Dois poemas

INSTRUÇÕES DE EMBARQUE

 

Encenar sem cuidado lágrimas falsas, alarmes de crocodilo, mãos espalmadas e patas no precipício (histórias de pescador dormir).

 

Falar com voz engasgada em nome de, em vão, das coisas enferrujadas, das cartas de gaveta, maracujá-passa, das malas vazias, esteiras cortadas, e do nome sem dono.

 

Disparar roleta-russa: embargar o nome do poeta ao contrário, em cor etérea, cantar violino no telhado esverdeado ao largo azul da zona desconforto que estoura o silêncio com passagens estreitas sem contorno.

 

Agarrar as sombras de um navio em Dakar.

Seguir os passos do avião e abraçar sua sombra que aporta no meio do Não.

Empurrar ao rio qualquer sorte de ocaso e cravar no ar frases

 

sem A, sem Z, sem V, sem T, sem C.

 

 

Amarrar no pé da consciência três dias e deixá-los passar fome.  Esvaziá-los das coisas sonho bom. Estragar os vinte, apodrecer os trinta e matar os quarenta.

 

E depois perder (sim, perder)

as contas: prontas

a paciência: sem licença

a cabeça: onde esteja

 

Mas por favor não,

ouse deixar nada

acompanhado pelo abraço-audácio

que nenhuma mão sabe dar.

 

 

 

PAUSA HEROICA

 

Comentam as estrelas

das cinzas das borboletas

o gene

e

a

p

o

e

i

r

a

as velhas novembram

 

* 

 as velhas novembram
de outubro a dezembro
em fainas novenas  
varejam os ramos com
membros canhestros
erguem-se às hastes à 
cata do fruto à flor da
ramagem sacodem-na
pra panos cerzidos  
desde dezembro anterior  
nos janeiros da apanha  
colocam-nos ao chão
no plinto das árvores  
os panos ao ombro as
talhas de azeite medas
de feno ou serapilheira
as velhas janeiram quais      
espantalhos siderados
em pássaros moveres.  

 

 

na lavoura os pais
à semeia das mães
joeiram os filhos de  
envolta com o grânulo
cereal lábios de sangue
escorrido entre as pernas
ânforas de vinho nunca  
antes bebido traçado às
escuras em cochos curtidos
contendo o mênstruo doce
dos áceres no interior líquido  
o estame amputado cerca
ao bojo regaço das mães  
enquanto elas ausentes     
amamentam os filhos por  
abortar nos embriões da
terra o útero a céu aberto  
os filhos enjeitados à feiura    
à magreza triste dos cães   
rente ao bordo das cantareiras  
donde se vislumbram defronte  
os cancros tumores brotando  
ao dependuro das árvores
das tardes doentes mais as  
velhas nos janelos a espreitar
cá para fora com os rostos
caiados de morte e uns olhos  
póstumos a anteverem o fim. 

 

 

no tronco das árvores
os sobreiros madeiros
de buxo lenhados por
velhos sem rastro de
corpo esquisso dedos   
em clave a restolharem  
no húmus na caruma  
da tarde espiralam os     
laços em enredos nós
que se lhes apertam
como gravatas ao  
pomo das maçãs.  

Chuva, Papel e Outras Fronteiras

“a escrita seria, ouça, silenciosa,
como os passos claros da neve, o frio aroma dos sentidos.”

António Franco Alexandre

Enquanto leio um livro velho, com cheiros de décadas impregnados no
Papel, a chuva cai lá fora e nos versos cinzentos das páginas amarelecidas,
Então ouço uma motosserra distante, rasgando a carne de um eucalipto,
O serrim torna-se numa polpa húmida aos pés do meu pai abrigado
Dentro do baixo da casa, quando a corrente pára o vento traz as vozes
Dos vizinhos espanhóis, o poema termina e no ar que a página empurra
Surge antes do primeiro verso aquele casaco de bombazina castanho
Que cheirava a outono, atrás da porta do quarto onde dormia,
Então também nos olhos cai a chuva e nas mãos que sentem no papel fino
A vida toda, com ou sem palavras, a motosserra continua até o cepo cair,
Vencido como os olhos que sentem o que não veem e aceitam
A derrota do tempo como a chuva que nunca mais cessará.

Turku 17-04-2016

As Aventuras do Senhor Lourenço III Acto (§21 banalidade do trágico)

(cont.)

