A uma mulher na Praça de Londres

Já a cidade boceja quando o meu olhar oblíquo tropeça em ti. Não o fiz com ternura, antes com a ridícula curiosidade de examinar os teus contornos, como o comprador que analisa a mercadoria. Observo-te a perfurar a calçada com saltos agulha, num espernear desengonçado de cansaço e derrota; formosa, mas pouco segura. Terás sido bonita antes de te venderes ao desbarato. Casaco leopardino, saia de napa, meias de rede de malha larga são o teu fiel uniforme. Infiel a ti mesma, varres a rua com olhos de lince. Esbarras no meu interesse por ti. Encurtas os passos na esperança de rentabilizar a longifria madrugada da tua puída condição de vida. Vida? Existência. Tenho-te a dez passos, a seis, a três. Passo ao teu lado e olho-te. O pálido verde dos teus olhos, humedecidos de frialdade, choca com o meu espanto. Ainda há poucos anos eras uma criança. Mulher amadurecida em cascos de miséria e violência, as marcas na cara são as tuas divisas, o teu sexo é o sabre com que fazes harakiri quotidianamente. Sopras-me um convite como se ao ouvido e eu, consciente de que só te conquistaria com o aceno de valiosos rectângulos de papel colorido, finjo que não ouço e sigo o meu caminho, com passada segura, junto da igreja caiada pelo primeiro sol. Se parasse, seria para emoldurar o teu rosto com as minhas mãos e, com um olhar de Charlot, gesticular um cravo que depositaria no teu cabelo. 

uma lição de utilidade // um passo em sua direção

frank o'hara se você estiver certo
eu não posso carregar o coração
no meu bolso porque teria
de carregar seus collected poems
e não posso carregar
seus collected poems
com aquela anotável introdução
do amigo ashbery
não porque não quero
ou porque me sentiria estranho
(como alguém poderia
se sentir estranho
carregando você 
é o que me pergunto na madrugada fria) 
nem porque seria o alvo predileto
dos ladrões nas ruas
(que mundinho perfeito hein
esse nosso) eu não posso
carregar seus collected poems
por uma razão muito simples
não há bolso que caiba
essa bíblia toda rabiscada
vamos fazer um acordo
eu levo seus versos numa parte
bem guardada da minha perturbada cabeça
e sempre que for necessário
vou recitar dizendo
ouve essa do meu amigo frank
bom pra mim bom pra você 
frank o'hara eu tenho certeza
que você ama the wire como eu
vê se aparece em casa um dia desses
vamos tomar um porre quem sabe
você não imita o omar
indeed 

Niilismo 5/c.10 ambientalismo

A jornalista e activista canadiana Naomi Klein publicou recentemente o livro This Changes Everything. Capitalism vs The Climate, mais um sobre questões ambientais, apelando agora aos cidadãos para lutarem contra aquilo que provoca o aquecimento global, construindo ao mesmo tempo uma sociedade mais justa.

[escrevo este artigo a partir do livro e de entrevistas da autora]

Naomi, membro da ONG ambientalista 350.org, teve a máxima consciência sobre as mudanças climáticas em 2009, quando encontrou a embaixadora boliviana Angélica Navarro. Esta diplomata compara a “dívida climática” (dos países do Norte) à da escravatura, pelas compensações, éticas, políticas  e financeiras que devia ter originado.

Pessimista institucional, Naomi não acredita que os encontros e compromissos saídos das negociações sobre a égide da ONU façam qualquer diferença. A prova está nos resultados insignificantes do passado e no nível insuficiente de reduções de emissões que os governos levam para a mesa de negociações da Conferência de Paris. As propostas não conseguem manter a subida das temperaturas abaixo dos 2º C em relação à era pré-industrial.

É preciso, diz Naomi, mudar o paradigma suplicante de Copenhaga 2009, onde parecia bastar implorar a Obama e Merkel que salvassem o Planeta. Isso não aconteceu e frustraram-se enormes expectativas, dando origem ao chamado “síndroma de Copenhaga”. Além disso, aquele encontro foi minado, a partir do interior, por grandes empresas pouco interessadas na mudança do statu quo (Shell ou Exxon, e.g.). Por conseguinte, devem ser os cidadãos a ocupar-se do problema e das formas de o combater. Tanto mais que esta crise, a maior e mais irremediável de todas, tem a força catastrófica de poder mudar em profundidade a sociedade, vive-se uma oportunidade histórica de revolucionar o velho modelo nacionalista e classista. Há, como nunca, abertura para se pensar a criação de empregos socialmente úteis, democratizar o acesso à energia, aos produtos de primeira necessidade e aos transportes públicos, repensar o modo de funcionamento das cidades, o modelo antropológico do homem-trabalhador... Ou seja, desenvolver modos de governação socialmente e ambientalmente mais eficientes, respeitando sempre, como fronteira vital, os limites físicos do Planeta (o novo grande "princípio de realidade").

