Ulla Hahn, Poema

                                                                                                                              [Tradução de Juliana Brina]

É difícil explicar que um poema
não possui objeto como um navio
os recipientes desse uma estação as flores dela
Indivisível como um número primo
Ele foge do tempo como você
e acaba
quando você deixa de escrever deixa
de ler quando você não se
lembra mais do que você acabou de ser
há apenas um instante
durante um momento durante uma palavra
rampa do cais flama poeira cometa
que assobia para um bando
de pequenos pássaros cantando longe
sobre nós      tudo afastado     nada tangível
nem mesmo preto no branco
No máximo uma caixa de pintura para crianças
espirrando água     presa
nessa Terra      anfitriã
sob a língua a confiança
calma e cega     Tocada
com seringas     dura como uma
brisa como         quando se toca um chapéu
Agora e acabou       Oh
você teme o fim do medo sem fim
que tudo se acabe até que se acabe tudo
enquanto escrevermos
enquanto lermos
não pode existir nenhum Todo      desde que você escreva
desde que você leia os outros apenas
morreram para você quando você o lê
quando você é completamente lido
acomodado sob um céu
desenfreado frutos caídos maçãs de setembro
o cru e o cozido
o vazio o silenciado o excesso
mãos e pés com sapatos e sem
homem e mulher com saudades
e sem sopa com cerveja       Aqui
e agora         diga o que você quiser o que
você quer      mais do que tudo     de volta e
para sempre            Nada acaba
quando você deixa de
ser        não é?            Inexistir não existe
no poema não existe e não existe na vida
Pegue das brasas a madeira       A ninguém
agradam as cinzas        Dê premissas a nomes
Dê nomes      Pequenos abrigos fundados sobre
o abismo           Toda a música vinda
do silêncio no ouvido de Beethoven

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A Paciência da Saudade

 - Os últimos sete dias de Leonel Palma? -

 De  P R S

Domingo,

Ainda não é hoje que me mato, está decidido. No próximo Domingo, talvez.

Esta semana é o fecho do mês, a empresa precisa de mim. Aproveito e vejo o jogo do Benfica esta madrugada. Sim, não faz sentido morrer hoje.

Extractos de uma das últimas páginas do meu diário, a oitava a contar do fim. O meu nome? Leonel Palma, o último português residente em Macau.

De facto, apenas residia. Não vivia, não desfrutava nem saboreava. Apenas dormia. Todos os dias apanhava o ferry para trabalhar em Hong Kong e voltava na mesma noite.

Os chineses ignoravam a minha existência e os portugueses tinham partido, sem avisar. Apenas tinha um amigo, em Hong Kong. Um enfermeiro no posto fronteiriço que verificava a minha temperatura com um medidor laser em forma de pistola. Dia após dia, apontava, sorria e disparava.

Tinha decidido morrer alguns anos antes. Num passeio em Macau, quando ainda havia portugueses, por um cemitério protestante. Uma frase na pedra: “Charles Principal, devoto apaixonado pelos prazeres da vida, vencedor de jogos de fortuna e um artista com fé inabalável. Morreu de disenteria num navio em 1818.”

Não protestei, percebi o que era mais importante. O meu legado na pedra, não a vida. Que frase me iria suceder? As paredes de minha casa estavam repletas de opções, nenhuma ainda completa. Talvez por isso ainda não tivesse morrido: palavras ausentes mantinham-me vivo.

Tenho uma semana, escrevo a frase e parto.

PS: Espero que o Benfica ganhe.

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SATORI

Tinha visto no horário qua havia um comboio Faro-Lagos às 14.37, eram 13.40, não esperaria nem uma hora. Pedi bilhete.  

É só às 16.17, viu mal, disse o homem. 

Comprei o bilhete e sentei-me, faltavam quase 3 horas e eu tinha uma mochila pesada e botas péssimas para andar. Eu aguento, vou sentar-me no cais em frente à ria e não me mexo. E tenho o livro. 

Quando estou em frente à ria Formosa alguma coisa acontece, é como se me enfiassem uma moeda  pela cabeça dentro:  dou um salto, tiro a máquina da mochila, atravesso a linha do comboio com tudo às costas  e desato  a tirar fotografias sem conseguir parar. Regresso mais calma e sento-me: abro o livro vermelho do budismo zen e psicanálise do T. Suzuki, Fromm e Martino. 

Está um dia lindo de outono, o sol brilha,  e brilha na água, e brilha na superfície metalizada dos comboios,  e também em cima das palavras do livro ofuscando os koan, os tao, os zen, os satori, os nada. Desisto. Olho a ria. Pego  no livro. Olho o relógio da estação, que não se mexe. Volto a pegar no livro, o outono transformou-se em primavera, as palavras saltam, apagam-se, passam-se as horas, a maré enche. Enche ou vaza?  

As pessoas falam e passam. São tão interessantes as pessoas, que sorte a minha:  quando eu cheguei ao mundo já cá estava tanta gente.  

As horas passam, o comboio chega à estação ainda muito antes da hora.  

Vou para lá, sento-me, reabro o livro. O sol entra pelos vidros, está tão quente, agora é verão. O calor amolece-me, não compreendo nada do que está escrito, poiso o livro, não deve ser desta que o consigo reler. Adeus taos, adeus satoris. Nem lê-los nem sê-los nem fazê-los. 

Começámos a andar, o verão aquece pela janela  e eu fecho os olhos. Quando os abro, reparo que perdi uma estação. Era uma estação sem importância, não devia sequer haver aquela estação no percurso. Abro o livro, mas já nem faço menção de olhar. É só abrir, arejar as páginas.  

O calor volta a envolver-me, fecho os olhos, de vez em quando abro-os e leio o nome das estações que vão ficando para trás. 

Quando acordo é quase noite, já fiz mais de metade da viagem. Olho para o livro, mas desta vez já só para a capa. 

Agarro-me ao livro e adormeço pela enésima vez. 

Quando volto a acordar estou na estação de chegada.  Lá fora é noite, parece inverno. Não está ninguém na carruagem, nem o revisor para anunciar Lagos. Nada. Pego na minha tralha, no livro e abro a porta. Um vento gelado bate-me com força no rosto. Desço devagar, custa-me bastante de tão trôpega que estou. Não está ninguém na plataforma.  

Uma noite de inverno, fria e escura, e ninguém à minha espera. 

Rememoro o dia: era outono quando perdi em Faro o comboio que nunca houve, depois primavera e verão, e agora inverno. 

Passou-se um ano? Pode muito bem ser que sim, não faz mal; um ano, apesar de muito, não é nada. Mas porque não está ninguém na estação à minha espera? Porque ando tão devagar e me sinto tão cansada?  

De repente uns dedos invisíveis apertam-me a garganta, o coração dispara, falta-me o ar. 

Na medida do que me é possível, acelero o passo à procura de uma superfície espelhada.