Atlas do corpo e da imaginação

ATLAS DO CORPO E DA IMAGINAÇÃO
Gonçalo M. Tavares; imagens: Os Espacialistas
Caminho, 2013: Alfragide.

Há uma paixão pelo grande. Se exceptuarmos Jerusalém, caso à parte, pelo Prémio Saramago, os livros de Gonçalo M. Tavares [GMT] que a crítica escolheu canonizar foram dois volumes pesados e descaradamente ambiciosos: um épico e um atlas. A sua produção de menor fôlego, salvo, porventura, o projecto O Bairro (mas mesmo este só enquanto colectivo), tem sido relegada para segundo plano.[1] Não que não se reconheça ali o talento do autor, que é admitido; simplesmente, perante um escritor tão efervescente, e que já ingressou no panteão literário, é vertiginosa a tentação de isolar «as grandes obras» – expressão levada à letra – que é dever de todo o cidadão da república das letras conhecer. O novíssimo Atlas apresentava-se como um candidato assaz bem-posicionado para integrar tal grupo, tendo a vantagem de se oferecer como uma súmula do pensamento e temas do autor. De facto, é previsível que, doravante, nenhum trabalho académico sobre GMT deixe de o citar (o Atlas é a tese que todos queriam ter escrito).

Ficou já claro que preferimos a obra breve de GMT, a mais fiel ao seu amor pelo fragmento. O Atlas tem sido descrito precisamente como uma colecção de fragmentos grandes, uma enciclopédia que versa sobre uma mão-cheia de tópicos, avançando poucas conclusões, apesar da síntese final de quase duas dezenas de páginas, incompreensível, porém, senão em diálogo com a obra, bem longe, portanto, de uma lista de teses (podemos compará-la, de alguma forma, com o diagrama que fecha o Uma Viagem à Índia: ambos os suplementos funcionam como pegadas — não por acaso o do épico se subintitulava um itinerário). O Atlas não é um ensaio; tal palavra só se lhe adequa se estivermos não tanto a procurar categorizá-lo – os livros de GMT já há muito se percebeu serem impossíveis de arrumar nas gavetas clássicas – mas a descrever o seu método: tal como um actor tenta acertar com a personagem, experimentando modos diversos de lhe dar corpo (e esta ideia de dar corpo é o movimento central da obra), assim GMT com os seus objectos, numa abordagem vindicada na Parte I. A resultante lassidão[2] do pensamento exposto, com ângulos mortos, não afecta a coerência geral do raciocínio – percebem-se com clareza as linhas de força da mundivisão do autor – ainda que, num certo sentido, lhe diminua a força, prejuízo que a forma pseudo-fragmentária do texto contrabalança, em parte, pelas virtudes inerentes a tal estilo.

Há, como, de resto, já era visível nos romances de GMT, um enorme esforço de tudo tornar carne, em interacção com os planos do tempo e do espaço. Essa tentativa é, dependendo dos casos, mais, ou menos, bem conseguida, mas nunca vã. A noção da incapacidade final em concretizar tal programa é o que está na base de algumas das principais aporias do livro. Porque, porém, como sublinhámos, o Atlas não é um tratado, isso é só marginalmente problemático. Nada do caminho feito se perde. Dois autores, como divindades tutelares, acompanham-nos ao longo de toda a obra: Wittgenstein e Bachelard. Muitos outros são citados em abundância, como Barthes ou Arendt, também do campo da literatura, nomeadamente Clarice Lispector, Vergílio Ferreira e Robert Musil. Ressente-se, porém, uma ausência: Espinosa, o qual só é mencionado a certo ponto, e via Deleuze. Trata-se de uma omissão difícil de explicar: o filósofo serviria impecavelmente o projecto do autor.

