Em breve
/Tatiana Faia, São Luís dos Portugueses em Chamas e outros textos
Capa: João Alves Ferreira
«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
Tatiana Faia, São Luís dos Portugueses em Chamas e outros textos
Capa: João Alves Ferreira
Cassandra Jordão entrevista Lídia D.
Resolvi procurar os conselhos de Lídia D. porque entendo que a minha ligação contractual à Enfermaria 6 apresenta algumas deficiências espirituais. Estas deficiências espirituais manifestam-se sobretudo ao nível de me serem confiadas tarefas assaz mecânicas (como por exemplo, ter de juntar os versos de poetas que nos enviam poemas mal formatados através de horas de pressão continuada de uma combinação das teclas de caps lock e enter) que, no entanto, não são mecânicas o suficiente para que o cansaço me tire a vontade de espiolhar as páginas do Facebook dos autores nacionais. Juntámo-nos para falar do fenómeno que Lídia D. apelida de banalização da escrita.
O que é banalização da escrita?
Olhe, você conhece aquela marca de cerveja, a BrewDog? Aquilo é um bando de gente que sabia muito de cerveja e dormia no sofá em casa dos pais, que agora vendem muito mas ainda não têm um departamento de marketing porque se divertem a escandalizar as pessoas de uma maneira mais ou menos terrorista. Fazem umas quantas declarações bombásticas para vender mais umas cervejas, no fundo não oferecem nada que você não possa beber noutro lado, mas no fim é tudo sobre a cerveja. A primeira parte da minha descrição da BrewDog existe no mesmo espectro de fenómenos que levam à banalização da escrita. A BrewDog é um fenómeno mediático de gosto discutível, que gera muito barulho numa tentativa de chamar a atenção sobre si própria. A segunda parte é a descrição de uma arte, porque é a descrição de uma paixão, você é bom numa coisa e só existe aquilo, e toda a sua vida está construída ao redor dessa coisa, e tudo o resto é uma impaciência chata que você atura com tristeza até chegar ao momento de se ver sozinho com o seu trabalho, o que não significa que você seja o Dostoievsky naquilo que faz. As pessoas bebem a BrewDog em parte porque intuem esse lado mais profundo do ofício de fazer cerveja, que os brewers da BrewDog são de facto brewers e não apenas figurantes de brewers a quem a cerveja importa bem menos do que a publicidade. Você pode amar escrever e ser um autor menor e ser bom na sua menoridade. A crítica nacional aprecia mal ou não sabe apreciar esse intervalo dos autores menores e eu acho que isto tem banalizado uma série de discursos em tornos do acto de ler e escrever, expressos em críticas formulaicas que banalizam escritores e leitores. O Borges tem um poema sobre autores menores, em que diz que a meta para um escritor é o esquecimento, e aquele que é menor é o que chega antes disso. Digamos que um Rilke e um Celan, para mim, não se confundem com um Zweig, mas que sinto uma certa felicidade de saber que tenho umas quantas páginas de Zweig à minha espera num lugar qualquer e não sinto que tenha perdido o meu tempo ou tenha sido enganada ao lê-lo. A banalização da escrita é você ler o jornal e ficar com a impressão de que um país de dez milhões produz um facto literário da dimensão do Guerra e Paz de duas em duas semanas, é a confusão da crítica literária com um discurso normativo em torno dessa arte complexa que é a literatura, a confusão da tarefa do crítico com a da criação do cânone, e a outra confusão a cheirar a caruncho que se esconde atrás dessas, que é a noção do génio iluminado que só pode ser reconhecido por dois ou três críticos mais avisados, coisas que normalmente são descritas na ordem do segredo bombástico que explode na mão. Se alguma coisa me vai explodir na mão eu prefiro que não me avisem, porque ao fim de três explosões falhadas o que eu estou é desapontada, para não dizer irritada, tenho comprado e lido muita merda porque mirones míopes no Público, na Ler e no Jornal de Letras usam despudoradamente a palavra génio e tendem a avistar um Celan em Telheiras a cada duas semanas. Não há nada de errado em querer escrever sobre um escritor menor ou um livro apenas competente sobretudo porque um Dostoievsky aparece uma vez numa lua azul, com muita sorte há um numa geração inteira de milhões de pessoas. O crítico nacional tem de esvaziar a mente para a página de semana a semana e às vezes mais do que uma vez por semana. É difícil que isto não se torne