Nick Laird, Poluição Luminosa

Tradução de Hugo Pinto Santos

 

És o santo padroeiro de qualquer outro sítio,
sofres de jet-lag e bebes sumo de maçã,
miras, da janela do sexto andar,
uma piscina em formato de rim
exactamente da cor do azul de Hockney. 

Suponho que conheça a vida pelo lado esquerdo,
e, nos últimos tempos, é como se
me tivesse esquecido de alguma coisa na noite –
acordo sozinho e gelado,
ainda agarrado ao meu lado.

Todos os dias, a maré da noite chega
e a atmosfera recebe
uma profundidade de campo dos satélites,
a cama de rede da lua, aviões
que fundeiam em Heathrow. 

Acima da poluição luminosa,
por entre estrelas que vogam nesta noite,
poderá haver um outro trânsito –
migrações de garça e de grou,
as suas meadas espectrais são símbolos

que convergem, setas, sistemas meteorológicos,
flotilhas brancas rumando firmes
em direcção ao seu sustento de Verão.
Um milhão de lençóis que se agitam.
Quem sabe como conseguem.

Os guias de navegação podem ser
a memória, pontos de referência,
ou as mais luminosas constelações.
Talvez o ferro no seu sangue
detecte o magnetismo do Norte.

Quem dera que um te levasse um amuleto,
um recado num post-it, num bilhete,
um pormenor que documentasse
este instante de autocomiseração –
a sua Solidão Órfica, com Cão.

Progressos? Nada de extraordinário,
mas a morte da casa
fará do teu regresso
algo como anti-clímax,
violação de propriedade.

Nick Laird, On Purpose, Faber and Faber, 2007

 

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Jerusalém Celeste

A meio da tarde continuava estendido na cama enquanto a ventoinha a girar no tecto fazia que me refrescava. Decidia quais os próximos lugares a visitar em Jerusalém. Os primeiros locais já tinham surgido e não através de uma decisão planeada. Subi aos terraços de St. Marks Road para uma impressão geral. Uma luz branca pintava todos os terraços. Avistei pela primeira vez a cúpula dourada da mesquita de Omar. De forma estratégica posicionavam-se homens equipados com shotguns. Lembrei-me de Amos Oz. O escritor israelita vive no sul de Israel e já escreveu diversas vezes sobre o fanatismo: politico, religioso, sentimental. Lembrei-me também de Machado de Assis que aconselhava evitar todo o tipo de ideias fixas para esquivar tragédias das quais não se podiam antecipar as consequências. Voltei ao nível do chão e caminhei por David Street, a rua mais concorrida e comercial da cidade velha. Um bom ponto de partida. Um amplo intercâmbio de inutilidades elevado a um expoente de celebração. Mas a distração acidental tem um efeito passageiro e por isso não deixa marca. Preferia as pedras; as pisadas do chão e as que edificavam. Perante essas pedras via-me melhor que nunca.

E logo o bem-estar imediato: na primeira incursão a Jesusalém Este, num local diminuto, almoçei falafel acompanhado de vários copos de sumo de limão com menta. O filho do dono do local, que teria à volta de dez anos, estava sentado perto de mim. Olhava-me com os braços enfiados entre as pernas. Baixava e levantava os olhos conforme ganhava a timidez ou a curiosidade. Parecia querer dizer num acabado pensamento ocidental e adulto: o meu pai obriga-me a não ter dez anos. Prestava-se a ajudar o pai em qualquer tarefa. Levantei-me e o rapaz também se levantou. Olhava para mim como se tivesse medo que eu caísse. Estava atento a qualquer cambaleio. Subitamente o rapaz pareceu-me um perigo em potência, outro profeta que imporia as suas próprias leis dogmáticas – leis para impedir a queda, leis para a salvação eterna. Outro profeta forjado nas ruas da cidade antiga. Para me reconciliar com a figura do menino-adulto dei-lhe umas moedas, propondo que é mais fácil corromper que propôr a descrença nas grandes verdades tendo como único argumento a existência aborrecida e pacífica. O sorriso do rapaz pareceu-me outra vez inofensivo e inocente. Regressando às lajes polidas das ruas arrependi-me de colocar na cara de uma criança tantas cores juntas, claramente reflexos meus, imagens que aparecem com a mesma frivolidade com que desaparecem.