O Atlas é atravessado por mil notas (o número redondo é o sinal mais explícito de um rigoroso trabalho de edição). Estas, quando não servem meramente para dar a indicação bibliográfica de um passo citado (há-os a mais, a nossa ver: algumas secções são canibalísticas em demasia), são usadas frequentemente para convocar obras literárias, apresentando a ficção como uma modalidade do pensamento (cf. Platão). Tais cruzamentos são do mais interessante que o Atlas oferece. O rodapé constitui um elemento que, como uma caixa de ressonância, amplifica o texto principal, encetando com este um diálogo próprio. O corpo de texto estabelece ainda uma relação privilegiada com as fotografias que o emolduram, da autoria d’Os Espacialistas. Estas afirmam a singularidade do livro, mais: constituem, em si mesmas, um conjunto passível de leitura autónoma. Tem-se exagerado esta dimensão, contudo: é rara a página em que a imagem não se liga ao texto, ainda que de maneira muito oblíqua, um pouco como as entradas na Biblioteca podiam surgir a partir de uma palavra apenas na obra do escritor. Um exemplo: a capa. Um homem segurando um círculo branco gigante: Atlas, o titã, carregando o mundo e dando o seu nome ao livro. As imagens, por sua vez, relacionam-se não só com o texto mas também com as legendas que GMT elaborou para elas e que, tantas vezes, corrigem o nosso olhar. Por fim, importa sublinhar a ligação entre o Atlas e a tese de doutoramento que lhe deu origem: apesar do facto ser referido em todas as recensões e entrevistas com o autor, falta ainda confrontar a dissertação com o livro publicado, exercício que proporcionará uma janela preciosa para o modus scribendi de GMT. Todas estas ligações, que combatem a fixação de um sentido para a obra pela multiplicação das possibilidades de relação entre as suas partes, não espantam num texto que é uma apologia insistente do emparelhamento exogâmico (se a metáfora não é violenta demais) de todas as realidades do mundo umas com as outras.

O livro, informa-nos a nota final, é dedicado a Bernardo Sassetti. «Gostávamos muito dele; faz muita falta». De uma simplicidade escandalosa, é dos mais intensos elogios fúnebres que conhecemos: na sua brevidade, diz tudo. Nada se lhe poderia juntar sem perda. Talvez seja o fragmento (podemos pensá-lo assim, macabro exemplo do estilo do autor na frase mais pessoal da obra, na concentração de discurso que alcança com palavras tão chãs) mais perturbador de todo o livro: um fragmento para outro fragmento.

 

João Diogo Loureiro

 

[1] Lembramo-nos de ouvir uma vez o escritor, há já uns anos, lamentar que tão poucas pessoas pegassem no seu A Perna Esquerda de Paris e…, confessando ser um livro pelo qual tinha um grande carinho. Sintomaticamente, é um dos nossos favoritos.

[2] O termo ‘lassidão’ não pretende ter aqui qualquer carga negativa; serve como simples substantivo para a qualidade do que é solto. É significativo que várias palavras para exprimir esta folga na articulação das coisas – frouxidão, liquidez – tenham um sentido pejorativo, traindo uma censura enterrada de tudo o que não é compacto e definido.

Ganhar na dura guerra

Vendeu a cama dos pais a um vizinho enrascado, ainda tentou impingir a mobília da cozinha e da sala a uns quantos, mas o que lhe ofereceram não valia o esforço do transporte. Não pegava no carro por causa do preço da gasosa, e na mota que lhe ia fazendo o jeito não cabiam armários ou mesas. Deu cabo da tralha com meia dúzia de machadadas e aviou-se de lenha para o inverno. Pesava-lhe a memória dos pais e do irmão acabados de enterrar. Preferia dormir ou comer no chão a servir-se de objectos que lhe sabiam a uma felicidade antiga que mais era uma ruminante tristeza que lhe tragava tudo, inclusive a dentição. Zanzar pela casa em que crescera com os papás e o mano levados pelo cancro. Como custava, céus. No pâncreas, os três. Os quatro, qualquer dia. A bola de gosma no peito e no pescoço. Habitar um espaço outrora resplandecente. Que dor. Os três internados no mesmo hospital, os três tísicos, os três enterrados lado a lado no mesmo cemitério. Em que dia é que acabara aquele verão quente e infinito, repleto de brincadeiras e de esperança? Um lugar já escavado para o quarto. Tinha fome. Vivia com fome desde que a fábrica abrira falência. O carro fazia menos falta do que comida. Com muitas notas na mão haveria maior margem de manobra para comprar bifes iguais aos que a mamã fazia. Quem tinha uma lambreta não carecia de mais, quem não almoçava todos os dias não necessitava de um carro, ainda que o apego ao dito carro fosse tal que desse para chorar ao imaginar o dia da sua venda. Matutar. O carro fazia menos falta do que uma mulher que soubesse algo a respeito de ponto cruz ou de frango assado no forno com batatinha. As peúgas rotas e sujas, tão sujas que se aguentavam de pé sem a ajuda dos pés. As peúgas dotadas de vida própria, animadas pelo sarro. Ou surro. Ou sarro. Sujidade na ponta das unhas. Uma mulher trazia organização. Prendadas, como dizia a velha. O corta-unhas do velho pai no mesmo armário da infância e, depois da passagem do machado, dentro de uma saca de serapilheira, dentro de gavetas em forma de tecido para homens com cara de homem mas com um interior de símio. Uma mulher organizada e respeitadora, que salvação seria encontrar disso. O machado fazia falta. Ainda mais falta do que uma mulher. Nunca o venderia. Nunca, nunca me afastarei de ti, minha jóia. De um machado não se prescinde. O machado protegia dos assaltantes. O machado derrubava árvores. O machado no meio do mato. O machado matava cavalos. Machado partir cavalos ao meio. Homem menos homem menos homem rachar cavalos de vizinho mau e assar cavalos no espeto, acartar o cavalo aos bocados na traseira da Famel, enterrar o focinho do cavalo no pinhal, que os olhos dos cavalos, credo, assemelham-se a espíritos e a mulheres, ou melhor, prostitutas mortas, prostitutas decapitadas, decepadas pelo mesmo metal, pelo machado, imaculado machado, legado do papá.

