Poesia a murro

A paixão deixava-o muito pouco seguro de si e morria sempre de amor. A verdade é que ressuscitou várias vezes, nunca percebeu se para amar de novo ou se para de novo se matar.

Quando o escritor percebeu que era afinal a sua mão direita que escrevia, cortou-a e guardou-a no cofre, não fosse ela fugir.

Estava sempre maldisposto e a mulher aborrecia-se. Um dia não aguentou mais e pô-lo na ordem. Ele ficou tão bem-disposto que se foi embora para sempre.

Aguentou a dor durante muito tempo, até que a alegria acabou por invadi-lo, porém fê-lo tão intensamente que a dor se tornou insuportável.

Quando a necessidade de escrever o assaltava, saía e dava longos passeios a pé. Regressado, sentava-se e copiava tudo para a folha.

Proust e a Filosofia (ou outras coisas mais importantes)

David Bowie, Iggy Pop, Lou Reed - a minha madalena de hoje

David Bowie, Iggy Pop, Lou Reed - a minha madalena de hoje

 

Alguém me dizia há poucos dias que bastava ter o À la recherche du temps perdu de Marcel Proust(100 anos do primeiro livro) por perto para que uma enorme biblioteca portátil se instalasse na nossa vida (ainda mais agora que o formato digital a concentra no espaço de um pequeno dispositivo como um telemóvel ou tablet). La recherche no bolso, sempre à mão de ler, um trabalho meticuloso de pensamento e escrita de mais de 10 anos e 3000 páginas ali, pronto a usar e abusar.

Releio-o agora no comboio, numa edição completa em francês para o Kindle (cerca de 1$), acompanhado de música, que, diga-se, serve mais para abafar conversas inoportunas do que de satisfação estética. E é bem verdade que um grande fragmento da biblioteca ocidental se expõe sempre que ligo o dispositivo e aparecem letras bem desenhadas por exactos algoritmos. Os personagens, o narrador, os frescos sociais, as descrições psicológicas, as gesticulações protocolares, os jogos sentimentais, as argumentações políticas ou mundanas... tudo feito numa espontaneidade ponderada para afastar os excessos da racionalidade estética ou da lógica narrativa, sem porém deixar aparecer um frenesim caótico. Talvez se trata de uma inteligência intuitiva, como se queria na época, capturando sem mediações a durée concreta do mundo e dos signos. Tudo trabalhado dentro do vaivém entre memória voluntária e involuntária, mais experimental do que teórico, longe, pois, das memórias, “pura” e de “hábito”, bergsonnianas. Em resumo: a arte parece fazer sair melhor da sombra as experiências singulares da vida do que a filosofia.

Este impressionismo literário levou a que muitos vissem na obra proustiana uma obscuridade ou um esteticismo que pouco servia os propósitos materialistas e existencialistas tão em voga até à década de 70 do séc. XX. Por isso, ouvimos dizer a Sartre que com Husserl podíamos finalmente libertar-nos de Proust. Mas na verdade, os gestos aparentemente anódinos, como a da famosa madalena no primeiro livro, originam um conjunto de memórias decisivas para a maneira de estar no mundo. A subtileza da acção tem também que ver com uma espécie de maiêutica proustiana que pretende envolver profundamente os leitores na forma como experienciam o livro, La recherche não é um roman à thèse (mesmo se alguns comentadores o dão como panfleto sobre a homossexualidade), tanto mais que no último livro, Le Temps retrouvé, Proust escreve: “Na realidade, cada leitor é, quando lê, o próprio leitor de si mesmo.” E este poder de auto-revelação do leitor, contra Sartre, é realmente importante para o existencialismo.

