Cria

O meu coração está embrulhado num cobertor pequeno, de medidas iguais no seu contorno, em cima da cama que está no mesmo sítio onde a deixo todos os dias. É um quadrado cor de laranja onde cabe tudo o que é meiguice. Também um ursinho bonacheirão, que parece piscar o olho e sossegar-me. Que está tudo bem debaixo daquele pêlo, a que ele também pertence. Um quadrado animado pelo respirar da pureza, e do qual sai um braço para fora das suas medidas. Perfeito na sua miniatura de afago, e em que conto uma mão aberta para as borboletas que queiram entrar, pela janela que deixo aberta para a frente. Um amor grande num corpo ainda pequeno, que se ajeita conforme o vento lhe bata do lado esquerdo ou do direito, alimentando como água nascente aqueles caracóis que são raízes. De uma árvore quase acabada de plantar, mas que tem já todos os pássaros que quer a cantar para ela. Ensaio uma dança nos seus olhos, que irão abrir num instante, acompanhados de um choro que reclama beijos repenicados e bater de asas. Dos pássaros dela. Meus.

Tudo o que é felino reescreve: uma carta de Pedro F.

Querida amiga,

 

Quando me chamaram para rever o teu texto, não o li. Fiquei-me pela primeira frase: “quero-te bem”. Nunca te tinha conhecido, mas pareceu-me algo artificial, estava à espera que me falasses directamente ao coração, por gentileza. Já ninguém me propõe trabalhos desse género, sabes. Estou desempregado. Antes, quando revia os grandes mestres da literatura, achava que todos eles me falavam. Agora, porém, já não me dizes nada. Por isso ainda estou em silêncio, à espera que me fales. Vejo agora que risquei uma frase tua. Falhaste uma concordância. Sujeito singular, verbo plural. Decidi então abrir a janela e saltar, porque com a janela fechada seria pouco prático, podia magoar-me. Saltei, mas foi violento, para minha surpresa acabei por morrer, nunca pensei que cinco pisos fossem assim tão levantados do chão. Não posso dizer que tenha sido inteiramente agradável; o solo é demasiado duro, devia-se mudar isso, e quando se morre as coisas doem muito mais, mas é um daqueles assuntos sobre o qual ninguém quer falar. Foi nesse momento que percebi que a verdadeira arte da revisão está em deixar ser. Não corrigir nada. Por isso é melhor não ler, e deixar estar. Outro gato, entretanto, que estava na sala a fazer poses para um fotógrafo, considerou toda a cena de mau gosto, e fez questão de o publicar. Rodopiou cinquenta e quatro vezes, o que acaba por escrever o dígrafo “sh”, se soubermos ler nas entrelinhas. Eu não tinha tinta vermelha na altura, nem lápis azul, pelo que deixei a morte sobreviver-lhe. Se ainda achas que os gatos não apreciam revisores, devias olhar outra vez. Andas desatenta. Tudo o que é felino reescreve. Deve ser por isso que os músicos se queixam das gravações, não há literatura ao vivo, a que há não tem palavras. Por isso, quando me chamaram para rever o teu texto, não me surpreendi. Era a minha profissão. Nunca me tinha matado por um erro de concordância, mas há sempre uma primeira vez. Um dia já me tinha ferido a mim próprio, quando alguém tentou falar no passado e acabou o verbo com uma coisa em “sh”. Não era o gato. Ao gato teria perdoado. Teria sido um descuido, toda a gente sabe que os gatos ainda se dirigem a alguém plural precisamente no plural, especialmente quando se referem a factos do passado. Mas aquilo irritou-me tanto que tive de ir ao hospital ver se não havia um problema qualquer do foro fisiológico na minha traqueia, toda a gente sabe que a traqueia alberga um número considerável de preconceitos gramáticos que relembram a grande invasão dos Arianos. Decidi tentar a ajuda de um profissional; dirigi-me, portanto, ao Grande Mestre Invisível, mas dado o absurdo da empresa, acabei por lhe rever simplesmente uma carta, porque mais vale ver de novo do que nunca ver. Fiquei-me pela primeira frase: “quero-te bem”. Que porcaria. Já não se fazem grandes mestres como antigamente, quando havia línguas mais originais, agora é tudo dialecto bastardo. Malgré tout, achei-o bom escritor, andava a revê-lo há bastante tempo, não que pudesse dizer “há bastante shs”, mas também poucos de nós correriam o risco de dizê-lo.  Lembro-me perfeitamente desse momento. Estava na Jamaica, e uma longa ponte atravessava duas margens do oceano; o céu estava alaranjado, mas a minha pele ainda não tinha mudado de cor, continuava moreno. Senti-me algo feliz por estar finalmente em casa, que é aquela onde nunca estive, tu conheces a sensação, não é, já lá estiveste(...), já sabes que as coisas às vezes se desenrolam só do lado que não queres. Não sei se gostas que te tratem por tu, mas neste ponto da revisão, sinceramente, já não me interessa. Não sei porquê o Haiti, aliás, já nem sei porquê o pensamento, desde que li a tua frase-cliché, “quero-te bem”, tenho andado um pouco arredado do bom gosto, e por consequência da vida em geral. “Quero-te bem” dá vontade de pôr um ponto de exclamação ao contrário no princípio da frase, como fazem os espanhóis. Aliás, julgo que todas as frases deste género começam com um ponto de exclamação invertido. Deve ser para começarmos a exclamar logo do início, para não haver surpresa, nunca deve haver surpresa numa boa exclamação, o que me leva a pensar que nas Canárias, não que eu alguma vez tivesse estado lá, pelo contrário, é a minha casa, deviam falar espanhol. Mas sem pontuação, por favor. É uma questão de tacto.

