Sinéad Morrissey, Baltimore

tradução de José Manuel Teixeira da Silva

Noutros barulhos, ouço os meus filhos a chorar –
em crianças mais velhas que brincam na rua
fora de horas, nessas vozes que vêm
em luzes incertas; ou no bebé
aqui mesmo ao lado, através de paredes frágeis,
sem sono e rabugento; ou no sempre tão
estranho asfalto de Westside Baltimore
em The Wire, nas sirenes e súbitos tiroteios,
nos guardas cercados e a insultar garotos
que não têm mais de seis anos e apoiam
dealers pelas esquinas, na sua bazófia,
nas inflamadas palavras; ou então nos espaços em branco
entre as estações de rádio, quando nenhuma voz
nos chega e o crepitar eléctrico
talvez abafe o surdo apelo
de uma criança; até no próprio silêncio,
se densamente retém e abraça
o fantasma de um grito que imaginei, mas senti,
e que me surpreende ao subir as escadas, suspenso
no hall, ouvindo-o, distintamente o ouvindo,
quando muito uma ritmada respiração,
mas quase sempre um nada de nada, aragem
do patamar cheia de coisas perdidas,
legendas de pó, estendais com cobertores, um barco
no Lough através da janela, um sono de criança.

 

 Sinéad Morrissey  (Irlanda, 1972), Parallax, Carcanet, Manchester, 2013

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Na minha dor que corre

 Um homem tenta conhecer-se.

 Um homem tenta conhecer-se.

Pavorosos foram estes meses em que, imerso em analgésicos e aflito por não debelar uma contínua sensação de fraqueza, representei o papel de fantasma solitário a zanzar pela cidade enxameada de turistas. O médico prescreveu-me exercício físico, descanso, vitaminas e, o mais importante, felicidade, ou melhor, momentos de prazer e alegria, como os proporcionados pelo acasalamento ou pelas bebedeiras entre amigos. Se do exercício resultaram entorses, distensões e uma perna partida, do resto sobram imagens retalhadas em que eu, centro deste drama sem conteúdo, surjo estendido na cama, agarrado a sacos de gelo, ligaduras e a chávenas de chá de limão com mel. Recolhido ao leito na esperança de desligar durante seis ou sete ininterruptas horas, de renascer no dia seguinte, deste modo passei parte do meu verão, deste longuíssimo inferno começado em abril e ainda não terminado. Comenta uma vizinha viúva que nos habituamos a qualquer coisa, desde a morte das pessoas amadas à doença. Acostumamo-nos a ser corpo presente, arrastamo-nos para o interior do atufado eléctrico, indiferentes às apalpadelas dos carteiristas, aos encontrões de matulões alemães ou aos insultos disparados por senhoras reformadas, convencidas de que, sob a égide do Professor Doutor Oliveira Salazar, a pátria respirava civilidade. Até o coxo se habitua a ser coxo, garante a viúva, esquecida do seu choro nocturno, dos seus histéricos protestos contra o triste suicídio por enforcamento do marido. Ontem a febre e a perda de olfacto, hoje os desmaios e a vista turva. Amanhã o quê?, pergunta-se o homem sufocado por dores inesperadas, a cada manhã renovadas, como se ao questionar a sua situação fosse escutado por uma entidade maior, paternal, dotada do poder de acabar com as patifarias perpetradas por uma natureza injusta. Que será de mim amanhã?  Maldizendo a existência, arrependido de ter fomentado a ambição de contrariar um destino desde sempre agressivo, que farei para além de me focar na amargura? Acomode-se ao padecimento, nota a viúva, antes de um suspiro que acentua o carácter fatalista do seu pensar.  Semanas a fio de desatino e ansiedade despencaram numa incapacidade de reagir. Assuma-se coxo, assuma que pelo menos da alma coxeia, aconselha a viúva, desgrenhada, sempre montada no seu pijama. Enfurecido contra este destino em que por momentos acreditei, farto das frases desconexas caídas em cadernos deixados no caixote do lixo, sento-me com o intuito de escrever algo mais longo e compacto, algo com principio e fim. Abraço o dicionário, como se estivesse a abraçar a língua perdida, como se me abraçasse a mim mesmo, e garatujo, contente por ainda não ter morrido, um monte de palavras mal alinhadas, um texto defeituoso, o texto que aqui se apresenta, e respiro, aliviado, não por me ter libertado da dor. Por me reaproximar das fantasias que para mim criei.  

