A Noite

Marc Chagall, 'Maries au village' (Opera Gallery)

Marc Chagall, 'Maries au village' (Opera Gallery)


A noite escondeu o meu corpo
a minha mão sobre o teu peito
o teu nome na minha boca

A noite escondeu os meus ossos
o movimento
exacto das nossas coxas
apagou a nossa rota, a travessia
o catálogo das nossas naus

A noite fez de nós um caminho escuro
um poço sem ecos e sem baldes

Mas foi tarde, sobre a nossa carne
abria-se uma flor insondável
e o amor estava já cumprido

Os Cobardes

La belleza no es un lugar donde van a parar los cobardes.
Antonio Gamoneda


Talvez venhas a morrer perto
violentado pela luz, pelo assombro
de uma vida pensada junto ao fogo
mas de onde nunca trouxeste nada 

A vida é tanto mais pesada
se te não fere a violência de um deus
se regressas da solidão com o mesmo porte
com as mãos abertas e laceradas

como praças descobertas para a morte

"Poema" de Frank O'Hara

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Poema

Luz claridade salada de abacate de manhã

depois de todas as coisas terríveis que faço quão maravilhoso é

encontrar perdão e amor, nem sequer perdão

já que o que está feito está feito e perdão não é amor

e já que amor é amor nada pode dar errado

embora as coisas possam tornar-se irritantes aborrecidas e prescindíveis

(na imaginação) mas nunca de verdade para o amor

embora a um quarteirão de distância te sintas longínquo a simples presença

muda tudo como um químico entornado num papel

e todos os pensamentos desaparecem num estranho e calmo entusiasmo,

Eu não estou certo de nada para além disto, intensificado pela respiração

*

Poem

Light clarity avocado salad in the morning

after all the terrible things I do how amazing it is

to find forgiveness and love, not even forgiveness

since what is done is done and forgiveness isn’t love

and love is love nothing can ever go wrong

though things can get irritating boring and dispensable

(in the imagination) but not really for love

though a block away you feel distant the mere presence

changes everything like a chemical dropped on a paper

and all thoughts disappear in a strange quiet excitement

I am sure of nothing but this, intensified by breathing

O Porto de Naxos

Podíamos ter atravessado a terra
sem nos conhecermos nunca
Erguido uma casa
aberto um filho, um sopro
que levantasse como o milho
e atravessasse a cintura
de um rio para as nossas mãos 

Ter pousado o corpo exausto
como nas cordas respiram as aves
a roupa batida ao sol, a criança
que atravessa o centro do pai fugido 

Podíamos ter aberto sulcos e
sobre a terra tirado do fundo de nós
uma luz que nos seguisse
e diariamente recomeçado a tristeza 

Leituras desta semana