o gato de schrödinger

vivo ou morto ― como num pôster daqueles procurados no velho oeste ― o gato é imaginariamente preso ao experimento de lógica talvez mortal e radiativo, contra o dito paradoxo de estar vivo & morto ao mesmo tempo. schrödinger observa de dentro da jaula de seu pensamento o gato dentro de sua jaula de teste, escolhe se está vivo ou morto; schrödinger ignora as sete vidas, se aborrece com esses tolos que argumentam o notável disparate. enquanto schrödinger inventa seu gato estúpido e impotente, a caixa se fecha, escura como a morte, e em copenhagen souberam nessa morte dois pontos fosfóreos sempre acesos. 

Cinismos

 Caspar_de_Crayer_Alexander_and_Diogenes, séc. XVII

 

Caspar_de_Crayer_Alexander_and_Diogenes, séc. XVII

O que hoje entendemos por “cinismo” tem pouco que ver com o cinismo grego antigo (daí alguns alemães usarem dois termos: “Zynismus”, para o contemporâneo; “Kynismus” para o antigo).

Enquanto Diógenes o Cínico dizia (é indiferente ser lenda ou facto histórico) a Alexandre o Grande – depois de este se oferecer para satisfazer qualquer um dos seus desejos – “Tira-te do meu sol!”, os cínicos actuais aspiram eles próprios a “um lugar ao sol”. Como refere Peter Sloterdijk, “a única coisa que têm na cabeça é baterem-se cinicamente – abertamente, sem tréguas – pelos bens deste mundo, coisa de que Diógenes zombava.” (Crítica da Razão Cínica)

O Kinismo (sigamos o exemplo alemão) foi uma filosofia, acoplada a certos modos de vida (mas, ao contrário do que muitos crêem, sem fazer a apologia simples de uma existência cândida e pitoresca), que desenvolveu o pensamento crítico e irónico mais potente da história. Pôs em causa toda a plêiada de necessidades que vão aparecendo (de fora e de dentro) para nos escravizar, fez uma radiografia crítica da desmesura e do supérfluo. Por isso terá dito que o ensinamento que retirou da filosofia foi o de estar preparado para todas as reviravoltas do destino, não se prendendo, pois, a nada.

Se Diógenes viesse visitar-nos, em vez de nos incomodar (como era seu hábito), ficaria ele perturbado: ensinou-nos, sem pedagogias especiais, a estarmos prontos para tudo, mas  mostramos-lhe que o nosso cinismo é o dos vitimistas materialistas, curvados sobre si mesmos, encaracolados, sem cura possível. 

Senta-te nessa cadeira, não tenhas medo, não te vou fazer mal. Não estou zangado contigo, não te preocupes. Estou apenas um pouco desiludido, não esperava isto. Não esperava que traísses a minha confiança desta maneira. Não estou chateado. Sabes o que provocaste, correcto? Pensaste nas consequências? Diz-me, pensaste? Sabias o que podia acontecer? O que iria acontecer se abrisses a boca? É importante prevermos o que podemos causar se dissermos certas coisas, se fizermos certas coisas. A isso chama-se responsabilidade e tu já és crescido. Com onze anos tens de sentir o que é a responsabilidade. Não tens desculpa, já não és uma criança. Tens idade para compreender as consequências. Tens idade para pensar por ti mesmo. Pensaste? Pensaste antes de falar com a tua mãe? Ponderaste? Colocaste em perspectiva? Hesitaste? Não estou chateado contigo, apenas desiludido. Esperava lealdade da tua parte. Sabes o que isso é? Esperava que não me traísses desta forma, que não me deixasses ser apanhado desprevenido, completamente de surpresa. Falei contigo, fui sincero contigo. Confiava cegamente em ti. Não estou chateado, mas penso que agiste mal, que fizeste a coisa errada. Não entendeste que nem sempre a verdade é o melhor caminho. Não entendeste que a mentira é necessária, tão necessária quanto a verdade. Tens uma ideia muito formatada do mundo - o bem e o mal, o certo e o errado e essas tangas que passas a vida a ouvir nas aulas, na televisão e na boca da tua mãe. Aposto que ela pressionou-te, que ela puxou por ti. Chantageou-te e cedeste. Já não tens idade para ir atrás da conversa dela, mas foste. Achaste que estavas a fazer o bem, quando estavas apenas a destruir algo bonito, algo que era muito bonito, mas que não estava bem, não estava temporariamente bem. Se tivesses acreditado em mim, em breve tudo voltaria a ser como era quando tudo estava bem. Não esperaste, foste impaciente e agora estamos os dois na merda. Não estou chateado contigo, não posso estar chateado contigo. Julgaste que estavas a fazer o bem, tomaste um partido, o partido da pessoa que achaste que estava a sofrer. Fizeste-o em consciência? É só nisso que tens de pensar. O resto é duro, mas todos nós nos habituamos. Vais ver que sim.

