Símbolo de Mudança

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© sonja valentina

- Uau. Adoro esses sapatos.
 - Sim? Também gosto muito.
 - Deves ficar estupenda com eles. Mas nunca te vi usá-los.
 - Pois não. Nunca os usei.
 - A sério? Nem acredito. Porquê?
 - Não sei explicar bem. Tem a ver com o facto de serem especiais, acho eu. 
 - Como assim?
 - Sabes como é, os dias são tão iguais que já nem conseguimos distingui-los; não achas? É como se a vida fosse a repetição de uma repetição, como se vivêssemos repetições infindáveis e inconsequentes; como se vivêssemos numa rotunda, sempre às voltas. E as memórias que se vão acumulando desses dias acabam por também ser repetições indistinguíveis e, portanto, quase irrelevantes. É um bocado triste, não é? Vivemos um presente tão repetitivo que o passado que vamos deixando para trás acaba por ser uma nulidade, uma ilusão, um equívoco. E, afinal, é o passado que nos dá um sentido de continuidade e evolução, sem consciência do passado a vida transforma-se numa mera colecção de momentos.
 - Pois. Mas e os sapatos? Que tem tudo isso a ver com os sapatos?
 - Não te rias mas acho que estou à espera que aconteça algo especial. E então, nesse dia, que não será uma simples cópia dos outros dias mas uma espécie de intervalo na repetição, usarei os sapatos. Nesse dia, conseguirei sair da rotunda e experimentar um caminho novo. E sentir-me-ei especial, não só por ser um dia especial mas também por usar uns sapatos que são especiais; as duas coisas tornar-se-ão indissociáveis. Percebes? Depois, quando o dia passar, terei para sempre uma memória inequívoca desse dia especial: bastará olhar os sapatos. Serão um símbolo de mudança ou algo assim.
 - Que estranheza de teoria. E não bastava tirares muitas fotografias, durante esse tal dia especial? É para isso que existem as máquinas, posso emprestar-te a minha. Tem treze megapixéis. 
 - É, se calhar tens razão. Deixa lá, esquece. Já sabes que gosto de devanear.
 - Olha, sabes o que estava a pensar? Na sexta-feira vou sair com aquele tipo de que te falei, o que conheci no facebook. O das motas, lembras-te? Vai levar-me àquele sítio novo, perto do rio; aquele onde vão as actrizes de telenovela, ando mortinha para ir lá. E estava aqui a pensar que os teus sapatos ficavam mesmo bem com o vestido que quero levar. Não queres emprestar-mos? Prometo que os devolvo impecáveis, nem dás por nada.

Não sejas estúpido!

Cnossos, a beleza do perigo necessário

Cnossos, a beleza do perigo necessário

Não sejas estúpido, está bem?!

Claro que está! Está mais que bem, mas isso depende de mim?

A sentença não era imperativa, já a tinha visto usar as mesmas palavras com imensa ternura, ou para fazer conversa enquanto pensava num algoritmo ético que revolucionasse a economia digital. Mas agora era a mulher mais bela, exacta e alta do mundo. Tinha conseguido isso através de um favor (algumas biografias referem “vários”), e, para repor a ordem cósmica, muitos deviam ser esmagados ou cortados em pequenos fragmentos e disseminados pelas ruas mais sujas de Lisboa.

Os argumentos que usei sobre a falta de essencialidade da estupidez (“só há processos de estupidificação”, lancei em aprumada pose), justificando-me com Tatiana Faia, que escreve, depois de Goethe, ([…] do princípio é / uma mentira dizer / que aí era o logos no / princípio éramos nós / e nós apenas e nenhuma razão […]. Teatro de rua), esgrimindo com as mais rebuscadas teorias cognitivas, zurzindo nos testes de QI, desconstruindo os brilhantíssimos intelectuais que sustentam Portugal a golpes de crónicas... Tudo isso foi uma perda de tempo (que é sempre um perda de dignidade).

