Selima Hill, Alfaces

tradução de Hugo Pinto Santos

Este poema é um poema sobre ti.
Vou deitar-te sobre a cama
e tudo o que tu tens de fazer é ouvir.

Sento-me ao teu lado na cadeirinha.
E é, de facto, aqui que o poema termina –
precisamente quando estou prestes a perdoar-te.

(Este poema está a ficar cada vez mais pequeno.
Era um poema sobre alfaces.
Era verde luminoso e irreprimível.)

Selima Hill, Trembling Hearts in the Bodies of Dogs: New and Selected Poems, Bloodaxe Books, 1994

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Raposa em Fato de Homem

 

Michael Symmons Roberts 
De 
The Half Healed, Jonathan Cape, 2008
Tradução de Hugo Pinto Santos

 

 

Mascarada e enluvada, cerdas alisadas
sobre o dorso, enfraquecida debaixo do calor, 

a raposa fica em silêncio nas recepções,
atenta a palavras erguidas em defesa, fundos públicos.

Emissária dos bosques silvestres, agente
do lado de lá, a cabeça oscila

ao vinho, os canapés, dá-lhe vómitos o fedor
das pessoas, a carne e o suor delas.

Quando vêm táxis, esgueira-se por cozinhas,
põe-se de quatro (ainda em traje formal),

dispara a correr por ruas escusas
como um senhor ferino até dar com zonas limítrofes

onde – rasando a casca de uma árvore –
lhe sai a pele de homem

como uma sépala expõe a lisa vermelhidão de uma flor.
Uma língua que sorve no frio, 

focinho no bolor das folhas, fundura de juncos, cabos
de aço, de instinto. Só eu fui testemunha

e tomo-o como ressurreição (pele abandonada,
o além como alma de raposa), portanto observo

num pasmo e abrando o fôlego até que lhe seja
possível ver, e uiva, uiva.

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A NUVEM

Odysséas Elytis
Em Maria Nefeli
Tradução: Manuel Resende

Eu vivo dia a dia – que o futuro, não o diviso.
C’ uma mão amarroto o dinheiro, com outra o aliso. 

Vês, as armas têm de falar nos nossos tempos caóticos,
’Té temos de dizer amém aos «ideais patrióticos». 

Que me fitas tu escriba que farda nunca vi usar?
olha que fazer dinheiro também é arte militar.

Não me venhas com insónias e amargos versos vários
ou pichar paredes com slogans revolucionários.

 Para os outros, um intelectual é que hás-de sempre ser
e só eu te amo: refém dos meus sonhos hás-de viver. 

E se em verdade o amor é como dizem «comum divisor»
eu hei­‑de ser Maria Neféli e tu das nuvens o Empilhador­

Sinéad Morrissey, O espelho de tecto

 Sinéad Morrissey (Irlanda, 1972) 
There was a Fire in Vancouver, Carcanet, Manchester, 1996
Tradução de José Manuel Teixeira da Silva

 

Desmontei-o há dois anos, mas continua a bater-me à porta.
Havia nele espaço em demasia.
Do exterior, tudo lhe ofereci-
A curva longa da minha espinha; braços, pés, coxas.
Actuava e era o próprio realizador da sua imaginação,
E estava morto por possuir o mundo inteiro, cá fora. A vibrante
Coroa da minha cabeça era, no seu céu, a estrela que nascia.

Nunca estava cheio, nunca ficava só, e tive de o desejar
Sem o poder ver. Nenhuma exibição ou qualquer reflexo-
Nem ao menos nos seus olhos, tão fora de si próprio,
Tão à margem de si próprio, tão distante de cada derradeira célula 
De si próprio- e eu só ansiava por uma cega discrição.
Continua à minha porta, implorando pelo perdido barbitúrico,
Mas o espelho está nos arrumos. Só prometo teias de aranha, um pouco de cal.

THE MIRROR ON THE CEILING

I took it down two years ago, but he still comes knocking. 
There was too much space in him. 
I gave him everything on the outside – 
The long curve of my spine; arms, feet, thighs. 
He was the actor and director of his own imagination, 
Dying for every exterior. The moving 
Crown of my head was the rising star in his heaven. 

Never whole and never alone, I got to wanting it 
Without the sight of it. No show, no reflection – 
Not even in his eyes, which were so outside of himself, 
So beside himself, so down on every last cell of himself – 
I craved for nothing but blind discretion. 
He stands on my doorstep, pleading his lost barbiturate, 
But the mirror is in the outhouse. I promise cobwebs, whitewash.

 

Dois poemas de David Harsent

Tradução de Hugo Pinto Santos. 
Ambos os poemas foram anteriormente publicados na edição online do Público

Franco-Atirador

Estou abrigado aqui e longe da vista. Estou abrigado aqui em cima
na torre sineira de Nossa Senhora da Vingança: aqui é o meu lugar,
bem provido e com tudo em ordem. Esta torre foi erguida no ano de
tal e tal, o ano do corvo, ano da nossa desgraça.
Estou abrigado aqui em cima à sombra da cruz,
com abafos para os ouvidos, tenho a minha manta e um colchão de palha,
ajoelhado, mas olho para baixo, como um homem a rezar.

Uma mulher atravessa a praça levando água.
Corre lenta, corre para não verter. Depois uma criança, à vista
desarmada, segue numa diagonal e corre como uma lebre
numa esquiva. Estou aqui ao abrigo, certinho, com uma salsicha e uma cerveja,
um fogareiro para me deixar os dedos livres. Passam os dias.
Estou perfeitamente aqui neste aconchego, a minha toca;
tenho onde pousar a cabeça, lugar onde mijar
e, como contraditório cómico, as aves dos ares.

Com um olho sobre a mira, o mundo fica por perto,
particular: este avô que abraça uma sobra, cabelo a cabelo
na cabeça, olhos orvalhados, no bolso a moeda
de antes da guerra, presa a uma corrente, o tecer do casaco. Além,
junto ao meu amigo, o Homem da Marlboro, é onde
me sentava a beber um café de manhã: o café do Arno,
uma máquina de flíperes, a jukebox, a rapariga com a cara da Madonna
até lhe vermos os detes; inclinava-me na cadeira
contra a parede a apanhar sol. Vão a medo. Vão com medo
de mim. E aonde vão, vão com as minhas boas graças.

Estou aqui em cima com muita coisa de reserva.
O céu da noite inunda-se, depois clareia, desfralda uma só estrela,
e a cidade recolhe ao silêncio debaixo da minha arma.
A mulher, a criança, o avô, não são coisa nenhuma, ou nada mais
do que a história pode ignorar, ou o amor apagar.

 

Mergulho

Um pouco mais fundo, a luz perde-se dela. Primeiro
mal se pode tocar a superfície – há formas que podiam ser nuvens
pássaros em  voo... Ela pousa a cara na espuma,

a ver pela última vez o mundo de onde veio, uma frágil
impressão de vozes que esmorecem enquanto ela se escoa
desde a alvorada até ao anoitecer, um sombrear glauco que vai

primeiro ao azul, depois mais que azul, e logo a um azul nunca visto
por ninguém que não ela, e aquele lento curso descendo disposto a cindir
tudo quanto ela tinha ou queria, tudo o que ela havia sido.

 

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