Aliás, Gilles Deleuze mostrará bem, apesar de tudo, o interesse filosófico de La recherche, na medida, diz ele, em que Proust ataca o centro de uma filosofia clássica de tipo racionalista, onde o pensador, enquanto tal, deseja e ama o verdadeiro, busca naturalmente o verdadeiro, aliando-se a esta boa vontade um método astuto que o protege das influências epistemologicamente nefastas do exterior, descobrindo verdades totais e comungando com espíritos dedicados à mesma missão. Este modelo mistura horizonte filosófico e a velha ontologia da amizade (comunhão desinteressada), igrejas teológicas e racionalistas. “A crítica de Proust toca no essencial: as verdades permanecem arbitrárias e abstractas enquanto se fundarem sobre a boa vontade de pensar. Só o convencional é explícito. É que a filosofia, como a amizade, ignora as zonas obscuras onde se elaboram as forças efectivas que agem sobre o pensamento, as determinações que nos forçam a pensar. Nunca foi suficiente uma boa vontade, nem a elaboração de um método para aprender a pensar; não basta um amigo para nos aproximarmos do verdadeiro. Os espíritos só comunicam entre eles o convencional; o espírito só engendra o possível. Às verdades da filosofia falta a necessidade e a marca da necessidade. De facto, a verdade não se dá, ela trai-se; ela não se comunica, ela interpreta-se, ela não é voluntária, ela é involuntária.”[1] Como o que sucede com essas memórias que nos conduzem até lugares que sempre estariam inacessíveis a uma vontade soberana que decidisse, como num fiat, encontrá-las. É por isso que o desprendimento do cálculo racional ou a multiplicação dos encontros é a forma mais segura de nos inspirarmos a pensar sobre uma trama do mundo porventura mais essencial do que a que se manifesta quando nos obrigamos a pensar. É, pois, urgente comermos, com gestos requintadamente lentos, madalenas.

[1] Proust et les signes (1964/70/73), Paris: P.U.F.-Quadrige, 2006, p. 116: “La critique de Proust touche à l’essentiel : les vérités restent arbitraires et abstraites, tant qu’elles se fondent sur la bonne volonté de penser. Seul le conventionnel est explicite. C’est que la philosophie, comme l’amitié, ignore les zones obscures où s’élaborent les forces effectives qui agissent sur la pensée, les déterminations qui nous forcent à penser. Il n’a jamais suffi d’une bonne volonté, ni d’une méthode élaborée, pour apprendre à penser ; il ne suffit pas d’un ami pour s’approcher du vrai. Les esprits ne se communiquent entre eux que le conventionnel ; l’esprit n’engendre que le possible. Aux vérités de la philosophie, il manque la nécessité, et la griffe de la nécessité. En fait, la vérité ne se livre pas, elle se trahit ; elle ne se communique pas, elle s’interprète ; elle n’est pas voulue, elle est involontaire.”

Sobre a filosofia e a amizade serem incapazes de habitar nas zonas obscuras, ver também PS, p. 41. Ainda acerca do que nos força a pensar ser um encontro, nunca pré-determinado, o “azar dos encontros”, ver PS, p. 25.

Dentro da La recherche, diz Deleuze, o Leitmotiv do tempo reencontrado é a noção “forçar”, impressões que forçam o olhar, encontros a interpretar, expressões a pensar. (Cf. PS, p. 117).

«um pouco de jazz» de Najwan Darwish

Najwân Darwîsh
Tradução do árabe: André Simões

ó tu, cônsul negro de uma civilização branca como uma mortalha
ó tu, cônsul branco de uma civilização de carvão
haverá uma cor terceira com quem eu possa falar?
ou devemos implorar-te, como criadas bem educadas, para nos permitires viajarmos,
o que fazer para que te agradem estas caras que o Senhor traçou?
ou dançaremos nós diante das embaixadas a noite toda, acenderemos nós um fogo à maneira das tribus zulu?
ou quereis que nos deitemos com as vossas velhas para provarmos as nossas boas intenções?
ou assinamos os contratos de inocência da História
ou desinfectamos a memória com Dettol
ou queimamos o livro “Orientalismo” e as nossas mães “atrasadas” – com gasolina – e rimos.
ou tocamos um pouco de jazz para a tua mulher?

ó tu, cônsul
as nossas caras derreteram e nós para cá e para lá e estamos perante os teus olhos perscrutadores e as tuas experientes secretárias, mais excelentes que cães-polícia...
estas caras cujos traços apagastes com as vossas tendências experimentais perseguir-vos-ão em pesadelos durante sete gerações pelo menos

ó tu, cônsul
este poema perseguir-te-á a ti em particular.

