una forma de arder, 6

Santoral I. Santa Águeda.

He visto la Catania subterránea como un gigantesco hormiguero cuyas galerías son vidrieras llenas de imágenes de amputación, martirio y canibalismo. He visto coros de vírgenes con espinas en las trenzas desfilando cada cinco de Febrero hasta las fauces de la madre Etna y arrojando sus pezones dentro, borrachas de péptidos opioides, cantarinas, modificando sus cuerpos sobre pedregales, alcanzando la virtud con técnicas de herrería básica.

Ruega por ellas, hermana mayor, Santa Águeda bendita, desciende chorreante de entre las nubes y ejecuta la danza de las brasas, todos los eriales deben arder, todas las mujeres deben bailar, la expiación glandular y la oración nefasta que adorna los bordados de las santas estolas inspirará templos futuros. El secreto de la fe reside en el dolor soportado y en la originalidad del castigo autoinflingido. Sonríen los rostros de ojos arrancados y agitan sus manos caóticas como recibiendo algún tipo de bautismo esquizofrénico. Sonríen los desdentados y sus infecciones son apariciones en cavernas blandas. Sonríen los leprosos y los endemoniados, las lapidadas y los que profanan altares.

Santa Águeda bendita (ora pro nobis) transforma el cielo sobre el volcán en un decorado de Hermann Warm y repite para nosotras el número de la mastectomía, alimenta nuestra enfermedad y acaricia nuestras llagas con las uñas. Y que caiga después el sulfuro sobre los campos e inunde las cloacas con sus vapores verdes. Y llegue todo ese dolor hasta el Mar Jónico y se extienda como un carcinoma óseo por todo puerto milenario. Y púdrase la civilización. Y reines para siempre en tu trono cenobita. Y quede eternamente sepultada la idea de la abundancia.

Alex Portero


Álex Portero (Madrid, 1978). Compagina actividad literaria y artes escénicas. Ha escrito la novela Música Silenciosa, y los  poemarios: Fantasmas, Irredento y La próxima tormenta. Participó con un relato en la antología El Descrédito: viajes narrativos en torno a Louis-Ferdinad Céline y escribió el epílogo de La revuelta del pueblo cucaracha, novela autobiográfica del activista chicano Oscar Zeta Acosta. Sus artículos han aparecido medios como Kokoro, Ángulo Muerto, o El Estado Mental, en cuya radio co-presenta el programa de humor Pompa y Circunstancia.

Forma parte de la compañía teatral STRIGA, donde realiza funciones de dirección escénica, dramaturgia e interpretación. Mantiene el blog Jugando entre las ruinas (www.alexportero.com).

una forma de arder é uma selecção de poetas e autores espanhóis, ao cuidado de María Mercromina. Alex Portero é o sexto autor da série. 

Αντωνία Ευγενία Βάρνταλος que significa

Αντωνία Ευγενία Βάρνταλος
  que significa

Plumas Ao Invés de Sovaco




não deixe o gato dormir!
fale baixo

eu adorava
pelo teu dedo
tocar o muro
sentir as cifras contar as brotoejas de cimento
os palácios em pingos concretos
o nariz de Andonía Evguenía Várdalos
agora sou nojo e nojo
sou o tipo de nojo encrustado no olhar
das mulheres com o nojo do sexo com legumes

não deixe o gato dormir!

adorava tocar gaita mesmo sem saber
adorava
sem saber os buracos
minha saliva ácida
fazer barulho com tudo isso
pelo teu dedo tocar
sou um nojo agora
sem saber
adorava

não deixe o gato dormir!

adorava
por todas as plumas
um bicho de plumas perto do teu hálito

fale baixo perto de mim sopre saliva nas plumas
na boca da raposa com bicho de plumas dentro
fale baixo perto de mim sopre saliva eu sou um nojo

adorava ver as plumas do nariz de Nia no quadril da garçonete
uh
traga aqui esse quadril com o meu pratinho de pastel quente
o corpo quente desse take é meu só meu só meu

soprar plumas pelo nariz do pastel
pelo teu dedo soprar


era uma cidade pequena gelada e nossa
minha e tua
da Nia
o muro uma ruína você gritava não
tudo é ruína
não deixe o gato dormir!

