'Só existe cultura plural. E no plural.' Sergio Maciel entrevista Guilherme Gontijo Flores

Guilherme Gontijo Flores, 2014 (Fonte: Gazeta do Povo)

Guilherme Gontijo Flores, 2014 (Fonte: Gazeta do Povo)

 

recentemente eu, sergio maciel, comecei uma série de entrevistas com poetas contemporâneos brasileiros. de algum modo, entrevistas sempre foram, para mim, algo um tanto interessante; como se aquela figura famosa cercada de uma aura intocável mostrasse a falibilidade humana a cada resposta. esta entrevista é a segunda parte dessa série, que começou com uma entrevista com a poeta adelaide ivánova, publicada no escamandro e se deu menos por motivos de curiosidade e vontade de descobrir as ideias do entrevistado do que para registrar boa parte das coisas que temos conversando informalmente nesses últimos anos. gosto de acreditar que isso se dará assim, como um registro onde se possa verificar, daqui certo tempo, as próprias crenças e contrastar, revisar, eventualmente. guilherme gontijo flores é professor de literatura & língua latina na universidade federal do paraná (UFPR), tradutor (traduziu, entre outras coisas, as elegias de sexto propércio; a anatomia da melancolia, de robert burton; as odes de horácio & os fragmentos de safo) & poeta (publicou em 2013 seu primeiro livro de poesia, brasa enganosa, que foi finalista do prêmio portugal telecom; em 2015 publicou suas tróiades – remix para o próximo milênio; em 2016, l’azur blasé ou ensaio de fracasso sobre o humor). sem mais, passemos às palavras do entrevistado.

Talvez esse seja o maior clichê de todas as entrevistas com poetas, mas eu ainda creio que todas as repostas dadas, ainda que também clichês, sejam sempre blocos de uma construção que gostaríamos de ver pronta de uma vez por todas. Quase repito aqui uma pergunta feita a Anne Carson, você tem uma definição pessoal sobre o que é poesia? Se sim, como a partir dela você concebe seus poemas, seu ato de escrita e o próprio papel de sua poesia?

Não tenho definição pessoal, mas vivo dela, e esse não-saber me fascina. Desde que comecei a estudar poesia, fui atrás de tradições diversas (poesia grega, romana, ameríndia, árabe, egípcia, persa, chinesa, japonesa, moderna, vanguardista, etc.) e vi que as definições, práticas e possíveis funções variam muito. Ela pode curar, matar, provocar transes, devires, seduzir, deslocar, enfim, é o meio mais radical de performar no humano por meio da linguagem (será que fiz uma definição?). Talvez seja por isso que tento, nos últimos anos, escrever para além do que me foi dado na minha tradição como dever da poesia; claro, isso não é nenhum sonho de novidade pura, mas de testar mesmo o que pode ser poesia pra mim. E talvez esse fazer que é uma busca seja o fazer poesia.

Se pensarmos em termos de um paideuma, qual relação você estabelece entre seus textos, suas traduções, suas performances e, até mesmo, sua profissão? A questão é: considerando seu interesse por um corpo-político, pela voz, pelos limites da questão do autor, para você, é possível traçar algum limite entre esses campos? É tudo obra de um mesmo corpo? Se sim, qual influência objetiva esses gestos exercem sobre os outros?

Gosto de sonhar um corpo que se desmonta e se desdobra, como nos sonhos as coisas e pessoas mudam porém permanecem as mesmas, ou estamos em locais que conhecemos por nome, mas nunca vimos na vida. Se for assim, há um contínuo disruptivo entre escrever um poema que assino como meu e escrever um poema que assino como tradução, e também em performar vocalmente essas produções, bem como os poemas em outras línguas ou poemas de outros autores. Sei que o sonho é já uma política, naquele sentido amplo que vem se perdendo em nosso país, e busco que essa pluralidade de vozes alheias (em tradução, intradução) que atravessam novos corpos pode ser um verdadeiro exercício de alteridade: sem o fetichismo teórico de termos que por vezes se esvaziam (alteridade é dessas palavras que, de tanto a repetirem na academia, talvez já diga muito pouco), mas que por ser mesmo experimental nos dá alterações.  Mas você me perguntou de influência objetiva, e eu realmente não sei responder. É claro que tenho poemas próprios que são feitos via tradução, portanto usurpações, diálogos intensos de vozes, alheamento da minha própria quem sabe. Por outro lado, também traduzo como quem precisa dessas traduções, como quem anseia ter escrito aqueles poemas já escritos e usa a chance da língua alheia como desculpa para criar na língua própria. Seria isso objetivo? A tradução como anseio criativo, e a criação como demanda tradutória?