 

Com os melhores cumprimentos, e aguardando resposta

 

Pedro F.

5 poemas

O exterior é uma perfeita paródia do interior. Um arquivo caótico de visões internas. Paranóia é a minha pele de leopardo. Eu uso ela como uma performance. É um enfrentamento. É como eu protejo minha ingenuidade: cobrindo as paredes com espelhos. Elas iluminam e ampliam as tuas mentiras. É esplendoroso. Deus é maior que tudo isso. 


Uma bolsa cheia de roupa suja e memórias. Eu não tenho sido capaz de lavar a roupa.  

Eles xingam e gritam o tempo todo, mas há passe livre aqui.

Quando você se torna um adulto, mãe e pai deveriam parar. Eles terminaram o meu contrato por causa das minhas visões sobre o trabalho. Eu sou diferente dos outros aqui. Este não é o meu meio-ambiente. 

Aprender sobre espiritualidade transforma a direção da eletricidade. Significa ser mais casual e mais humano. 

Se você é uma pessoa secular e e eu sou uma pessoa sagrada, suas crenças estão me dominando, o que é ilegal. Você está apenas usando poder. Você não é o meu guardião.  

Não é contra o meu acordo. Não é uma decisão de tribunal. Está na sua decisão. Você esteve comigo em varias ocasiões. Você deveria me conhecer bem. 

O que é real. Esta é uma situação imaginária?


Se você me dissesse que você era um anjo, eu não julgaria você. Um anjo é uma espécie de inocente.  

Eu sou um indivíduo, eu não sou uma pessoa típica, então a dose da medicação não devia ser típica.  

Está afetando meus direitos de anjo. Minha inocência está sendo abusada. Na realidade eu fui diagnosticado com desmoralização e inutilidade. A doença já era. 

Diferentemente deste estado induzido, eu sou uma pessoa bem-aventurada.

Pensar tem ajudado o meu estado mental, e eu acredito que falar é a forma de resolver as coisas.  


Perdeu a dose matinal de metadona. Pede para tomar agora às 16h. Pede licença para sair, promete que não vai usar droga. Alerta de salvaguarda, traficantes na vizinhança. Eu sou apenas uma grande gigante amistoso. Ele se guarda para si mesmo. Ele vem e assiste TV e passa um bom tempo na área comunal. Agora ele ri se algo é engraçado. Minha comunicação é díficil de pegar se tem alguém falando, mas estou confiante que a revisão terá êxito.  Estou aqui hoje para contar a lenda. Falou sobre uma individualidade, falou sobre se tornar um professor. Expressou o desejo de ler seu prontuário. A urina foi positiva para heroína na semana passada. Está esperando os arranjos da habitação.