agora eu sou um nojo
brotoejas de cimento
os palácios em pingos concretos
o trovão
não o queixo por sob
o nariz de
Andonía Evguenía Várdalos
agora não

agora sou nojo e nojo
sou o tipo de nojo encrustado no legume que lambe o quadril do meu take quente

venha aqui
aqui aqui pardalzinho besta

não deixe o gato dormir
não deixe a cidade te arranhar na saída
marinheirinha feia

não deixe nunca esse uniforme que diz plumas e mia mornuras
no muro
uma ruína
pelo teu dedo
uma ruína

Ele entrou no quarto a pedido dela. Apontou os olhos aos quadros, poucos, que revestiam as paredes. Uma velha fotografia reteve-lhe mais o olhar concentrado e metódico. Ela arrumava a mesa-de-cabeceira como sempre fazia antes de se deitar. Tal como a sua cabeça, não tardaria a encher-se de tralhas dispersas. Ele percebeu que ela passava as mãos pelo lençol, arrumando a cama sempre desalinhada. A cama e a mesa-de-cabeceira resumem o seu quotidiano; restos de horas passadas: telemóveis, copos de iogurte, revistas especializadas nas pobres vidas de famosos ricos, alguns medicamentos que esses patetas-alegres também tomariam para não deixarem de o ser.

Ele sentou-se na cama. Ouvia-se o mar disse ela. Ele não conseguia ouvir; apenas o rumor agudigrave que tinha armazenado na cabeça. Uma luz ténue de candeeiro criou sombras familiares. Viu-a reflectida no espelho alto no canto do quarto. Preparava-se para se despir. Ela disse qualquer coisa que ele não percebeu. A cegarrega que tinha na cabeça ensimesmava-o ainda mais. Depositou interesse num livro em formato de calhamaço. Pesou-o com a mão e lembrou-se de Adília a fazer o mesmo na TV. Oitocentos gramas de lixo para consumo de leitores que nunca o seriam. As palavras não deviam acumular-se em lixo. Quem o faz é um criminoso com lixo na cabeça. Palavras.

Ela não lera nem uma página. Perguntou-lhe se ele se importava que ela se despisse à frente dele. Ele acenou que não com a cabeça e disse qualquer coisa que indiciava a banalidade do gesto. Ele olhou para o livro, escusando-se a ver os seios pendurados pela força anti-gravítica dos braços esticados que, com dificuldade, faziam passar a cabeça pelo buraco da t-shirt. Ela não se importaria se ele olhasse. Ele lia um parágrafo ao calhar e concentrava-se no ruído que a sua cabeça sintonizava. Ruído e lixo. Ela perguntou-lhe se ele podia ler-lhe umas páginas. Gostava de o ouvir ler. Sentia-se levada pela voz grave, de tom ligeiramente sarcástico. A voz penetrava-a como uma droga. Ria como uma criança quando ele exagerava a entoação de um trecho mais humorístico. Entrou na cama. Ele adivinhava-lhe a camisa de dormir a subir pelas pernas acima e ela a compô-la com a destreza do costume. Ele sorriu-lhe. Ela também. Um sorriso de miúda feliz. Ele gostava mesmo daquele sorriso amplo e disponível. Ela fechou os olhos para ouvir melhor. Duas páginas depois e ela já tinha sido tomada pelo sono. Ele deu-lhe dois beijos na face quase repleta de fios compridos de cabelo. Terminou a leitura. Ficou um bocado a olhar para ela. As minúsculas crateras de acne exageradas pela sombra. O nariz amplo mas não desfigurante. O rosto esculpido. O sono ainda ia leve; ela estendeu-lhe a mão em busca de segurança. A âncora buscando o fundo. Ele deu-lhe mais alguns beijos na cara num gesto de incontrolável carinho. Os lábios dela moveram-se, como que retribuindo. Ele mexeu-se para se ir embora. Ela não deixou. A âncora tinha sido lançada; não queria voltar ao mar revolto. Puxou-lhe a mão e encostou-a a si; junto do seio carnudo e quente. Ele sentiu-o não indiferentemente. Beijou-a de novo. Sentia a rigidez provocada pelo corpo dela. Quase adormeceu. Quando viu que Morfeu já a tinha levado consigo nos braços, ergueu-se com cuidado para que ele não a deixasse cair. Sentiu uma humidade desconfortável. Aproximou os lábios do rosto dela. Beijou-a. Lembrou-se dos acordes de uma canção de embalar. Trauteou-a mentalmente. Moveu-se com passos moles de ladrão. Abriu a porta da rua, desceu as escadas e saiu do prédio. Parou para ouvir o mar e sentiu a humidade salgada nos lábios. Olhou para a janela do quarto de onde saíra, e penetrou na noite.

