Nilton Santiago, "Os milagres como quarto estado da matéria (pouco antes do amanhecer, quando os gatos guiam o trânsito)"

Tradução de Sandra Santos

São estas as ruínas e as chuvas do outono,
entrar no metro atravessando a porta duma igreja
chorar pela afonia dum grilo, caminhar e voltar a entrar na igreja
mas desta vez através da chuva,
e ver-te então atravessar a passadeira
enquanto um casal de gatos guia o trânsito.
Eis aqui o primeiro milagre:
tu entrando no céu através dos teus sinais,
não há astrónomo nem fumador que tenha imaginado
um céu com tanto decote
desde logo não sabes quem diabo era Baudelaire
nem que às vezes há que vestir saias más compridas (e menos transparentes)
sob a chuva
mas não interessa, de quimera em quimera e de quimera em clareza
e vice-versa
fazes com que o infinito se detenha bruscamente,
que o Big Bang comece a contrair-se
como um grande tomate no micro-ondas
ou que as moças tatuadas nos braços dos taxistas deixem de fumar
e abandonem a lida do amor para entrar furtivamente
nas paróquias.
Eis aqui o segundo milagre:
entrar na estação e ver-te lutar com o entorno para que te deixe passar
entre tanta luz e vice-versa
não levar um cêntimo no bolso e pedir-te o cartão do metro,
satisfazer-me com o mel do teu sorriso e das tuas covas,
olharmo-nos sem nenhum dos típicos desígnios destinados
aos frios amores por correspondência.

Eis aqui o terceiro milagre:
há dois lugares livres juntos,
sentamo-nos, sei que me bofeteio por observar-te assim a entreperna
falamos então para deixar de sorrir,
falamos do novo estado da matéria que acabam de descobrir
nos olhos de frango,
falamos sem nos darmos conta de cada vez que sorris
saem centenas de borboletas de entre o teu decote e o meu olhar.
De repente, num piscar de olhos, chegamos à última estação
(onde ainda é primavera e onde há minotauros
distraídos com aquelas raparigas trazidas de Ho Chi Minh ou de Creta)
e, como quem não quer a coisa, aproveito para fazer-te as típicas perguntas
que te faria um elefante a ponto de morrer,
enquanto dou três voltas ao meu coração em redor do teu
que se esconde uma e outra vez,
como se esconde o som no ventre de uma campainha.

Acabamos de nos conhecer mas já demos cinco beijos
não faremos coisas politicamente incorrectas,
isso é certo
o amor já me sussurrou ao ouvido que hoje também não é a minha noite
e bem o sei: hoje sou esta ruína, esta chuva de outono,
este fardo que não tem nada que dizer-te.
São horas de ires ao bar onde combinaste com o teu namorado
e de eu voltar a casa
(em passos vagarosos)
já sucederam uns quantos milagres esta noite
e há que saber retirar-se a tempo para lamber as feridas.

E calma amigos, dizem que as ratazanas
podem viver mais tempo sem água que os camelos.


LOS MILAGROS COMO CUARTO ESTADO DE LA MATERIA (POCO ANTES DEL AMANECER, CUANDO LOS GATOS DIRIGEN EL TRÁFICO)
 
Son estas las ruinas y las lluvias del otoño,
entrar en el metro atravesando la puerta de una iglesia
llorar por la afonía de un grillo, caminar y volver a entrar a la iglesia
pero esta vez a través de la lluvia,
y entonces verte cruzar el paso de cebra
mientras una pareja de gatos dirige el tráfico.
He aquí el primer milagro:
tú entrando en el cielo a través de tus lunares,
no hay astrónomo ni fumeta que haya imaginado un cielo con tanto escote
desde luego no sabes quién diablos era Baudelaire
ni que a veces hay que llevar faldas más largas (y menos transparentes)
bajo la lluvia
pero da lo mismo, de quimera a quimera y de quimera a claridad
y viceversa
haces que el infinito se detenga de sopetón,
que el Big Bang empiece a contraerse
como un gran tomate en el microondas
o que las chicas tatuadas en los brazos de los taxistas dejen de fumar
y abandonen las labores del amor para entrar a hurtadillas
en las parroquias.
He aquí el segundo milagro:
entrar en la estación y verte pelear con el torno para que te deje pasar
entre tanta luz y viceversa
no llevar un céntimo en el bolsillo y pedirte la tarjeta del metro,
comerme con la miel de tu sonrisa los hoyuelos de tus mejillas,
mirarnos sin ninguno de los típicos designios destinados
a los fríos amores por correspondencia.
 