Há um maniqueísmo meio besta no mundo que quer dividir as coisas entre livro impresso e digital, revista literária e blog, poesia e canção &c. Partindo dessa dicotomia que o povo faz, quero saber se você acha que há alguma diferença estética ou formal, não política, se é que é possível separar essas coisas num discurso, entre poéticas masculinas e femininas. E, se há, como lidar, então, com as poéticas de um corpo-poético trans, como o de Georgette Dee, por exemplo?

Cada vez mais acho que nossa obsessão categórica diante do mundo é um perigo, no pior dos sentidos. Até hoje, por exemplo, não conseguimos dar a devida atenção às literaturas que não se restringem ao livro como meio (penso nas poéticas online em várias línguas, nos pixos, nas poéticas orais de povos minoritários, e até mesmo na canção - veja o bafafá do Nobel dado a Dylan). Sobre o canto de Georgette Dee, ou como faz-se poesia a partir desse corpo trans, certamente eu não sei responder um modelo do “como lidar”.  Talvez possa apenas propor uma abertura para ouvir, de fato ouvir o que se fala naquele corpo, porque ele ressignifica tudo, como todo corpo ressignifica (outro dia andei pensando no termo “assignificar”, como “a-significar”, tirar do sentido e “ad-significar”, dar uma assinatura: assinar como dar o sentido do corpo, que extrapola o sentido de uma linguagem pura, para pensarmos a linguagem como corpo). Num livro que terminei de escrever com Rodrigo Tadeu Gonçalves, nós comentamos uma canção cantada por Dee: nela, ouvimos o desejo “Zehn Frauen muss ich sein” (“Dez damas quero ser”, na minha tradução). Bom, o poema é um experimento ficcional de Erich Kästner; mas no corpo de Dee é impossível não pensar que sua sexualidade está em jogo no poema, ele, quando é cantado por Dee, torna-se um discurso do corpo que se apresenta politicamente. E nós precisamos ouvir esse poema de quem deseja ser uma mulher. Freud se perguntava “O que quer uma mulher?”, e nós precisamos nos perguntar também “O que é querer ser mulher?”. Certamente não haverá resposta fácil, mas há como ouvir.

O que mais te atrai em termos de poética hoje? Quais poéticas contemporâneas, tanto nacional quanto estrangeira, têm tomado mais o seu tempo? Quais poetas? E por quê?

Quando penso em contemporaneidade, sigo os passos de Eliot, Pound e dos concretos. Há um sincronismo panhistórico em jogo. Nesse sentido, a poesia contemporânea que mais me fascinou nos últimos tempos sãos escritos em língua náhuatl (dos astecas) feitos pelos espanhóis ainda no século XVI. É uma poesia viva e poderosa que me diz muito sobre o massacre indígena em curso no Brasil ainda agora, que me lança a pensar sobre problemas de antropologia, poética, tradução, performance, etc. Mas tenho lido muitos contemporâneos no sentido estrito, dentro e fora do Brasil. Em vez de citar nomes, eu diria apenas a um certo filão lamentatório que insiste em afirmar que não há poesia interessante no presente: deixem o mimimi e vão ler as obras, vão procurar as obras; essa reclamação deixa claro que eles não viram um décimo do que está por aí, não vasculharam as pequenas editoras, os sites, os blogs, as revistas, etc. Pelo contrário, arrisco dizer que vivemos um momento impressionante, sobretudo na poesia brasileira, com uma potência de poéticas muito diversas e, ao mesmo tempo, capazes de conviverem como há muito tempo não víamos.

Aproveitando o gancho da pergunta anterior, se você tivesse que indicar vinte livros de poesia contemporânea, publicados nos últimos dez anos, quais seriam?

Bom, você insistiu né? Vamos lá, vinte livros dos últimos dez anos, só no Brasil, sem pensar muito no assunto. Quando terminei já tinha em mente mais pelo menos uns 10 autores que ficaram de fora.