da ordem da masturbação. A vida pode ser um lugar aborrecido, um acontecimento digno de ser recordado pode não acontecer durante semanas. Para qualquer pessoa ter uma ideia de jeito que valha a pena atirar para o papel pode levar semanas, meses até, imprimi-la pode exigir muito mais do que isso. Muitos críticos contornam esta dificuldade de não lhes chegar nem uma frase de belo efeito nem um Dostoievsky todas as semanas afectando uma postura de autoridade, não raramente referindo-se a uma suposta coisa que não importa a um leitor mediano um cu, a maestria do autor. O que é a maestria do autor? Maestria vem do latim, magister, professor, cuja raiz talvez se confunda com a que dá origem à palavra mago, mas muitos dos mestres que por aí são anunciados tendem a não passar de discípulos, e os melhores mestres podem bem regredir para a triste condição de discípulos sem talento, como se aprende no doloroso exercício de ler o Lawrence Durrell de O Quarteto de Alexandria e o de O Quinteto de Avinhão (o génio no triste pastiche de si próprio), eu vejo uma literatura cheia de jovens mestres de 40 anos, mas achava que os melhores mestres são os que preferem ser deixados em paz para serem alunos a vida toda, que tendem a ser atormentados amiúde pela pergunta, mas afinal o que é que eu sei? O que é a maestria? O crítico não sabe, acha que pode ser essa coisa a explodir-lhe nas mãos (se bem ordenhada), o génio. E o que é isso, você sabe? Então você tem alguém que lhe atira o conceito do raro que é para uns happy few. Como é? Você, burguês lisboeta, comedor de tremoço que bebe cerveja na esplanada em Junho, quer entrar no círculo ou não? Vai deixar o último Pessoa andar para aí trancado no quarto ou a beber bagaço em paz no Martinho da Arcada, sem você estar devidamente informado? Não, o crítico é alguém avisado e cheio de autoridade moral e agora avisou-o também. O que este tipo de discurso focado na maestria (anda o crítico a tentar aprender, ou a fingir que aprendeu, o que é ser um Dostoievsky vislumbrando um em toda a parte a cada semana?) produz é uma grande tristeza e bastante decepção num leitor mediano. E olhe que quando uso aqui a palavra mediano não imagine o universo mental de Michael Bay e a poética de um Toy. O meu leitor mediano lê Tchekov, comove-se com a poesia de Joyce, e é viciado em Tony Judt, só não vem a correr escarafunchar num caderno, sempre que um arrepio lhe passa pela espinha, que ouviu um tolle et lege. Isso acontece e é lá com ele, no silêncio mais fundo do que existe dentro dele, sozinho a tentar entender o mundo e a tentar chegar a uma visão do mundo que possa ficar na imaginação como um mapa que possa ser sempre navegável, nós gostávamos que ele partilhasse isso connosco, mas com alguns livros até é bom que ele não possa, a algumas coisas você pode chegar pelo intermédio de outros, mas não pode bem ser preparado. E você tem então de se perguntar: como pode um crítico responder a estas dificuldades? Que posição pode este pobre coitado escriba, que no fim, como você e eu tem é de ganhar o seu pecúnio para comer batatas fritas no Chiado, ocupar, num ofício em que ser um leitor é muitas vezes confundido com um exercício de auto-afirmação? E como fazê-lo sem ser apelidado de coninhas pelos restantes críticos (leia-se a crítica nacional que jaz abaixo do paralelo do Correio da Manhã)? Primeiro, há isto, há uma diferença entre pensar sobre um assunto, escrever umas linhas sobre ele, e achar-se o Super Homem por isso, o que subsequentemente lhe pode dar a ideia errada de que você tem o direito de perseguir os outros e de policiar o que eles apreciam ou não apreciam ler, e o que lhes apetece escrever ou não. O que é muito mau é profundamente fácil de criticar, se você está a ler sobre batatas na secção de crítica literária não se perturbe, não é tanto que o seu crítico de pacote ache que você é um leitor tão desavisado que confundiria um saco de amendoins com Walter Benjamim, é que ele tem uma agenda e você pode bem descobrir que o pobre marreco que assinou um verso de mau gosto não lhe caiu bem no goto quando lhe pagou o café, ou então chateou algum amigo dele. Se você leu que um livro é mau, e ninguém lhe está a explicar a relevância dessa fraqueza para a sua vida de leitor, para a cultura em que essa falta de qualidade, ou mesmo maldade, se expressa, então você perdeu o seu tempo. E depois é aceitar o facto de