Pier Paolo Pasolini, "O ódio racial"

Pier Paolo Pasolini, capa do livro “Il caos” (Garzanti); fotografia: Archivio Angelo Palma

Pier Paolo Pasolini, capa do livro “Il caos” (Garzanti); fotografia: Archivio Angelo Palma

Tradução: João Coles

Em “Os cães do Sinai” (De Donato editores) Fortini faz, no corpo do seu discurso, pessoal e pouco límpido, sobre a guerra entre Israel e os árabes, uma observação: no futuro o racismo aumentará de intensidade e de frequência em vez de diminuir: e isto por causa da pressão de um poder, que sendo menos visível e pessoal, não será menos esmagador: pelo contrário, será de tal maneira esmagador a despedaçar e pulverizar a colectividade que constitui o tecido conectivo do processo de produção e consumo; tal pulverização da sociedade em tantas formas diferentes, igualmente oprimidas, fará precisamente aumentar o racismo, pois todas as pequenas partes separadas, nas quais será despedaçado o mundo esmagado, odiar-se-ão racialmente entre elas.

É um ódio racial difícil de imaginar.

É, em geral, difícil, mesmo agora, que vigora com tanto furor, e nós acabámos de sobreviver a isso, imaginar o que é o ódio racial. Este é, na verdade, constituído por muitos ódios raciais, diferentes e por vezes também contraditórios.

Há um primeiro nível histórico – onde permanece o popular – no qual o ódio racial é mágico: e, como tal, sobrevive em cada um de nós (que, nos nossos estratos profundos, permanecemos pré-históricos e populares). Este tipo de ódio racial é o único suficientemente verosímil de imaginar, e é também, de certa maneira, justificável, dado que precede a fase da razão.

As nossas “antipatias” por certos tipos de pessoas, o desconforto violento que nos dão certos “corpos”, são arquétipos de um determinado ódio racial, que experimentamos, seja mesmo de maneira defeituosa ou embrionária, e que portanto recai sob o domínio da nossa experiência.

Todo o restante quadro do ódio racial faz parte de um fundo social, que uma pessoa dotada do uso da razão tem dificuldade em acreditar que verdadeiramente exista. Neste momento histórico, parece-me que o ódio racial seja o ódio que experimenta um burguês perante um camponês: ou seja, o ódio que experimenta um homem integrado num tipo de civilização moderna e citadina contra um homem que representa um tipo precedente de civilização, que ainda ameaça a presença da actual: demonstrando fisicamente que o retrocesso é sempre possível (socialmente). Eis porque se odeia racialmente os negros, enquanto pobres, e os pobres, enquanto, inevitavelmente, diferentes de pele, sendo adidos aos velhos trabalhos que comportam necessariamente o ar livre e o sol (o efeito do sol na pele parece ter um valor decisivo no ódio racial de quem vive em casas civis, e, se trabalhar no campo, fá-lo enquanto patrão, ou industrialmente).

Negros, europeus do sul, bandidos sardos, árabes, andaluzes, etc.: têm todos em comum a culpa de ter os rostos queimados pelo sol do campo, pelo sol dos tempos antigos.

Porém, para voltarmos a Fortini, e à sua observação sobre a pulverização da sociedade graças ao poder e à multiplicação dos racismos, talvez, nos nossos dias – e precisamente nestes últimos dias – alguma coisa tenha caído antecipadamente no círculo da nossa experiência directa.

Verificou-se, efectivamente, em certos estratos que se consideravam muito bem estabilizados da sociedade, uma pulverização devida ao movimento subversivo dos estudantes: tratam-se de estratos muito peculiares: isto é, os estratos das elites intelectuais (como sabemos, extremamente sensíveis e vulneráveis).

A pressão exercida por um poder até àquele momento não só inexistente mas até mesmo inimaginável, o dos jovens, pulverizou estes estratos: e disto nasceu, de entre os vários fragmentos de tal pulverização, uma espécie de ódio racial recíproco.