2016Seiva veneno ou fruto, de Júlia de Carvalho Hansen

         Furiosa, Ana Rüsche

         Siga os sinais da brasa longa do haxixe, de cavalodadá (Reuben da Rocha)

2015           Os ilhados, de Ismar Tirelli Neto

2014           Transformador, de Dirceu Villa

         A duração do deserto, de Nina Rizzi

2013           Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas

         Quando a Terra deixou de falar (cantos da mitologia marubo, por Pedro Cesarino)

                   Lira de lixo, de Adriano Scandolara

2012           Ciclo do amante substituível, de Ricardo Domeneck

2011           Roça barroca, de Josely Vianna Baptista

         Os dias ímpares, de Sergio Blank

2010           Modelos vivos, de Ricardo Aleixo

2009           Monodrama, de Carlito Azevedo

         Yãmixop xunim yõg kutex xi ãgtux xi hemex yõg kutex: cantos e histórias do morcego-espírito e do hemex (autores da Terra Indígena do Pradinho, org. final de Rosângela Pereira de Tugny)

2008           Tratado dos anjos afogados, de Marcelo Ariel

         Cinco lugares da fúria, de Pádua Fernandes

2007           Baque, de Fábio Weintraub

2006           Margem de manobra, de Claudia Roquette-Pinto

         Estamira, filme de Marcos Prado sobre essa mulher. Há também um livro.

O peso dos concretos na nossa vida é algo inegável. Houve, inclusive, quem tenha conseguido ver no seu primeiro livro de poesia algo haroldiano. Na condição de tradutor e poeta, como você lida com essa influência? Pra você há uma espécie de “angústia”? Que caminhos a crítica poética e tradutória deve tomar daqui pra frente?

Não sinto angústia. Haroldo de campos é uma figura fundamental, mas tenho pouca afinidade com sua poesia autoral; retorno sempre à sua escrita teórica e crítica, e sempre mesmo às suas traduções.

Mas que caminhos a crítica poética e tradutória deve tomar? Eu não sou prescritor de regras. Se for pra sugerir algo, diria que devem deixar de ser caretas, procurar correr risco.

Você tem algum poeta que permaneceu com você desde a primeira a leitura, que vem atravessando os anos ao seu lado e que, de alguma forma, te influencia?

Rimbaud foi minha primeira experiência poética de quase-maturidade. Eu devia ter uns 17 anos. Já tinha lido Bandeira, Drummond, Andrades, etc., que também continuam comigo, mas de modo muito diverso. Rimbaud, curiosamente, só cresce, embora eu o releia muito pouco. Outro que parece só ficar maior é Whitman. E Drummond. E cummings. E Ungaretti. E Horácio. E Safo. E Homero. Pronto, já exagerei, acho que carrego muita gente comigo.

Considerando que nosso tempo não mais cultiva, ao menos deliberadamente, a ideia de um gênio contemporâneo (porque ainda há por aí essa ideia do gênio em Shakespeare, Dante, Goethe e tantos outros clássicos, por exemplo) e que o rótulo de erudito é uma coisa bem ultrapassada, alguns diriam até impossível atualmente, como você lida e compreende as ideias de “cultura”, “clássico”, “tradição” e “conhecimento”, que sempre estiveram relacionadas a uma elite intelectual e econômica? Qual é a serventia dessas coisas no nosso mundo? Como você trabalha com enxerga e trabalha com a transmissão disso tudo na sua profissão de professor?

Só existe cultura plural. E no plural. O que a gente chama de educação, na nossa sociedade, deveria servir pra gerar um engajamento crítico na formação dos cinco sentidos, e esse engajamento é feito de dissenso, não de harmonia pedagógica. Mas, sabemos, não é bem o que acontece. Então, não acho que alguém tenha qualquer dever de conhecer “os clássicos”; mas dificilmente alguém vai perder tempo se parar pra olhar o que tem ali com calma. A tradição é assim, como diz a etimologia, um entregar através, um dizer para além, que a gente pode ou não repetir. Ou pode, como eu mesmo tento no mundo de letras clássicas, dizer de um jeito todo outro, que parece mesmo nem repetir quando bem repete. É outro sonho.