Você está vestida como o projeto monarca, toda de oncinha. Não digo nada senhorita. Então você pensa que eu sou uma periguete neurocientista vestida de estampa animal? Talvez você esteja certo. A psiquiatria é só uma técnica de controle mental, a ciência um delírio narrativo baseado em evidência. Sinto muito por seus delírios somáticos. De femme fatale a médica residente? Não posso te liberar. Está indo me denunciar? Está humildemente me oferecendo chá? Você se move tão rapidamente, tão elegantemente. Você é o hipster da enfermaria, o grande viajante do transporte público. Então você tropeça ao lado do Tâmisa com um alcoolismo escondido, e volta sangrando.  


Charles Bukowski, «Lança os dados»

Tradução de João Coles

se vais tentar, vai até ao
fim.
caso contrário, nem sequer comeces.

se vais tentar, vai até ao
fim.
Isto poderá significar perder namoradas,
esposas, parentes, empregos e
talvez o juízo.

vai até ao fim.
poderá significar não comer durante 3 ou 4 dias.
poderá significar enregelar num
banco de parque.
poderá significar cadeia,
poderá significar escárnio,
zombaria,
isolamento.
o isolamento é um dom,
tudo o resto é um teste à tua
resistência, do
quanto queres mesmo
fazer isso.
e tu fá-lo-ás
mal-grado a rejeição e as piores probabilidades
e será melhor do que
qualquer outra coisa
que possas imaginar.

se vais tentar,
vai até ao fim.
não há outra sensação como
esta.
e estarás a sós com os deuses
e as noites inflamar-se-ão com
o fogo.

fá-lo, fá-lo, fá-lo,
fá-lo.

até ao fim
até ao fim.

guiarás a vida directamente ao
riso perfeito. é
a única luta justa
que existe.

in The Singer, 1999


Roll the dice

if you’re going to try, go all the
way.
otherwise, don’t even start.

if you’re going to try, go all the
way.
this could mean losing girlfriends,
wives, relatives, jobs and
maybe your mind.

go all the way.
it could mean not eating for 3 or 4 days.
it could mean freezing on a
park bench.
it could mean jail,
it could mean derision,
mockery,
isolation.
isolation is the gift,
all the others are a test of your
endurance, of
how much you really want to
do it.
and you’ll do it
despite rejection and the worst odds
and it will be better than
anything else
you can imagine.

if you’re going to try,
go all the way.
there is no other feeling like
that.
you will be alone with the gods
and the nights will flame with
fire.

do it, do it, do it.
do it.

all the way
all the way.

you will ride life straight to
perfect laughter, it's
the only good fight
there is.

Dos livros que são empilhados para dar a alguém o mais depressa possível

PC144968.jpg

Que desanimante é comprar uma pilha de livros e não desfrutar da sua leitura. O altamente elogiado Morte Súbita, do mexicano Álvaro Enrique, que tentei ler uma, duas, três vezes, sempre com vontade de o abandonar no comboio, sabe a Foster Wallace e a Bolaño mas é o sabor a micro-ondas que se sobrepõe, sofre de um mal pós-modernista que à literatura subtrai graça e beleza em prol de uma vontade de seguir estruturas, de parecer inteligente. Obras infestadas de nomes e retumbantes conceitos, personagens históricas, histórias apócrifas – Francisco Quevedo a jogar ténis contra Caravaggio-, e as sagazes lucubrações a puxarem pelo sorriso do leitor, contribuem para a desvalorização de uma das potencialidades da literatura: contar a vida recorrendo a uma prosa elegante, densa em termos emocionais e intelectuais. Livros que figurem como recomendáveis pelos periódicos nova-iorquinos não devem cheirar tanto a bolsa de criação literária. Lendo Guerra e Paz, o leitor é confrontado com a vida vista por cima, a vida da história, dos russos contra Napoleão, e com a vida pequena, a vida do príncipe moribundo, da mulher em busca de amor, do cobarde que enriquece, e é destas duas vidas que se extrai prazer e vontade de reler sempre o mesmo livro. Com Álvaro Enrique, folheia-se a página, boceja-se, diz-se “que escritor tão prendado”, e enterra-se o livro antes da página cinquenta.

