Eu e as Minhas Irmãs: Meditação sobre Dimitri

Do lado de dentro espio Dimitri, o jardineiro. Há muito que o observo. Ele é incansável no modo como trata as rosas. Constante, paciente, não espera nada em troca a não ser a beleza e a saúde delas.  Nem mesmo sei se lhe pagamos. É um homem como deve ser. 

Nunca entrou em nossa casa. Nem ele pediu nem nós o convidámos. Espio Dimitri, que alisa as pétalas de uma rosa; não sabe que eu o observo ou, se sabe, não o demonstra.  

Não está escrito em lado nenhum que não o possamos convidar. Imagino um primeiro dia em que isso acontecerá. Dir-lhe-emos que temos a casa em pedaços e é verdade e ele sabe que sim. Ocupar-se-á de pequenos arranjos: tapar rachas, arranjar portas, substituir janelas, reparar torneiras, essas pequenas coisas que sempre são precisas e nós não sabemos nem queremos fazer. Podemos confiar nele, na sua delicadeza masculina para saber que respeitará o trabalho laborioso das aranhas, os caminhos por onde passa a pequena osga, o rato que se aninha atrás do frigorífico, nada fará nada que nos desgoste.

Com tanta coisa partida, pedir-lhe-emos mais do que uma vez para entrar. Ele apanhará os vidros espalhados pelo chão, consertará, remendará, tornará a nossa vida mais fácil. 

E um dia convidá-lo-emos para jantar. Poremos a mesa com desvelo: abriremos as gavetas e tiraremos de dentro a toalha e os guardanapos de linho. Os copos de cristal, o melhor faqueiro. Velas vermelhas em castiçais de prata. Haverá carne e vinho para Dimitri.  Sentar-nos-emos à mesa e, como boas anfitriãs, fingiremos que o acompanhamos. Debicaremos as batatas que não tiverem tocado na carne. 

Repetiremos o convite. Uma noite, a irmã do meio tocará piano e cantaremos.

Outra noite, eu poderei dançar. Recitaremos poesia. Uma de nós nunca deixará esvaziar o seu copo.

Nessa noite será já muito tarde para Dimitri regressar a casa. Ele estará tonto, deitá-lo-emos no quarto de hóspedes.

E haverá uma noite, em que depois do jantar, da poesia e do vinho, Dimitri me acompanhará ao quarto. 

Assim se repetirá por outras noites. Até que um dia se irá deitar com a irmã do meio. E uma noite virá em que a passará com a mais nova.

E depois trocaremos, voltamos ao princípio. Comigo, com a do meio, com a mais nova. Comigo, com a do meio, com a mais nova. Sempre a rodar. Para que Dimitri desfrute de nós por igual e nós de Dimitri.

Nós abraçámos a vida parca. Um homem para as três chega perfeitamente.

As Aventuras do Senhor Lourenço (§16 entre Joaquim e Manuela)

[em terra de cegos é-se rei com um olho. Mas às vezes parece que ninguém quer reinar, falta aos portugueses uma dose maior de arrivismo, conformamo-nos facilmente com a mediania]

Joaquim foi ganhando poder sobre Lourenço, não por uma vontade de domínio exacerbada, neste capítulo Joaquim assemelhava-se ao resto do país, uma moleza de espírito, talvez tecida pela moral das virtudes que refreia as forças conquistadoras dos portugueses (não o cinismo). É verdade que temos os “chicos espertos” e os “patos bravos”, mas depois de construírem a mansão com colunas dóricas e piscina quase olímpica, depois de fazerem férias num hotel tropical e de comprarem um SUV espampanante, depois desta trilogia, acalmam-se e contentam-se com uma churrascada junto dos amigos, tudo aos berros, e camarote num dos estádios dos três grandes.