Prece

O cão tinha desaparecido na manhã anterior. Ele só percebeu ao fim da tarde. Procurou-o pelo bairro e até ao porto, entrou pelas plantações e desceu até ao canal. Sem saber porquê intuiu que o animal estava morto, que tinha desaparecido de vez. Ao crepúsculo caminhou ao longo da estrada e esperou dar com o corpo na berma mas não encontrou nada. No caminho de volta ocorreram-lhe imagens dos cães de Pompeia, paralisados nos seus moldes de gesso, com os resíduos das coleiras que atravessaram os séculos à volta do pescoço, a marca de terem ficado acorrentados durante a erupção. O seu cão nunca seria encontrado preso a uma corrente. Tinha-o deixado sempre solto, mesmo se não esperava um cataclismo. Seu talvez fosse um exagero. Quem é de quem vai sendo cada vez mais difícil de dizer. No calor sufocante encheu duas tigelas de água e uma de comida. Sentou-se ao computador, procurou as fotografias mais adequadas, imprimiu cartazes. Deitou-se ao comprido no sofá e tentou não pensar no desaparecimento do cão. Pensou que se distraísse talvez queimasse tempo até ele voltar. Onde poderia ter ele ido ou quem o podia ter levado. Imaginou que tivesse sido o vizinho, por causa do cão ladrar à noite, ou que alguém o tivesse visto na rua, sem coleira e sem nada que o identificasse como pertencendo a alguém, e que o pudesse simplesmente ter levado. Mas ali toda a gente conhecia o cão. Toda a gente sabia que cão era aquele. Um cão não se esvanece simplesmente no ar, o seu desaparecimento não é o da ordem do desaparecimento de um fruto ou de insecto ou de um peixe. Um cão é uma presença funda e o seu desaparecimento é o da ordem do das criaturas vivas. O dano causado pelo seu desaparecimento é então da ordem da destruição. Marco Aurélio escreve nas Meditações que todas as criaturas morrem às carradas todos os dias, no vasto universo, que o desaparecimento de uma só vida, dada a imensidão do tempo e do cosmo, é insignificante. Que, até, sendo o universo tão vasto e não sendo a vida o que dela se espera, o melhor é buscar o seu fim, sem grande angústia, com uma certa dignidade natural. Enquanto se encaminhava para a casa de banho pensou se um imperador de Roma, autor de um livro não muito original e nem sequer particularmente imaginativo ou bem escrito, que ainda por cima desenvolvia circularmente apenas dois ou três argumentos limitados, alguma vez tinha cometido a íntima fraqueza de ter um cão preferido. Pois é. Aquela coisa. A ferida que o amor dos outros deixa em nós, que é, no tempo em que eles estão perto, essa antecipação que precede a longa aprendizagem da sua ausência. Ao mesmo tempo celebração e dor. No calor pontuado pelo canto das cigarras ouviu, ao longe, na mina, o vento a assobiar nas gruas. O alarme de um carro disparou ao longe. Ouviu as portas baterem. No interior da casa, as mãos tocaram o frio da torneira e água fria correu no chuveiro. Água fria lembrava-o sempre da infância, de tardes passadas a nadar no rio, irmãos e bicicletas. No silêncio do crepúsculo aquela pequena casa tinha ficado mesmo vazia. Nem sequer tinha dado pelas horas passarem. Fechou os olhos com força e esperou ouvir o som familiar do cão lá fora ao redor da água e da comida.

Pós-verdade e pós-modernidade

Há quem atribua à constelação nietzscheana, expandida até ao pós-modernismo francês (Bataille, Foucault, Deleuze, Derrida...), a origem do conceito de pós-verdade. É certo que Nietzsche imbrica verdade e bem com a história, retirando-lhe qualquer pretensão à universalidade, é verdadeiro aquilo que uma cultura considera como um bem num dado momento. E se nos alvores da humanidade isso era feito por “legisladores heroicos”, trágicos e vitais (preferindo o termo “bom” ao de “bem”), o optimismo socrático, isto é, o racionalismo e a sua crença na ordem e no progresso, juntamente com as transcendências metafísicas e teológicas colocaram a vontade de verdade no movimento niilista ascético que desvaloriza a vida, procurando no além, qualquer que ele seja, o sentido pleno que falta à imanência. Jacques Derrida dirá depois que tudo é indecidível, que não há significantes ou referentes; Gilles Deleuze, por seu turno, chega a defender que o sentido provém do sem-sentido, que só há uso e experimentação. Finalmente, fez fortuna o conceito de “jogos de verdade” de Michel Foucault, para ele não há a Verdade porque tudo está historizado. Ficando assim também ela sujeita às relações que estabelece na realidade, às condições de existência. Os jogos de verdade não dependem da descoberta da verdade, mas de contingências históricas que decidem sobre o que deve ser ou não considerado verdadeiro (o célebre “estar no verdadeiro”). Todavia, importa referir que Foucault não foi o fundador da actual pós-verdade, longe disso. Em primeiro lugar, porque a veracidade, a afirmação da sua verdade, muitas vezes, no seu caso, em modo militante, é a condição basilar de uma neo-ética do governo de si e dos outros. Depois, porque, como disse em 1984, “Nada é mais inconsistente do que um regime político que é indiferente à verdade; mas nada é mais perigoso do que um sistema político que pretende prescrever a verdade.” Portanto, claro, o perigo da imposição da verdade nos sistemas políticos totalitários, mas igualmente a crítica à indiferença em relação à verdade. Ora, é esta indiferença que define a centralidade da pós-verdade.