O livro This Changes Everything. Capitalism vs The Climate desconfia da economia privada se preocupar honestamente com as alterações climáticas, no entanto Naomi Klein não recusa totalmente a utilidade de se envolver, devidamente enquadrado (o que significa, “controlado”), o privado. E.g., uma taxa sobre a emissão de carbono pode ser uma boa ideia se for progressiva. Mas, como refere o climatólogo Kevin Anderson, continuar mais lentamente na via errada não é a mesma coisa do que entrar no caminho certo. Neste sentido, Naomi assume que as suas críticas são estruturais: o sistema actual de promoção do crescimento económico a curto prazo é incompatível com as limitações físicas do Planeta.

Tanto mais que para respeitar os vitais 2º C máximos de aumento das temperaturas é necessário deixar 80% das reservas de combustível fóssil onde estão. Não se pode queimar este carbono! Daí a necessidade de desinvestir, única forma de quebrar a lógica capitalista do “lucro a todo o custo”.

Daqui resulta um sentimento de impotência: como ir contra o discurso sacralizado do “crescimento e emprego”? Como se pode mudar, com a rapidez que os problemas ambientais exigem, consciências formatadas pelo consumo e a ética do trabalho como valor de troca, pelo prestígio social ligado à profissão e à posse de objectos reveladores de estatuto...? Não será ajuizado tecermos uma capa pessimista que esperando o pior ficará depois redimida com pequenas migalhas de soluções ou por uma menor intensidade da catástrofe? Não será preferível abandonar tudo e convertermo-nos em crentes da desgraça para fazer do Fim uma apocalipse que, à semelhança de algumas tragédias gregas, funcionaria como um Deus ex machina invertido? Numa palavra: não será melhor assumirmos um niilismo irredutível, correspondente ao tempo em que vivemos e à humanidade que somos?

Não! Também este pessimismo pode, voltando-se contra si mesmo, superar-se e desenvolver acções positivas. Naomi põe no título do livro This Changes Everything porque acredita num efeito dominó iniciado por activistas ambientalistas, que para ela são visionários de uma nova forma de pensar e construir a democracia, mais ligada aos cidadãos e menos à economia (que se fez política e moral) das grandes empresas e do lucro. Talvez eu seja menos optimista. Mas certos dias envolve-me a esperança de que o ser humano tem ainda reservas de outra humanidade, ou humanidades, o Homem ainda pode ser outro Homem (era esse o desejo de Nietzsche). Um ser diferente, mais igualitário e solidário, não especialmente centrado na sua espécie, mas preocupado com todas as formas de vida e o inorgânico que as sustenta, com as gerações futuras, esse bem que devemos a quem ainda nem sequer nasceu mas já faz parte do mundo, com a beleza e precisão de sistemas evolutivos que demoraram longos milhares ou milhões de anos a serem o que são, com o nosso vizinho mais próximo e com a possibilidade de um alienígena nos visitar e admirar-nos pelo que construímos sem destruir. 

Quero outra vez um dia de Verão

Quero outra vez um dia de Verão. Entenda-se que não peço um dia de sol, mas sim que quero um dia de Verão.

Nos dias de Verão é mais fácil escrever: tudo é mais luminoso e tem mais vida. Podemos falar de uma cadeira de vime no alpendre e de uma almofada fofa no assento. Verde com riscas laranjas e contornos azuis. Assim, exagerada de cor. São três da tarde e o sol bate levemente por sobre o caramanchão que me dá sombra. Uma estrutura simples coberta pelo maracujaleiro em flor. Cheira! E como cheira. Três da tarde é a hora dos gatos e dos segredos. Já é insuportavelmente tarde para o almoço dum dia comum e infinitamente longe de uma hora boa para o chá. É uma hora que não existe. Na casa alguém dorme a sesta num dos quartos com as quatro paredes altas. Os tectos finamente decorados a estuque são como antigos mobiles ou clepsidras que nos fazem adormecer. Contando que nos viremos algumas vezes na cama. Podia estar a escrever, agora que estou no jardim, sentado numa cadeira de vime com uma almofada colorida por assento. Enquanto, prefiro pensar numa sesta não demasiado tranquila no quarto do fundo. O quarto do fundo é grande e branco e tem um tecto como um clepsidra como os outros quartos da casa. Mas não é isso que me atrai. Numa proporção certa a cama enfrenta a janela cuja vista se joga sobre a cidade. Continua depois no mar. Bastaria agora que me levantasse, que pisasse com os pés nús o chão morno de cantaria. Em jeito manso subiria as escadas para encontrar num instante a porta envidraçada da biblioteca. Agora caminhar no longo corredor dum silêncio impossível, feito de velha madeira rangente. A mão poisada sobre a maçaneta, rodando-a num gesto de pulso. De seguida fecho a porta e corro também as cortinas. Às três da tarde todas as luzes devem ser a meia luz. O corpo descansado sobre a cama. O tecto em clepsidra e as paredes altas e brancas e o sol por entre as cortinas leves. Meia-luz com a alma a meio-gás como se meio adormecida. E agora estou sentado na cadeira do jardim a pensar que poderia estar deitado na cama do quarto do fundo. Aí imaginaria o turpor das quatro da tarde, quando nem por um instante houvesse silêncios. As crianças a descer velozmente as escadas, aos tropeções ligeiros; o jardim muito cheio; alguém a por a mesa do lanche. E tudo isto como um preparar lento do funeral duma tarde de verão que se fecha com o ritual do chá servido quente pelas cinco.

