Marinheiro com Residência fixa

Com Navalhas e Navios – Poesia Reunida 1972- 2012-

de Urbano Bettencourt (2019)

Prefácio: Carlos Bessa; Edição Companhia das ilhas

     A primeira vez que ouvi o nome de Urbano Bettencourt foi no ano de 2003, em Ponta Delgada. Tinha, como se pode facilmente confirmar, 20 anos. Lembro-me ainda hoje desse dia, ou melhor, da conversa em que o nome apareceu. Um dos meus amigos, um rapaz que na altura estudava Filosofia na Universidade dos Açores, e que gostava de livros como eu, referiu o nome do poeta contemporâneo açoriano numa conversa sobre poesia, onde andaria, provavelmente, autores que andávamos a ler e, inevitavelmente, Antero. Digo inevitavelmente porque, bem ou mal, a memória do grande poeta sempre esteve bem presente nas ilhas, e no espírito de quem lê poesia nas ilhas, o que era o nosso caso, rapazes de letras e na casa dos vinte.

     O mesmo Antero aparece como título de um livro de Urbano Bettencourt, já em 2006, e que, por algum motivo que ainda não sei bem, me fez pensar no livro de Armando de Silva Carvalho – Anthero, Areia & água, de 2010. Desse livro Antero, de 2006, o poeta só nos deixou, nesta antologia, um único poema, o que criou em mim, desde logo, uma curiosidade em ler a totalidade do livro. Será mesmo um livro? Ou será apenas um poema solto escrito em 2006?  Eu poderia ter perguntado diretamente ao poeta, mas preferi não o fazer, pois o leitor é que tem de ir à procura do que lhe falta, algo que terei de fazer quando estiver em S. Miguel, porque bem sabemos, e quem não sabe digo-o já, ter acesso a livros das ilhas, estando no continente, é um tormento, sobretudo se os livros já estiverem fora do mercado. (Esse tema dava pano para mangas, mas deixemos para outro dia).

     Embora passasse a conhecer, em 2003, o nome de um dos maiores poetas açorianos contemporâneos – Urbano Bettencourt – a leitura da sua obra foi sendo feita de forma dispersa e muito tardiamente, um ou outro poema apanhado por acaso em revistas ou antologias de poesia açoriana. E isso deveu-se por minha culpa e não pelo poeta que foi publicando com alguma regularidade livro atrás de livro. Ao contrário do que a maioria das pessoas possa pensar, sou um leitor muito lento, e quero continuar a ser um leitor lento. Refiro-me, não à leitura do livro propriamente dito, mas, sim, à sua absorção. Um poema pode ser lido em dez minutos, mas a sua compreensão pode demorar meses e até, em determinados casos, anos. Esta é a leitura que me interessa, e a que deveria interessar a todos. Acredito que há poemas que exigem uma vida inteira para serem compreendidos e outros em que uma vida não chega, os que ficarão sempre por ser compreendidos.

     Digo tudo isto para se compreender duas coisas: primeiro) a importância desta antologia para minha geração e para as gerações mais novas, passamos a ter uma visão global da obra de um dos maiores poetas açorianos vivos; e segundo) para dizer que precisei de algum tempo, alguns meses, para entrar na poesia de Urbano Bettencourt. E não sei até que ponto terei entrado inteiramente nela, o que deve ser entendido como um elogio ao poeta, pois exige do leitor tempo.  Ora, quando comecei a ler o livro, não consegui parar, pela simples razão de que me surpreendeu imenso o livro. Aqui é preciso fazer um parenteses, para dizer que Urbano Bettencourt, já com 70 anos, faz parte da geração dos poetas que, realmente, me interessam, ou seja, os poetas que começaram a publicar nos anos 70, ou seja, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães, Nuno Júdice, etc. Mas também quer dizer, Santos Barros, Marcolino Candeias, etc . Ou seja, estamos perante um autor que vem de uma geração que me fascina, uma geração em que a narrativa e a contenção metafórica estão de alguma forma ligadas. Posto isto, depois desta observação, há que entrar no universo de Urbano Bettencourt.