Nasceu, enfim, uma divisão terrorista entre “justos” e “réprobos”: que não é apenas moral, e portanto perdeu todos os rituais e fair-play. Não, perante o “réprobo”, o justo sente uma antipatia física de tal maneira forte que, mesmo conhecendo-o há anos (e, até ao outro dia, pertenciam ao mesmo genérico círculo social com ideias políticas análogas), quase que sente uma espécie de repugnância; não lhe aperta a mão; evita-o; fica-lhe ao largo; começa a preparar-lhe uma espécie de clima de linchagem.

Viu-se isto, por exemplo, recentemente, no mundo literário (o pobre e decadente mundo literário italiano), pela ocasião dos Prémios: a pressão estudantil, derivada de um certo fascismo de esquerda, exerceu uma forte pressão (social e de consciência) sobre as elites culturais italianas, pulverizando-as e lançando-as no caos.

Cada pessoa encontrou-se (como que por acaso, ainda muito longe de um exaustivo exame de consciência) num fragmento à deriva deste caos: e experimentou um ódio inaudito, uma espécie de nojo físico, pelos seus adversários. Enfim, a pressão de um tipo de poder novo, sem importância decisiva, para já, para o “sistema”, mas assaz importante, pelo contrário, para as consciências, alargou o quadro do ódio racial para tipos de ódio racial novos.

A grande surpresa nisto tudo é que o poder “esmagador” não é o poder constituído. Creio, contudo, que o poder dos estudantes – tal como se instituiu mal-grado estes – se enquadre na problemática do poder tout court.

Os sociólogos até hoje haviam previsto para o futuro (nem podiam fazer outra coisa) somente dificuldades técnicas: vemos pelo contrário, através dos jovens, que as dificuldades do futuro não são de maneira alguma dificuldades técnicas, mas políticas.

Durante muitos anos fomos encantados pela sereia da técnica, seja como problema actual, seja como grande incógnita do futuro (problemas técnicos de dormir, de comer, de habitação, de ocupar os tempos livres, de usar os veículos, de fazer filhos, de envelhecer, etc. etc.), e acreditámos estupidamente que estes problemas técnicos se deviam resolver no âmbito da técnica.

A nova geração de jovens na casa dos vinte – que, nas nações “avançadas”, vive pela primeira vez, inteiramente, deste lado da bacia hidrográfica; vive, isto é, no nosso futuro – como primeiro acto quis demonstrar-nos que as soluções dos problemas técnicos são, também no futuro, políticas.

Os bons administradores que, atormentados no momento pelas oposições, se desafogavam felizes pensando no futuro como um campo puro de especialistas, ficaram a ver navios. E igualmente os intelectuais, que não esperavam que o seu pequeno poder fosse posto em causa tão cedo, e com tanta e inaudita má-educação e violência (eles, que imaginavam ser os novos jovens de vinte anos como tantos bons alunos, os melhores da turma, integrados, afáveis, eficientes, como deve ser). Mas não é por acaso que o primeiro aspecto com que os jovens se apresentam seja o aspecto do poder; que nasce de uma consciência agressiva dos próprios direitos.

E com isto pretendo dizer poder político, além de cultural, de consciência e de opinião: se não tivesse sido político, garantidamente a sua capacidade de “pressão” não teria sido tão violenta ao ponto de desencadear entre os seus pobres pais mais vulneráveis – os intelectuais – este furioso e feroz ódio recíproco de animais enjaulados.

“Tempo” n. 34 a. XXX, 20 de Agosto 1968

in Il caos, Garzanti


L'odio razziale

Nei "Cani del Sinai" (De Donato editore) Fortini fa, nel corpo del suo discorso, personale e non molto limpido, sulla guerra tra Israele e gli arabi, una osservazione: nel futuro il razzismo aumenterà di intensità e di frequenza, anziché diminuire: e ciò a causa della pressione di un potere, che essendo meno visibile e personale, non sarà però meno schiacciante: anzi, sarà così schiacciante, da frantumare e polverizzare la collettività che fa da tessuto connettivo al processo di produzione e consumo; tale polverizzazione della società in tante forme diverse, ugualmente oppresse, farà appunto moltiplicare il razzismo, perché tutte le piccole parti separate, in cui si frantumerà il mondo schiacciato, si odieranno razzialmente fra loro.

É un odio razziale difficile da immaginare.