[às vezes escrevo sem pensar, deixo que a escrita entre em mim e desenhe a história à sua maneira. Outras vezes quero, qual criança mal mimada, dominar todo o processo discursivo, desviando-me para isso das frases feitas, já que só um inventor pode ser legislador]

Lourenço separou-se da Manuela, perdendo as comodidades de menino rico (os ricos são “meninos” até muito tarde), sobretudo a de viver num 5 assoalhadas na rua Garrett ao Chiado, vista para o Tejo e para resmas de turistas que agora nos visitam à procura de sol e, em vão, do pitoresco (o tuga quase desapareceu de Lisboa). Foi viver num quarto minúsculo e rançoso na rua do Salitre, alugado “por especial favor”. Na mesma casa moravam a senhoria (80 anos e queixumes sobre os tempos modernos e a “juventude que já não respeita ninguém, nem Deus”) e mais três estudantes de Belas Artes, cheios de namoradas e sonhos de grandeza artística, sobretudo depois de fumarem canabinóides (os partidos políticos do optimismo deviam distribuir este neo-soma a toda a população), talvez não fosse necessário, sabemos bem que os artistas não sublimam. Na mudança despachou a maior parte dos livros para a casa dos pais em Odemira, contente por ter agora apenas cerca de vinte “obras essenciais” que podia ler e reler, colocando-se em modo penepoliano.

[quando se envelhece troca-se a horizontalidade pela verticalidade, a amplitude pela concentração, escava-se um buraco em vez de se lavrar uma terra. Prefere-se a imersão a prumo aos deslocamentos conquistadores, é-se menos territorial e mais espiritual]

 Estranhamente, este regresso a uma vidinha quase miserável preparou Lourenço para a tragédia. Não sobre-intensa, repleta de hybris, com deuses a espumar vingança em cada frase. Uma pequena tragédia, com alguma tensão dialéctica, mas sem os antagonismos delirantes entre o humano e o divino; a secularização manteve apenas alguns equívocos do quotidiano e os gritos furiosos e incontroláveis das guerras. Se as guerras são totalmente colonizadas pelo absurdo, então perdem o sentido do trágico. Restam os acasos desgraçados para o trágico, o mini-trágico. Não se suprimindo, porém, o sofrimento sem porquê, isento de redenção para os actores, agora representado nos Zés da Esquina a quem bloquearam o carro porque não respeitaram o estacionamento pago; ou nos Antónios de Lisboa que nunca arranjaram um emprego decente, apesar dos doutoramentos em velhas e veneradas humanidades, porque, meios autistas e com famílias modestas, ninguém os recomendou e o funcionalismo público privilegiou, por estratégia política, as gerações antes das suas. Noutros termos, já não há nem Édipos nem Antígonas capazes de desafiar parcelas fundamentais da Ordem. Ou, depois da enésima morte de Deus, já não há sequer Ordem para desafiar.

Se Hannah Arendt cunhou o termo “banalidade do mal”, os tempos hiper-modernos encarregaram-se de inscrever na história das palavras e ideias o de “banalidade do trágico”. Talvez, mas fico-me pela suspeita, porque vivamos a fazer zapping entre os problemas vitais que envolvem, num abraço de urso, o mundo. E fazemo-lo porque as soluções obrigariam a substituir-se o estilo de vida Ocidental pelo regresso a uma austeridade medieval, e nós preferimos o conforto tecnológico e dietético. Nova versão do “prato de lentilhas”.

Será este trágico, “o melhor dos trágicos possíveis”, como costuma dizer um amigo meu, que Lourenço voltará a educar-se para um mundo que, como queria Schopenhauer, só pode ser de sofrimento (aqui e ali redimido pela contemplação estética, sobretudo musical). 

De Berlim a Lisboa

E nós ficávamos sentados nas folhas secas que murmuravam um pouco sob a respiração lenta da nossa espera e a respiração lenta da terra e a calma atmosfera de Outubro.