Sophie Hannah, O Bom Perdedor

Tradução de Hugo Pinto Santos

Retratei a tentação como um prazer.
Agora ele pode abster-se ou fraquejar.
O seu é um modo superior de perder
E o meu, uma espécie inferior de ganhar.
O sacrifício, e aquela restrição
Que aceita passarão por este debate intactos,
Pois o seu é um modo superior de ficção
E o meu uma espécie inferior dos factos.
Mostrei a faceta mais encantadora
E ele a menos, mas o jogo estranha, pois
Eu sou um tipo superior de criatura
E ele um tipo inferior de deus.
E se ele romper tudo comigo, abrupto
Dele é o livro cuja folha vou arrancar,
Pois o dele é um modo superior de luto
E o nosso um tão inferior tipo de pesar.


Sophie Hannah, Hotels like Houses, Carcanet Press, 1996

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Voo MH370

Escrevo sobre o desaparecimento do voo do Boeing 777 MH370 da Malaysia Airlines, começando por pedir desculpas, principalmente aos que sofrem pela putativa morte (passagem incompleta, sem luto) de familiares ou amigos, estejam seguros de que não se trata de um capricho crítico. Assumo também que não tenho informação privilegiada sobre o acontecimento, baseio-me na leitura matinal de alguns jornais do velho e novo continentes democráticos (nisto sou hegeliano: ver os jornais ao início do dia é a minha “oração matinal”. Embora haja milhares de quiosques digitais que disponibilizam notícias; bem  longe, pois, da antiga solenidade calma de um exemplar coerentemente preso a uma linha editorial, impresso em grandes folhas de papel, difíceis de dobrar para os neófitos, sujando as mãos de tinta... perdoem-me esta pequena nostalgia do analógico).

Devo também dizer que o acontecimento tem simultaneamente traços de tragédia e de fait divers. É trágico porque um castigo desproporcionado caiu como um raio maligno sobre os passageiros, familiares e amigos desse voo. É um fait divers porque absorve um conjunto de desejos, de medos, de mistérios que o senso comum projecta insistentemente sobre ele, tecendo conversas de café e aberturas vampirescas de telejornais. Além disso, numa espécie de terceiro excluído, deixou de ser possível fazer com ele uma notícia relativamente objectiva porque a sua actualidade/realidade resulta mais das projecções dos espectadores do que de uma consistência ontológica interna (a especulação mitológica sobrepôs-se às hipóteses factuáveis). Isto advém, bem entendido, do campo misterioso que o envolve (indelével mesmo quando, caso aconteça, se ilumine racionalmente).

Como adquiriu o voo MH370 estatuto de fait divers globalizado? O desaparecimento deste Boeing já não é um simples facto a quem faltam causas, mas um discurso infinito sobre causas possíveis, a maioria exaustivamente trabalhadas pela imaginação. Discurso alimentado por duas fontes: a) no paradoxal apagão de um objecto tão grande e tão conectado numa época onde tudo parece ser rastreado por tecnologias digitais de posicionamento; b) no fascinante incómodo pensar a forma como os passageiros viveram os minutos da queda até ao esmagamento (partindo do princípio que isso sucedeu). Um mergulho deste tipo permite viver o impensável: a previsão real, próxima, da morte. Pode até fazer-se um countdown com uma margem de erro inferior a um minuto.