É, in generale, difficile, anche adesso che vige con tanto furore, e noi ne siamo appena sopravvissuti, immaginare che cosa sia l'odio razziale. Esso è, in realtà, costituito da molti odi razziali, differenti e qualche volta anche contraddittori.

C'è un primo livello storico - che è rimasto quello popolare - in cui l'odio razziale è magico: e, come tale, sopravvive in ognuno di noi (che, nei nostri strati profondi, rimaniamo preistorici e popolari). Questo tipo di odio razziale è l'unico che sia abbastanza possibile immaginare, e che sia anche, in qualche modo, giustificabile, dato che precede la fase della ragione.

Le nostre "antipatie" per certi tipi di persone, il fastidio violento che ci danno certi "corpi", sono archetipi di un tale odio razziale, che proviamo, in modo sia pure monco o embrionale, e che cade quindi sotto il dominio della nostra esperienza.

Tutto il restante quadro dell'odio razziale fa parte di un fondo sociale, che una persona dotata dell'uso della ragione stenta a credere realmente esistente. In questo momento storico, mi sembra che l'odio razziale sia l'odio che prova un borghese verso un contadino: ossia l'odio che prova un uomo integrato in un tipo di civiltà moderna e cittadina, contro un uomo che rappresenta un tipo precedente di civiltà, che ancora minaccia la presenza dell'attuale: dimostrando fisicamente che un regresso è sempre possibile (socialmente). Ecco perché si odiano razzialmente i negri, in quanto poveri, e i poveri, in quanto, inevitabilmente, diversi di pelle, essendo addetti ad antichi lavori che comportano necessariamente l'aria aperta e il sole (l'effetto del sole sulla pelle sembra avere un valore decisivo nell'odio razziale di chi vive in case civili, e, se lavora la campagna, lo fa da padrone, o industrialmente).

Negri, sudeuropei, banditi sardi, arabi, andalusi, ecc...: hanno tutti in comune la colpa di avere i visi bruciati dal sole contadino, dal sole delle epoche antiche.

Ma, per tornare a Fortini, e alla sua osservazione sulla polverizzazione della società dovuta al potere e alla moltiplicazione dei razzismi, forse, nei nostri giorni - e proprio in questi ultimi giorni - qualcosa è anticipatamente caduto nel cerchio della nostra esperienza diretta.

Si è verificata, infatti, in certi strati che si ritenevano molto ben stabilizzati della società, una polverizzazione dovuta al movimento sovversivo degli studenti: si tratta di strati molto particolari: gli strati cioè delle élites intellettuali (si sa, estremamente sensibili e vulnerabili).

La pressione esercitata da un potere fino a quel punto non solo inesistente ma addirittura inimmaginabile, quello dei giovani, ha polverizzato questi strati: e ne è nata, nei vari frammenti di tale polverizzazione, una sorta di odio razziale reciproco.

É nata insomma una divisione terroristica tra "giusti" e "reprobi": che non è soltanto moralistica, e ha quindi perduto ogni rito e fair- play. No, verso il "reprobo", il giusto sente un'antipatia fisica così forte, che, benché magari suo conoscente da anni (e, fino al giorno prima, appartenente a una stessa generica cerchia sociale con analoghe idee politiche), sente quasi una sorta di repugnanza; non gli stringe la mano; lo evita; gli gira al largo; gli prepara intorno una specie di clima da linciaggio.

Lo si è visto, per esempio, recentemente, nel mondo letterario (il povero, squallido mondo letterario italiano), in occasione dei Premi: la pressione studentesca, mutuata da un certo fascismo di sinistra, ha esercitato una forte pressione (sociale e di coscienza) sulle élites culturali italiane, polverizzandole e gettandole nel caos.

Ciascuno si è trovato (come per caso, ben lontano ancora da un esauriente esame di coscienza) in una parcella alla deriva di questo caos: e ha provato un odio inaudito, una specie di schifo fisico, per i suoi avversari. Insomma la pressione di un tipo di potere nuovo, senza decisiva importanza, ancora, per il "sistema", ma assai importante, invece, per le coscienze, ha allargato il quadro dell'odio razziale verso i tipi di odio razziale nuovo.