No que se diferenciava era quando sobrevalorizava a força do livro, digo bem, “quando”. Ouvi-o muitas vezes dizer também, contra ele próprio, que os livros secavam a vida, criavam meninos de colégio, inibiam a imaginação, atrofiavam os músculos... Mas era a sua forma de justificar mais um ditado popular: “quem desdenha quer comprar”. Ou talvez um dos excessos instigado pela solidão. Joaquim, sendo tendencialmente boa pessoa, podia facilmente transformar-se num anjo sinistro, pronto a desbaratar tudo o que os outros construíam, mesmo o belo e o amoroso. O seu niilismo, traiçoeiro quando odiava as pessoas, alimentava uma imensa inteligência que adivinhava a força do negativo. A anti-vida que, à semelhança da anti-matéria, perpassa o pulsar de cada molécula orgânica. Cheio de cicatrizes narcísicas, projectava nos outros o mal que agora vivia em si, muitas vezes de forma tão soberana que sentia vergonha quando dava os bons-dias a Lourenço. Este, como venho demonstrando, tinha qualidades, não de herói, penso também que isso ficou claro, mas as mínimas para, se for caso disso, entrar no Céu (sem o saber, Lourenço apostava como Pascal).

No campo mais racional, Joaquim, apesar dos danos causados pelo haxixe, tinha uma cabeça disciplinada, mesmo quando punha os pés nas nuvens ou andava à cata de neologismos. Se Manuela se colocava ao seu lado, numa composição que remitia sempre para a Bela e o Monstro, sorriso de modelo feliz no momento da consagração fotográfica, inventava um enigma lógico e desafiava metade da sala de professores a procurarem a solução. Dizia que devíamos treinar para sermos Édipo, destruirmos com a espada da razão a intoxicação neoliberal. Claro que tudo isto faz pouco sentido, mas não se esqueçam dos dez anos ligados à droga. Por outro lado, Joaquim achava, baseando-se em fórmulas perfeitas da história económica, que se tinha perdido quase totalmente o sentido do profundo mistério do 25 de Abril. Mistério que indica, antes de mais, o imperativo de se amar incondicionalmente a Revolução, qualquer Revolução, até as Contra-Revoluções conservadoras. Não que acreditasse numa felicidade desregrada, já que talvez não exista a grande felicidade sem grandes e irredutíveis interditos. De qualquer forma, nas horas de maior solidão, Joaquim sentia sempre que o Universo era infinitamente rigoroso e por isso não se podia preocupar com a sua infelicidade.

Por seu lado, Lourenço continuava a sofrer de uma enorme falta de auto-estima. Por exemplo, achava que uma ponte magnífica o ligava a Manuela, mas uma ponte levadiça que no momento do encontro se levantava para deixar passar um navio cheio de contentores chineses. Por isso, certo dia, na cama, saiu-lhe: – Quando te penetro sei que não te toco.

– Vamos ficar em silêncio, meu amor. As palavras têm uma grande força, foi isso que me ensinaste, tu e o Joaquim, apesar de eu não gostar muito dele; mas há coisas maiores. Não temos de explicar tudo, aliás, como costumas dizer, isso é impossível. No nosso caso, temo que quanto mais falamos mais portas fechamos. As almas unem-se em silêncio.

[nunca Manuela se aproximara tanto do sublime. Dir-me-ão que não esteve assim tão perto. Certo. Mas experimentem dizer uma coisa com esta intensidade depois de um mini-orgasmo]

Apesar das dúvidas e hesitações, Lourenço e Manuela viviam algo grandioso e belo, tanto quanto se pode conseguir numa época de cinismo e mesquinhez. O problema maior estava em Lourenço querer a todo o custo discutir a autêntica verdade da relação. E creio que isto se alimentava das forças coscuvilheiras da escola. Além do corte e costura habitual, demasiado fastidioso e vulgar para o reproduzir aqui, tinham agora a mania de construir profecias, fazendo-o, técnica aprendida com o Professor Cabinba, num piscar de olhos. No olhar que lançavam para o futuro vislumbravam um quadro negro, sobretudo quando Lourenço deixasse de ser herói e Manuela visse finalmente o aventesma por quem se apaixonara. Seria ela capaz de fabricar uma indulgência à altura da situação? Ninguém acreditava nisso. Embora nas épocas de simplicidade mitológica tenham acontecido milagres que uniram heterogéneos aparentemente inconciliáveis. E quem sabe se eles não conseguiriam ficar fora das regras da vida social e amorosa (o amor acontece quase sempre em respeito pela luta de classes e repartição desigual das riquezas), sem outros desejos além de vestir e despir a tanga?