Os construtores de opinião, em trabalho forçado para entenderem o acontecimento Trump e um pouco do Brexit, vão dizendo que a origem, ou proveniência, da pós-verdade deve ser procurada no romance póstumo de Steve Tesich (Óscar do melhor argumento para Breaking Away, 1979) Karoo. Diga-se que o Oxford Dictionnary elegeu a post-truth politics como termo de 2016, vendo-o a operar na contemporaneidade quer nas democracias liberais, quer nos regimes autoritários semi-racionais, quer ainda no estranho, e demente, realismo mágico da Correia do Norte. A exigência da verdade política, dessa anacrónica adequação entre o discurso e a realidade parece ter sido revogado, desapareceu a linguagem referencial. Em favor do quê? Das paixões e das crenças, das expectativas e dos preconceitos comuns. Por isso, a incoerência de Nigel Farage quando depois de ganhar o referendo sobre o Brexit afirmou que tinha sido um erro da sua campanha dizer que se iriam deslocar os 450 milhões de euros semanais da União Europeia para o sistema de saúde britânico. Esta enorme mentira, porventura calculada, não levantou, porém, grande polémica, alimentou apenas uma minúscula perplexidade em meia dúzia de articulistas e numa parcela menor de activistas anti-Brexit, prova que se está no reino da pós-verdade. As classes populares, as mais inclinadas para o Brexit, preferiram uma mentira que culpava as elites pró-europeias do que ouvir a verdade. De igual forma, o ódio racial e o sentimento de desclassificação dos brancos americanos mais desfavorecidos toleraram perfeitamente, e parecem continuar a fazê-lo, se receberem agora alguma esperança económica, as mentiras mirabolantes da máquina Trump (Trump é mais do que Trump: trunpismo). Estes dois exemplos significativos descrevem com clareza a era da pós-verdade (e quase toda a propaganda política vive parcialmente aí), que parece ganhar terreno a uma razão crítica que nasceu no Iluminismo (ou Esclarecimento, termo que traduz melhor a Auflklärung alemã, ganhando em rigor filológico e filosófico). Já não se trata de fazer uma política da mentira, ou da falsidade, própria aos velhos regimes totalitários, mas de enfraquecer a importância da verdade na política. O termo post-truth foi cunhado por Tesich em 1992, quando durante a 1.ª Guerra do Golfo publicou o panfleto “The Wimping of America”, onde relata 30 anos de mentiras na política americana. Para Tesich, desde o Watergate, os americanos teriam criado uma certa fobia à verdade, porque esta trazia más notícias (isso é hoje claríssimo no campo das alterações climáticas), preferindo que o governo lhes mentisse para os proteger da desilusão racional. A Guerra do Golfo exemplifica um pacto trágico entre o poder político e a opinião pública: “conseguiremos uma vitória gloriosa se nos esquecermos da verdade”. O mito auto-consolador em vez da realidade. Tesich diz nesse texto que a novidade está em que até àquela época os ditadores tinham trabalhado para suprimir a verdade, agora suprimia-se a importância da verdade, “enquanto povo livre, decidimos livremente que queremos viver num mundo de pós-verdade.” Isto aplica-se, diz o autor, a todos os aspectos da vida. Esta era da pós-verdade emerge, pois, de um novo contratualismo, assente na indiferença geral em relação à verdade, e à veracidade.

Acontecimento que nada tem que ver com os autores que abrem este ensaio, nunca Nietzsche, Derrida, Deleuze ou Foucault aceitariam que uma mentira consoladora, própria apenas para aguentar as subjectividades fracas, as que não olham as coisas de frente, os neo-fascismos nascidos nas massas ululantes, os pequenos nacionalismo racistas... viesse substituir a verdade, a verdade como veracidade, a parrésia cínica grega, a, para utilizar uma expressão Foucaldiana, “coragem da verdade” (título do seu último curso no Collège de France).