William Faulkner, O Som e a Fúria

 

I (Wilmsstrasse, Berlim)

partiste e as águas correram na sua lamacenta lassidão
onde os cisnes permanecem em sua suave travessia
sugerindo aos amantes o bucolismo doado pelos canais
somente quando a chuva cai e o outono se instala na cor folheada

ou nas madrugadas de geada que em cristal brilha o inverno
aos primeiros raios da manhã e ninguém por aí caminha
na despedida não houve lenços baldeados ao vento
lágrimas se furtivas caíram foram pelos olhos dela

 – quem afinal soltava as amarras para a aventura que ajudaste
a proporcionar por solene promessa à vida – todos os caminhos e o amor
ainda estão para serem feitos antes que a morte te entre valsando

despede-te das diatribes e insónias dessa morada tão hermética
salta para o carro cheio como uma carroça com mudos e ledos cães
e segue viagem junto a ela lentos como um caracol no himalaias do tempo

II (Bad Meinberg)

  longe está o tempo das epopeias
tudo se move e foge da terra
só se sente a gravidade
quando o pensamento se faz corpo
ou a lama do caminho nos incita a lentidão
essa qualidade rara do amor ordenando a casa

aqui aprendemos a passagem das horas
procurámos purgar o percorrido
persistindo a ecoar no tímpano
nestas línguas de sílex prontas a embater
e incendiar o coração na iminência
de um obstáculo até o amansar da fera

composemo-nos com o mundo
desenhámos um mapa de errância
e se neste templo os nomes se renegam
por outros juntos abrimos o horizonte
da pele à fulgurância da vida
essa epopeia escrita justo ao último suspiro

shanti shanti shanti

  

III (Steffeshausen)

a aurora irisava-se na janela suada
e o zurro de um burro fremia os citadinos
ouvidos desaprendidos do diverso

eis como se ergue uma manhã
separando as águas de um gelo adormecido
segundo o passo do homem e da terra

a noite (a)guarda demasiados silêncios
moradas a habitar pela palavra
nas desoras das vidas aldeãs enquanto

os milagres surgem onde o horizonte
se ilumina na abertura plúmbea da poalha
vê-mo-los ao longe do topo para o vale

presos pela tensão que nos corrói
essa agma no interior de cada corpo
que o amor elogia e escarnica

estar perdido é momentâneo um intervalo
na passagem das horas pelo rosto quando o voltares
verás o olhar do acontecimento de nós

  

IV (Bagneux, Paris)

e a terra foi ficando para trás
embebida em orvalho e vapor

de esterco elevando-se em torre e o horizonte
inclinado de verdes colinas lentas vacas

suspensas nos seus olhares pestanudos e desinteressados
de toda a tecnologia e dos corpos que as olham e comem

nós corremos e passamos com as nossas curiosas
sombras até a cor se dissociar do chão e das copas

e de novo o outono afirmar a sua paleta
enterrando a sua espada cobrindo de cobre o mundo

descansámos como a lebre da nossa tartaruga
viagem onde o fabulista nasceu e nunca veio a contar

a nossa passagem ou imaginar que um e o outro nascesse
ou sequer nos juntássemos para uma ulissíada europeia

descemos quase ao longo do sena vendo as vinhas brotando-
nos a volúpia de um vinho futuro ameaçado pelas máquinas

e seus condutores sedentos da protecção das suas casas correndo
o risco de a elas não chegar porque o tempo de um dia é insuficiente

para uma vida que pode acabar a qualquer momento
assim escolhemos a calma periferia da luz e do movimento

e nessa cidade apreciámos nas restantes horas disponíveis a fonte
das imagens dos amantes as pontes suicidas dos corações alocados

onde hoje como outrora o que mais se joga é a sorte
de baralhos viciados ou a fácil momentânea vida

ficou prometido o retorno um desejo mais na lista do limbo
onde tantos já foram esquecidos menos o desse tinto na noite parisina 

 

V (Damvix)

ao largo desse rio joana ouviu
um anjo e por deus matou

quando morreu um apaixonado
enlouqueceu e abriu um novo capítulo

no livro da crueldade humana
aqui ficámos o tempo de uma passagem

o suficiente para influências mais nefastas
não nos corromperem

desconhecíamos os caminhos
seguimos as marcas das vias

apenas legíveis pela luz
e porque víamos chamámos de atalhos

vindo a noite e o silêncio
a cegueira das trevas

veio a ocultação da anterior presença
de corpos e o caminho um trilho de perdição

andámos sem rumo
nos canaviais do fim do mundo

um passo em falso
desacompanhados de anjos e

humanos e demónios que nos guiassem
e não mais se encontrariam as nossas bocas

estávamos no limbo de joana e gil
equilibrados num fio de prumo

estendido entre alucinação e bestialidade
até que chegámos onde nos aguardavam

um verde labirinto de uma veneza natural
de manhã abandonada para outras paragens

  