Aquí el tercer milagro:
hay dos asientos libres juntos,
nos sentamos, sé que me juego un bofetón por mirarte así la entrepierna
hablamos entonces para dejar de sonreír,
hablamos del nuevo estado de la materia que acaban de descubrir
en los ojos de pollo,
hablamos sin darnos cuenta de que cada vez que sonríes
salen cientos de mariposas entre tu escote y mi mirada.
De repente, en un plis plas, llegamos a la última estación
(donde aún es primavera y donde hay minotauros
distrayéndose con aquellas muchachas traídas de Ho Chi Minh
o de Creta)
y, como quién no quiere la cosa, aprovecho para hacerte las típicas preguntas
que te haría un elefante a punto de morir,
mientras le doy tres vueltas a mi corazón alrededor de tu corazón
que se esconde una y otra vez,
como se esconde el sonido en el vientre de una campana.
 
Nos acabamos de conocer pero ya nos damos cinco besos
no haremos cosas políticamente incorrectas,
eso seguro
el amor ya me ha susurrado al oído que tampoco hoy es mi noche
y bien lo sé: hoy soy yo esta ruina, esta lluvia de otoño,
este pelmazo que no tiene nada que decirte.
Es hora de que te vayas al bar donde has quedado con tu chico
y que yo me marche a casa
(paso de ir al picnic)
ya sobran unos cuantos milagros esta noche
y hay que saber retirarse a tiempo para lamerse las heridas.
 
Y tranquilos amigos, dicen que las ratas
pueden vivir más tiempo sin agua que los camellos.


NILTON SANTIAGO nasceu na cidade de Lima, Peru, embora resida em Barcelona há vários anos. Publicou os títulos de poesia El libro de los espejos (2º Premio Copé de Poesía 2003), La oscuridad de los gatos era nuestra oscuridad (Premio Internacional de Poesía Joven Fundación Centro de Poesía José Hierro, Madrid 2012), El equipaje del ángel (XXVII Premio Tiflos de Poesía, Visor Libros 2014) e Las musas se han ido de copas, com o qual obteve o XV Premio Casa de América de Poesía Americana (Visor Libros, Madrid 2015). Finalmente, Para retrasar los relojes de arena (Vallejo & Co., 2015) é o seu primeiro libro de crónicas. 

Merecedor de uma menção honrosa do Premio Adonáis de Poesía 2014, parte da sua obra literária foi reunida na antologia A otro perro con este hueso (Editorial Casa de Poesía, Costa Rica 2016).


Eclipse

Augusto Monterroso
(Obras Completas y Otros Cuentos, 1959)
Tradução de Patrícia Lino

Quando frei Bartolomé Arrazola se sentiu perdido aceitou que já nada poderia salvá-lo. A selva poderosa de Guatemala tinha-o apressado, implacável e definitiva. Perante a sua ignorância topográfica, sentou-se com tranquilidade à espera da morte. Quis morrer ali, sem nenhuma esperança, isolado, com o pensamento posto numa Espanha distante, particularmente no convento dos Abrojos, onde Carlos Quinto consentira uma vez descer da sua eminência para dizer-lhe que confiava no zelo religioso do seu labor redentor.

Ao acordar deu por si rodeado por um grupo de indígenas de rosto impassível que se dispunham a sacrificá-lo em frente de um altar, um altar que a Bartolomé pareceu o leito em que descansaria, por fim, dos seus temores, do seu destino, de si mesmo.

Três anos no país tinham-lhe conferido um domínio mediano das línguas nativas. Tentou algo. Disse algumas palavras que foram compreendidas.

Floresceu então nele uma ideia que tinha em conta o seu talento e a sua cultura universal e o seu árduo conhecimento de Aristóteles. Recordou que para esse dia se esperava um eclipse total do sol. E decidiu, no seu mais íntimo, valer-se daquele conhecimento para enganar os seus opressores e salvar a vida.

— Se me matais — disse-lhes — posso fazer com que o sol escureça na sua altura.

Os indígenas olharam para ele fixamente e a Bartolomé surpreendeu a incredulidade nos seus olhos. Viu que formaram um pequeno conselho, e esperou confiante, não sem um certo desdém.

Duas horas depois o coração de frei Bartolomé Arrazola vertia o seu sangue veemente sobre a pedra dos sacrifícios (brilhante debaixo da opaca luz de um sol eclipsado), enquanto um dos indígenas recitava sem nenhuma inflexão de voz, sem pressa, uma por uma, as infinitas datas em que aconteceriam eclipses solares e lunares, que os astrónomos da comunidade maia tinham previsto e anotado nos seus códices sem a valiosa ajuda de Aristóteles.

Alguns poemas de "Orientações" de Odysseas Elytis

 

Odysseas Elytis,
Tradução de Manuel Resende

Do Egeu

I

O amor
O arquipélago
E a proa da sua espuma
E as gaivotas dos seus sonhos
No seu mais alto mastro o marinheiro drapeja
Uma canção

O amor
A sua canção
E os horizontes da sua viagem
E o eco da sua saudade
No seu mais húmido rochedo a noiva espera
Um barco

O amor
O seu barco
E a despreocupação dos seus ventos de Agosto
E o estai da sua esperança
No seu mais leve ondular uma ilha embala
A chegada.