 

entre certos instantes de brahms e uma cloaca, III; Copérnico; Radar

entre certos instantes de brahms e uma cloaca, III

O curumim se pendura no avental de Hera
para tentar escalar suas tranças graciosas.
E são fundadas acrópoles a partir dos inefáveis
desejos humanos,
as caçarolas de alumínio
sobre bocas de dragões furiosos.
O contorno da romã se desfaz
em linhas,
e o curumim consegue, afinal,
vislumbrar os paralelos que fatiam
a superfície do planeta.
Como é fácil se encantar pelos Trópicos!
Gira-se a torneira
e a água molda o espaço,
e a água molda as ideias & os sentidos
do curumim.
O ralo da pia bebe vastos açudes de provações
e desaparece.
A carne plástica das dobras do sifão
recobre o túnel de aros de uma tranqueia
esganada.

            “Incêndio em mares de água disfarçado!
            Rio de neve em fogo convertido!”

Hera senta
o curumim à mesa, serve
o almoço e reza
pela alma do marido,
que deu o couro às varas
faz poucas semanas.
                        Sim:
todos respondemos pelas escolhas
daqueles que pisaram estas campanhas
estéreis antes de nós.
                        Sim: 
nossos escritos são medíocres
reproduções dos palimpsestos que abarrotam
a biblioteca suspensa pela sobreposição
dos anos.
                        Sim:
este cheiro de serragem molhada,
que tanto me incomoda as narinas
sensíveis ao fracasso, também atordoará
os belos deuses do futuro.

E o curumim marcha entre trovões.


Copérnico

Com o intuito de estancar a sede irresistível
que me pôs acordado
        no momento exato do alvorecer,
recorro ao catálogo das variedades
            anarquicamente dispostas
    nos compartimentos da geladeira.

Deparo-me com uma jarra de vidro
                quase vazia.

No fundo desse crisol ilegítimo,
    a emular o resultado
    de ensaios químicos frustrados,
    o resto do suco de laranja
    que eu mesmo havia preparado
    antes de dormir.

Uma quantidade ínfima do líquido
em cuja acidez estão concentradas
        todas as minhas perversas manias.

                Ralho comigo. 

Por que não bebera tudo de uma só vez?
Por que guardara o último gole
            para depois?

Preocupo-me somente
        com as sobras,
        com os resíduos,
        com os resquícios.
        A abundância das horas, deixo-a

aos que ainda esperam muito da vida,
aos que anseiam por algum clímax
ou por alguma absolvição,
aos que não puderam estar presentes
no velório de Ivan Ilitch.

Meus inimigos dizem que não tenho ambições.
    E eles têm razão.
    (Eu não quero ter razão.)

Prefiro o resto do suco de laranja
à revolução da laranjeira,

        espécie ímpar em um bestiário
        de leviandades,
        utopia petulante a servir-se
        de uma filigrana lexical

que ora descreve
a mecânica dos corpos celestes,
ora retém
o anelo dos corpos históricos
por mudanças drásticas.

Mal sabem os filólogos ocidentais que, 

            em termos ontológicos,

não há diferença
entre a lente arguta do telescópio
& a lâmina implacável da guilhotina.

                A tradução da liturgia
                na diagonal deve ser feita
                porque graça não há
                em seguir da ordem canônica
                a tradição (da liturgia).

    Se a guerra & a poesia
    constituem, por excelência,
    os espaços de negação
    do tempo e dos arquétipos
    partidos que veneramos,

            os restos já são, por si, revolucionários.


Radar


O evento cósmico que, segundo o âncora do principal
                    [noticiário do país,
era apenas um clarão no céu,

                    chaga & recorte,

            rompeu a atmosfera

        e fez um buraco
                na terra
        e fez um buraco
                na menina
        e fez um buraco
                nos segredos da atriz,

    um fragmento de meteoro agarrado à pele-película
                    [sob tuas unhas pintadas,
    espada de um Dâmocles sideral em rota de colisão
            [com tua cabeça perfeitamente redonda.

Naquele dia quente,
naquele simpósio organizado pelo Departamento
                        [de Astronomia,
além de ter me confidenciado
tuas maiores inquietações, disseras:

                    olhe,

    sou mãos de mulher & pernas de centauro
                        [& caráter de pirata.

                Concordo com a última parte.

Gostaria de te apresentar a meus pais,
porém sei que tu danarias a discorrer sobre as vantagens
do neoliberalismo,
sendo que os velhos ainda choram

        a perda do camarada Lênin
        & os mais de noventa soviéticos mortos
        no naufrágio do K-129
        & a implementação da Perestroika.

Também sei que te aborrece meu hábito arcaico de utilizar
a segunda pessoa do singular em qualquer conversa,
e eu nada posso fazer quanto a isso.

