Epítome

Ela tem a idade das flores
e o vermelho dos dias
e o azul dos ventos

e todas as esquinas param
quando eu a vejo.

Nunca reconheci as distâncias
entre os tempos, nem fui ao mar
depois que minha consciência
se firmou sem as rodinhas;

Mas tenho praticado com afinco
a observação dos postes e suas luzes,
do amor das árvores com os fios de energia,
da luxúria de cada janela e da interminável
solidão das construções no horizonte
da cidade.

Tenho corrido com esses pés de pato
através deste lamaçal que é o agora.

Num instante, ainda a chegar,
a abrangência das portas assumirá
um caráter mítico
e tudo que tenho dito fará sentido
– e, então, será esquecido.

 

[ver perfil de Victor Prado]

Um figurante de poeta

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Quem não tem vergonha, todo o mundo é seu

- Provérbio

 

Em proveta idade garatujou o mancebo os primeiros versinhos. A mãe gabou-lhe o talento, a fama medrou e as deslumbradas meninas do subúrbio desataram a suspirar à passagem de tão esbelta e talentosa figura. Nos primeiros anos de liceu, apercebeu-se de que o título de engraçadinho da turma não advinha de uma mera capacidade de fazer mofa dos amigos. A cada nova chalaça se espantava por ter nascido dotado de um incomum sentido crítico que fundia comédia e filosofia. Entrou no tempo das borbulhas ciente de que dos seus talentos nada de frutuoso resultaria em termos intelectuais, e desde logo se afastou de uma luta que não sentia sua, a luta pelo mérito, lexema que abominava ou, para recorrer ao seu jargão, com que não se identificava. Ao mesmo tempo que se furtava a uma competição inglória, que só sorria aos predestinados ou aos que torravam o bestunto com estudos forçados, seguiu caminhos por desbravar. Foi dos primeiros, e quiçá dos únicos, alunos a pintarem o cabelo de louro claro. Raros seguidores seus enrolavam o cigarro com semelhante magnificência. Perto do final do 9º ano de escolaridade, bateu-se como um D. Quixote pela mais nobre das causas: espancar o maligno e curto de vistas professor que ameaçava com um chumbo a sua progressão na carreira estudantil. Momento áureo deste herói ocorreu volvidos escassos dias do seu décimo sexto aniversário, ao arrastar para o covil (o quarto dos pais, entenda-se) a Marília do 11º A, doutorada nas artes carnais, que lhe rapinou a virgindade com um profissionalismo de assalariada. A unânime admiração da estudantada por este cavalheiro adensou-se na enevoada manhã em que irrompeu na secundária munido de valioso despojo de guerra: as cuecas da Marília.

De vitória em vitória encheu o guerreiro o bucho. Ainda não acabara de ler o primeiro livro e já assinava como poeta. Custou-lhe menos publicar a primeira recolha de poemas do que escrever, actividade a que, por causa das garinas que se lhe prendiam às barbichas, se dedicava em invernos em que o sol não se mostrava. Amado por seus pares, esgotou sem esforço a primeira edição da dita recolha. Crítico consagrado, imune à inteligência, dirigiu-lhe panegírico no jornal em que semanalmente os seus urros eram dados à estampa. “Diamante por lapidar”, “pedrada no charco”, “escrita magnética”, estas e outras expressões, que escriba sensato se deve opor a registar, engrandeceram a dignidade de um ser humano cujo principal feito, ao olhar de quem está de fora, consistia em ser autor de versos que, desde os seis anos de idade, o tempo deixara iguais. Ao avistar antigos colegas de turma, o jovem, até aos cinquenta anos jovem, esboçava sorrisinho trocista. Que importava que fossem médicos, advogados, que ganhassem ordenados avultados, se era um poeta semi-famoso que, volta e meia, aparecia no suplemento cultural? Até o convidavam para declamar poesia da sua cepa nos mais cavernosos bares da capital. Alcançou a consagração antes dos trinta e cinco anos, não com prémios literários distribuídos ao acaso por juntas de freguesia, nem com a publicação de qualquer obra-prima que eclipsasse a famélica maralha literária que se alimentava de tremoços e imperiais. O estrelato aterrou-lhe em cima ao conquistar um papel como figurante de poeta num filme sobre escritores marginais, rodado por realizador estrangeiro no mais típico bairro lisboeta.  

Crítica Literária: o vazio

Nota prévia

Este texto parte dos seguintes pressupostos: é função do crítico literário regular o mercado literário; o crítico literário falha nessa sua função e é uma espécie de Banco de Portugal.

 

1.

Em Portugal poucos são os verdadeiros críticos literários. A maior parte das vezes ou são poetas ou romancistas a “exercer”. O crítico literário, em Portugal, é um conceito híbrido. Claro que pedir que um crítico literário seja apenas crítico literário, é pedir muito num país tão pequeno (em todos os sentidos) como o nosso.

Não podemos esquecer, ainda, a vertente mercantil e economicista da questão, que muito poderá condicionar a imparcialidade de quem escreve. Assim, seria interessante um estudo que procurasse encontrar uma possível relação entre as críticas literárias feitas e os respectivos críticos literários que as escreveram, pois muitas vezes estes últimos estão associados a revistas e jornais que pertencem a grandes sociedades, que, por sua vez, são detentoras de parte das editoras que publicam os livros que os críticos literários “criticam”.