VI (St. Hélène, Bordeaux)

não és beatriz nem eu sou dante
e por guia esteve ausente vergílio

na nossa descida pelos labirintos
por estradas ladeadas de castelos

cruzando vilas vazias quase desertas
como esse lugar erigido por monges

hoje habitado por fugazes turistas
mijando onde calha crendo-se invisíveis

jovens empregados ensonados bocejando
e velhos pescadores que mal soltam as amarras

do barco que são passando o tempo olhando o mar
como se do rebate escutassem os mortos

ou a cantiga de uma sereia para uma última partida
e porque rolamos a sul lentamente perdemos

o ferry de outubro para a quase ilha
forçando-nos um novo desvio

outra travessia de perdição e a chegada
ao destino incumprindo o compromisso temporal

aí a meio caminho desta viagem
encontrámos a serenidade para o recobro

um paraíso para o corpo e o estupor
tivemos também o nosso pessoal inferno

com a limpeza de um jardim e de uma piscina artificial
de águas paradas como um lago tomado pelo inverno

e esquecido pelos banhistas como afinal foi esta região
passado o verão aqui fizemos breves incursões

entre oceano e floresta até à antiga cidade de Bordéus
onde renovámos laços afiançámos um retorno

e no regresso a casa para nossa surpresa
sermos recebidos com a afirmação

inesperada de uma amizade uma breve nota de
esperança para as relações entre estranhos

  

VII (Cap Breton, Bayonne, Biarritz)

napoleão fez aqui uma investida ao mar
para o domar e dá-lo à mão do homem
teve sucesso o pontão persiste ainda contra as ondas
onde tantos se passeiam e se fotografam para se preservarem
nos seus raras vezes visitados arquivos de inveja
e embora também nós tenhamos aqui passado
é mais pela escrita em todo o meu corpo que guardo
esta estadia neste cabo em suas grossas areias e pôr-de-sol
acompanhado a vinho e bem-estar que se arruinaria
em poucas horas porque mais indomável que o mar é o ego
sentado no seu trono de ideias e solitárias vontades

tivemos de buscar outro abrigo para a noite fria caindo
com chuva e desiludida como uma notícia de despedida
que te convida a partir mãos nos bolsos na direcção oposta
percorremos os fundilhos francófonos e montámos praça no país basco
invertemos a carroça rearranjámos as suas dimensões
partilhando todos o mesmo espaço como numa longínqua e inexistente
idade do ouro de acordos mudos olhares significativos carícias protetoras
no estacionamento de um parque pleno de amantes de hóquei em gelo

quando não mais suportávamos o desconforto brotando entre osso e ferro
amanhecemos com o mesmo mar que banha Cap Breton fora a fúria
que quase nos levou perder a esperança conquistada em St. Hélène
e de uma quase insónia o dia fez-se mole e arrastou-se tornando-nos na cova
onde o moribundo espera a morte adiada pelo médico acabando em Bayonne
por içarmos a âncora e passarmos a fronteira ofuscando-nos com a opulência
de Biarritz suscitando em nós o desejo obscuro da riqueza que ninguém escapa
o qual pode nada mais ser que a possibilidade de viver ligeiramente livre e à tona
da água com uma casa onde dormir e receber amigos e permitir-mo-nos um pouco do luxo
do lazer e da cultura que também nos alimentam no seu modo de inutilidade económica

mas repara como poucos podem percorrer meia europa por própria vontade
e ver esta velha com um só rosto dividido e desfigurado por plásticas
parte constante novidade e renovação parte conservadorismo e tradição
talvez tenha sido esse o sentimento que nos convidou a esquecer
a nossa temporária condição enquanto comíamos churrasco numa duna 

 

VIII (Muskiz, Bilbao)

recolheu-nos a pobreza
a névoa a lama
um verde esmorecido
um mar em novelos de areia
o frio a contrariedade
como se a descida pelo litoral
aliasse o literal e o metafórico
para o justo sentido da queda

quando queríamos ficar partíamos
quando para partir ficávamos
e a tristeza ajustava-se a toda a paisagem
e corpos desde o céu ao mole dos passos
até os esgotos corriam envergonhados
para pluviosos ribeiros a um ritmo pastoso
tudo se arrastava pelas serras num aparecer
e desaparecer do mundo sem perder a sua presença

a cidade reticulada no vale com a gigante aranha
não tinha qualquer brilho nem nos deslumbrou
o museu que a recolocou no mapa dos arquitectos
só a tensão se acumulava electricamente como a cúpula
de redoma nublada antes da tempestade seca cobrindo-nos
uma pele voltaica e o trovão prestes a ribombar na garganta
pensámos ser este o fim da viagem e de todas as surpresas
já que nem a casa laranja e rústica incendiava o dia ou a noite

o sufoco enodava-se em torno do porquê
termos principiado a necessitada mudança que tardava
como se a pergunta pedisse qualquer resposta
mas tanto acontece que o óbvio tem de ser demonstrado
e o amor do outro reconhecido até ao justo sentido
da queda e em caindo façamos aí amor
e como duas crianças aprendamos
a pôr-nos de pé e novamente caminhar