            O inquilino paranoico do n° 105
            me fala que eu deveria te pedir
                        [em casamento

porque és uma moça muito bonita porque aparentas ser uma boa cozinheira porque te vestes bem porque não tens planos fúteis porque escreves de forma legível porque, embora as qualidades que ele te atribuiu não me sejam caras, tenho orgulho de ti.

    Abro o escaninho
    à procura de faturas vincendas,
    e me surpreendo
    com um telegrama
    que anuncia:

ESTA NOITE.
ECLIPSE LUNAR.
APRECIÁVEL A OLHO NU.

                    Silhuetas metálicas.

                E a Lua vai se alojar sob tuas unhas
                        [quando sentires medo.
                Imagina as crateras da Lua sob tuas unhas
                                [roídas.
                O eclipse & o meteoro,
                simultaneamente.

Imagina, menina atriz, essas
unhas roídas e sujas como
espadas de um Dâmocles
soviético, como letras
legíveis, tão siderais.
Imagina a terra que
preenche todos os
teus segredos e
deixa chover
sobre ela.
Imagina
a Lua.


A escrita do amor por entre quartos e corredores

1.
é sempre um retorno à memória que aqui me traz
o debater de uma imagem vibrando de afectos
soltando-se da sua rede até tomar conta do espaço
em que habitas dentro do meu peito

lá fora trovejava como as despedidas nos corações
e segurando entre mãos o teu rosto pelos teus lábios
rodava a língua – são estas ou outras
palavras perdidas que me visitam no empoado espelho
onde te refletes e nada foi nada terá sido e amarrado
pelo ouvido Ulisses se ilude e somente sofro uma recaída

neste vício da escrita – a cama revolta e olhos
fechando-se para o dia antes da partida de Abril
lembro ainda como as mãos enovelando-se
desteciam dedo a dedo a tremura
do teu corpo – por ele subia
uma onda rebatendo pelas falésias que são as gargantas
emudecidas e era o teu nome com raiz de estrela que soçobrava
todos os outros nomes que tornaram o meu rosto uma espera
e a pele uma escrita oferecida à vida e ao toque do teu corpo

e assim crava-se fundo a tua imagem
como a adaga de um terrível amor
no anonimato antropófago dos lençóis
e escrevo tarde e a tinto a letra para encurtar
a distância entre o oeste onde o mar
murmura justo à cama ao centro da planície onde
avanças como uma vanguarda abrindo caminho ao futuro
(o meu o teu por vir) enquanto me alapo às tuas costas
seguindo as tuas pegadas que se afastam

a vida que tento numa escrita permanece
desconhecida é só mais um tijolo na muralha
de papel um nome no barro onde os dedos mergulham
misturando memória imagens o gosto
(escreve escreve) de cifrar um mundo
ligando palavras ou vidas como tu por exemplo
tu e a cicatriz na palma da mão os desgostos aluados
sob o olho e tu a ruga ao canto da boca e tu de novo
e tu (sendo agora eu a mim que falo) jazerás na fronteira
anónimo onde nunca teu nome na muralha de papel terra de pó

 


2.
recomeço (tendo-te perdido com as palavras)
sou uma pequena máscara expandida ao corpo
começando pelo osso já longe do mundo vai o mundo
e eu com ele como em brisa recomeço sempre uma
e outra vez sem que me reconheça porque sempre
alguma coisa escapa (sempre me escapou) e seguindo
procuro redimir o furto de gestos gastos gozos
persigo um mistério que pressinto sem nunca saber
as palavras para o dilucidar sei no entanto ser
minha a culpa (esse odioso sentimento religioso)
a impossibilidade de o dizer (ainda não começaste
a escrever para ti) ou escutar-te profundamente
porque também tu fazes parte dele devo aprender a
deixar à sombra de nada o que sou e me inibe
de me ligar indefeso ao desejo que demora a
sobrevir à ilha que és tu tal como eu sou sabendo
estarmos unidos por um istmo que almejo se torne
um continente terra onde te encontras antes e depois e já
nela sem o saberes estreito adensando-se com a deposição
de palavras e poemas mas escrevendo este e outros
a página permanece em plena secura