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dava de comer aos gatos no quintal às escondidas da minha mãe
 e eles vinham o pior era quando
 
as gatas escolhiam o quintal para dar à luz
 
e a minha mãe matava os pequeninos
 
a minha mãe enchia a banheira de água
 
e metia lá os pequeninos até eles deixarem
 
de miar eles já não miavam e depois
 
atirava-os para o caixote do lixo como se fossem lixo
 
e já nem eu podia dizer que eles eram outra coisa
 
e ela chamava-me não
 
dês de comer à merda dos gatos
 
já estou farta de te dizer para
 
não dares de comer à merda dos gatos
 
e a gata miava à volta do limoeiro
 
miava debaixo do tanque e eu chorava
 
a gata miava até a minha mãe a enxotar
 
a gata fugia da minha mãe a minha
 
mãe com a vassoura não voltes
 
gata de merda nunca mais te quero aqui ver
 
e a gata fugia mas voltava mais tarde
 
e eu dava-lhe de comer e quando
 
a minha mãe me apanhava batia-me
 
dizia estou farta de te dizer
 
para não dares de comer à merda dos gatos

 

Depois do Fim

BeforeMidnight.jpg

Before Midnight, de Richard Linklater, passou pelas salas de cinema portuguesas sem que eu o tenha ido ver. Logo eu, exactamente o tipo de pessoa para quem o filme foi feito.

Na adolescência, uns anos depois de ter sido filmado, apanhei na televisão Before Sunrise, o primeiro dos filmes de Linklater em que os actores Ethan Hawke e Julie Delpy davam vida a Jesse e a Celine, um americano e uma francesa que se juntavam por acaso ou destino nas ruas de uma cidade europeia. Não sei explicar o quanto adorei o filme.

Em Before Sunrise, Jesse e Celine conhecem-se num comboio a caminho de Viena e acabam por decidir passar um dia na cidade, antes de na manhã seguinte seguirem os seus respectivos caminhos (ele num avião para a América, ela num comboio para Paris). Durante a hora e meia que dura o filme, vemos Jesse e Celine a apaixonarem-se um pelo e outro e a serem forçados a confrontarem-se com a inevitável separação que virá na manhã seguinte. Os dois decidem nunca mais se ver e fazem daquela noite algo único e especial. Mas chegada a manhã, dizem um ao outro que não querem ficar sem se ver e que voltarão a encontrar-se no mesmo sítio, seis meses depois.

Lembro-me de ter achado este final genial, ambos a prometerem um reencontro em Viena, e nós desconhecendo se a promessa seria mantida. Mas em 2004, Linklater, Hawke e Delpy voltaram a juntar-se para Before Sunset, em que Celine aparece numa apresentação de um livro de Jesse sobre um encontro fortuito de dois estranhos num comboio para Viena, e nós descobrimos o que afinal aconteceu: Jesse aparecera seis meses depois, Celine não. Mais velhos, Jesse e Celine estavam também mais desiludidos com o caminho que as suas vidas tinham levado, e com a mágoa de nunca terem sabido o que poderia ter acontecido se tivessem ficado juntos.

Agora, em Before Midnight, eles estão mesmo juntos, com filhos, a passarem férias na Grécia. E eu tenho com este filme o mesmo problema que já tivera com Before Sunset: não sei se eles deviam sequer existir. Pois a sua mera existência como que “estraga” o primeiro filme, ao revelar o que acontece após o seu final. Eu não queria saber se Jesse e Celine se voltavam a ver ou não, se tinham um futuro juntos ou não; o que interessava era que, naquela altura em que se despedem um do outro, ambos queriam voltar a ver-se, e ambos temiam que isso não viesse a acontecer. Podia ser um final em aberto, mas era um final, e um final perfeito. Com duas sequelas, o “final” deixa de o ser.

Mas talvez seja aí que esteja o mérito destes três filmes, tomados em conjunto: a vida, ao contrário dos filmes, não tem finais. Continua. E as sequelas de Before Sunrise são o filme sobre o que acontece depois do fim do filme. Mostram como, por muito “mágico” que possa ser um momento das nossas vidas, elas continuam. Mostram que aquilo que receamos - ou aquilo que queremos que aconteça - pode mesmo acontecer, e temos de lidar com isso. Before Sunrise era um filme perfeito, um exemplo de como o cinema pode ser – mais uma vez – “mágico”. Before Sunset e Before Midnight, só por existirem, mostram-nos como a magia do cinema é um truque, uma ilusão. A existência das duas sequelas “estraga” mesmo Before Sunrise, mas aquilo que as faz estragá-lo é precisamente o que as torna brilhantes. Este é um texto sobre um filme que não vi, sim, mas também sobre um filme que quero ver.

Bruno Alves