CLIMA DA AUSÊNCIA

I

Todas as nuvens da terra se confessam
E um penar meu ocupou-lhes o lugar

E quando nos cabelos entristeceu
Impenitente a mão

Atei¬ me num nó de dor.

II

A hora entardeceu esquecida
Sem memória
Com a sua árvore muda
Para os lados do mar
Entardeceu esquecida
Sem bater de asas
Com a face imóvel
Para os lados do mar
Entardeceu
Sem amor
A boca inflexível
Para os lados do mar

E eu - mergulhado na Serenidade que seduzi.

III

Tarde
E a sua imperial solidão
E a ternura dos seus ventos
E o seu arriscado esplendor
Nada que chegue Nada
Que parta

Todas as faces nuas

E por sentimento um cristal.

SEGUNDA NATUREZA

I

Sorriso! A sua princesa queria
Ter nascido no reinado das rosas!

II

O tempo é uma sombra rápida de pássaros
O meu olhar escancarado entre as suas imagens

Em torno do verdíssimo êxito das folhas
As borboletas vivem grandes aventuras

Enquanto a inocência
Despe a sua última mentira

Doce aventura Doce
A Vida.

III

Epigrama

Antes dos meus olhos eras luz
Antes do Amor amor
E quando o beijo te tocou foste
Mulher.


Orientações (Em Grego, Prosanatolismoi) é o primeiro livro de Odysseas Elytis e foi publicado em Atenas em 1939. Em epígrafe ao livro lê-se um verso de Rimbaud, Départ dans l'affection et le bruit neufs. 

Paul Valéry: Aforismos

Selecção e tradução: João Moita

Saborear a injustiça.

A injustiça é uma amargura que restitui o sabor à solidão, aguça o desejo de separação e singularidade, abre o espírito às vias profundas que conduzem ao único e ao inacessível.

*

 No fim de contas, esta vida miserável não merece que sacrifiquemos a existência à aparência, quando sabemos aos olhos de quem, diante de que olhos vamos aparecer. 

*

Sinceridade.

A sinceridade desejada leva à reflexão, que leva à dúvida, que não leva a lado nenhum. 

*

Si.

De nós não sabemos mais do que aquilo que as circunstâncias nos deram a conhecer (ignoro tanto de mim).

O resto é indução, probabilidade: Robespierre jamais imaginou que guilhotinaria daquela maneira; nem um outro que amaria até à loucura.

*

O crime não se encontra no momento do crime, nem mesmo um pouco antes. – Mas numa disposição bem anterior e que se desenvolveu à rédea solta, longe das acções, como fantasia sem consequências, como remédio para impulsos passageiros – ou para o tédio; –  frequentemente pelo hábito intelectual de considerar todas as possibilidades e de as formular indistintamente.

*

As «razões» que nos levam a abster-nos dos crimes são mais embaraçosas, mais secretas do que os crimes.

*

 O castigo enfraquece a moralidade porque dá ao crime uma compensação acabada. Ele reduz o horror do crime ao horror da pena; – ele absolve, em suma; e faz do crime uma coisa negociável, comensurável: podemos negociá-lo.

 *

 Tudo aquilo no qual e pelo qual nós temos necessidade imediata de outrem é «ig-nóbil» – não nobre.

Mentira.

O que nos força a mentir é frequentemente o sentimento que temos da impossibilidade de os outros compreenderem inteiramente os nossos actos. Jamais conseguirão conceber a sua necessidade (que a nós mesmos se impõe sem se esclarecer).

– Dir-te-ei o que podes compreender. Não podes compreender o verdadeiro. Não posso mesmo tentar explicar-to. Dir-te-ei, pois, o falso.

– É assim que nasce a mentira daquele que desespera do espírito de outrem, e que lhe mente, porque o falso é mais simples que o verdadeiro. Mesmo a mentira mais complicada é mais simples que a Verdade. A palavra não pode pretender patentear toda a complexidade do indivíduo.

 *

 Deus criou o homem, e não o achando suficientemente só, deu-lhe uma companheira para melhor lhe fazer sentir a solidão.

 *

 A maioria das pessoas têm uma ideia tão vaga da poesia que o próprio vago da sua ideia é para elas a definição de poesia.

 *

 O pensamento deve estar tão escondido dentro dos versos como a propriedade nutritiva dentro de um fruto. Um fruto é alimento, mas não o experimentamos senão como deleite. Apenas sentimos o prazer, mas recebemos uma substância. O encantamento esconde esse alimento insensível que ele transmite.