     O que me chamou à atenção, no imediato, foi a ideia de estarmos perante um ponto fixo que deambula por três universos espaciais/ geográficos diferentes. Ou seja, o ponto fixo será os Açores e a deambulação poética de Urbano Bettencourt anda por: a) Portugal continental b) Madeira c) Canárias e Cabo Verde. Se quisermos podemos resumir em Macaronésia e Portugal continental. O que quero dizer é que  estamos perante uma poesia cheia de referências culturais de diversos pontos do Atlântico, uma poesia tipicamente pós-moderna, rica em relações intertextuais com outros poetas e obras. Dito isto, torna-se claro que a minha compreensão da poesia de Urbano Bettencourt fica aquém do que é exigido pela sua poesia. O que parece ser uma desvantagem é antes uma enorme vantagem, pois é um livro que me obriga a ir atrás de outras coisas, um livro que estimula a minha curiosidade, um livro sempre em expansão todas as vezes que o leio. Ao mesmo tempo, é um livro sobre o universo familiar, a ilha, as coisas simples da vida, o amor, a morte, a saudade, a que se associa algum humor e algum sarcasmo (ver por exemplo o poema “Exercício de Socorro a náufragos (tranquilos ou não) depois de falhar a respiração boca a boca)”). Este poema talvez seja o meu preferido.

     Esse ponto fixo que se move num espaço geográfico extensíssimo, e, diga-se muito claramente, do qual há um enorme desconhecimento no Portugal Continental, tem a sua melhor expressão num dos seus mais belos títulos: Marinheiro com residência fixa, de 1980.  Nesse título, creio, podemos sintetizar toda a poesia de Urbano Bettencourt. Carlos Bessa diz exatamente o mesmo no prefácio de Com Navalhas e Navios: “Marinheiro com residência fixa, que pode ser entendido como a síntese de uma arte poética. É o mar português tão presente na nossa lírica e na nossa épica, um mar agreste e um mar de heróis, mas também território de gente anónima, de diferentes tipos de anti-heróis que deram a vida em nome da pátria ou que dela fugiram à procura de um eldorado.” Por mais que se navegue entre ilhas e arquipélagos distintos, a residência fixa, as raízes de Urbano, está nos Açores, o que faz desta poesia uma poesia rica e cosmopolita, uma poesia insular cosmopolita.

      À primeira vista, parece ser um paradoxo este entre Insular e Cosmopolitismo, mas não o é. Ou seja, a ideia de que a poesia açoriana é um universo provinciano fechado sobre si é a ideia mais errada que se possa ter dela; ela, e sobretudo uma poesia como a de Urbano Bettencourt, é, sim, uma poesia insular com traços de cosmopolitismo de toda a ordem, que vai da poesia das Canárias passando pela poesia de Cabo Verde, até às nacionais e internacionais (veja-se por exemplo Alguns poemas de Wang Yong). É preciso dizer isto claramente, porque eu escrevo do Porto e a maioria das pessoas que vão ler estas notas estão no Portugal Continental, num espaço geográfico que reduz tudo o que pertence à natureza das ilhas ao meramente insular e provinciano. A condição de ser diferente não pode ser reduzida a uma categoria inferior, ela é, sim, o seu contrário, uma poesia rica onde o local encontra-se com o nacional e o internacional.

     Ora, tudo isto para dizer que não percebo a dita e “majestosa crítica” (gosto de ser irónico) deste país. Esta antologia saiu em Setembro de 2019 e, pelo que sei, tem passado despercebida, tem sido até ignorada. É mais fácil escrever umas notas sobre um miúdo da minha geração do que tentar entender 40 anos de poesia de um autor que vive numa ilha no meio do Atlântico. É exatamente para dar atenção a esta antologia que resolvi escrever estas notas, para chamar a atenção de que esta antologia exige mais atenção da parte do leitor, dos bons leitores.

      Com Navalhas e Navios, título retirado de um dos seus poemas, pode também ele resumir toda a obra de Urbano: Navalhas, instrumento de corte capaz de ser tão útil à sobrevivência como ferir, magoar, matar; Navios, meio primordial para a viagem marítima, é também o meio para o sonho, a evasão de si mesmo e o contacto com os outros. Temos assim esse dualismo entre dor e sonho, entre realidade difícil e a possibilidade de imaginação, entre ficar e partir. Temos assim, duas palavras essenciais aos marinheiros: navalhas, a que permite escamar o peixe e cortar as linhas de pesca; e o Navio, o barco que lhe permite recolher o seu sustento e, ao mesmo tempo, sair da sua residência fixa, para mais tarde regressar a ela. Em alguns poemas a marca da dor está bem presente, talvez relacionada com a experiência do poeta com a guerra colonial, na Guiné (ver os poemas Remuniciar o tempo, atente-se à palavra Remuniciar, vinda de municiar, munição) e com a do exílio das ilhas, dos anos em que viveu em Lisboa longe dos seus Açores.

