«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
As Aventuras do Senhor Lourenço §3 (da cobardia essencial)
/A indefinição identitária que relatei no último apontamento da história do Senhor Lourenço é uma marca que os leitores devem reter (não se esqueçam também que para Montaigne o que importa num livro é ser apropriado pela vida). Um ser sem uma ideia clara de si pode ficar apavorado com o que é; patético e perigoso, ao mesmo tempo.
De qualquer forma, nunca apanhei Lourenço em clara negação de complexidade (apesar de ser um síndroma bem português), no domínio dos comportamentos trágicos chega a considerar-se moderadamente corajoso. Dá o exemplo de certa vez ter salvo uma rapariga de “morte quase certa”. Às 4 da madrugada de um dia de semana, gritou-se no beco mais escuro do Bairro Alto, e um impulso arcaico empurrou-o para lá, advertindo, numa voz acagaçada, que iria ligar à polícia. Passou por ele (atravessou-o?) um vulto a correr (talvez o putativo agressor), e pouco depois emergiu do meio da neblina malcheirosa uma rapariga, provavelmente adolescente, com a camisa aberta e sem soutien (Lourenço conta isto sem qualquer ponta de lascívia, “possuir um corpo é ser banal”, costuma dizer. Embora sinta por vezes nas prostitutas uma sensualidade fluida e doce ao abraçar-lhes os corpos treinados para resgatar homens da solidão e da amargura). Alguns arranhões na cara e no pescoço, o ar de ter passado por um susto desconhecido, as mãos emparelhadas à frente da barriga tremiam e da sua boca saiam lamentos que oscilavam em sintonia com a respiração ofegante. Mal conseguiu dizer o nome, “Anabela, Anabela Mateus”, que o Lourenço indicou ao 112. Declarou mais tarde à polícia o cumprimento do seu dever sem reconhecer qualquer traço na fisionomia do pretenso malfeitor.
Este episódio parece simples, mas Lourenço não o conta sempre da mesma maneira (confrontado com isso, escuda-se na liberdade hermenêutica e, rindo, até na “morte do autor”), por vezes a “adolescente” transforma-se quase numa “femme fatal”, noutras tem de se defender de alguém armado de uma faca. Estas variações, fazendo lembrar um Borges pouco subtil, lançam dúvidas sobre a realidade do acontecimento. Mas Lourenço permanece inabalável, chega a acrescentar, em tom de desafio, que é mais fácil ser coerente na ilusão do que na verdade.
– Vejam se detectam dúvidas nos fundamentalistas religiosos? Argumenta.
[a talho de foice, convivi vários anos com um mitómano que por desconhecer a fronteira entre a verdade e a mentira era um super lógico]
Este apontamento de bravura contribuiu pouco para esbater a sua imagem de cobardolas. Lembrem-se do Poema em Linha Recta de Álvaro de Campos (“[…] Eu, que quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado / Para fora da possibilidade do soco; […]”), Lourenço é um ser real que foge sempre à possibilidade do soco. Não que isso aconteça realmente muitas vezes, nem ele frequenta locais alimentados pela brutalidade física, mas sabemos de antemão, intuitivamente, que em tal circunstância o veríamos acocorado debaixo de uma mesa ou de uma cadeira.
[às vezes pergunto-me se podemos viver em alegre cobardia e vibrar no nosso íntimo com um herói trágico acabado de sacrificar. Parece-me que sim, há mecanismos de empatia para isso, mas há também uma distância que não permite qualquer emulação. O cobarde pode sentir o trágico, mas não aprende nada com ele]
Enfim, relativizemos: “qualquer um, nas circunstâncias certas, é capaz de qualquer fraqueza”. Todos nos agachamos. Se é verdade que devemos completar a nossa educação confrontando a morte, devemos igualmente fazê-lo envolvendo-nos na cobardia. “Somos mais ricos do que pensamos, cada um de nós.” Mas continuamos a escavar às escuras.
(cont.)
Srinivāsa Aiyangār Rāmānujan
/Srinivāsa Aiyangār Rāmānujan
que significa
Temos O Osso de Ishango Dentro dos Segredos das Visitas
temos visitas
sobreviventes da exaltação do evento visita
confesso um vulcão para cada passo na direção de uma nova linguagem
vitrola panela colher folha de bananeira nome de gente
meia furada
ande com a água nessas canecas com brasas nessas brasas com chá
a secret was the only horse on the carpet
que significa
em cada brasa uma permissão secreta
crochê manchado de toalha livro numa página sorteio
matemática numa escrita quero o verbo 322
temos visitas
sobreviventes da exaltação do evento visita agora
manchada do verbo no espirro gerador para a sequela fibonacci da visita
a secret was the only fire on the carpet
plimpton plimpton
santinho deus te crie
temos o osso de ishango dentro dos segredos
não temos vergonha temos visitas gripadas temos a sopa da galinha mais exata
A Companhia Das Sirenes
/Terás sempre a companhia das sirenes nas insónias de uma madrugada
Longe de ti mesmo e que bom é caminhar em direcção ao sono
Por entre sonhos adiados e bêbados, rasgados, alcatrão fora, até ao
Isolamento impossível das paredes que vibram a vida vizinha e alheia,
A noite nem se sentiu levantar e a sua queda foi tão suave e tímida,
Como os olhos que realmente ouvem, sem outro interesse além da tua visita,
Porque se mostra tão pouca gente na cidade gigante, onde não há um minuto
Sem a companhia dos que se despedem, tão estranhos quanto tu.
Tóquio
05/11/2015
Ao poeta que me envia árias avulsas
/andas muito lírico, amor.
não compreendo
a tua necessidade
de ouvir ópera sem parar, isso
não existe essa grandeza dos afectos
essa adolescência momentânea
os corpos rosáceos
sob um tecto de estrelas
isso não existe, meu amor.
agarra-te ao trabalho no supermercado
abraça a dormência da rotina
esquece os romances
deixa de escrever e sobretudo
não ouças mais ópera que isso
não existe, amor, e se existir
não é perto de nós.
paga a renda, come chocolates,
consolida, filho, consolida,
que o inverno vai ser longo e esses cravos
na parede e essa força
e esse amor universal não existem
nada disso existe
por isso agarra bem os talões de desconto,
serão a maior carta de amor no teu correio,
ajuda as velhas a atravessar a rua
bebe até cair
mas só a partir das oito da noite
que não te deixam sair antes do trabalho,
larga a literatura
deixa os clássicos para reciclagem
mas se for poesia
queima-a:
o verso livre é perigoso.
larga os amores, as flores e os cravos
agarra-te ao boletim de voto e às revisões
constitucionais mas só se te deixarem
sair do trabalho para as urnas.
a última vez que fodeste a sério
eras adolescente e já nem sabes
se foi assim tão bom mas
não te preocupes com mais,
o prozac não esquece a alegria,
acaba o cigarro, abotoa o colarinho
toma a certeza de que só essa cadeira
é o teu lugar no mundo:
volta para dentro sorriso
amarelo ombros
encolhidos cabeça
baixa, barba feita que
não deixam que cresça porque
fica mal, fica-te tão mal
esse pensar divergente
mas sobretudo
larga a ópera, que
andas muito lírico.
