Quatro cidadãos conspiram lendo versos: leitura de poesia (4 de Outubro, Porto)

70900621_2710248375654923_4486477018690486272_n.jpg

Francisca Camelo, José Pedro Moreira, Mafalda Sofia Gomes e Vítor Teves têm livros novos acabados de sair (ou prestes a sair, no caso da Mafalda).
Assumindo o já sobejamente conhecido carácter dispensável da poesia, estes quatro poetas decidiram juntar-se para lerem alguns poemas. Num tempo de capitalização individual de todos os pequenos gestos quotidianos, haverá algo mais revolucionário do que a inutilidade de uma leitura coletiva de poesia?
Aparece e traz um inútil também!

No dia 4 de Outubro, na livraria Flâneur (Porto), às 17.30.

SALAI DANÇANDO PELAS RUAS DE FLORENÇA e outros poemas

 SALAI DANÇANDO PELAS RUAS DE FLORENÇA

“Vira a tua atenção para os vários objetos , olha

agora para isto e agora para aquilo e reúne uma

coleção de factos diversos selecionados e escolhidos

entre aqueles de menor valor” – Leonardo da Vinci

 

“Hey now, don’t Forget that change will save you”

- R.E.M (Überlin)

a Leonardo da Vinci (500 anos)

 

Da linha do tempo do seu tronco principal

saem outras mais finas e pequenas

raízes que correm em todas as direções.

Da enorme e elaborada árvore uma entre várias

uma pequena e fina linha quase imperceptível

cai como um pingo de chuva pelo perfil de Salai.

No mar tempestuoso do seu cabelo Leonardo

Separou o silêncio do seu traço e o ardente

Desejo que lhe corroía lentamente a Mente.

Calado sob os sinos da Catedral usava o

Lápis como chicote para o coração e o corpo.

 

“Compra-me Carvão Ocre Camim Terebentina

e antes que me roubes usa em teu proveito

as moedas que daqui sobrarem. Mas antes

troca-me esta T-shirt suja por aquela amarela.”

 

Em todas as vielas de Florença ou em todas as

Cidades feitas para os desejos e sonhos impossíveis

Há um jovem que livremente dança para Terpsícore.

Sentado à secretária o velho anota para o espelho

“Hoje em amor libertei mais um pássaro!”

de “O Nardo” (2019) (Brevemente)

COROA

 

Os dragões da Somália trazem uma coroa

de três bicos sobre a cabeça:

              o corpo dissolvido de Basquiat

              a minha febre amarela

              o teu presente esgar

 

Na levitação o brilho refaz

a aura e dá ao negro Rei

novo Corpo

A PINTURA SEM TINTA

       SEGUIDO DE

UM POEMA SEM SOM

 

 A linha digital imprime o ilusório

rompimento - o raio imortal do inefável

cai sobre a faca de dois gumes que

a trespassa e reativa a presença da luz

- a teimosia da cor persiste.

 

O poema aqui existe e existe

outro poema entre este poema

e a tua ideia construída de poema.

É no vão que aqui se abriu que uma falena

bate as asas sem que a possas ouvir.

d52058950bdd6b5adfcd886bde8b4085.jpg

"Lamarim" - de Vítor Teves

“Os poemas de Vitor Teves falam-nos do amor, amizades, pinturas, esculturas, poetas portugueses contemporâneos. Se quisermos ler o livro como arte poética, o poeta diz a dada altura que eles são feitos com esferovite e fita-cola (v. Poema Colado Com Esferovite E Cola). Visitas em busca de um amor burguês são feitas a museus e ha escadas onde poetas franceses da década de quarenta tem de se esforçar para não tropeçar em certa data. Lamarim, no entanto, faz por nos o que William Carlos Williams diz que os poemas nos devem fazer, dar-nos as noticias.”

- Tatiana Faia (Prefácio de “Lamarim” (2019)

EXERCITO ZOMBIE

 

Idealistas sonhadores homens

mulheres

sem cabeça sem alvo ou

ponto a atingir

Poetas escrevendo apontamentos

deixando ora o braço

ora a mão aqui e ali na longa

planície da vida

Do céu tudo o que fazem

é um mero desenho

pontuado por destroços

- de “Lamarim” (2019)

69753878_383480195900354_5803104156721872896_n.jpg

NUMA PALAVRA e outros poemas

NUMA PALAVRA

 

“Ver nunca foi para todos

os elementos da aldeia”

         - Raul Milhafre

 

Contrariando os rituais antigos

aceitei a companhia para ir à emblemática

exposição de pintura contemporânea.