La grande sorpresa, in tutto questo, è che il potere "schiacciante" non sia il potere costituito. Tuttavia io credo che il potere degli studenti - così come si è istituito malgrado loro - rientri nella problematica del potere tout court.

I sociologi avevano fino a oggi previsto per il futuro (né potevano far altro) soltanto delle difficoltà tecniche: vediamo invece, attraverso i giovani, che le difficoltà del futuro non sono affatto difficoltà tecniche, ma politiche.

Per molti anni siamo stati incantati dalla sirena della tecnica, sia come problema attuale, sia come grande incognita del futuro (problemi tecnici del dormire, del mangiare, dell'abitare, dell'occupare il tempo libero, dell'usare i motori, del fare figli, del divenir vecchi ecc. ecc.), e abbiamo stupidamente creduto che tali problemi tecnici si dovessero risolvere sul piano della tecnica.

La nuova generazione di ventenni - che, nelle nazioni "avanzate", vive per la prima volta, interamente, al di qua dello spartiacque; vive, cioè, nel nostro futuro - come primo atto ha voluto dimostrarci che le soluzioni dei problemi tecnici, anche nel futuro, sono politiche.

I bravi amministratori, che, tormentati, per il momento, dalle opposizioni, si sfogavano felici a pensare al futuro come un puro campo di esperti, sono rimasti con un palmo di naso. E così gli intellettuali, che non si aspettavano che il lor piccolo potere sarebbe stato messo in discussione così presto, e con tanta inaudita maleducazione e violenza (essi, che si immaginavano i nuovi ventenni come tanti primi della classe, integrati, affabili, efficienti, perbene). Ma non è un caso che il primo aspetto con cui i giovani si presentano, sia l'aspetto del potere; nascente da una coscienza aggressiva dei propri diritti.

E intendo dire proprio potere politico, oltre che culturale, di coscienza e d'opinione: se non fosse stato politico certamente la sua capacità di "pressione" non sarebbe stata così violenta da scatenare tra i loro poveri padri più vulnerabili - gli intellettuali - questo furente, feroce odio reciproco di bestie in gabbia.

Tempo n. 34 a. XXX, 20 agosto 1968

in Il caos, Garzanti

Sinéad Morrissey, Pela janela de guilhotina

Tradução de José Manuel Teixeira da Silva

No meu sonho, eis que surgem os mortos
vêm lavar as janelas da minha casa.
Não há cortina que os expulse.

São densas as nuvens que pairam sobre o Lough
densas como as que pairam sobre Delft.
É o ar saturado de nuvens rondando a água.

Os mortos com enormes cabeças. Talvez
persigam o meu filho, a sua
respiração serena, os laços da sua vida -

mas ele continua a dormir, inocente e no seu berço,
tão indiferente a essas inundadas,
flageladas traseiras do vidro esfolado

que nos oferece o fulgor, lá fora…
Um rapaz triste e azul agarra um trapo
entre os dentes, é um mágico rente às vidraças.

E então, se de súbito vieram, de súbito partiram.
E deixaram um horizonte
de onde, agora, só as nuvens nos espiam,

as  copas cerradas de Hazelbank,
o cabo solitário de Strangford Peninsula,
e uma densidade no ar do quarto que me sufoca

até que acordo, estendida de costas, com uma rolha
na boca, tão estanque, é um facto,
como um remédio natural para a hidropisia.

 

Sinéad Morrissey (Irlanda do Norte, 1972), Through the Square Window, Carcanet, Manchester, 2009

 


THROUGH THE SQUARE WINDOW

 In my dream the dead have arrived
to wash the windows of my house.
There are no blinds to shut them out with.

The clouds above the Lough are stacked
like the clouds are stacked above Delft.
They have the glutted look of clouds over water.

The heads of the dead are huge. I wonder
if it's my son they're after, his
effortless breath, his ribbon of years –

but he sleeps on unregarded in his cot,
inured, it would seem, quite naturally
to the sluicing and battering and paring back of glass

that delivers this shining exterior . . .
One blue boy holds a rag in his teeth
between panes like a conjuror.

And then, as suddenly as they came, they go.
And there is a horizon
from which only the clouds stare in,

the massed canopies of Hazelbank,
the severed tip of the Strangford Peninsula,
and a density in the room I find it difficult to breathe in

until I wake, flat on my back with a cork
in my mouth, bottle-stoppered, in fact,
like a herbalist's cure for dropsy.