O som e a fúria

 Ao Tiago, amigo-irmão 

 

Como é geralmente considerado, Thomas Hobbes descreve o estado natural do Homem como um todos contra todos apenas apaziguado por um estado-leviatã, i.e., despótico ou, pelo menos, consideravelmente dominador. A descrença, vista como realística porque provada, justifica a inibição. Assim, contradizer a resignação será um fracasso, e a liberdade acaba por fatalmente dar lugar à mortificação do temperamento. Deste modo, o empirismo de Hobbes contextualiza e pressupõe a paralisia que é, scricto sensu, a ausência de movimento ou de gesto. 

Ora, Eleutheria (λευθερία), étimo da palavra “liberdade”, era para os gregos a liberdade de movimento, recusa de restrições que pretendessem manietar ou prender, literalmente, o corpo. Era também outra das denominações da deusa Ártemis. Claro está que o estado-natureza hobbesiano não prevê, menos ainda preconiza, o cativeiro; porém, como bem se nota, assenta namenorização emocional/emotiva, desligando o humano ao torná-lo encerrado, incomunicável. 

Concretamente, a dança era na Antiga Grécia não um mero vector, mas uma instância privilegiada de ligação ao patamar do imortal, ou seja, ao divino, como atestam as Leis platónicas. Os ritos iniciáticos dos deuses constituíam-se em grande medida dançando – Elêusis, Bacantes, etc. Aí a harmonia estabelecia-se pelo contacto humano, irredutível expressão a-temporal: a dança recusaria o apartar hobbesiano, por exemplo. A mutilação regenera-se e a propensão bélica inata ao ser humano não tem cabimento graças à convergência com a alteridade. 

A potente controversão de um qualquer estado de hostilidade latente só é possível graças a um compromisso intransigente de respeito pelo Outro. O ser diferente, entendido enquanto parte integrante daquela coerência na dissonância que se demarca do unanimismo a-crítico, só pode favorecer a criação do que é realmente novo. É por isso que o Lux Frágil, desde 1998, (re)afirma realmente um dos desejos mais eminentemente endógenos do ser humano: esse privilégio individual, mas não individualista, que é a liberdade. Para uns poderá ser catárctico, para outros paliativo; para mim o Lux é bem mais do que isso: é um encontro directo e vivo com a liberdade, essa que rejeita liminarmente anarquia e dogma. Ali, o salto é o que a entrega pressupõe, i.e., o desencadear do movimento, a negação do gueto. Nos espaços denominados de “diversão nocturna”, a vulgaridade e a mesmice não têm de ser uma inevitabilidade, muito menos um modelo que crie cópia e descendência. 

Desse modo, o Lux reivindica o singular numa aprendizagem através do incerto: o mundo em vez de qualquer promessa de paraíso. O ritmo proveniente das linhas de fuga melódicas e visuais, a dança que é simples dádiva sem interpretação, fúria que é indisponível modo de experimentar. Como no verso de Herberto Helder: “Não se pode tocar na dança.” 

Hugo Milhanas Machado, Supertubos: poemas 2005-2015

Hugo Milhanas Machado
Supertubos
Poemas 2005-2015

prefácio de Rui Alberto Costa
poesia
 

Enfermaria 6, Lisboa,
janeiro de 2016, 114 pp.
Capa de João Alves Ferreira a partir de um desenho de Patrícia Lino

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Hugo Milhanas Machado (Lisboa, 1984). Docente do Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, na Cátedra de Estudos Portugueses da Universidad de Salamanca. Doutoramento em Filologia pela mesma universidade (2015). Dirige o Laboratório Performativo de Língua Portuguesa de Salamanca (LAPELIPOSA). Mantém a coluna mensal «Perder canciones» na revista de musicologia Síneris (Madrid) e o programa semanal Historias de la música portuguesa na Radio Universidad de Salamanca. Ciclista amateur La Biciteca | Bicio Racing Team.