Nela podíamos encontrar Albert Oehlen

Mary Heilmann Charlie Von Heyl

e entre outros três enormes telas de

Neo Rauch do início dos anos mil.

 

Dentro dos meus ténis confortáveis

tirava uma e outra nota para o meu

pequeno moleskine de capa preta

(mentira era lá do Continente coisa

barata. Não esquecer de comprar mais dois!).

E enquanto observava a terceira tela a

minha companhia veio dizer-me que

no fim da sala só existiam tiras brancas

e pretas “Nada mais!”

(Daniel Burren? Pensei).

 

Foi então que a minha companhia

lançou a pergunta mais difícil a mais

“inteligente” de todas as perguntas alguma

vez feita “O que é isso aí em frente?”

E sem que eu tivesse tempo de molhar os

lábios acrescentou “mas resume!”

 

Nesse instante apontei rápido no

meu falso moleskine de capa preta

“vir sempre sozinho!”

e ao abrir a boca

pensando já na fuga iminente disse

“Café?”

 

 

O LÍRIO E O TRIÂNGULO

 

A linha que cai da brancura do lírio

que sobe pela boca que recolhe a

água é a mesma linha que num só

grito desenha e alarga a forma

rígida do triângulo ângulo a ângulo.

 

A mesma que corre do Interior ao

redondo da mão que escreve.

 

 

 

CADEIRA DE RODAS

 

O artista consagrado entra apenas

de cadeira de rodas na sua

enorme e majestosa retrospetiva.

 

Quando termina o champanhe e os

aperitivos (devorados num gole)

é tempo de levantar-se da cadeira

e ir calmamente da entrada ao táxi

 

que o leva outra vez ao Esquecimento.

 

 

GOLFE PARA REFUGIADOS

 

Separados pela Rede as redes os muros

homens de golfe e homens de fôlego

gordos e magros barrigudos e fracos

tombam todos juntos mais um barco.

 

Na balança inclinada tarde ou cedo

acabaremos por ir juntos aqui ou longe

inclinados neste barco largo e fundo.

 

O SENHOR COGITO MANDA

TELEGRAMAS À CRÍTICA

 

“Telegramas com Telegramas

se pagam” – Raul Milhafre

 

“Belzebu apoia as Artes”

          - Zbigniew Herbert

 

Telegrama 1

Frente ao texto, qualquer texto (a pintura é também

um texto), por mais grotesco que seja, despir tudo,

sobretudo o Gosto. Horas depois voltar a vesti-lo.

 

Telegrama 2

Face ao óbvio colocar questões óbvias e outras menos

óbvias e ver o que acontece. Por vezes, o não acontecer

nada é um acontecimento, uma espécie de bofetada.

 

Telegrama 3

Nunca esquecer o contexto, a figura esguia ao longe, o

primeiro plano; assim como o peso de Todo o Tempo.

 

Telegrama 4

Ver o objeto de frente, agarrá-lo pelos cornos e raspá-lo,

camada a camada, até ficar sem tinta. E se a pura tinta

sair, ver (milimetricamente) as migalhas do pouco que há.

 

Telegrama 5

Comparar A com R, T e Z, nunca comparar apenas A

e B. E, se possível, esquecer os amigos de estima e

evitar, sobretudo, insuflar o ego em dose excessiva.

 

Telegrama 6

Urgente: Tragam-me um crítico sério! O palhaço, dos

balões insufláveis, não o quero na minha festa privada;

e dispenso os publicitários de meia e terceira tigela.

 

Telegrama 7

Entre a crítica semanal e estes sete telegramas optar

sempre pela terceira via: Juntá-los e acender a lareira.

Este poema NADA deve à crítica (auto)insuflável!

 

  

VENDO LEGUMES D-TERÇA A SEXTA DAS 8:30 – 12:30

 

em cada folha de couve

uma quadra

em cada fresco pepino

um dístico

em cada verde tomate

uma letra

 

a terra dá retorno e

morte exige

 

venha à segunda-feira

recolher a

morte que o

poema oferece

 

leva-a no bolso ou na

mão sem a obrigação do

tempo longo.

 

come digere e morre

mas antes fecha a porta.

Vítor Teves -A caminho da “Flâneur” - foto de instagram, Agosto, 2019.

 

No Silêncio...

“todos iguais a todos. Quando”

- Bernardo Pinto de Almeida

“Isto é excesso de tempo livre!”

- Raul Milhafre

Caspar Friedrich - “View of Arkona with rising moon and nets”, 1803.