 

IX (Camino de la Ermita, Granón, La Rioja) 

descer ainda continuamente e mais fundo
como testando limites de varas secas entre mãos
e é uma beleza pobre e deixada que se define
de searas e montes arados expostos a gralhas
e caminheiros de bastão e concha com basta felicidade
percorrendo terras para chegar a um deserto
mais interior atolado de inutilidades
onde estão tão sós como chegaram
e partirão um dia nessa viagem sem retorno
que um a um cabe fazer sem nada nem ninguém

acolhe-nos a ermida pelo caminho
com frio frugalidade e vento fustigando
e dois cães sedentos de atenção e amor
como tu e eu mais abertamente ou em secreto
silenciado orgulho (talvez esta chamada e anseio
sejam a chave da história humana em todos os seus modos
mesmo no apelo do carpinteiro pelo abandono do pai)
chegámos também nós ao oásis e tratámo-nos como reis
banhámo-nos como nos achámos merecidos em águas quentes
e demos graças aos nossos corpos mergulhados em volúpia 

 

 

X (Valladolid, Burgos)

o tempo deixou aqui a sua pátina
uma terra infértil onde caminham
corvos gralhas debicando altivos
os restos da revolução do arado
exumando restos de ossos palha cascas
de sementes ou carochas necrófagas pelo lixo
de plástico de sacos garrafas latas as armas
da nossa arrogância e ódio à natureza

do céu uma morrinha incansável livrando Burgos
aos seus e a nós esfomeados e com o dever
para com as nossas sombras igualmente necessitadas
de pisar o chão ou dar à terra com que criar nova vida
tal como em Château-Thierry subimos para junto das águias
e do alto sobrevoámos pelo miradouro a vista até sermos
tomados pela vertigem do feio que o tempo dirá de outro modo
não havendo mais que a vontade sustivesse

ou nos pedisse a paciência seguimos o embalo
de uma pressa que nos tomava conta e com subtileza
ditava as novas regras do jogo estendendo-se por esse território
que é o corpo cansado pelas expectativas goradas
nos percursos tortuosos percorridos lentamente
perfazendo uma lonjura interminável ainda hoje palmilhada
e iniciada antes desta viagem impondo os nossos
encontros e desencontros os mesmo outros silêncios

como os de nenhuma resposta e esperar a chegada do sol
uma chave uma hora enfim permitindo que nos dispamos
destas roupas e espinhos e encontremos por momentos
nessa casa de catálogo uma bonança quando tantos quilómetros
ainda nos separam do destino e esta ansiedade dobra o mundo
mal nos deixa respirar ou imergir por inteiro nessa estranha luz
envolvendo Valladolid ou o parque junto ao rio onde nos saiu a multa
por ocuparmos demasiado espaço no pouco tempo que ficámos

 

XI (Bragança, Porto)

 ficava suspensa e'spelhada
a planura de chuva e língua
onde nós não quiséramos medrar
havia um projecto a cumprir
traçando entre realidade
e desejo um território
fomos nómadas pelas estradas
do granito órfão entregue ao
esquecimento só retornando
lentamente à língua usada
quando só a voz no pensamento
ou para refregar o coração

tu denodavas o desânimo
ártico e pelos passos sob o
sol vi o teu corpo enlevar-se
e o sorriso ostracizado
abrir-se doando as pérolas
assisti um novo nascimento
esperança fora da mortalha
onde este amor se acercou
como testemunha amparando
a mão moribunda ou prestes a
abandonar-se a seu lado em
exaustão decidida mas nunca

lancei a toalha ao chão senão
para me desnudar a teus olhos
eis dois lázaros solevantados
sacudindo os trapos mórbidos
da tristeza e do fastio para
conquistar a invicta ao chegar
buscámos valhacouto no monte
cativo um menor paraíso
tornado aos poucos um inferno
roubando-nos a privacidade
suspendendo a intimidade
pedida pelos corpos sedentos

primeiro e depois com o comum
mal-entendido que prevalece
sendo o oposto um acaso
porém entre tormentas vogámos
pelas colinas de casas baixas
palacetes e ruelas onde
estava o lar de uma outra
vida que teremos noutro mundo
entre o rio e eléctricos
bebemos ao que virá e passou
preparámos a ceia sabendo
próxima a última etapa

