? Sim, mas pagam-se bem os excessos cacofónicos com uma estética e uma ética, uma epistemologia e uma política... sem desejos de domínio, de esmagamento, de aniquilação... sem a pérfida petulância da Verdade.

Agora, em coerência, resta-me rir um pouco do que acabo de escrever.

Comunicação interrompida

Um idiota fala sobre poesia. Dás-lhe o ouvido. Cortas a orelha e deixa-la cair sobre as suas mãos. É possível agora fixar este poeta com um olhar inquisidor, não exactamente agradecido. Acarinhaste a intenção desse susto e demoras os olhos em cima deste homem. Esta caraparticularmente. Continuas a carregar perguntas, tens cada vez menos respostas. E se andas, não aumentas, não evoluis. Como outro qualquer, carregas contigo coisas. Uma hierarquia de desrazões. Quanto mais explicações, menos motivos.

No coração de cada ideia há uma pedra, preta e compacta porque absorveu toda a luz em redor. Tu estendeste a mão e estavas à espera da impressão do calor.

É sempre a mesma fábula. Querias falar e estavas à espera de alguém que te ouvisse. Mas não há uma língua que chegue para este grito nem um ouvido em que ele encaixe completamente. Isto é sobre uma comunicação interrompida. A história de um erro. Esmurrar a parede com a chave e estar à espera que o que se abrisse fosse porta.

dois quartos e uma cozinha

 She asked if I would like her to sing something. I replied no, I would like her to say something. I thought she would say she had nothing to say, it would have been like her, and so was agreeably surprised when she said she had a room, most agreeably surprised, though I suspected as much. Who has not a room? Ah I hear the clamour. I have two rooms, she said. Just how many rooms do you have? I said. She said she had two rooms and a kitchen. The premises were expanding steadily, given time she would remember a bathroom. Is it two rooms I heard you say? I said. Yes, she said. Adjacent? I said. At last conversation worthy of the name. Separated by the kitchen, she said. I asked her why she had not told me before. I must have been beside myself, at this period. I did not feel easy when I was with her, but at least free to think of something else than her, of the old trusty things, and so little by little, as down steps towards a deep, of nothing. And I knew that away from her I would forfeit this freedom.

Samuel Beckett, (1970). First love. In: First love and other novellas, 78. London: Penguin Modern Classics, 2000