O trabalho

 Alex Colville,  Self -Portrait , 1942 (pormenor)

Alex Colville, Self -Portrait, 1942 (pormenor)

Nunca vos falaram como a filhos, nunca vos pagaram como a homens, nunca vos trataram como a anjos.

Jorge de Sena, «Mar de Pedras»

 

Só ficando cego posso fazer o meu trabalho. É a única maneira. Levei algum tempo até perceber que era a única forma de isto poder resultar. Mais tarde pode dar-se o caso de alguém vir dizer que eu percebi isso mais cedo do que quando vos informei. Que empatei ou adiei esta declaração. Mas não é verdade. É possível que tenha não querido ver, o que, tendo em conta as circunstâncias, até é adequado. A única maneira de continuar, é ficar cego. Estou a dizer. Não é que seja preciso cegar completamente. Mas é preciso ir ficando, sendo que no fim, quando o trabalho estiver acabado, estarei, como consequência desse processo, completamente cego. Comecei por perder algumas cores, agora estou na fase em que cores e perspectivas se somem. Escapam-me, pequenas linhas de luz que me escapam. A minha mulher, por exemplo, ela canta na sombra, alcandorada, a sua voz dura, não a cor que ela veste, o corpo dela na varanda mais baixa, uma sombra cortada contra a praia mais ao fundo. Eu tenho tempos de ter sido o homem que a viu, mas as cores vão-se perdendo. Não são já tão nítidas. Escolhamos um dia aleatoriamente. Ontem, por exemplo. Virei-me para o lado e fiquei a ver da janela o vulto que se aproximava subindo a rua. Só quando ele estava mesmo sobre a janela, um soldado de cabelo talvez amarelo, ele riscou o fósforo, a garrafa no seu barro opaco com as flores posta sobre o parapeito acendeu-se, uma parte das cores não estava lá, nunca se propagaram na refracção da luz, ele olhou para mim, eu vi-lhe o nariz, as orelhas grandes, era um rosto sem olhos, sem idade. Nunca cheguei a entender, enquanto podia ver nitidamente, exactamente o que é a cor. Abrupta, a mão bateu contra o vidro. Ele fez este gesto porque não pode dizer se eu estou já completamente cego e é até possível que esta cara me lembrasse do meu rosto se eu a pudesse ver (e eu conheço-a, a memória do meu rosto é completamente nítida, conheço-a melhor agora, a minha memória de todas as imagens, de resto, é agora muito mais aguda). Ficámos a olhar um para o outro, a piscar os olhos no crepúsculo. Podia ser que noutro tempo nos pudéssemos ter sentado um diante do outro e que a beleza de um espantasse o outro. Eu sentado no meu banco, do lado de dentro da loja, ele do lado de lá, com o braço a afastar a coronha da espingarda do vidro. Imaginei que podia ser ainda um rapaz, ou podia ser que fosse cara de barba feita, que melhor me enganasse. A água corria nos vidros e era já tarde e digo-te mesmo que não sei. É como te estou a dizer. É preciso que cegue. Para ver, há todas as coisas que deixarei de ver. Quando comecei, pensei que este era só o meu trabalho, que nada me ia ser tirado. Não que alguém me tivesse prometido alguma coisa, ou que me tivesse pedido alguma coisa, não foi isso, nada disso. À medida que o tempo foi passando, fui fazendo concessões de todo o tipo. No princípio, talvez que fosse apenas o medo de ficar sem trabalho. O que acontece a um homem a quem tiram o trabalho ou àquele que o perde? Na minha cabeça o som de duas sílabas, ca-sa, assim, divididas por um hífen e eu caindo no interstício, com uma nuvem de pó a levantar-se e as fundações da estrutura a partirem-se frágeis como os ossos de um velho e mesmo até o meu corpo a sumir-se, a acabar-se de repente, na margem de um passeio qualquer, numa qualquer beira de estrada, sem cinematografia nenhuma, na sarjeta mesmo. Sem trabalho, não és parte da estrutura, ou a estrutura rejeitou-te, não podes comprar o teu pão. O teu contracto social. Para um solitário como eu, o pão é o único laço que me une à sociedade a que pertenço. Repara que é como eu posso ser tolerado pela estrutura. Eu nunca pus a pergunta de outro modo. O que acontece a um homem com trabalho? Eu falo a mesma língua, sou pago com o mesmo dinheiro, fui educado nas mesmas escolas e tenho a mesma religião, ainda que nenhuma pátria valha ou explique o meu amor. Este corpo não tem de verdade idioma, hino, bandeira. Posto noutro sítio, aprenderá outra língua. E outro remédio não terá que escrever-se nela. E como qualquer outro, tenho cuidados com os que me rodeiam. Tenho por eles cuidado. Nesta mesa, com um canivete, alguém riscou «nunca vos falaram como a filhos, nunca vos pagaram como a homens, nunca vos trataram como a anjos». Antes de mim, andou para aqui um leitorzito de Jorge de Sena. Leitor. Como eu. Talvez o país que me resta seja isto. Cara e olhos e talvez óculos e sentado sobre a janela, ora atento ora desatento. Muito pouco diferente de mim, talvez. Os dedos dela, por um instante, pararam sobre a minha testa. Eu nunca a vi. Ela tocou-me, foi só isso, mais nada. Sofrimento nenhum nisso. Sofrimento em nada. Por um instante ameaçou o meu limite, qualquer coisa se abriu nesse lugar. Como eu. Talvez a única coisa que eu seja. O que guarda a narrativa. É por isso mesmo preciso que vá ficando cego. É a única maneira de conseguir fazer isto. Quando comecei, isto era só mais um trabalho. Mas à medida que o tempo foi passando, fui-me sentindo cada vez mais desligado de horários, entidades patronais, colegas, escritório. O trabalho começou a andar comigo. Não que tanto dele gostasse que ofício fosse. Não é um desses casos. Antes isto. É necessária a troca, versão civilizada do sacrifício. E a troca é este luxo. O que eu não posso. Todo o meu amor inteiramente.