 

  

XII (Lisboa, Sesimbra)

tanto foi o desejo e a espera para chegar
a esse lugar que em nós foi a idade do ouro
e o romance que nos enlevou nos nossos primeiros dias
nesta cidade e depois a vila e casa e aqui chegados
o frio e o cinzento que fundam a solidão do inverno
acobardaram o sol que nos ardia e a memória ainda vibrante
esse vírus que nos consome sempre um pouco mais os restos
de uma sacralidade que nem o cínico escapa de procurar proteger

estávamos ambos desgastados desta dupla viagem
foi afinal meia europa cruzada para oeste por terras
montes planícies e rios e várzeas e pântanos e terrenos
florestas e campos silvestres entre o lado da montanha
e o lado do mar e tantas variações de cores vidas línguas
chuva vária grossa miúda pontuada vaporosa
sol abrasivo ou oculto apanhado nos olhos que se fechavam
ou no dorso onde as mãos aconchegavam as vértebras

céu aberto ou nubladamente coberto ou rasgado por milagres
enquanto por dentro tudo se aprofundava e se fazia mais longínquo
vinte e poucos dias dobrados no tempo duro vertiginoso de uma queda
tendo também nós as nossas paragens em lugares diferentes
numa outra europa noutras cidades do mundo
continentes da nossa mais interna geografia
espaços que eram o sentido da proximidade gravítica do outro
ou cavando uma distância que a mão tocando a do outro não encurtava

outras vezes ainda esbatendo o corpo num território como só a dança
de estrelas ou buracos negros com suas poeirentas extremidades
seus limites estelares aliados num abraço numa nova entidade no imenso
universo poderia dar uma imagem que ainda falha a sua representação
mas aqui conheci a breve loucura amámo-nos e odiámo-nos com a subtil brutalidade
das palavras pedras imateriais provando a real porosidade da pele
fomos estranhos e estrangeiros a familiares e amigos mais presentes
quando aqui não estávamos e nos cobravam a ausência em gramas de saudade

tudo ou quase se eclipsou e fez-se silêncio nas nossas bocas e cegaram-se os olhos
ao choro pela exaustão da fala e da escuta deprimida pela desilusão
tornando-nos ainda mais impacientes aos gestos amorosos às solicitações e apelos
para arredar o estupor ensombrecendo-nos experimentámos caminhar para escapar
ao isolamento de uma estância balnear empobrecida e irrecuperável e só acolhendo
as ondas ao longo das dunas da Lagoa de Albufeira ou do Meco e um castelo que aguarda
o nosso casamento para quando todos em melhores dias a par dos nossos sonhos
porque por aqui tudo se perdeu e nos ocámos com a frustração desfigurando-nos

e exaustos pela aventura corrida ao gosto do vento sem plano e guia
perdidos ao tempo e durações embatendo contra a realidade e o carro noutro
fomos tomados por um turbilhão de sentimentos e caímos desamparados
cada vez mais dentro e ninguém viu ou vê ainda nem um ao outro até já estarmos
cada um próximo do ponto sem retorno mas que nos resta senão uma louca
crença de que o amor e com ele o futuro nos dará com que rir
quando tudo relembrarmos um ao outro coincidindo finalmente os mapas
e as vias dos encontros e desencontros desta vadiagem marcados nos nossos rostos

nunca é tarde afinal para uma decisão e o tempo sabemo-lo é volúvel e dúctil
a temer só temos o que é interno isolando-se até ser intransponível e calado
não é o momento que vale a pena antes a provocação em cada agora
para o acontecimento de um e do outro e do que nos une e vai para além de nós
ainda aqui estamos e ainda tentamos para lá de todas as distâncias que nunca faltarão
e os lugares que nos prendem de si não escapam só pela imaginação mudam
eu e tu e tu somos nódulos de linhas cruzadas ligando uns e outros e tempos e espaços
até ao adeus o silêncio ou de tal forma enrodilhados que só resta esperar o beijo da aranha