Os seus braços de cutelaria luxuosa, longos, brancos, afiados, foram anulando todas as possibilidades de a atingir com a lava da compaixão, cura homeopática, arrebatamento do consenso contra o do dissenso. À medida que percebeu melhor, com aquele seu olhar de águia em treino, de como eram inofensivos os meus ataques semânticos, enchia-se de desprezo e procurava encerrar a ridícula disputa que ganhara sem esforço. Foi a sua vez de citar Tatiana: “[…] a forma mais perigosa de atenção / é que percebas e te calhe / essa ternura em queda / em diminuendo / o conhecimento de um homem em estilhaços […]. (Idem).

Como sou, por enquanto, o dono do texto, poderia imaginar uma vingança horrenda (toda a história ocidental é pontuada pelo combustível da vingança), mas soaria a falso, sabemos que uma mulher assim é capaz de renascer num novo brilho cruel apagando “as coordenadas anteriores”, ela não precisa de puxar dos galões, subir para cima dos seus próprios ombros para ver mais longe ou dobrar a verticalidade de uns quantos audazes que se atrevam a olhá-la de cima para baixo. Basta-lhe existir e mostrar os braços.

Eis o problema: o “autor” só subsiste enquanto não aparece uma rebelião hermenêutica que o põe no lugar do morto, lhe diz, com a voz da vida verdadeira, para não ser estúpido, não inventar esses planetas de brincar. Resta-lhe, no campeonato da consolação, e com uma jogada de antecipação – que se for também ela antecipada, necessita maior recuo... e assim até ao infinito, até que a consciência lógica grite de dor – reinventar em cada instante aquilo que Tatiana Faia plasmou em papel analógico, que já foi vida, majestosamente quase estática: “[…] já que há tudo a perder mais vale / querer cada vez mais […]. (Idem).

Convergências

De Onde Fingimos Dormir como nos Campismos, Inédito

Se quando o oceano aqui chega
faz contigo riscos novos nas pedras
e torta uma linha de sal
que corrige de longe a vista 

Faz do lugar um lugar lavado
que nem no ano seguinte já dura 

E à tarde o sol a forma do pé os cabelos
tanta coisa doutro tempo aí de repente
a tristeza vai próxima e separa
na cor de pavilhões  

Passa a tua mão abrigada
falo de cheiros luzes espalhadas
digo que arranjas com ferros o mar

Três palavras

Comprei uma caneta bic azul e outra preta e depois uma rollerball e uma caneta permanente. Atafulhei a secretária, a cama, a sapateira e a cozinha de cadernos caros, baratos, moleskines, cadernitos pautados e em espirais. Experimentei escrever em papel higiénico mas a minha imaginação não é lá grande coisa. Escrevo ou tento escrever sobre o que me rodeia para facilitar o processo - nunca fui muito de kafkas e de pessoas que se metamorfoseiam em bicharocos. Sendo adepto do conto puro (tipo charuto cubano), apreciaria escrever qualquer coisa parecida com aquilo que os meus escritores sul-americanos preferidos escrevem. Mas os dedos fraquejam-me quando agarro na caneta. Comprei uma máquina de escrever em segunda mão. Depois mandei vir uma nova da América, objecto raro e caríssimo, um balúrdio, se dissesse o preço, Jesus, nem sei. O problema foi ter anunciado há uns meses que estava a iniciar um livro, um conto que era maior do que o meu corpo, uma coisa para cima de quinze mil palavras. Comprei um computador modernaço. Gastei em desespero as poupanças numa daquelas bombaças da Apple. Quinze mil palavras o tanas. Três, as do título: "Quero ser escritor." Inscrevi-me num curso de escrita criativa, comprei livros motivacionais, tomo ansiolíticos, frequento sessões de psicoterapia, cortei relações com os amigos mais chegados, troquei de namorada (a outra tirava-me a vaidade e precisava de me sentir um génio, que é o que sou, basta de negações). Sofro deste mal de anunciar as coisas antes de as concretizar. Primeiro foi o livro, depois foi a editora, depois foi a revista. Tenho três palavras numa página A4. Os jornalistas telefonam-me. Querem opiniões do grande especialista do conto. Mato-me?