No tecto a ventoinha rodava sem descanso. Rodava e não me servia o ar que movimentava mas sim o ruído constante do pequeno motor que me deixava cada vez mais próximo do sono. Quase sonhando, decidi que na minha primeira incursão planeada havia de subir o monte das oliveiras; poderia estar por ali alguma família a celebrar um funeral e eu a certa distância talvez pudesse assistir. E a mesma conclusão, desperto, acordado, uma e outra vez: uma vida que decorre entre a doença e a convalescença. E nos longos períodos de convalesça a confiança renovada de que a última cura foi a melhor de todas. De facto, uma espécie de atrevimento febril na hipótese nula da possibilidade de recaída.

para um estudo do silêncio acompanhado

Aprendi a não dizerfalta-me aprender a não pensar. Para deixar de pensar preciso de pensar tanto que não sobre nada, boicotar o esquema por dentro, infiltrando-me no pensamento, que hei-de armadilhar e fazer explodir. A seu tempo. Sabemos hoje, porque o lemos em livros, que faz parte do Caminho sairmos do Caminho.
Sabemos, porque falámos sobre isso vezes sem conta, que um erro deixa de ser erro se o soubermos viver. Desconfiamos que a deriva nem sequer existe desde que nos deixemos levar sabendo que voltaremos e que, se não voltarmos, não há problema. 
A minha aprendizagem é como aquele desenho no vidro embaciado de um carro: uma montanha de onde se cai sempre menos. Quando se volta atrás nunca se volta tão atrás. O silêncio também é uma vaidade. Um dia direi: começou por ser vaidade, o meu silêncio. Não percas a tua cidade estrangeira, é esse o meu conselho. Ninguém gosta de encarar a vida como se de uma Viagem se tratasse, porque é ridículo. Todo o misticismo deixa o homem desavisado de pé atrás. E, no entanto, nada faz mais sentido do que esta ideia de passeio, que por ora deve ser expressa com cuidados literais e traçados realistas, a fim de evitar a rejeição precoce. Não percas a tua cidade estrangeira.

Solitude

Hoje é a grande noite do Joe, com uma leitura pública
o seu trabalho será finalmente reconhecido.
Tem vinte e três anos e várias vezes já se lembraram
do seu nome para uma residência artística.

Lizzie, a melhor do curso de escrita criativa,
também vai lá estar com a nova namorada,
o seu cabelo negro lampeja para toda a gente, parece um
corvo desaustinado quando entra em clubes literários.

Até Bonnie, a gigante americana, foi convidada,
eacabava de se vestir no seu quarto
quando se lembrou, sem omitir um sorriso,
que ainda ontem à noite lhe ocorrera o suicídio,
numa mão um copo de barbitúricos,
na outra um livro manuseado.

As luzes do dormitório apagam-se, uma a uma
desaparecem as paredes  de  contraplacado
pejadas de recortes  da  Norton Anthology of Poetry 
e de frases que dissecam a morte da filosofia. 
Os amigos vão juntos até Hampstead ver o Joe, 
onde dizem que tudo realmente acontece. 

Colocam gravatas uns nos outros, em casa juntam
todo o álcool que conseguem, sentem o peso
de cada uma das frases antes de partirem no comboio
Da janela ainda vejo estes poetas a mijarem com vontade
sobre as roseiras, um fumo místico levanta-se 
logo onde começa a propriedade privada.

Dou uma volta completa à cozinha comum,
largo um esgar indisposto para o lado,
inspecciono a carpete onde esmagaram beatas,
invoco os meus colegas para os detestar um a um.

É então que os olhos brilham e subo à mesa
onde se projeta a minha glória infinita. 
Digo as palavras que só eu imagino ouvir: 

«nesta noite tão especial, não consigo dizer
como vos estou agradecido por se terem
esquecido aqui de todas as bebidas.»

De Doze Passos Atrás, Artefacto, 2013.

«Ensaio sobre aquilo em que mais penso», Anne Carson

Tradução de João Moita

De Men in the Off Hours (2001)

Erro.
E as suas emoções.
À beira do erro está a condição do medo.
No meio do erro está um espírito de loucura e de derrota.
A descoberta do erro é acompanhada de vergonha e remorso.
Ou não?

Vejamos.
Muitas pessoas incluindo Aristóteles pensam que o erro
é um evento mental interessante e útil.
Na discussão sobre a metáfora na sua Retórica
Aristóteles afirma existirem três tipos de palavras.
Estranhas, vulgares e metafóricas.

“Palavras estranhas confundem-nos;
palavras vulgares exprimem o que já sabemos;
é através da metáfora que alcançamos alguma coisa nova e revigorante”
(Retórica, 1410b10-13.)
Em que consiste a novidade da metáfora?
Aristóteles diz que a metáfora torna a mente consciente de si mesma

no momento de cometer um erro.
Ele imagina a mente a mover-se através de uma superfície lisa
de linguagem vulgar
quando de repente
a superfície quebra-se e complica-se.
Surge o inesperado.