 

As coisas em letra garrafal

Daquela vez, a noite tinha descido com golpes de calor e eu logo lhe estranhei a desordem. É suposto as noites serem frias e desertas, um pouco duras e quase sempre dirigidas a Norte. Lembrei-me então desse tempo meio embaraçado, sem idade, as coisas de letra garrafal que a vida dá e a vida tira.

Nunca lhe vi o futuro, ele era constantemente urgente e intraduzível, aos arranques, mas eu pensava que o futuro se fazia assim, uma camada sobre outra camada, por vezes à revelia da ordem, por vezes a direito. Tinha organizado o mundo em conceitos: havia os conceitos e havia os não-conceitos, havia o céu e havia o chão, o longe e o perto, e por adiante. Debatia-me desde sempre com os a-conceitos, o berro da proximidade - tinha jeito para esses, essa biografia de ponto e sem nome, às vezes sem propriedade sequer. Que dizer? Era o hábito, essas regras de cabelo farto. Aprendi depois que há muitas outras regras – há o futuro, o presente e até ausências de futuro que podem viver continuamente em tempo presente.

Nunca lhe perguntei o que pensava sobre isso. Remexia no café, parava e via-lhe os olhos curtos e cansados, talvez pelo cheiro das coisas esquecidas, e, no entanto reconhecia-lhe a razão em dar significado a essas regras que não conhecia.

Aprendi-lhe o gosto de ir sem certeza de nada, já a Clarice dizia que certeza certeza só mesmo a dos amigos do peito. Às quartas comentávamos todos juntos e entre o travo da cerveja que há pressa nas vozes dos outros, matemática, até tecnologia em tudo o que devia vir da boca (E se for para ser irónica que o seja, que é pois o mundo?) O professor cedia ao silêncio logo após uns minutos e via-se que ficava a tricota-lo, como se a cidade que tinha escolhido para amar os estudantes lhe doesse um bocado. (Penso que era mais isto de estarmos em expansão, temos este aspecto meio inesperado e ansioso apesar da fotografia só captar algumas partes; entretanto há coisas que faltam, elas também em letras garrafais, sem que artista nenhum tenha conseguido esboçar bem. Da forma da falta, será quadrada, cilíndrica, em perpendicular?) Depois regressava da sonolência e re-embrenhava no ritmo.

Parecia que tinha saído de uma rua e voltava noutra mas no fundo sabia que nunca se sai das mesmas ruas, dão-se umas voltas e depois regressa-se ao mesmo, só que se está mais preparado para as aceitar. 

 

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Nicanor Parra, «A montanha russa» e «Três poesias»

Tradução de Bruno Ministro

A MONTANHA RUSSA


Durante meio século
A poesia foi
O paraíso do tonto solene.
Até que vim eu
E me instalei com a minha montanha russa.

Subam, se vos apetecer.
Claro que eu não me responsabilizo se saírem
A deitar sangue da boca e do nariz.

 

De Versos de Salón (1962)

 

TRÊS POESIAS

 

1

Já nada me resta para dizer
Tudo o que tinha a dizer
Já foi dito não sei quantas vezes.


2

Perguntei não sei quantas vezes
Mas ninguém responde às minhas perguntas.
É absolutamente necessário
Que o abismo responda de uma vez
Porque já vai sobrando pouco tempo.


3

Só uma coisa é clara:
Que a carne se enche de larvas.

 

De Versos de Salón (1962)

 

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