Mas o futuro, como a eternidade, só pode estar vazio, ou melhor, é feito de forma e intensidades sem conteúdos.

[“o que não podemos atingir de uma só vez devemos obtê-lo coxeando.” A escrita ensina-nos isso mesmo]

De Berlim a Lisboa

E nós ficávamos sentados nas folhas secas que murmuravam um pouco sob a respiração lenta da nossa espera e a respiração lenta da terra e a calma atmosfera de Outubro. 

William Faulkner, O Som e a Fúria

I (Wilmsstrasse, Berlim)

partiste e as águas correram na sua lamacenta lassidão
onde os cisnes permanecem em sua suave travessia
sugerindo aos amantes o bucolismo doado pelos canais
somente quando a chuva cai e o outono se instala na cor folheada

ou nas madrugadas de geada que em cristal brilha o inverno
aos primeiros raios da manhã e ninguém por aí caminha
na despedida não houve lenços baldeados ao vento
lágrimas se furtivas caíram foram pelos olhos dela

 – quem afinal soltava as amarras para a aventura que ajudaste
a proporcionar por solene promessa à vida – todos os caminhos e o amor
ainda estão para serem feitos antes que a morte te entre valsando

despede-te das diatribes e insónias dessa morada tão hermética
salta para o carro cheio como uma carroça com mudos e ledos cães
e segue viagem junto a ela lentos como um caracol nos himalaias do tempo

 

II (Bad Meinberg)

longe está o tempo das epopeias
tudo se move e foge da terra
só se sente a gravidade
quando o pensamento se faz corpo
ou a lama do caminho nos incita a lentidão
essa qualidade rara do amor ordenando a casa

aqui aprendemos a passagem das horas
procurámos purgar o percorrido
persistindo a ecoar no tímpano
nestas línguas de sílex prontas a embater
e incendiar o coração na iminência
de um obstáculo até o amansar da fera

composemo-nos com o mundo
desenhámos um mapa de errância
e se neste templo os nomes se renegam
por outros juntos abrimos o horizonte
da pele à fulgurância da vida
essa epopeia escrita justo ao último suspiro

shanti shanti shanti

who’s y’r fav’rite poet, man?

1

Tantos poemas lidos
que em vez de sonhar contigo
tive um sonho esquisito.  

Interrompendo um poema meu tão bom
que nem mesmo em sonho eu podia acreditar
Jack Kerouac saltava de um trem
e perguntava num inglês de bêbado
who’s y’r fav’rite poet, man? 

Conquanto ele rejeitasse com a cabeça
qualquer pensamento que ocorresse
ousei triunfante responder
it’s you, sei lá por que. 

Bobo desejando os cumprimentos
menti ao poeta tentando agradar, 
mas com olhos de anjo ele disse you lie – 
you know and ev’rybody knows: 
y’r fav’rite poet is Rimbaud. 

2

Nesse sonho talvez
Jack Kerouac conhecesse
os velhos sonhos com Rimbaud.  

Soubesse que ficávamos calados  
os dois num barco ébrio
deitados à deriva no mar
e o silêncio era tão inspirador
que por nada se ousaria interromper.  

Nem mesmo para depois
poder gloriosamente dizer
palavra por palavra do que ele falou.  

As Aventuras do Senhor Lourenço (§15 manusear a esperança com cuidado)

[hoje gostava de fazer um capítulo subtil e feliz, até porque dormi bem, não tenho dívidas e ontem convivi com pessoas amáveis. Mas, como sabem, aquilo que escreve não liga muito ao Eu]

Ninguém sabe quando pode surgir uma coisa magnífica. Além disso, Lourenço tem mais vocação para cartografar as fissuras ou fracturas da sociedade do que para apostar na excelência de obras ou gestos nascentes. Tanto mais que isso exige um optimismo quase ingénuo, enquanto Lourenço é sobretudo um pessimista, satisfeito com o nevoeiro estacionado sobre a vida.