De início parece esquisito, contraditório ou errado.
Depois começa a fazer sentido.
E nessa altura, de acordo com Aristóteles,
a mente vira-se para si mesma e diz:
“Tão acertado, e ainda assim eu confundi-o!”
Dos verdadeiros equívocos da metáfora pode-se aprender uma lição.

Não apenas que as coisas são diferentes do que parecem,
e portanto as confundimos,
mas que tais equívocos são úteis.
Atentemos, diz Aristóteles,
há aqui muito que ver e que sentir.
A metáfora ensina a mente

a gozar o erro
e a aprender
a justaposição daquilo que é e daquilo que não é assim.
Há um provérbio chinês que diz,
O pincel não pode desenhar dois caracteres na mesma pincelada.
E ainda assim

isso é exactamente o que um bom erro faz.
Por exemplo.
Há um fragmento de um antigo poema grego
que tem um erro de aritmética.
O poeta parece não saber
que 2 + 2 = 4.

Fragmento 20 de Alcman:
         [?] fez três estações, verão
         e inverno e outono em terceiro
         e em quarto a primavera quando
        há floração mas para comer o suficiente
        não há.

Alcman viveu em Esparta no século VII a.C.
Esparta era um país pobre
e é pouco provável
que Alcman tivesse vivido uma vida saudável e nutrida.
Este facto está na origem das suas observações
que vão desembocar na fome.

A fome dá sempre a sensação
de ser um erro.
Alcman faz-nos sentir esse erro
com ele
através do recurso a um efectivo erro de cálculo.
Para um miserável poeta espartano sem alimentos

na despensa
no final do inverno –
chega a primavera
como uma reconsideração da economia natural,
quarta na série de três,
desequilibrando a sua aritmética

e elevando o verso.
O poema de Alcman irrompe a meio caminho pela métrica jâmbica
sem explicar
de onde veio a primavera
ou porque é que os números não nos ajudam
a controlar melhor a realidade.

Há três coisas de que gosto no poema de Alcman.
Em primeiro lugar o facto de ser pequeno,
leve
e mais do que perfeitamente económico.
Em segundo lugar por sugerir cores como verde-claro
sem as nomear.

Em terceiro lugar porque traz para primeiro plano
algumas questões metafísicas importantes
(como Quem fez o mundo)
sem análise manifesta.
Reparem que o verbo “fez” no primeiro verso
não tem sujeito: [?]

É muito invulgar no grego
um verbo sem sujeito, na verdade
é um erro gramatical.
Os filólogos dir-nos-ão
que este erro é só um acidente de transmissão,
que o poema tal como o recebemos

é seguramente um fragmento retirado
de um texto maior
e que Alcman certamente
nomeou o agente de criação
no versos que precedem os que aqui temos.
Bem, pode ser.

Mas como sabem, o objectivo principal da filologia
é reduzir todo o encantamento textual
a um acidente histórico.
E eu não sou favorável a qualquer reivindicação de se conhecer
exactamente o que o poeta quis dizer.
Por isso deixemos o ponto de interrogação

no início do poema
e admiremos a coragem de Alcman
por confrontar-se com o que está entre parêntesis.
A quarta coisa de que gosto
no poema de Alcman
é a impressão que ele dá

de expressar a verdade sem ela disso se aperceber.
Muitos poetas aspiram
a este tom de lucidez inadvertida
mas em poucos ele é tão genuíno como em Alcman.
É óbvio que a sua simplicidade é falsa.
Alcman não é simples de todo,

ele é um mestre do enredo –
ou o que Aristóteles chamaria um “imitador”
da realidade.
Imitação (mimesis em grego)
é o termo de Aristóteles para os verdadeiros erros da poesia.
O que eu gosto neste termo

é a facilidade com que ele aceita
que o que nos fascina quando fazemos poesia é um erro,
a consciente invenção do erro,
o deliberado ímpeto e complexificação dos erros
dos quais pode sobrevir
o imprevisível.

Assim um poeta como Alcman
esquiva-se ao medo, à ansiedade, à vergonha e ao remorso
e a todas as outras emoções patetas associadas ao acto de cometer erros
de maneira a atingir
a verdade dos factos.
A verdade dos factos para os humanos é a imperfeição.

Alcman quebra as regras da aritmética
e ameaça a gramática
e joga com a forma gramatical do seu verso
de maneira a revelar-nos esse facto.
No final do poema o facto permanece
e Alcman não está menos esfomeado.

No entanto alguma coisa mudou no quociente das nossas expectativas.
Pois enganando-as,
Alcman aperfeiçoou alguma coisa.
De facto ele fez mais
do que aperfeiçoá-la.
Dando apenas uma pincelada.

*

Original aqui.