No entanto, também não podemos esquecer que a crítica – e nela incluída a literária – nunca foi muito bem vista no nosso país. A crítica literária – quando é a sério – nunca é vista como crítica: ou é ataque pessoal ou bajulação.

 

2.

Mas, qual o real impacto da crítica literária?

Penso que a crítica literária tem muito pouco impacto, pois poucos são aqueles que, realmente, lêem crítica literária. Ela poderá, uma ou outra vez, suscitar uma ou outra polémica, pois o visado pelo texto do crítico pode não apreciar muito aquilo que leu. É claro que isso acontece muito poucas vezes (pelo menos com o conhecimento geral do público).

Na realidade, o crítico literário tem algo que me atrevo a designar de poder-nulo, isto é, o crítico literário não tem qualquer poder sobre as reais decisões do leitor. O seu “poder” está limitado a um grupo restrito (muitas vezes composto por amigos ou conhecidos com quem se partilham afinidades), o que torna esse “poder” vazio de qualquer conteúdo. Se o “poder” do crítico literário fosse real, se tal acontecesse, os “tops” de vendas seriam compostos por livros completamente diferentes daqueles que encontramos numa qualquer livraria generalista.

Os livros mais vendidos não são aqueles que foram objecto de uma crítica literária positiva ou negativa (não podemos esquecer que uma crítica literária negativa pode gerar um aumento nas vendas de um livro), mas sim de uma campanha de marketing agressiva, com ofertas absurdas ao leitor. A crítica literária foi substituída por capas de livros vistosas, sinopses apelativas.

Actualmente, a “crítica literária” não tem qualquer valor intrínseco: antes extrínseco. Ela serve apenas para encher colunas de jornais e páginas de revistas com o pedantismo – e em certos casos com a ignorância – de alguns críticos ditos literários.

 

3.

Há, ainda, o relativo consenso em torno dos livros que são alvo de crítica literária. Parece que nenhum crítico literário quer ferir susceptibilidades. A título de exemplo – e falando do caso português –, os livros de António Lobo Antunes. Poucos são os críticos literários que “arriscam” uma crítica negativa a um livro de António Lobo Antunes. Recentemente, penso que só Pedro Mexia o fez. Alguém curioso pode verificar o que digo: basta numa livraria folhear, com alguma atenção, o livro António Lobo Antunes: A Crítica da Imprensa.

Outro caso paradigmático é o de Pedro Chagas Freitas. No caso deste autor a questão é ainda mais complexa: nenhum dos seus livros reúne o consenso da dita intelligentsia literária, no entanto, todos os seus livros têm reedições sucessivas, encontram-se em todo o lado, e é raro (ou até impossível) encontrar uma crítica na chamada imprensa generalizada (não deixa de ser curioso que o próprio autor já disso se queixou).

Atrevo-me a dizer que falta alguma “honestidade intelectual” (expressão que abomino, mas que, neste caso, tenho de utilizar) à crítica literária portuguesa. Novamente, e a título de exemplo, o livro 2666 de Roberto Bolaño. O consenso generalizado em torno desta obra de Bolaño roçou o ridículo. Num texto publicado a 31 de Outubro de 2009 (no blogue Antologia do Esquecimento), Henrique Manuel Bento Fialho dá conta da lamentável revisão a que o livro de Bolaño foi sujeito. Não me lembro de ler a nenhum crítico literário “encartado” uma referência em relação a isso. Muito pelo contrário. E, daí, talvez se entenda o silêncio.

 

4.

A bem da verdade, actualmente, a crítica literária em Portugal não existe, porque não é praticada. Falta-lhe algo fundamental: o contraditório.

 

[ver perfil de manuel a. domingos]

“a melodia do olho”

nicholas ray fazendo a barba com barbeador elétrico
na cama com a bunda de fora
na limousine vestido de paletó e gravata
nicholas ray tossindo no silêncio da noite
nicholas ray calado no cinema durante dez anos
nicholas ray morrendo de câncer
e fumando diante das câmeras
nicholas ray o sujeito que escreveu
experimentar a morte sem morrer
me parecia um objetivo natural

nicholas ray cujas imagens
da errância revelam por um instante
à razão de 24 fotogramas por segundo
quantos passos em chamas uma existência
caminha ao longo de uma vida
nicholas ray fazendo da ordem
"go ahead, cut"
suas últimas palavras
o gesto poético derradeiro
de quem sempre doou ao mundo
a melodia incerta e certeira
de seu único olho nicholas ray
um homem que sempre filmou
à altura da vida
e que se deixou filmar
à altura da morte

aos 28

Sobrevivi aos perigosos 27.
Agora sei que não sou um rockstar pra história
e muito pouco mais que isso.

Sei que quando nasci
meu pai ainda não contava 28
e não fazia ideia que iria além.

Que aos 28 Eisenstein já tinha o Potemkin,
Pelé marcado uns mil gols
e Don Juan perdido as contas dos seus.

Que aos 28 Peter Pan ainda era uma criança,
George Harrison estava fora dos Beatles
e Rimbaud se estrepando na África.

Sei que aos 28 Robert & Kurt & Amy
& Lautréamont & Jimi & Janis & outros colossais
já não estavam mais,

mas eu estou aqui
e sei que as noites continuaram sendo noites
e muito pouco mais que isso.

[Ver perfil de Cesare Rodrigues]