Na altura, eu e o Joaquim mantínhamos uma distância calculada em relação ao herói do momento. Mas percebíamos bem que ele se esgotava, a intensidade histriónica com que era solicitado pelo exterior sugava-lhe a vida, já de si frágil, Lourenço tinha naturalmente pouco recursos vitais. Talvez por isso se tenha ligado ao Joaquim, vendo nele uma tábua de salvação, como quando um cego pede ajuda a outro cego para atravessar uma estrada. Enquanto a mim me manteve à distância, cheguei mesmo a sentir algum desconforto com esse abandono, mas depois percebi. Menos compreensiva foi a Manuela, fez várias queixinhas sobre o estranho magnetismo do Joaquim, “o velho gordo e malcheiroso”. Avaliação apressada, não porque Joaquim não fosse gordo ou cheirasse mal, mas era muito mais do que isso, e tinha, sem que ninguém percebesse bem porquê, uns dentes fantásticos, de actor de cinema. Claro que os “dentes de marfim” não compensavam a degradação corporal e a halitose, mas faziam um interessante contraponto com o estrabismo, se nos distraíssemos parecia que a sua cara tinha sido enxertada por um cirurgião plástico inconsistente: medíocre nos olhos, excelente nos dentes.

Joaquim acreditava na transparência, cada indivíduo devia revelar-se incondicionalmente, mas na verdade ele era o exemplo perfeito do espectáculo da solidão e do secretismo. É a partir disto que explico a sua atracção pelo bom vinho de Vila Nova de Foz Côa, essencial para combater os pruridos burgueses da identidade, e a militância trotskista. Continuava a acreditar nela, sem a praticar. Mas salvo um ou outro fim-de-semana de bebedeira alegre, tinha-se enrolado em si mesmo à medida que envelhecia e os “amanhãs que cantam” não se realizavam. “Uma vida inútil”, costumava dizer. Sentia-se arruinado, e já só acreditava em ideias individuais e na maldição da suprema arte da inconveniência. Apesar deste desencanto, Joaquim tinha vontades que podiam pegar fogo. Um incêndio de baixa intensidade capaz de capturar certas pessoas para o seu círculo de fogo. Um dia, há bastante tempo, aproximou-se de Lourenço, achou interessante vê-lo a ler um livro sobre a sobre-moralização do futebol. Diz-se que o título era: Há mais Ética no Futebol do que na Assembleia da República, de um obscuro, mas perfumado, jornalista desportivo. Lourenço não se lembra de tal livro, aliás se procurarem no Google verão que nada existe de parecido com isso. Mas Joaquim já era na época um pragmatista, para ele só havia efeitos, não coisas, muito menos verdade. Este foi o legado de 10 anos a consumir haxixe, única forma que encontrou para, ao mesmo tempo, ser severamente materialista dialéctico e um hedonista céptico.

[desculpem-me este niilismo mas o escritor deve admitir abertamente as suas preocupações mais obscuras, tanto mais que é nos romances que se aprende o verdadeiro significado da vida. E portanto não se deve saltar estes monólogos adramáticos]

Começou a frequentar o Lourenço na sala de professores (e professoras), e rapidamente houve uma comunhão franca e alegre (embora sempre frugal em Lourenço). Joaquim sabia que Lourenço não dava para muito, mas tinha um mínimo mental e alguma cultura filosófica. Não, Joaquim não era de filosofia, mas de história, um carrancudo professor de história. Lia, porém, sobretudo livros de filosofia, sempre à procura de uma redenção metafísica para a “porcaria da realidade”, que nunca mais avançava em direcção à grande e definitiva Revolução. Além disso, suportava qualquer tipo de desordem, menos a das ideias, e Lourenço podia não ser prolífico, mas era bastante coerente.