Dentro destes dois territórios de sentido, ou de falta dele, situam-se outras perplexidades que adensam o enigma. A possibilidade de terem sido os pilotos a perpetrar o acidente – guardiões, comandantes quase omniscientes e omnipotentes – traz para o acontecimento uma linha de irracionalidade insustentável. Além disso, seria afinal a maldade humana e não um qualquer castigo icariano a causar o desastre. Há também as enigmáticas últimas palavras de um dos pilotos, desejando “boa noite”. Numa época em que nada parece poder escapar às tecnologias de geolocalização, este “boa noite”, indício suspeito de que se acredita na bondade da noite, das trevas, parece abrir para certas sagas trágicas.

Desaparecer dos radares, sem deixar rasto, um avião quase do tamanho de um campo de futebol, de todos os radares que saturam os comprimentos de onda comunicativos do mundo reagindo à mais pequena movimentação, constrói por si só um novo mito. E é a partir dos mitos que os paralogismos das teorias da conspiração, da fé mais desgarrada, da política demagógica dos semi-deuses totalitários, mas também da humanidade comum cansada de explicações, complexas mas irredutíveis, da ciência, se alimentam. Este mito, que ganhará força à medida que se prolongar o desaparecimento, veio resgatar parte do mundo de uma lógica causal que tem tanto de precisa quanto de fastidiosa, por vezes, muitas vezes, devido, paradoxalmente, à sua incapacidade de fazer sentido para uma grande parte da população.

Contra este desenvolvimento do mito, para conjurar o inexplicável, a fragilidade do humano e da sua tecnologia, atente-se na vontade de encontrar fragmentos tangíveis do acidente, para que se explique finalmente segundo as leis da física ou da psicologia o que parece inexplicável (também pelos familiares, mas isso é residual). Além disso, nesta época filotecnológica é preciso desfazer a possibilidade de algo tão grande passar por incógnito, escapar à vigilância das máquinas mais sofisticadas de sempre na coscuvilhice do planeta. Felizmente, diz alguém ao meu lado, que ainda há o “inconsciente”. Agora quase sem a Psicanálise para o monitorizar, para o bem e para o mal, parece termos regressado ao que o poeta romântico Eichendorff dizia: “Mas tu, livra-te de acordar o animal selvagem que dorme no teu peito, não se vá evadir de súbito e desfazer-te a ti próprio.” (Schloss Dürande).

Brincos do Sol

 O que só com as mãos pode ser soletrado / só nos teus olhos nos teus olhos escrito 
Mário Cesariny, Corpo Visível 
 
 

Enquanto um sol recém-nascido admira as suas mãos 
e descobre que elas são suas, 
O guizo, que agarra cada vez melhor 
com o polegar que se fecha: 
As mãos que percecionam o milagre são as mãos que fazem o milagre 
E o planeta ri-se com o riso cheio das mãos que nos expandem, 
Brincos de prata na memória solar 
 
Porque o planeta é a luz que dá no planeta, e a perfeição 
o campo mais amplo com que vemos aquilo a que viraríamos as costas 
 
Correm pequenos sóis debaixo da ponte 
onde um olhar líquido se veio banhar 
Pelo lóbulo da orelha, eles batem na folha que cai 
O veio desenhado na folha de prata, rasgada a meio 
e os brincos nas orelhas um pouco perfeitas
Eu quero que o coração ganhe sempre - 
Eu vou fazer com que o coração ganhe sempre, 
Há alguém que se ri para iluminar o planeta todo, 
para que ele ganhe 
 
Agora mesmo com os dedos que mergulham na fonte 
Acima, por trás, contornando as orelhas 
 mais fundo na fonte. - As mãos são uma onda 
Têm os dedos de menina, com que a luz contorna o planeta, 
levanta o trigo, eriça os cabelos, penteia as cidades, 
enche e pulsa no que toca, dá-nos o coração cheio . 
Um Sol recém nascido ri-se e os girassóis incham de prazer 
As sementes, que não aguentam mais um segundo, – irrompem, rasgam - Aparecem à 
superfície, como fios de cabelos novos, felizes: 
Prontos para nascer.