Nicanor Parra, «A montanha russa» e «Três poesias»

Tradução de Bruno Ministro

A MONTANHA RUSSA


Durante meio século
A poesia foi
O paraíso do tonto solene.
Até que vim eu
E me instalei com a minha montanha russa.

Subam, se vos apetecer.
Claro que eu não me responsabilizo se saírem
A deitar sangue da boca e do nariz.

 

De Versos de Salón (1962)

 

TRÊS POESIAS

 

1

Já nada me resta para dizer
Tudo o que tinha a dizer
Já foi dito não sei quantas vezes.


2

Perguntei não sei quantas vezes
Mas ninguém responde às minhas perguntas.
É absolutamente necessário
Que o abismo responda de uma vez
Porque já vai sobrando pouco tempo.


3

Só uma coisa é clara:
Que a carne se enche de larvas.

 

De Versos de Salón (1962)

 

[ver perfil de Bruno Ministro]

«trago sempre comigo»

1. 

trago sempre comigo  
umas feridas a arranhar
no bolso do casaco. 
hoje pus o batom vermelho
que deixa as mãos ensanguentadas, 
enquanto isso
a minha gata encosta-se
cada vez mais silenciosa
aos móveis da casa
sabendo que os tumores a comem
por dentro e eu por fora
tão bonita numa segunda-feira
logo de manhã, a fingir
que não vi o sangue dela
na almofada, que o inverno já passou: 
e tudo o que queria
seria poder morrer
ainda mais nova que a ana cristina césar
para que só as fotos belas ficassem
e nenhuma
das minhas feridas
curasse a tempo
de te rever. 

2. 

primeiro: o coração. 
se calhar dois (um
para quando se morre
outro para a espera do
milagre) 
e o teu sorriso icónico
já perto de desaparecer: 
há coisas que só depois  
percebemos que devíamos  
ter roubado –  
e mais tarde o que me  
fica nas mãos, 
demasiado íntimo
para carregar comigo
enquanto faço as rotinas
na loja do costume e
perguntam
como vai? e sei por
dentro que o teu sexo me ficou
no cheiro, 
por isso sorrio e
genuinamente
respondo que
muito bem, cá se vai
andando
e sorrio de novo
no meu corpo o teu rasto
o arrepio de só há pouco  
teres saído: 
volta, estou tão perto. 
(se todas as noites me
visitasses seria tão fácil  
morrer), 
enquanto por dentro
falo
calada
a dizer tanto
e o corpo, o corpo e o sorriso
que não voltei a ver, 
o sexo
a namorada que guardas na gaveta
lá de casa quando apareço: mas primeiro sorrio
primeiro faço as compras da loja
do costume sorrio de novo
os morangos estão fora de época
o teu sexo numa estufa
as laranjas enormes,  
com uma cor de encher
os olhos, mas primeiro, 
o coração.  
primeiro: o coração. 

 

3.  

“sending my condolences to fear” 


caro benjamin, 
como disseste
que não é preciso ter medo
aqui estou eu
podre de coragem
a amarelecer como os juncos
num pântano de asco, 
a lavar o vestido à mão
porque é essa a forma
antiga de recordar os homens
esquecendo-os, olhando assim
muito tempo
para as manchas de sémen, 
olhando tempo suficiente
para que se aprenda a gostar
delas como retratos despretensiosos
do mundo, assim
muito tempo
até que se tornem
possivelmente resultado
de outro tipo de acidentes
como iogurte ou creme nívea, benjamin
estou tão sem medo
que não sei se existo
ainda. 

