Francisca Camelo, Photoautomat

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Francisca Camelo

Photoautomat

poesia

Enfermaria 6, Lisboa
Maio de 2019, 56 pp

Capa de Gustavo Domingues E StudioPilha

8€


entra, é um convite;
mas à saída leva-te contigo:
aqui só eu não sou de passagem.


Francisca Camelo

Nasceu no Porto em 1990.

É co-fundadora d'A Bacana, contribuidora regular da Enfermeira 6, tem poemas espalhados nas revistas Flanzine, Gueto, Tlön, Nervo, Três três, na zine MAIS PORNÔ, PFVR, nas Antologias Caderno 5: os pastéis de nata ali não valem uma beata, Lluvia oblicua - Poesía portuguesa actual e no Poemanifesto 2.0.18, entre outros.

Publicou os livros Cassiopeia (Apuro Edições, 2018) e Photoautomat (Enfermaria 6, 2019).

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não estavas lá

o chris brown bateu na rihanna
e eu não estava lá
só cheguei mais tarde quando ela
já estava pisada
na capa de uma revista qualquer.
a rita abortou sozinha
numa sala onde a fizeram dizer
como quando onde
porque é que deixaste
sua puta, onde está o teu namorado
agora? onde está a tua libido
agora? e eu só cheguei
sete anos mais tarde
para lhe dizer que lamento toda a solidão.
a maria casou-se com um dependente
químico para poder deixar de ser
emigrante ilegal viu-o enfiar opióides
pelo cu acima e coca narinas abaixo
anos mais tarde ficou pior
para além de cheirar ele votou no AfD,
a maria teve medo quando
ele levantou a voz então saiu
e foi para a estação de camioneta
já fazia neve e alguns graus negativos,
acho que ela teve frio. só cheguei
uma semana depois
para lhe dizer que ela não devia
ter de passar frio
em noites como aquela
o comunista de há muitos anos
quis bater em mim mas
em vez disso optou por
esmurrar a parede
de certa forma fiquei agradecida
sou péssima a mentir
ou a espalhar maquilhagem
pior ainda a explicar sem modéstia que
consigo deixar um homem louco
mesmo que isso signifique um punho
a dois centímetros do meu rosto
e por isso mesmo achei que
não seria urgente - só cheguei muito mais tarde
para me dizer que lamento que ainda
sei como se entranha na garganta
o som seco de um punho na parede
e ainda gosto de pensar que não era eu ali
quando o pequeno chris brown de trazer na algibeira
se masturba avidamente com a mesma capa de revista
enquanto me sopra ao ouvido:
não estavas lá.

vesúvio

“Todas as fotografias são memento mori.”
Susan Sontag, in «Ensaios sobre fotografia».

depois de te ires
quis fotografar tudo
o nascer do porto oriental
as manchas roxas
no flanco esquerdo
a dor de ciática
que só veio dois dias depois
do acidente, é uma necessidade
estranha, esta de coçar feridas:
mantemos vivos os destroços 
como se só o que nos destruísse
merecesse retrato.

tarde demais
surgem as perguntas pertinentes
como gravar a frequência
infra-humana da tua respiração
depois de adormeceres
ao som daquela música
de joão gilberto, o álbum
propositadamente ou não
chama-se o amoroso
ou a expressão de um diafragma
demasiado exposto
depois de te inclinares muito tempo
à impossibilidade
de um limbo assim
e já que foi revelada
a inevitabilidade da perda
entre o que vai da íris atravessando
uma objectiva até à imagem
pixelizada que se guarda
nalgum lado quase sem memória
porque não ficar também
com a mancha húmida de látex
que já estragou
os tacos de madeira
ou a biografia rascunhada
da pastora
que pintava em cores
naïf e ninguém sabia
a mesma que morreu de fome
durante a ocupação alemã
trancada num hospital qualquer
- séraphine -


e assumindo então
a superfície oceânica das catástrofes
porque não admitir a queda
e sitiar o vesúvio
(o mesmo que só visitei
no teu corpo
sabendo da erupção iminente)
entender à força
que os manuais para adolescentes
depois de “como esconder
as primeiras poluções nocturnas” ou
”como aprender a beijar
mordendo uma laranja”
saltaram um ou outro
capítulo cuja ausência
nos condena a eternos novatos

para calar a morte
laranjas poluções nocturnas
o vapor do café na tua mão
numa manhã na cozinha
estreando janeiro
para chamar a vida
projectar nos objectos
de menor importância
a ausência de um milagre maior
fazer desses vestígios santuários
rezar como animais
esquecer os deuses antigos
desenhar com a saliva
ainda quente a última
fronteira entre os outros
e aquele que apesar
do sotaque estrangeiro
soube sempre
dizer o teu nome.

4:40

comportamento errante
foi por isso que ele a deixou
comportamento errante
e hoje aqui estamos
4:40
num bar onde as casas de banho
se transformam numa espécie de
casa de fados em cocaína
eu só bebo
mas ainda assim
inegável
a beleza destes microclimas:
fados no wc espelhado
de um club onde só passam techno
o saxofonista de jazz
apanhado a dançar
diz que gosta
esta repetição em loop
de alguma forma
recorda-lhe coltrane
hoje vim aqui
à procura de alguém
que não estava
mas há o nietzsche, ele
escreveu qualquer coisa
sobre o desejo da
necessidade a necessidade
do desejo (demasiado tarde
para o citar em condições)

nos fados é obrigatório o desalento
e por isso a elaine dizia
98% dos dias não sei o que faço aqui
a sara dizia
a mim só me apetece chorar
e ela não falava da nostalgia do fado
de beber demasiado e tudo junto
referia-se sim a uma cicuta diária
essa espécie de vazio inconsequente
e por isso
interminável.
teimosamente fingindo
saber o meu lugar no mundo
ignorante de bençãos coroada de
amores sádicos mas tentando
recuperar as tropas
eu agarrava o copo e
explicava, ainda que
pisando armadilhas,
falhamos mas estamos aqui
falhamos mas olha para nós
tantos gatilhos
que nunca chegámos a apertar
isso só pode ser
uma vitória
uma meta
que nunca ninguém anunciou
quem eu queria
não apareceu
mas olha só
estou em casa sã
estou em casa salva
e afinal
não é o amor que resgata
sou eu
e o táxi que conseguiu aparecer
apesar da chuva torrencial

falta dizer
o que ninguém diz
destas mulheres
é que a solidão é o preço
a pagar pela resistência:
a errância
está no adn
como língua nativa
(será sempre a primeira resposta
e ligação neuronal)
às vezes seria mais fácil
aprender a brincar às donas de casa
ignorar o patriarca debaixo do tapete
e os anelares encontrados
debaixo da ponte
mas é mais difícil
matar um potro
que não foge em sentido único
e desse ponto de vista
o que nos mata
será também a única salvação.
sabes, o que não se diz
nunca sobre a errância
é que quando se diz errância
diz-se sobre tudo:
liberdade.