– Lourenço, aquele malandro do Kant, a pôr o sublime no religioso, hem?!

– Pois é, devia ter permanecido no campo da arte.

– Qual quê, a religião é mais revolucionária! Olha o Estado Islâmico.

– Mas não conduz à alienação?

– Só quando é mal orientada, só quando é mal orientada. Olha para Jesus, olha para a Teologia da Libertação, olha para Feuerbach, olha para aquele bispo de Setúbal. E não me entendas mal, já sabes que só falo do que pode ser, nunca do que devia ser.

– São excepções. – Lembrou-se de dizer Lourenço, em cima do toque de entrada.

– Excepções paradigmáticas, paradigmáticas.

Joaquim tinha uma enorme vantagem sobre os seus vários inimigos: desde que deixara o haxixe, o estrabismo intensificara-se (normalmente a droga cega ou desdenta, aqui Joaquim teve sorte). A ambivalência inequívoca do olhar desbaratava os seus contendores. Como se pode atacar alguém que parece olhar para dois campos da realidade? É impossível marcar o alvo. Invariavelmente, todos acabavam por desistir, os argumentos pareciam não atingir Joaquim, que, apesar dos 90 quilos, era uma figura evanescente. Vencia, pois, as discussões, mas perdia as pessoas. De todas as contendas emergia uma raiva que armadilhava mais uma ligação.

Estranhamente, isso nunca aconteceu com Lourenço. Uma namorada de adolescência, também estrábica, ensinou-o a concentrar-se apenas num olho, o “olho da amizade”, como lhe chamava. Joaquim, por seu lado, fosse pelo tal livro sobre futebol e moral ou por não ter mais ninguém, engraçou com Lourenço. Não conversavam muito, e até uma certa altura fizeram-no apenas na escola. Mas sentiam verdadeiro prazer quanto trocavam umas palavras sobre os alunos, a actualidade ou a história da filosofia. Agora que Lourenço era solicitado de todos os lados, quase não se viam, mais havia um capital de amizade que se mantinha, à espera de aparecer quando fosse necessário.

Um dia encontraram-se e discorreram sobre o tempo. A páginas tantas, Lourenço perguntou:

– A esperança é o maior dos bens ou a pior das maldições?

– Depende.

– Do quê?

– Da perspectiva.

– Isso quer dizer alguma coisa?

– Pouco, mas é a expressão que se usa nestes casos.

– Joaquim, devo ter esperança? – Perguntou Lourenço, quase em surdina para não ser ouvido pela “malta”.

– Depende.

– Do quê?

– De onde quiseres derramar a esperança.

– Numa vida normal, numa vidinha.

– Todos podem ter esperança numa vidinha, os nossos políticos trabalham com afinco para que isso seja possível.

– E nós, temos que fazer alguma coisa?

– Não, é só mantermo-nos nos eixos, na linha mediana que conduz do nascimento à morte. Se esperares outra coisa...

– O quê?

– Manteres-te no heroísmo, por exemplo.

– Sim, o que devo fazer?

– Gerires bem a esperança, elevá-la e baixá-la consoante as circunstâncias.

– Não percebo.

– No fundo, a esperança, quando se quer alguma coisa além da mediania, deve ser manuseada com muito cuidado. Foi isso que nos ensinaram os gregos. Não ter mais esperança que barriga quando vamos ao restaurante e estamos tesos. Esperar que o coração aguente, apesar dos sinais de querer transformar-se numa pedra. Baixar e subir, respectivamente. No teu caso concreto, as coisas ainda são mais difíceis já que quase nada depende de ti. Lourenço, sabes que sou teu amigo, a sério, mas tenho de te dizer que tudo isto está para lá das tuas forças, tu és uma marioneta nas mãos da turba deprimida e dos jornalistas sem escrúpulos. Devias pôr a Manuela na linha da frente, pouca coisa a perturba, gosta de aparecer, é suficientemente limitada para não deprimir, e, sobretudo, é gira que se farta.

– E eu?

– Tu ficas na retaguarda, a manusear a esperança com cuidado.