Hoje Outubro quase vira Outono. Há ainda resistências do sol e sobretudo da luz. Agora na janela frente à estação de comboios felizes e também velozes penso- no corpo sentado na cadeira no jardim, pensando no corpo deitado na cama do quarto, imaginando a agitação que virá para preparar o final de mais uma coisa que começa. Onde estarei eu pelo mês de Agosto?

 

Esta es la mano que cuida

Yo[1] lo aprendí así:

1. todo árbol es un conjunto de órganos que realizan una función.

2. todo animal es un conjunto de órganos que realizan una función.

3. todo elemento es un conjunto de órganos que realizan una función.

4. antes de exponer la anatomía hay que comprender y esperar lo que vendrá de dentro. [2]

5. todo objeto o animal que se quiera introducir se someterá a la cuarentena. Invasión, daño, plaga,  aquí no es posible la permanencia del riesgo.

6. sin la mano que cuida [3], sin la voz que ordena,  comportamiento y especie están destinados a desaparecer. Este es ellazo innato de unión al mesías y al pastor.

7. al verse amenazados tendrá lugar una verdadera digestión del tejido y del cuerpo de todo lo que se oponga a su paso.

8. vivir en grupo hace más fácil el avistamiento y la detección de los depredadores.

9. cuando se sucedan acontecimientos anormales en el grupo no tendrá lugar ni autopsia ni debate. No se permitirá levantar la vista fuera de[4] los límites establecidos.

10. después de todo esto, creemos que el lector con inquietudes por saber y conocer se encuentra al fin preparado,  en condiciones de comprender el tremendo daño y dolor que ellos, por el bien de los demás, soportan.

 

A mí me[5] lo contaron así:

a)      por lo que todo rebaño es un conjunto de órganos y células realizando la misma función.

b)      todos los elementos que lo integran pueden no tener la misma fisiología ni los mismos mecanismos de voz y digestión.[6] 

c)      aquí es obligatoria la armonía, y el objetivo que se persigue siempre es el mismo: cuidar para que todos al día siguiente sigan siendo los mismos[7] supervivientes.

d)       no podemos afirmar[8] con exactitud cuando apareció dicho comportamiento.

e)      sí alzamos la voz y os decimos que todo está lleno de nosotros.

f)        nosotros [9], especies invasoras, dañinas, inalcanzables. Llegamos alciclo biológico, abordamos el ecosistema, alteramos el orden y los nichos llenándolos de diálogos y de amantes. 

g)      todos saben que un animal en vuelo también puede ser una isla, por eso nunca levantan el rostro.

h)      se dejan acariciar por las mismas manos que confían en la cirugía y en la terapéutica, por las mismas manos[10] que realizan el sacrificio y el desollamiento.

i)        nunca los verás llorar. Nunca los verás gritar a la carroña. Así fue establecido por ellos.

j)         aquí alimentarse de hierba significa[11] lavarse la boca.

 

[1] “Muchas veces pienso en cortarme el pelo, otras en cortarme la garganta, otras en arrancarme los ojos. Disculpe, doctor, es sólo una manera como otra cualquiera de hablar de mí...” Fleur Jaeggy

[2] “El primer síntoma de la debilidad es el de las fructificaciones abundantes.” A. Rupérez Cuéllar

[3] “Y pasé junto a ti y te vi agitándote y te dije:

"¡en tu sangre vive!". Y te dije: "¡en tu sangre vive!".”

Ezequiel 16, 6.

[4] “Hay algo antiestético, sucio, en el alboroto de los muertos que quieren vivir.” Yoram Kaniuk

[5] “Meu órgão de morrer me predomina” Manoel de Barros

[6] “Tenía alas de ángel, pero ya olía, olía mucho.” Gonçalo M. Tavares

[7] ¿Quisiste desmayarte a base de absoluto? Hamutal Bar-Yosef

[8] “Este capítulo de las enfermedades no resiste ni el más ligero examen de un especialista, pero ha sido redactado únicamente para satisfacer la curiosidad de algún lector.” A. Rupérez Cuéllar

[9] https://www.youtube.com/watch?v=JWnX41TBFF4

[10] ¿Quién de ellos me devorará primero? Al Berto

[11] “pueblo pequeño, infierno grande”

 

[ver perfil de María Mercromina]