 *

 «E os meus versos, bem ou MAL, dizem SEMPRE alguma coisa.»

Eis o princípio e o embrião de uma infinidade de horrores.

Bem ou mal, – que indiferença!

Alguma coisa, – que presunção!

 *

 Acho curiosa esta ideia da religião: que uma falta cometida retire a mercê da pureza anterior – como se o mérito da «alma» tivesse sofrido uma «transformação irreversível». E, pelo contrário, que o arrependimento e as suas fórmulas obrigatórias apaguem todo um passado detestável não é menos espantoso.

De onde vem o poder de tal dia numa vida sobre todos os outros dias? Aquele que está fora do tempo, porque dá ele este preeminência, para o mal ou para o bem, ao mais recente sobre o mais distante?... De dois mortais, um é salvo, o outro condenado. Mas a vida de um é idêntica à do outro, tomada em sentido contrário.

 *

Sei que a juventude chegou ao fim quando o meu pensamento se repercute naquilo que faço - ao mesmo tempo que aquilo que faço se incrusta naquilo que penso.

 

 Paul Valéry, aforismos de Tel Quel I, 1941.

Sinéad Morrissey, Uma anatomia do olfacto

tradução de José Manuel Teixeira da Silva

É a melhor parte do dia - quando ele termina
aqui mesmo, contigo, entre lençóis que cheiram à nossa pele.
Consigo senti-la na noite: a tua pele, a delicada, magnética membrana
podia trazer de regresso a casa o meu ser perdido
com um simples toque no meio do escuro. Reconheço-a de novo, essa expansão
de sons e luz. Destrói qualquer distância entre nós dois.

Tinham cheiros os vestíbulos dos amigos de infância, cheiros familiares
que perseguiam os membros da família até à escola, quando iam clandestinos
nas mangas dos casacos e nas lancheiras, e eram furtivas revelações
das origens, de quem fez o quê, do que se calou
de súbito tão evidente como se tivesse acabado de chover.
Um exalava vinho, outro caminhara enrodilhado em mantas e em pleno sol;

quanto a ela, levava consigo o aroma antiséptico da caixa de insulina ou de pó de coco
bem junto a si, nos seus cabelos, e uns tempos depois o que tive de aprender
como sendo o discreto e difícil odor de um divórcio -
metal de estaleiro escavado por faíscas, cuspe, brilho de botas e ferrugem.
E sabia bem que tudo o que pairava no meu hall de entrada
revelava como um raio-x o perfil e a inclinação da minha espinha.

Agora, temos os dois também uma identidade -
o nosso cheiro impregnou os lençóis e envolve-nos a casa -
tinta invisível codificada até ao osso.
Tecêmo-lo espessamente como qualquer família
transporta em si o que é totalmente seu, totalmente distinto
e marca cada filho para a vida com a oculta natureza da sua criação.

Vindos de ti, os cheiros do deserto de Tucson:
depósitos de cobre, caveiras de animais, o risco a giz
das estrelas que nenhuma nuvem encobre ou tinge, o ocre e o chilli.
De mim, algodão lamacento, brilhos de carvão, alhos selvagens, o lodo do rio.
De nós dois, apenas sal. Quando um dia mudarmos de casa
vão seguir-nos genealogias assim.
 

Sinéad Morrissey  (Irlanda, 1972), Between Here and There, Carcanet, Manchester, 2002

 

An  Anatomy of Smell

It is the easiest part of the day — the ending of it,
here, with you, among sheets that smell of our skin.
I would know your skin in the dark: its smooth magnetic film
would bring me home and cease my being separate
with one blind touch. I know it again now, this expanse
of noise and light between us. It conquers distance.

Hallways of childhood friends had smells, family smells
that followed family members into school as stowaways
in coat sleeves and lunchboxes — slipped giveaways
of origin, of who made who, of what was left to tell
made suddenly clear in every detail as if recently rained on.
One was made of wine; one walked crushed by blankets even under sun;

one carried the antiseptic of insulin packets and coconut dust
about her, in her hair, and later what I knew by force
 to be the thin, hard odour of divorce —
shipyard metal caving under sparks, spit, boot polish and rust.
And I knew also that whatever was in my hallway
was exposing the line and the set of my spine like an x-ray.

Now we too have an identity —
the smell of us is through our sheets and wrapped around our home —
invisible ink encoded onto bone.
We have wrought it as surely as any family
forges something wholly themselves and wholly different
and marks each child for life with the hidden nature of their generative act.

From you, the smell of the Tucson desert: 
copper deposits, animal skulls, the chalk trajectory
of stars no cloud covers or stains, ochre and chilli. 
From me, bog cotton, coal fires, wild garlic, river dirt.
 And from the two of us, salt. When we move house
such genealogies as these will follow us.