Grécia e Europa: Variações sobre Teseu e o Minotauro

Teseu e o Minotauro, Vaso Grego, ca. séc. VII-V a.C.

Teseu e o Minotauro, Vaso Grego, ca. séc. VII-V a.C.

 

K. está sentado à sua secretária e acima da cabeça dele, pregado na parede, repousa um gigantesco mapa, em azul e dourado, da ilha de Creta, com as grandes descobertas arqueológicas de Sir Arthur Evans estrategicamente assinaladas. Por um reflexo involuntário, os olhos correm a focar-se no Palácio de Knossos, na nossa imaginação brilha a ideia dos frescos de Knossos, as tabuinhas de Linear A e Linear B descobertas nos palácios de Creta, onde se encontra registado um dos alfabetos mais antigos do mundo, a loucura de Heinrich Schliemann, todo o esplendor da civilização minoica. A ilha de Creta é o lugar do mito que é também a metáfora arquetípica da inteligência ocidental, Teseu e o Minotauro. Talvez seja ingénuo e demagógico recordar isto neste momento, mas a grande moeda comum da Europa, isto é, a própria ideia de Europa como algo assente nas fundações de um fundo cultural comum, é um produto da incrível aventura intelectual que se prolonga desde a Grécia arcaica, da qual a Grécia da civilização minoica é um testemunho, até ao fim da época helenística e estendendo-se talvez um pouco mais, com a cultura que nos é legada por Bizâncio e pela imposição política do cristianismo sobre a Europa.

As coisas que nos dão genuíno prazer em estar vivos, as coisas por que vale a pena viver, foram quase todas imaginadas ou aperfeiçoadas, trazidas até ao estatuto de artes a cultivar e proteger, pelos Gregos: música, política, filosofia, história, democracia, os géneros literários em que ainda hoje nos expressamos, o teatro, os nossos cânones de beleza, que são um capítulo que não poderia ter sido escrito sem os cânones de beleza escultórica da Grécia da Antiguidade, os conceitos de biblioteca e de escola, a ideia de cosmopolitismo, o próprio conceito de indivíduo. O que quer que ser Europeu possa significar hoje, especialmente hoje, o sentido disso é grego. A dívida que temos para com a Grécia, nunca a iremos pagar completamente.

            Na declaração de Alexis Tsipras que antecede as negociações que se prolongaram até segunda-feira de manhã pode ouvir-se: "I am here ready for a honest compromise, we owe that to the peoples of Europe, who want Europe united and not divided. We can reach an agreement tonight, if all parties want it."

            Convém também recordar as palavras de Angela Merkel: “Temos em conta a situação da Grécia e como esta se deteriorou ao longo dos últimos meses, mas a moeda mais importante, a moeda da confiança perdeu-se, e também a da responsabilidade. Isto significa que as negociações hoje vão ser duras, e que um acordo não será alcançado a qualquer preço.”

            Na quarta-feira passada, e depois de uma hora a discutir o que é que numa série de papiros e objectos de arte recuperados em escavações em Alexandria pode ser útil para o meu próximo projecto, K. tira o cigarro electrónico do bolso da camisa e recusa as bolachinhas que eu lhe ofereço (K. anda a tentar perder peso e deixar de fumar). O meu amigo K. é um grego de Tessalónica e um historiador da época helenística, que acaba de, entre mil outras coisas, escrever um livro sobre Kavafis e Alexandria. K. estudou primeiro em Sarajevo, durante os anos da guerra, e foi aí que conheceu a mulher dele, uma grega de Atenas, que ao fim de tanto tempo o continua a provocar com a piada que os atenienses guardam para a gente de Tessalónica, que os de Tessalónica são mais lentos. K. é aquele tipo de homem tranquilo, que fala baixo, com uma convicção na fronteira da autoridade, que vem dos anos que passou a dar aulas. E é uma das pessoas mais generosas que conheci em Oxford. Sempre overworked, K. arranja sempre tempo para discutir comigo as ligações alexandrinas do meu projecto.