     Num conjunto de poemas de título “Alguns nomes de circunst/ânsia”, são feitas homenagens a Domingos Rebelo, a Virgina Woolf, a Santos Barros, Ivone Chinita e Garcia Lorca. A ideia já referida de viagem marítima é retomada com a ideia de “circum-navegação”, através do uso palavra “circum-negação (uma palavra que desdobra o sentido), uma das primeiras palavras que aparece nos primeiros poemas do livro. Aqui esta circunstância, circum-navegação, está associada à palavra ânsia, o que pode apontar para uma ânsia de conhecimento do mundo (uma curiosidade sem fim) e ao mesmo tempo uma ansiedade que despoleta a criação literária.

     Uma das críticas mais comuns ao livro, é a de que o poeta teria cortado demais, teria selecionado demais para esta antologia. Pode ser verdade. Desta antologia faltam os poemas em prosa e as pequenas prosas, muitas delas com um elevado sentido de humor e de ironia. Neste ponto, não posso deixar de dizer que é uma das facetas que mais me atrai na poesia de Urbano Bettencourt, o que a coloca próximo de outro autor seu amigo e grande poeta –  Santos Barros. E convém referir que Urbano Bettencourt trabalhou sobre a obra de José Martins Garcia, cuja obra é de uma fina ironia e humor fabuloso. Sem querer desvalorizar outros poetas açorianos, estes são, para mim, os três grandes, os que me fascinam e que recomendo vivamente. Contudo, como não sou monóculo, nem ciclope, direi que outros poetas merecem a devida atenção para as suas obras, como por exemplo Emanuel Jorge Botelho, só para citar um exemplo.  

     Com Navalhas e Navios merece mais leituras, mais descobertas. Exige que se leia a antologia de ponta a ponta e, se possível, se recorra às primeiras edições dos seus livros, para melhor entendermos a obra de Urbano Bettencourt. Só assim, o objeto pode ganhar maior amplitude. Não foi minha intensão esgotar o livro nestas notas, mas sim despertar algum interesse, para o lerem com maior atenção. Em nota final de rodapé, não posso deixar de elogiar a capa, pela beleza e simplicidade, porque estou cansado de ver Bruegel e pintura inglesa mutilada e a encher supermercados, como se a pintura só servisse para atrair a compra de livros. Recomendo vivamente a leitura desta antologia. E faço votos para que os seus ensaios, com os quais tenho muito que aprender, e as suas pequenas prosas saem muito em breve.

Ps- Quando terminei estas notas, soube, pelo facebook, que o Urbano Bettencourt ganhou um prémio de reconhecimento pela “Letras Lavadas”; assim, envio-lhe deste lado, os meus parabéns.

notas - Porto, 21.04.20

    

AÇORES: East of the sun, West of the moon*

“Up among the stars we'll find a

harmony of life to a lovely tune”

- Diana Krall

“Alguém se metia no teu silêncio”

- Santos Barros

miradouro.png

Miradouro de Santa Iria, norte de S.Miguel, Ribeira Grande, Açores.

*Diana Krall: https://www.youtube.com/watch?v=ElAP4LF4a1o

Nota: Vítor Teves não tem nenhum talento para ler poesia (faltou a todas as aulas de teatro), mas ele insiste porque está farto de leituras estandardizadas, feitas sempre à volta dos mesmos poetas.

Natureza (quase) morta

A senhora inglesa posa talvez
para um pintor imaginário que não  sabemos;  
ele   há-de fixar-lhe o corpo reclinado
o gesto de quem tenta  reter a última luz
da tarde.
No balcão raso  um limoeiro
botou raiz e frutos
e ela é  a personagem do livro que lê demoradamente,
sem cuidar de saber  de uma outra senhora 
que em Bruxelas negoceia, aos milhões,
a manutenção futura deste sol a baixo custo.

Às  vezes, muito  antes da leitura,
a senhora inglesa dedica  ao atento siamês
um falsete que só ele entende       
e  julga ser ainda escutada
por uns netos longínquos e  de olhos claros
que gritam e fazem caretas como os netos de toda a gente
mas  secretamente  lhe outorgaram já
o pequeno brexit familiar.

 (Cabanas de Tavira
2018)

Captura de Ecrã (9764).png

Carlos Carreiro - “Paisagem com natureza morta”, 1990.

Retrato Inacabado

Aquele que trazia o arco
a flor e um verso incendiado
erguia  o rosto contra  a sombra
o vento as vozes no abismo

Aquele que ganhou a seta
sobre   ruínas e  despojos
soube dos homens e da caça
o jeito de se tornar cruel

Aquele que tangia a corda
vibrátil,  junto ao coração,
mal pôde ouvir  o acorde cavo
levar-lhe as  pernas e  o sexo

Aquele que tombou na  margem
do rio antes profundo azul,
tão moço o dia  no seu halo
já baço o rosto devastado

Aquele que tingiu de rubro
a terra mal desperta ainda, 
a boca rente ao chão, o lodo
na sua carne quase morta