 

[ver perfil de Francisca Camelo]

Anos Noventa, Raquetes De Ténis, Gin E New Order

Em 1990 uma velhota emigrante de uns 40 ou cinquenta anos ofereceu-me uma
Raquete de ténis da adidas, enorme, parece que naquele tempo, em Portugal,
Era moda como agora o gin, aquela raquete um copo de gin obsoleto, enquanto
Que nos campos de ténis se acumulavam folhas podres e ferrugem,
Que ia fazer com aquilo, aquele tesouro cujo valor nunca consegui calcular
Até mais tarde saber que ninguém dá nada de real valor a garotos
Sem nada em troca, está bem que parecia uma menina na altura,
Quanto à raquete, com ela perdi a única bola de ténis de um amigo meu,
Ao primeiro servir, atrás da minha garagem em Trás-os-Montes, a bola voou
Até ao monte e provavelmente foi levada por um javali a pensar que era uma meloa
Peluda e rija, acabou por ali o ténis, a raquete deve ter apodrecido na garagem
Entre escorpiões, contudo ao ouvir Blue Monday, lembro-me sempre da raquete
De ténis, da emigrante francesa, que na altura me pareciam seres vindos do futuro,
Dos campos de ténis abandonados e do cheiro a eucalipto do Minho,
Lembro-me que mesmo que me tenham dado hipótese, nunca a tive.

Turku

22.09.2015

 

 

Da importância da história

Ao longo dos tempos o homem pensou que era só um. Depois veio a Revolução Francesa e ficou tudo na mesma. Alguns até sabem a data de cor, que eu não sei, mas mesmo assim são capazes de assegurar que a partir daquele momento nada mais como aquilo se passou. Na verdade, na verdade vos digo: nunca se passou nada disso. O homem nunca foi à lua. Ou melhor: o homem foi à lua antes de ficar tudo na mesma. Que é o mesmo que dizer: o homem nunca foi à lua.

A lua não é um satélite, sabeis? Fica bem falar assim (sabeis), porque me distraio sempre do fundamental: ao longo da história tudo se repete, ainda que ninguém esteja disposto a admitir que algo se repetiu. Ora bem, vejamos, sim, os refugiados, coitados. Mas quais refugiados? Refugias-te em ti, refugias-te em mim, e depois dizes que nunca refugiste de ti. Ouve bem: “refugiste”. Soa-te estranho no cérebro? Ainda bem, é sinal que ainda tens algum senso de novidade. Voltaste a fugir, mas agora sabes que nunca pudeste fugir de ti, nem seria bom que o fizesses. Alguém disse - sei perfeitamente quem, só não estou para o dizer - que nunca ninguém fugiu de si, por mais exilado que fosse. Belo, é isso mesmo. Mas esqueçamos a individualidade: ninguém pode ser indivíduo, nunca, não, a indivisibilidade está só ao alcance dos superbusões ou de um qualquer elemento que nunca será visível. Eu divido-me. Agora, por exemplo, divido-me em história.

E quem é ela? Quem é?

Bom, genocídios.

Venham os genocídios. E contemos um a um.

Os Nazis?

Chamem os Romanos. Chamem todos. Todos eles genocidaram. E depois ficaram parados, porque morreram. Coitados dos refugiados - bem entendido - nós. Não sou de sublinhar palavras: mas aqui fica. NÓS.

Mas há sempre este grave problema. Nós não somos eles. A menos que a história existisse, e que soubéssemos que tudo o que vivemos já foi vivido de outra forma e noutra altura.

Mas isso, meu bom amigo, é impossível. Se vinte e cinco de Abril ou quarenta e quatro de Maio ou o trezentos e cinco de Março existiram foi para serem isso mesmo: uma data.

CALEM-SE DATAS.

Sabes que “data” (agora não me apetece investigar, estou a escrever um manuscrito isolado no monte Parnasso) é algo plural que foi dado. Mas sabes que nós, os que somos amiúde e frequentemente (passo o pleonasmo) presenteados esquecemos a dádiva. Daí que tudo seja dado pelo esquecimento.