Não desligues, deixa-me falar contigo, espera, dá-me só uns minutos. Estás a ouvir-me? Sim? Olha, não te preocupes, não te preocupes mesmo. Tudo tem o seu fim, a vida é mesmo assim. O casamento dos teus pais já não andava bem, não podia andar. Quando conheci o teu pai, ele era um homem triste, infeliz, que não sabia o que se passava com a tua mãe. Ela faz coisas que ninguém compreende, não achas? Eu sei que ela é tua mãe, mas tens de admitir que o que ela faz é muito difícil de aguentar sem perder a cabeça. E o teu pai nunca a perdeu, sempre tratou-a muito bem. Não penses que ele fez tudo isto para a magoar. Percebes que ele sentia muita culpa? Há um fim para tudo... Ele não podia aguentar mais. Sentia-se muito sozinho. Foi por isso que nos conhecemos. Foi por ele se sentir sozinho que me encontrou, não achas? Nada acontece sem haver uma razão, entende isso. Nada acontece porque sim. A tua mãe não queria saber do teu pai, só se preocupava com as suas paranoias. O teu pai contou-me cada coisa de brandar aos céus. O que esperavas que ele fizesse? Que vivesse infeliz o resto da vida? Casa-trabalho-casa-trabalho e nem um pouco de felicidade? Era isso que querias para o teu pai? Não te preocupes, querido. Tudo vai ficar bem, confia em mim. O teu pai está muito magoado, mas vou falar com ele, vou dizer-lhe que tu és um bom menino e que não fizeste por mal. Dá-lhe um tempo, deixa-o recuperar em paz. Vais ver que ele te perdoa. Eu vou falar com ele, vou dizer-lhe para te deixar vir dormir a nossa casa sempre que quiseres. Podes vir todos os fins-de-semana. Podes vir sempre que quiseres. Faço-te um bolo. Sei que gostas muito de bolos. Ele disse-me. És guloso, tal como ele. Aposto que gostas de bolo de chocolate e noz. Aposto que vais gostar do meu bolo de chocolate e noz.

Não quero que voltes a falar com ela. Não quero saber o que ela te disse. Não quero que voltes a falar com ela. Não posso consentir que o meu filho fale com a mulher que ajudou a destruir o meu casamento. Não posso permitir isso, não tenhas ideias, tu nunca mais vais falar com ela. Ela não é tua amiga, ela faz- nos mal, percebes? Vais ignorá-la sempre que quiser falar contigo. Diz-lhe para vir falar comigo, que não tens autorização para falar com ela. Que ela fale comigo que vai ver como elas mordem. Não voltes a falar com ela, ouviste? Levanta a cabeça, não fiques assim. Só preciso que me prometas que não voltas a falar com ela. O teu pai que faça o que quiser, agora é livre para fazer o que quiser e aposto que se vai meter na casa dela. Ele não se portou bem comigo, nem contigo. Não te sintas culpado, ele é o único culpado, foi ele quem causou tudo isto. Agora somos livres. Não te sintas culpado, nunca te sintas culpado. Fizeste a coisa certa, fizeste mesmo a coisa certa. Acredita que doeu muito ouvir o que me contaste, mas estou feliz por teres contado, por teres estado ao meu lado. Agora sei que nunca me faltarás, independentemente de quem me quiser fazer mal. Isso é tão bom, não imaginas. É tão bom saber que o meu menino gosta de mim. Não chores, não vale a pena chorar, agora somos só nós, só nós dois e mais ninguém nos fará mal. Vamos ser muito unidos e assim mais ninguém nos fará mal. Ninguém me fará chorar como ele fez e não vou deixar que ninguém te faça chorar como estás a chorar agora. Ouviste? Eu sei que posso confiar em ti, eu sei que és um bom rapaz, que gostas da mãe como a mãe gosta de ti. É tão bom, não é? Abraça-me, dá-me um abraço, não chores mais, não vale a pena, vamos estar sempre juntos.