que por um crítico não topar com um Dostoievsky todas as semanas não significa que haja algo de errado com o crítico, ou que ele tenha de ir arranjar uma receita para comprar Viagra. O que me leva ao meu segundo argumento, o que importa a um leitor não é a maestria de um autor, mas o que um livro diz e sobretudo o que um livro lhe diz a ele, muito privadamente no contexto da narrativa da sua própria vida. Eu prefiro que o crítico que escreve no jornaleco todas as semanas me fale do primeiro argumento, e me deixe em paz para decidir por mim se um livro tem o potencial para me dizer alguma coisa do modo que acabei de descrever, o que um livro significa para mim. Um crítico muito bom consegue talvez comunicar o que um livro lhe pode dizer a si privadamente, mas isso é uma capacidade excepcional de falar de coisas que foram escritas e são profundamente únicas, e mesmo esse momento é de algum modo excepcional para o crítico, não acontece todas as semanas, o resto é um ofício mecânico, e de algum modo triste. Você é um crítico, o que significa que, se você está agarrado à normatividade bombástica do génio hoje em dia ou da monótona descoberta do oásis no deserto, você é um bocado a extensão de um departamento de marketing de uma editora, e pode muito bem não ter muitas ideias. Para valer a pena ler um pedaço de crítica, a crítica pode bem falar-nos sobretudo das ideias de um livro, e o estilo do autor é apenas uma dessas ideias, e não é a mais interessante. Se mais nenhuma ideia lhe ocorre além do estilo, vulgarmente descrito por maestria, então o livro que você leu é uma merda, ou você é um mau crítico, ou ambos. O que é que acontece aí? Você acaba a lamentar-se que Herberto Helder vá ser lido, ou que os seus amigos que escrevem não são convidados para tantos festivais quantos deviam. Nada disto tem que ver com a alegria de ler um bom livro.
O que é a não banalização da escrita?
O curto sono de Kafka, duas horas a cada tarde depois do escritório, para pouco a pouco e com muito esforço, das oito à meia-noite a cada noite, enquanto o Hermann Kafka ronca no quarto ao lado, lhe trazer A Metamorfose, O Castelo, O Processo. É Arquíloco a confessar a canhalice de ter deixado o escudo aos trácios, Nunca ninguém tinha dito aquilo daquela maneira, o que não significa que não tivesse havido milhares de soldados antes dele que cheios de medo fugissem do campo de batalha sem sequer trazerem o escudo com eles. Bloom a masturbar-se numa praia em Dublin mais o monólogo da Molly quase no fim, coisas que ainda não tinham sido ditas daquela maneira, de repente inadiavelmente reais, disponíveis para serem pensadas mais do que por críticos por gente com espírito crítico, no fim é só aí que a tarefa do crítico é sagrada como a de um escritor, trazer ao de cima, ou inspirar, o espírito crítico dos outros, o que na melhor das hipóteses pode até ser contra ele e apesar dele, esse é o crítico que o ajuda a viver, que nem sequer é bem só crítico, é mais uma criatura da literatura. Os críticos no fundo são os verdadeiros Íons do ofício literário, o ofício deles não é específico, é ainda menos específico do que o do escritor, mas se forem mesmo bons inspirarão nos outros uma ideia, um ponto de partida, e por isso ficaremos sempre agradecidos e voltaremos a lê-los com prazer. A não banalização da escrita vem da escrita que não é banal e que não o banaliza enquanto leitor, é o que resulta de uma combinação de amor, necessidade e culpa. É você saber que vai perdoar ao Lobo Antunes aquela parvoíce do leão e da cria na entrevista sobre a Elena Ferrante porque ele é o tipo que escreveu o Fado Alexandrino. Você lembra-se como foi? Ler o Fado Alexandrino? Agora não seja estúpido, tenha esperança e lembre-se que o crítico que assina o fait divers medíocre na temporada morta de Agosto, para coscuvilhar a parvoíce que o seu Homero disse na última entrevista, não raro para enaltecimento da própria inteligência banal do crítico, pode apanhar um dia destes com um Thomas Bernhard que lhe acerte umas furiosas pauladas de indignação justa e impaciência. Nesse momento você vai lembrar-se do longo olhar de Petrónio no banquete de Trimalquião e constatar que o mundo é espetacular de maneiras que ainda nem sequer nos passaram pela cabeça. E isto é ainda uma coisa que um belo escritor fará por si. Na viagem que é ler seja o que for, esse pode bem ser o melhor momento de todos.