Mas, desculpem, o tema de hoje (reparem na ambiguidade entre o tu e o vocês) é. História. A História não existe, a não ser que seja para nomear Júlio César como o grande general romano, e não como o filho da puta que destruiu o que restava do futuro da República. Sim, não se esqueçam, hoje podíamo-nos estar a esquecer de como Roma foi cada vez mais uma República até que se tornou numa república, com Cristo e tudo, até ao ponto em que foi sodomizada pelos Bárbaros (que só sabiam dizer bar-bar-bar), que vieram de algures, para depois serem por sua vez remasterizados pelos próprios pagãos-cristãos vindos de alhures que afinal era o mesmo sítio. E depois voltávamos a agora, num ponto talvez mais à frente, num ponto em que cristão-muçulmano-indígena-hindu fosse uma onomatopeia: “oh”, ou como dizem bem os ingleses: AWE (não, tu aí, não confundas com יהוה, olha que te podes tornar ecuménico).

Bom, tudo somado: não à história. Não há história.

A seguir ‘tás-me a dizer que o verbo estar não tem as vogais e consoantes que o iniciam, e isso sim, seria perder todo o universo, toda a gente sabe que a fonética sempre se sobrepôs à ética (basta ler o final do último parágrafo). Fonologia não, é outra coisa, é o estudo da mente, mesmo quando ela passa pelo som. Bom, de qualquer das formas escreve-te o grande poeta grandiloquente, Braga Falcão, que ninguém conhece, mas que quando conhecerem dirão: aquele é o Braga Falcão, para depois - estando eu já felizmente morto - o esquecerem. Melhor das hipóteses: uma placa de rua. Sabem (ou sabeis?), ah, awe, יהוה, θεέ, ॐ, como estou prostrado perante o crescendo da música e das palavras (usei “e” e não um genitivo) que denunciam que somos uma rua. Vivi numa rua chamada Rodrigues Sampaio, noutra chamado Engenheiro Miguel Pais, noutra chamada General Torres. Sabem o que gosto mais? Daquelas felizes e tão infelizes décadas em que vivia numa terra de nome sem nome numa rua tão estranha como “Estrada do Parque” (?, sim é mesmo assim), e em que é de supor havia uma vivenda que nunca teve uma placa a dizer que era uma vivenda. Chamava-se “O Pinhal”. Chama-se.

Mas deixem lá isso. Uma história é uma infância vivida a sós. Por isso nunca nos lembramos dela, por isso é tão difícil recordar. Se tivessem discernimento saberiam, como eu nunca fui capaz, amar o verbo recordar.

Tem um coração lá dentro. E isso é verdadeiramente lamechas, e tu sabes como é bom ser lamechas. É o mais próximo que tens de ser mãe ou pai.

Meteram-me neste tempo que tem a história que sempre o tempo teve. Ou esteve. As vogais e consoantes intrometem-se sempre, nímio. Gosto desta palavra que tu não conheces: nímio. Se a conheces, algo de errado se passa contigo, e devias-me escrever. Estarei cá para te escrever, nem que arranje (gosto deste coloquialismo, afasta-me do pai latim) um secretário (já me lixei, cá está ele em segredo).

Seja como for, amanhã haverá outra história. A de hoje: pessoas infelizes fogem, e as pessoas que se julgam a caminho de uma qualquer felicidade dizem que a infelicidade dessas outras pessoas está numa direcção oposta e contrária, digamos assim, em sentido contrário, e portanto mais vale que as lições de matemática estejam certas e que menos com menos, como é lógico, dê menos.

De resto, odeio hoje. Hoje é uma coisa nojenta. Ou vivemos na história, e assim ela nunca há-de morrer, ou vivemos hoje.

E hoje uma merda qualquer com um nome qualquer marcou uma merda de golo qualquer contra um genocídio qualquer, que gritou “coitadinhos”.

Coitadinhos. Deixa-me só aqui desligar o monitor (ah, é bonito não é, aquele que avisa, não estou outra vez para verificar esta raiz, estou certo que sim), e vou encetar esta próxima hipocrisia: a história existe.

A história tem importância. Pelo menos enquanto disciplina. Vá lá, é importante que saibamos algo acerca do antigamente.

E não ser que não.