Luiza Neto Jorge

(A partir do filme de João Roque para a RTP, 1982)

Resta o espaço aberto na parede para a escrita
da infância, da ferrugem  

A música a chiar como fogueira 
triunfal, a alumiar o cerzir-meias, 
a pobreza e os finos pulsos de gato 
em que lambes as cinzas 
 
A moldura humana oxida. O teu rosto 
apela à dissidência, deixa expostos 
os fios do circuito, o pressuroso e fundo sinal – 
raiz na oval do cérebro –, e todos os poemas 
te fecham sob a agulha 
e sob as pálpebras 

Dizem que é má a sonoplastia nacional – 
afogamentos, um assobio de vozes 
submergidas 
 
Assim, por erro técnico, desencadeia-se 
uma possibilidade: a criança e o livro 
aberto na terceira dimensão, tu, 
na sombra geológica da perdida plumagem, 
o animal que mais te lembra é o pavão, 
o de mil olhos depostos fazendo 
da curiosidade resguardo 
e manutenção 
 
Nesse ângulo irrealizável 
explicas – bizarria sem vaidade – 
o que a vida excede no mistério 
do teu último poema 

Sean O’Brien, A partir de Laforgue

tradução de Hugo Pinto Santos

em memória de Martin Bell

 

Ergui um barricada contra a grandiosidade.
Toda a noite, rompendo o nascer do dia e o meio da manhã
Que morre, a chuva tamborila num balde do pátio.
O meteorologista diz que vem aí o Inverno,
Como se o tivesse inventado. Ele que se foda.

Que se fodam o sol e os aeroportos e o prazer.
No interior, o vento poda os lilases.
Sabes o que isto significa. Estava capaz de cantar.
Há marinheiros de fim-de-semana que dão as cartas e praguejam.
O Canal está encerrado. Isso é bom.

Trancados à sombra da ampla ramada do dinheiro,
Cozinham-se almoços desesperados
A tempo das fúrias da tarde e de súbitos
Divórcios entre dívida e meios de produção.
Isso também é bom. Estas províncias estão encerradas.

Quanto a mim, imagino o Norte com a sua morrinha,
Um fumo fugitivo, chaminés que explodiram: terra
De mau tempo, com longas colinas de hospitais, terra
Do regionalismo dos males de contas, terra
De uma porfia sectária nas jurisdições de Sheffield e Hartlepool.

De regresso à terra, vindo de um mundo de distracção tardo-liberal,
A uma terra de chuva e de caminhos atulhados de folhas,
A toda uma vida a trabalhar e à espera,
O bar da central de camionagem quase a fechar,
Plataformas geladas de términos regionais vazios de promessa,

Terra de docas que morreram e de casas-modelo vandalizadas.
Terra de Noite de Travessuras e de Hallowe’en, das suas historietas,
Quando os bancos de jardim (repouso empapado de velhos sacanas de
                                                                            [sobretudos a feder a cão)
Desaparecem, quando os funcionários da câmara arrastados do pub
vão dragar o lago do parque,

A ver as suas pegadas encherem-se
E a odiar as crapulosas vidas daqueles
Cuja crápula vive lá dentro. Terra,
Enquanto o domingo se estende até ao Inverno, um beijo friorento
Num portal, o programa religioso na televisão, as últimas bebidas antes de o
                                                                                                 [bar fechar. Terra.

Chuva, com a paciência de um anjo, lembra-me.
Este não é o mundo da Miss Selfridge e da Sock Shop,
De lucro descartável e licra, bisbilhotice iletrada, desenrascanço depois
Da última fase de acesso à faculdade, Gestão de Empresas em Farnham.
Este mundo não é Eastbourne. Não tem opiniões.

Neste mundo chove sempre e o Inverno
Está sempre a chegar – renascimento da tuberculose
E The Sporting Green a afundar-se no escoadouro.
Aqui está a tralha que é deixada nas falhas
Entre as casas – ambiciosos sofás pretos de pele de sapo

E minibares que perderam peças, os catálogos
Feitos em papas, os objectos que não é possível nomear
E que dantes eram qualquer coisa com maçanetas,
E agora vivem aqui, junto aos tapumes, a peixaria,
O edifício cuja função já não se sabe.

Londesborough Street com o telhado destruído –
Aquele cheiro de quando o papel de parede se vai, enquanto
Chove no patamar, em cães de loiça, em fotografias
E antiquíssimas ideias feitas de recto servilismo.
Nada está seco. A fronha da almofada tirita de frio.

E a água trepa a tijoleira da copa
E o vapor ascende da grelha. Há funerais
A barrar a rua por mais de um quilómetro,
Enquanto os coveiros lutam com bombas de água e o padre
Tenta agarrar-se ao seu sotaque.

Chuva, com a paciência de um anjo, lembra-me
Outra vez a lição de onde eu vim
Com vestíbulos gelados e almofadas de borracha,
A inspecção de lêndeas, a cinza com um cheiro a humidade no pátio
E o andar de cima que é como o serviço de pneumologia do hospital.

Ensina-me que o tempo vai sempre piorar,
Perseguido pela frota do Árctico –
Tema de conversa na loja da esquina
E que vem à ideia quando se sai para o pátio,
Com sirenes de fábricas e barcos de ligação,

Ali, como uma promessa, no instante do anoitecer
Em que a chuva se faz neve e é Inverno.


Sean O’Brien, Cousin Coat – Selected Poems, Picador, 2001

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