Há quase duas décadas que K. não vive na Grécia, de Sarajevo, K. mudou-se para Leiden, onde fez o doutoramento e M., a mulher dele, voltou à Grécia. Pouco depois ela juntou-se a ele. No fim do doutoramento, K. mudou-se para Alexandria e com os tumultos mais recentes no Egipto, K. acabou por mudar-se para Oxford. De alguma forma, o percurso de K. é uma epítome das vantagens que a União Europeia conferiu aos cidadãos dos estados membros, livre circulação de pessoas, um sistema universitário com um sistema de equivalências comum, que promove a livre circulação de ideias. 

Quando perguntei a K. o que é que ele achava que ia suceder à Grécia na fatídica reunião daquele fim-de-semana, ele riu-se e disse-me que não era com ele a fumar um cigarro electrónico que podíamos ter aquela conversa. Fora do edifício, debaixo da chuva miudinha que garante que o verão inglês se mantém eternamente verde, a primeira coisa que K. me diz é que esta é uma união europeia de cobardes, que espera que se dê o Grexit e que teme que o cenário que se há-de seguir a isso não seja muito diferente do que ele viu em Sarajevo por volta de ’95.

            Aquilo a que assistimos na noite de domingo para segunda-feira, ansiosamente agarrados aos monitores dos nossos computadores, acordando a intervalos para verificar no site do The Guardian os últimos desenvolvimentos, é bem pior do que o pior cenário que eu tinha antecipado, o Grexit. Mas se o Grexit podia ditar o fim da união monetária dos países da zona euro, sem dúvida havia muito mais margem de esperança para a Grécia do que com um acordo como este, que o FMI implicitamente tinha declarado inviável tanto antes como depois (há semanas, e de novo nos últimos dias, este organismo reconhece que é impossível a Grécia cumprir seja que plano de recuperação for sem um perdão de parte da dívida).

            O que eu vejo na aceitação deste acordo por parte do governo de Alexis Tsipras é que a Grécia apanhou uma bala por todos nós, uma bala por uma ideia de Europa que é cancelada pelas condições humilhantes, e que têm sido de outro modo, adequadamente a meu ver, descritas pelo termo "neocolonialistas", impostas por este acordo, que encaixam perfeitamente na descrição feita por K. de uma União Europeia doente, uma união de cobardes, algo, a outro nível, amplamente atestado nas declarações tanto de Pedro Passos Coelho como de António Costa, na busca vergonhosa de um crédito medíocre por um dos momentos mais negros e mais tristes na história da União Europeia. E sobre o que essa ideia de Europa representou até este ponto, pelo menos até aqui, podia citar-se o grande historiador da Grécia Antiga, Tucídides, na oração fúnebre de Péricles aos Atenienses, proferida em honra dos mortos no fim do primeiro ano da guerra do Peloponeso:

 

It is true that we are called a democracy, for the administration is in the hands of the many and not of the few. But while there exists equal justice to all and alike in their private disputes, the claim of excellence is also recognized; and when a citizen is in any way distinguished, he is preferred to the public service, not as a matter of privilege, but as the reward of merit. Neither is poverty an obstacle, but a man may benefit his country whatever the obscurity of his condition. There is no exclusiveness in our public life, and in our private business we are not suspicious of one another, nor angry with our neighbor if he does what he likes; we do not put on sour looks at him which, though harmless, are not pleasant. While we are thus unconstrained in our private business, a spirit of reverence pervades our public acts; we are prevented from doing wrong by respect for the authorities and for the laws, having a particular regard to those which are ordained for the protection of the injured as well as those unwritten laws which bring upon the transgressor of them the reprobation of the general sentiment.

