O insulto
/Já nasceste a saber o que eu não sei
António Franco Alexandre, «19», Duende
Em certas povoações da Sardenha, de Malta ou da Turquia, se um homem esmurrasse outro ou o esfaqueasse enquanto ambos estivessem entretidos a trocar insultos perante quem se juntasse para ver, isto podia ser entendido como falta de habilidade do que insultava para responder com um grau equivalente de elaboração e criatividade ao insulto que acabava de receber. Esfaquear um homem ou esmurrá-lo na Sardenha, em Malta ou na Turquia podia ser uma forma de fraqueza, porque sinal de falta de perspicácia.
Quando Andrei começou a perceber o que se ia passar—na verdade cometeu o erro de confundir a dor com um desses estados de ansiedade que nos últimos tempos experimentava frequentemente—pobre coração de passarinho, diria a sua mãezinha e agora finalmente com alguma razão—experimentou uma tontura, uma breve sensação de desequilíbrio que correu ligeira como um gato do braço para o lado esquerdo do peito numa trajectória que se afundou numa vertigem e, segurando com mais força o copo de papel cheio de leite com café, sentiu a sala começar a girar, como se estivesse num carrossel, como se ele próprio não fosse um corpo fixo no tempo e no espaço. Quando a dor se descerrou inteira como um vidro que estava um pouco rachado mas que finalmente se decidiu a partir-se por completo, Andrei experimentou o breve momento de alívio que sentem os irreparavelmente culpados.
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