"Fica" de Ingeborg Bachmann

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Tradução: J. Carlos Teixeira

Fica

As viagens terminam,
não mais se sente o vento.
Tomba-te nas mãos
um frágil castelo de cartas.

As cartas são ilustradas
e mostram cada lugar.
Tu retrataste o mundo,
baralhando-o com a palavra.

Quão profundas as partidas
agora em curso!
Fica, para tirares a carta
com a qual se ganha.

in Anrufung des großen Bären, 1956


Bleib

Die Fahrten gehn zu Ende,
der Fahrtenwind bleibt aus.
Es fällt dir in die Hände
ein leichtes Kartenhaus.

Die Karten sind bebildert
und zeigen jeden Ort.
Du hast die Welt geschildert
und mischst sie mit dem Wort.

Profundum der Partien,
die dann im Gange sind!
Bleib, um das Blatt zu ziehen,
mit dem man sie gewinnt.

in Anrufung des großen Bären, 1956

Os nomes da Rosa

“A forma é o traço do informe”

                   Plotino

 

I – MARIA

 

Corpo de mulher rico

em beleza e doçura

Antigo nome de mãe

luz que anuncia em

calmas e singelas tertúlias

a atenção e o perdão

 

 

II – MARTELO

 

Acolher, digerir as palavras

do jovem bardo, distribuí-las em

seguida, exige a mesma força

para manobrar o martelo

primordial, a bigorna e o fogo.

 

Martelo sem e com mestre:

O mestre usa máscara, tem máscara, é máscara.

Os martelos velozes, as grandes flores

dispersas sob as longas barbas dos metrosíderos:

 

Rosas, sombras de rosas

num longo e doce lago de verão onde a doçura

jaz eternamente estendida.

 

 

III – INVISÍVEL COGNOME

 

Os bons professores são sempre

uma mistura de doçura e força

lançam faíscas ardentes em

vastas planícies secas:

 

renascentes películas Malickianas.

 

 

                                                      (28.11.2016)


Nota: Este poema, de 2016, encontra-se em “Dentes Tortos” (2017)

Rachel Ruysch - flowers in a glass vase, with a cricket in a Niche. 1700.jpg

Rachel Ruysch - “Flores num vaso de vidro, num nicho e com um grilo”, 1700.


Retrato Inacabado

Aquele que trazia o arco
a flor e um verso incendiado
erguia  o rosto contra  a sombra
o vento as vozes no abismo

Aquele que ganhou a seta
sobre   ruínas e  despojos
soube dos homens e da caça
o jeito de se tornar cruel

Aquele que tangia a corda
vibrátil,  junto ao coração,
mal pôde ouvir  o acorde cavo
levar-lhe as  pernas e  o sexo

Aquele que tombou na  margem
do rio antes profundo azul,
tão moço o dia  no seu halo
já baço o rosto devastado

Aquele que tingiu de rubro
a terra mal desperta ainda, 
a boca rente ao chão, o lodo
na sua carne quase morta

Subsídios para a criação de uma polícia poética

para o Ricardo Marques

 

é altura de admitir
que os esforços
de um ou dois críticos
apesar de heróicos
não são suficientes
e que hoje
mais do que nunca
é necessário
que o estado
tome medidas firmes
sobre o oeste selvagem
que se tornou
a poesia em Portugal

uma entidade isenta
que certifique
a verdadeira poesia
legisle
sobre a temática
regule a forma
promova
a criação de léxicos
de termos poéticos
e anti-poéticos
nomeie comissões
de eventos
defina critérios de avaliação
sem esquecer
os anos de serviço
seja firme
na defesa do interesse público
contra os lobbies
do verso branco
e decida por fim
a penosa questão da rima

e sobretudo
que proteja
os cidadãos cumpridores
da poesia iníqua
o artifício
desprovido de sentido
aplique coimas
aos que escrevem poemas
sobre escrever poemas

Fukao Sumako, “A Casa Iluminada”

Hiroshige, Evening view of a temple in the hills

Hiroshige, Evening view of a temple in the hills

Tradução: Bruno M. Silva

É uma casa iluminada;
nenhum quarto é sombrio.

É uma casa que se ergue alta
sobre os penhascos, aberta
como uma torre de vigia.

Quando a noite chega
eu ponho uma luz dentro,
uma luz maior do que o sol e a lua.

Pensa
em como o meu coração se sobressalta
quando os meus dedos trémulos
acendem um fósforo na noite.

Eu levanto os seios
e inspiro e expiro o som do amor
como a filha apaixonada de um faroleiro.

É uma casa iluminada.
Criarei nela
um mundo que nenhum homem conseguirá construir.

*

Bright House

It is a bright house;
not a single room is dim.

It is a house which rises high
on the cliffs, open
as a lookout tower.

When the night comes
I put a light in it,
a light larger than the sun and the moon.

Think
how my heart leaps
when my trembling fingers
strike a match in the evening.

I lift my breasts
and inhale and exhale the sound of love
like the passionate daughter of a lighthouse keeper.

It is a bright house.
I will create in it
a world no man can ever build.

(Women Poets of Japan, tradução Kenneth Rexroth e Ikuko Atsumi, New Directions Books)