lavar a estátua do menino
lavar a sexualidade nula e a nula pressão em congregar-se à pedra
assim
como lavam os sonâmbulos
como o ar levanta voo
nulo
mas menino nulo
lavar o queixo com o paninho e o sabão
a mornura que não se dissolve
entre os testículos
se molhassem-se os buracos do narizinho
ordenhando fungos
a saudade dos telhados
da vez em que irá nascer o cogumelo serpenteado
átrio
ventrículo
escápula
é de anjo o menino nulo
é de asas
umas orelhas de deus
inda o sexo se redesenha partindo dum bico de pássaro hiato
imensas palavras douradas são para todo o sempre quase nada
e alguns movimentos de panos atestam
forte flexibilidade entre
ser menino o sexo nulo
entre
existência e a outra coisa que não há de ser
o banho que lavra
uma tristeza ou outra
tua arca de cinzas e o caibro entre os dentinhos imundos
a esponja que passa
o pano
a esponja e o pano quantas vezes tiver de ser de passear
há essa sujeira em formato de ramo atrás da orelha de tudo sujado de anjo
de quem vê onde ouve onde anjo
faz intervalo o vento de ouvir
e o anjo e o anjo e
estará a mordida
a música
não a trombeta nula
mas o anjo
sua órbita
sua oleosidade em asas
sua obediência como patinho obediente
sua obediência em asas
amanteigadas: quem lava o anjo lava o porco flechado
flechado
lavar o peixe
banhar o bicho
sujar as mãos da coisa onde vivia a junta das articulações infamadas
outra a tarefa a negar-se pelas sombras das outras
tarefas que são
eu digo
da indústria das folhas-de-flandres
alcançar aos cicios
orações
uma pequena misericórdia rasgada nos recifes que sobram à licença
como eu queria banhar o cavalo
mas o peixe
o peixe aberto
o peixe desabitado e cão
o peixe dado a passarinho moído
de intensões passarinhas
moídas
infamadas
e lavar
banhar
ter
a faca ao lado
a faca outra pousada no vestido
uma dúzia de moscas com perguntas nas molas dianteiras
é ágil cada pergunta e ágil cada resposta
é peixe não é peixe
é banho é olho e é outro olho de peixe
lavar o peixe tanger o bicho
boas escamas dariam boa casquete na cabeça da baianinha que chora o peixe
Bartolomeu ferrado
diz
Bartolomeu ferrado
de quantas linhas se ferra até se foder
passa a carriola com mais dos meus e a menina se sacode
facinho verificar
amontoado de Bartolomeu
harmonia e fedor tudo igual na harmonia
de novo
se fodeu Bartolomeu
queria lavar um cavalo
banhar a crina o rabo a gengiva
mas é que nada me tira da lavoura infamada
nem a baianinha
conhece juntar vontade pra dar de dar certo
queria porque queria banhar o rinoceronte atolado
atolado
banhar o acordeom
arquear e
banhar o monstro de dentro do acordeom
o monstro que olha e que vê e que namora a mentira
banha-o
que respira quente
tão quente o monstro
sem confiança
com algum mérito
que a demência comendo pelos cantos das mãos
em transvariação
o céu e a esponja
é como é
exatamente como banhar o acordeom
que a ordem é fixa
e quem banha é quem lava
e quem lava é quem mora na fuligem do ato
junto às bolhas
quando inarredáveis
afagos
dos de leve
bolhas
quando dispersas desesperadas
afagos
dos de bruto
fica flexível o arrepio e o fuso entre os sentidos
ai
tange
tudo de vielas na cara de quem lava
tudo o tanto de vielas na cara das mentiras lavadeiras
tudo de prostitutas nas pernas de quem
as luvas já não prestarão