(tradução do grego de Richard Hooker, 1996)

            Nada podia ser mais afastado do imaginário político evocado pelo discurso de Péricles, do espírito de solidariedade que é supostamente o testamento político que deu origem a um dos mais prolongados períodos de paz na história da Europa, de que a União Europeia se tornou o símbolo máximo, do que este acordo podre que nada tem que ver com salvar um pequeno estado democrático e pacífico da falência, para quem cinco anos de austeridade resultaram num milhão de desempregados e num endividamento que em breve irá atingir os 200% do PIB. Trata-se de uma humilhação cheia do espírito preventivo dos cobardes, dissuadir qualquer país na Europa a desafiar a indisputável hegemonia política do marco alemão que neste momento se encontra travestido de moeda comum. Se é preciso reconhecer que cada um dos representantes dos países europeus tem de ter em mente a pressão do eleitorado que democraticamente os elegeu, podia aqui repetir-se Tucídides citado acima, que a mais estável das uniões políticas alguma vez forjadas neste continente devia idealmente ter criado cidadãos que são impedidos de praticar o mal por respeito pela “autoridade das leis, com uma reverência especial pelo conjunto de leis estabelecidas para proteger aqueles que estão numa posição enfraquecida, tal como por essas leis que não estão escritas e que trazem sobre o agressor a reprovação do sentimento de todos.”

Repito: não podíamos estar mais longe do ideal democrático de Péricles – nem sequer tendo em conta as limitações que anacronisticamente é preciso reconhecer à democracia ateniense, a escravatura e a limitação exclusiva do direito de voto a cidadãos atenienses do sexo masculino. Numa Europa onde o acordo imposto à Grécia é obtido em parte decisiva pela pressão de um partido que é um dos principais inimigos de uma ideia de Europa, que neste momento tem poder de decisão sobre o rumo político desta, estou a referir-me aos nacionalistas finlandeses, nada podia de facto estar mais longe do ideal democrático que herdámos dos gregos. E como bem notou Varoufakis, internamente isto só beneficiará o Avgi Chrisi, o sinistro partido de extrema direita que como qualquer predador em tempo de crise tem ganhado poder na Grécia. É difícil elencar quantos tiros nos pés da estabilidade interna e externa das supostas democracias europeias este acordo representa (fica esclarecido, se esclarecimento fosse preciso, que se trata não de democracia, mas afinal de um grande regime oligárquico, outro sistema político que herdámos da Grécia Antiga). Podia mencionar-se aqui, a título de exemplo, a postura politicamente servil imediatamente assumida por parte do Podemos em Espanha (a metáfora do bom aluno, de pendor vagamente salazarista no contexto português e particularmente cara ao ideólogo Passos Coelho é bem pertinente - o Podemos já está a dar sinal de estar a aprender, recuando na ideia de pedido de reestruturação da dívida pública). 

            E para aqueles que com tanta falta de imaginação política se entretiveram a escrever sobre o desrespeito de Tsipras pelo resultado do referendo, estou a referir-me a este comentário, a vários níveis inenarravelmente imbecil, de Eduardo Pitta (a que não é alheio o tom de crónica de boudoir, característico do estilo de Pitta, e de que este artigo do jornalista grego Alex Andreou é o contraponto), este argumento só é válido se ignorarmos que Tsipras governa um país onde maioritariamente a opinião pública se sente completamente aterrorizada pela possibilidade de abandonar o Euro, o Grexit nas condições de domingo tornaria a Grécia responsável pela dissolução da zona euro, que neste sentido o referendo serviu sobretudo como uma manobra política pensada para consolidar a posição do governo do Siriza, que com a Grécia na iminência da falência o poder negocial de Tsipras se encontra extremamente enfraquecido, e que o desrespeito pelo resultado desse referendo é afinal sintomático do total desrespeito pela soberania grega por parte desta União Europeia, que se esqueceu do que é que afinal estava em causa nestas negociações, e aqui pode terminar-se não com Tucídides, mas com Yannis Varoufakis, pronunciando-se sobre a decisão que o parlamento grego terá de tomar hoje, e concluindo que Angela Merkel tem razão, que um acordo não devia ter sido atingido a qualquer preço:

Much energy is expended by the media on whether the Terms of Surrender will pass through Greek Parliament, and in particular on whether MPs like myself will toe the line and vote in favour of the relevant legislation. I do not think this is the most interesting of questions. The crucial question is: Does the Greek economy stand any chance of recovery under these terms? 

Fotografia de Zacharias Stellas (Ilha de Paros, 1965-1975). Acervo do Museu Benaki, Atenas.

Fotografia de Zacharias Stellas (Ilha de Paros, 1965-1975). Acervo do Museu Benaki, Atenas.