Erro típico de quem acabou de chegar ao fenómeno Barnes & Noble é pegar num livro considerado #1 New York Times Bestseller na expectativa de o vir a ler com gosto e talvez aprender, ou pelo menos sair da leitura com a sensação de ser melhor pessoa. Susannah Cahalan, jovem jornalista, sofreu um mês de loucura e publicou, já recuperada, pensa-se, Brain on Fire, My month of Madness. Hipocondríaco e dado a comprar livros em promoção (o livro em promoção em Nova Iorque raramente baixa dos sete dólares e cinquenta), abanquei no parque de Union Square convicto de que resolveria anos de demência e paranóia e enxaquecas, etc. O livro faz sentido para quem o escreveu e para os editores que lhe aplicaram a régua e o esquadro da escrita criativa. Os parágrafos sucedem-se sem que o leitor seja informado de que doença padeceu Susannah, chega-se a pensar que a moça se transformará em insecto a dado momento, tal o suspense e o tom melodramático com que são apresentados os sintomas da “doença”. O thriller desvanece-se aos poucos, ficando o leitor cada vez mais convencido de que esta é mais uma sopa mediática que as boas editoras americanas impingem a quem, como eu, não tem mais que fazer do que gastar dinheiro em banalidades com “a happy ending.” Tudo acaba bem, primeiro porque Susannah recuperou da loucura para publicar o livro e se tornar milionária, depois porque não se chega a saber em que consistia a loucura de Susannah. É muito pouquinho, para um ensaio.

 Escrever sobre o desperdício A Short Guide to a Happy Life, de Anna Quindlen, demora quase tanto como a sua leitura. Foi provavelmente publicado num ano em que as editoras tinham muito dinheiro para gastar em livros de capa dura com meia-dúzia de frases dentro. Entre o supermercado e a mesa onde me sento a comer cereais, percorro cerca de meia milha, mas a leitura deste panfleto carregado de citações positivas para o alto-astral durou vinte metros.

 Para escrever sobre Ben Lerner o cidadão precisa de se benzer e de pedir perdão a James Wood, que em determinada recensão na New Yorker incensou o autor de 10:04, obra que tantas vezes me pôs às avessas comigo e com o mundo que me rodeava. Ben Lerner é escritor talentoso, a prosa é fluida, lê-se prazenteiramente, mas quando se passa do primeiro ou do segundo capítulo começa-se a vislumbrar o breu, as trevas, a cefaleia desata a inchar as têmporas, e só dois analgésicos resolvem a situação. Histórias de amor ou de doenças – há um escritor doente que deseja ter um filho e que sente amor, embora por vezes admita que o que aprecia é fazer amor – descambam nos costumeiros guisados pós-modernistas: biologia, geologia, filosofia, doenças raras, resmas de títulos, de nomes, de conceitos, ideias exóticas, piadas muito bem esgalhadas. Ben Lerner poderá ascender a génio meditabundo caso consiga conjugar uma lista telefónica, a Enciclopédia Britânica e uns fogachos de boa prosa num só volume.

 Sinto falta do tempo em que, adolescente, abria a revista Maria e deparava com celebridade X dizendo que guardava o verão para as leituras, ou leitura, que o verão eram só três meses e o Equador, de Tavares, não concedia espaço para outras literaturas na estante. E antes da adolescência lia o Tio Patinhas e amava. Os irmãos metralha, que primor. Esse mesmo amor regressou com os Tolstói e os Dostoiévski. Mas ler um livro em Nova Iorque, especialmente um livro que seja recomendado, que apareça em tops, é como visitar um desses cursos de escrita criativa, num sábado à noite, no meio de um pesadelo, e só desejar nunca ter lido nada, nunca ter gasto os olhinhos na leitura.