serão como ferro serão como feno serão
o monstro estará vivente e parco
mais sujado que coisa sujada
desabotoando o vestido da mandrágora entre os filetes de gentes
de gentes
nada suaviza o encargo da boneca japonesa
nem a familiaridade com o sabão
banhar em água de saco de vime
de saco de papel e de saco
aponta o farol e lava
no seguimento de escamas não haverá de erros
há a luta e há a luta que flutua antes da boneca
seus bracinhos junto ao dorso
o dorso ao monte
onde o sabão não vai
nada vai
nada suaviza
nada como dizer de rochas cruas
sexo reto e pronto na caixa de vidro
detrás da seda pintada de línguas persuasivas
feiuras no meio e em torno
nada suaviza
assim burlesca
a boneca
assim burlesco o gesto
largar os dedos e sofrer com o cabelo
ter o nome que se diz em boca miúda
porém dura
fastidiosa
lavar os pés da boneca
lavar o branco escarnecido
nada suaviza
banhada e desaguada
a sonolência redonda-quadrada
vermelha-amarela
secreto amado vibrante
na caixa de vidro
de onde nada suaviza a caricatura correnteza
a caricatura correnteza
eu vejo caixas de vidro em aguaceiros
coçam-me os teus pés no molho
paixão
À Capitolina, também pelo livro
A poesia inscreve(-se) e afirma(-se); é a demarcação cuja capacidade de desdobramento rejeita lógicas de identificação e, por isso, persiste nos intervalos que encerram em si margens de indeterminabilidade. É o “rapto” de que fala Herberto Helder, ou seja, o exercício resistente de captura de intensidades que descodificam: o interrogativo que segrega o que se presume, ou seja, a poesia terá de ser experimentação.
No poema Introdução ao Tempo, de Luiza Neto Jorge, também esse poder evocativo nos aparece com especial incandescência logo no primeiro verso: “Façamos greve de tempo”. Da ordem do apelo/manifesto, e não do ideológico que se confinará, mais cedo ou mais tarde, ao programado, a relação com o temporalizado, neste caso, não se faz necessariamente através da imobilização. E também não se enceta com a representatividade que imita, na medida em que neste poema o tempo nunca se dá a ver enquanto significado.
Através de instâncias concretas – e não lineares – como sejam “pulmões”, “olhos”, “mar”, “papoilas”, entre outras, o poema de Luiza Neto Jorge dissemina esses mesmos elementos em cruzamentos de modo a poderem encontrar-se; contudo, esse encontro evidencia incontáveis tons. Quando lemos “Porque ficou oceânico/ o escasso momento de nós?”, a composição faz-se por antinomia e não tanto graças a qualquer disjunção: ao tentar medir-se o incomensurável, o tempo torna-se compacto e por isso infecundo, daí o empenho em primeira linha no esforço de suspensão através da tal greve de tempo. “Fechemos os olhos dentro”, i.e., não que nos tornemos cegos mas que se estabeleçam condições para a inflexão, para a conexão entre múltiplos modos de existência temporal no mundo. É que não parece tratar-se de um vamos parar o tempo (negação ingénua do mesmo), mas antes daquela abertura iniciada e susceptível de admitir o acentuar do acontecimento: “Quando as papoilas tiverem searas (…) Quando nós formos outrora”. Passado-presente-futuro, não diluídos no unívoco, mas prolongados singularmente na desestabilização de uma relação com a vida, se feita através da estruturação.
Ao tratar-se de uma “Introdução”, cremos que constituiria uma leitura superficial e enganadora encarar este poema enquanto regulamentação de um estar no mundo, consequentemente, calculado. Pelo contrário, o poema circula des-apropriando: “no ar um tempo frustre/a sequência dos sons/perdidos nos degraus”. O inesgotável da escrita da poesia apresenta-se a-sistemático, já que aí a linguagem desagrega o ruído, precipita a retoma e promove o novo: a linguagem (poética) cria porque se põe em frente à realidade, faz parte integrante dela. Nos últimos versos deparamo-nos com a inconclusividade da poesia, que nem à metáfora pode estar agrilhoada: “Simples é a dor/e nós, nascidos”.
Corpo sem organismo, este Introdução ao Tempo acrescenta a sensação que propaga e, por isso, contesta o positivismo da significação, sem, todavia, cair na ignorância (ausência de relação) com o que de mais repetidamente interage com o humano, a saber, a experiência e o conhecimento temporais e, em certa medida, temporalizados. É por isso que o poema de Luiza Neto Jorge diz o tempo com a precisão do devir: “quando o sonho for granito.”
Introdução ao Tempo
I
Façamos greve de tempo
De pulmões castos não respiremos
As folhas trágicas veias
podem cair
Fechemos os olhos dentro
II
quando o sonho for granito
quando o mar em cinza desvendar
as plumas inúteis das gaivotas
quando a espuma depuser velas
longínquas sobre a areia
e das pontes cair o derradeiro homem
quando as papoilas tiverem searas
as janelas absortas mortalhas de luz
quando nós formos outrora
quando o luto marcar as ancas verdadeiras
III
Porque ficou oceânico
o escasso momento de nós?
Escorríamos pelas mãos
insatisfeitas e límpidas
nascentes
no ar um tempo frustre
a sequência dos sons
perdidos nos degraus
Simples é a dor
e nós, nascidos
(cont.)
Manuela atirou-se-lhe ao pescoço e proferiu em tom de máxima: – Estou perdidamente apaixonada por ti, meu amor.
– És totalmente incapaz disso. – Respondeu Lourenço, numa altivez, quase desdém, que ninguém lhe conhecia. Tanto que Manuela começou a chorar copiosamente.
– Não chores, meu amor, não chores. Digo a verdade, tu estás acima do amor, tu foste feita para ser amada, não para amar. São os outros que têm de rastejar atrás de ti – é isso que faz o amor, põe-nos de rastos –, não tu atrás deles. Tu sabes que eu não te mereço, sou tão vulgar, quando este circo passar vais sentir nojo de mim, tenho a certeza.
– Qual quê, não percebes nada, eu amo-te de verdade!
– É uma encenação, Manuela, encenas o amor como se faz nas telenovelas...
– Estás parvo?!
– ... Talvez, desculpa, mas não acredito que estejas assim tão apaixonada por mim, eu não sou homem de provocar isso nas mulheres. Olha bem para mim e terás a certeza.
– Mas eu amo-te, sinto-o, o que queres que faça, que deixe de te amar porque tu desconfias disso?
– Ok, está bem... abraça-me.
E foi assim, sem tirar nem pôr. Lourenço a elaborar um discurso sobre o amor (quem sabe se influenciado pelos Fragmentos de um Discurso Amoroso de Roland Barthes), Manuela com o desejo incontrolável de se fundir nele, Tristan und Isolde sem Wagner, de se atirar a ele como alguém se atira da janela porque quer esmagar-se no alcatrão.
Para justificar o seu estilo relacional, Lourenço usava uma frase de O Homem Sem Qualidades: “tudo o que pensamos se resume a simpatia ou antipatia.” Assim, sendo ele essencialmente o mesmo, uma cascata de simpatia tinha alterado radicalmente a maneira como era considerado na escola e no mundo. Estava em ponto-de-rebuçado, podia ter comido todas, ou quase todas, as colegas, não fossem elas em geral pouco apetitosas; colocado todos os colegas debaixo da sua perspectiva. Talvez mesmo pervertido as mais fervorosamente crentes na Transcendência, de Deus, do PCP ou de um cacique de sala-de-professores; tinha agora a força de anular, com um gesto apenas, qualquer grande narrativa de verdade e felicidade, concentrava em si todo o campo épico, trata-se da velha identificação hipnótica entre o chefe ou herói e as massas. A sua paixão pela Manuela exigia, aliás, que multiplicasse as aventuras amorosas. “Trai a tua paixão se não queres que ela te desbarate.”, costumava dizer-me. Mas ficou quieto, ou quase, numa noite de jantar comemorativo, organizado pela escola em sua honra, foi levado para o carro pela Directora, mulher que no século passado era bela e que tinha recomeçado a ir ao ginásio.
– Deixa-me chupar-te, por favor, quero engolir a tua seiva. – Disse ela de rompante, como se todas as convenções do namoro tivessem desaparecido sob a vertigem alcoólica.
[Nunca bebam álcool se quiserem evitar um engate piroso. Troquem a poesia pela lógica, o whisky pela água, uma feijoada por um prato com arroz. Usem terminologia biológica ou psicanalítica, jamais as metáforas histriónicas da literatura ou a vulgaridade anarrativa dos filmes pornográficos. O álcool armadilha os fragmentos do discurso amoroso]
Anabela, era assim que se chamava a Directora, abriu-lhe as calças e pôs o sexo murcho de Lourenço na boca. As banhas laterais empurravam com força o volante e o seio direito pousou na perna do Lourenço, enquanto a sua mão, também direita, pegava na base do pénis e boca e língua tentavam reanimar o pequeno verme.
Cerca de vinte minutos depois deu-se a conclusão espasmódica. Foi o seio direito que conseguiu a proeza, mais do que a felação em si mesma ou as frases elegíacas e porcas, à vez, que Anabela enviou a Lourenço, embaraçado. Ela continuava atormentada com a morte do marido, a quem enganou alegremente. Não pela morte em si, ele morrera há muito para ela. Mas porque quando decidiu passar ao inorgânico o fez na cama, junto a ela, dizendo estas palavras: “Tu és uma puta, Anabela, és uma puta sem remissão, como o meu amor por ti.” Não que o marido se importasse com as escapadelas da mulher, foi pura vingança, quis fazê-la sofrer pelo menos tanto como ele sofrera por amá-la acima das suas forças, tanto que teve de morrer.
Uma marca de chocolate, um placebo médico contra o reumatismo, uma editora especializada em livros de auto-ajuda, um produtor de vinho de mesa ou, entre muitos outros, um estofador industrial quiseram contratar Lourenço. Disse-lhe várias vezes que devia arranjar um agente que tratasse disso, enchendo-o de dinheiro. Mas Lourenço era um mole que gostava do imperativo categórico kantiano, um moralista falido e meio banana. Recusou tudo, continuou nas aulas a mandar calar adolescentes ranhosos a quem nem o seu acto heróico impunha respeito. Manteve uma vidinha insuflada provisoriamente de excentricidades. “Os balões cheios esvaziam-se”, dizia-lhe o colega Joaquim, lobo-do-mar da escola, antigo revolucionário capaz de prometer a junção do Céu com a Terra.
– Continua a soprar, Lourenço, não deixes que isso perda gás, olha o que me aconteceu. – Disse Joaquim.
– Está muito cheio, não consigo pôr mais ar dentro, não tenho pulmões para isso. – Respondeu Lourenço.
– Mas continua, vê se continuas, não queiras ficar como eu, um diabético amargurado a quem os miúdos chamam “velho halitose”.
– Não chamam nada, tu és uma referência. – Disse Lourenço, sentindo pena do Joaquim.
– Claro que chamam, vejo pior mas continuo a ouvir bem. E depois, é mesmo assim, Cronos já não come os filhos, são os filhos que o comem a ele. E tu aproveita, come aí as gajas todas, ou então casa com a Manuela, aos 50 ainda será boa, mesmo boa.
[Joaquim era o mais inteligente dos professores, chegava à verdade, seja lá isso o que for, duas vezes mais rapidamente do que os seus colegas. Mas isso sempre o prejudicou mais do que beneficiou. Numa escola, o ecossistema dos professores e funcionários é pequeno, está envelhecido e fixou-se há pelo menos 10 anos, por isso as paixões e os ódios são mais profundos, têm a enorme importância de não se lhe poder escapar]
Lourenço indeciso, a querer voltar à transparência, uma existência de baixa intensidade, contemplativo por preguiça, cansado da vida.
(cont.)
Livros, filmes, ideias.