(e por que lado o mundo se inunda tornando a distância abarcável
para toda a vez para cingir ao peito o fumo e o fogo e a nova rosa
do desastre os avanços incontrolados do tempo e das atitudes do homem
mas repara como há basto mistério no estar vivo neste afogado inferno que nos aparte)

ergues a tua mão e leva-la para derriscares do meu rosto
os rastos do que vivi e desconheces esbatendo a fronteira
e enfim o teu entra na morada que sou e deixando-te percorrer-me
sei-te estratega de um lar habitando uma casa vagabundeando
o olhar por este corpo que à noite quase te sufoca
haverá um dia que nem o teu olhar se tornará para o meu
a felicidade vergar-se-á ao tempo
as mãos segurarão outras ou os artefactos do dia-a-dia
perdendo-se nos gestos fechando-te a boca

faz a promessa verdadeira a única que não se cruza
sobre o coração e dele arreda a mentira
e ainda segurando-me o rosto dizes – não permitas do entre-nós
um conhecimento entediante
bem-estar de nenhuma palavra
encontra para cada dia um desassossego
coloca o mundo em gonzos chiantes para reconhecermos a sua aproximação
e faz do ofício mal-amado a oficina que do futuro te dá uma certeza

 

3.
se a linguagem é um dom sabes não ter nada a dizer
(escreve-se pelo silêncio e ao lado de todas as palavras)
mas como percorrer o labirinto do teu pensamento
avolumando-se sem que te percas para sempre entre letras
sons imagens palavras brotando imprevistamente
onde também tu habitas como signo de amor
revelando-me vias ou sendo o farol que me guia

o sentido é um fio de ariana a caminho e escuto
o fluxo na cadência do sangue correndo no cavername
de olhos iluminados busco o contorno ileso
do que se está a formar dentro de mim
e tantas vezes a porta aberta aos fantasmas
onde valsas entre eles tu a única mulher real

inseguro penso peso evoco emudeço
quando estás pequenas coisas duram a eternidade
por isso sustenho as lembranças
guardo-as para habitar a casa plena de tua ausência
cogito a decisão de reviver esta ou aquela cena
o dia corre lento como qualquer outro dia e tão (e)terno
passa por ti juntando-se a todas as horas
por fim sentas-te (vê onde pões os pés
há demasiada fragilidade no mundo e
na memória
) escolhe-te inesperadamente
a da janela à qual retornas e onde os dois
se conheceram intimamente pela primeira vez
selando os rostos num beijo de lenta aproximação
intumescendo todos os teus lábios e o sangue
bombeou na jugular e em todos os meus canais

acontecimento de já outrora tentada inscrição
na eternidade e que poucos lerão mas retorno
aí inevitavelmente como sempre volto
ao teu corpo mal te apresentas num vaivém mareado
surtindo um efeito doppler nos sentimentos
em que todo eu na tua aproximação sinto
a voluptuosidade de uma atracção grave
quando nem ainda carne na carne
encontrando as suas covas depressões montes
restando uma mínima distância que se agudiza
nas tuas partidas aí se esboça a dissonância
do tempo do coração e suas variantes batidas

e é verão talvez fazendo frio por tudo
o que é interior
e de nenhures ouço um grilo
junta o seu corpo ao caos
eis a dádiva de um ritmo
acompanha na passada a infância
que vai cingindo-te um nervoso nó
e os dentes gravilham impacientes
(tens tempo não tens tempo)
enquanto sobe aos lábios a melopeia
de terras morenas e azinheiras
passo a passo (de um ao outro
promessas e gestos a con(tra)dizer
como ruminando falhas
ou o que foi dito mais do que fôra devido
)

esta ruína move-se por entre corredores
e quartos arrastando os pés
enlodando-se em infatigáveis predações
Actéon viciado na vingança de Artémis
voltando não para mudar a memória
persistindo para o nosso riso e tristeza
mas para lentamente crendo ainda no tempo
pelas suas mãos e gestos levar a mulher
a amá-lo pela escrita digam-me que mais pode
fazer um homem na sua maturidade

 


4.
há o tempo que passa pelo corpo
da raiz afectuosa ao mapa das escoriações
e outro pelo pensamento sussurrando-nos
uma falsa idade tão verdadeira
quanto é a justa palavra dizendo a imprecisa emoção

por dentro dos nossos olhos nessa treva a íntima
e inacessível diáfana imagem de cada um
está na sua plena juventude
e eu tenho-te assim de duas maneiras
e tu três idades: a que eu vejo sendo
a tua natividade expandindo-se
aquela que te vês sentindo-te
e essa intermédia névoa cobrindo-te
resultado de estranha alquimia do coração
e te veste com a perdida glória
revelando que a decadência do corpo
é a frágil atractiva natureza das coisas
a beleza sem artifícios e o contínuo toque do homem

e vamos pela corrente impossibilitados de suspender
a passagem da vida que tudo atravessa
e olhando-nos o espanto pelos rostos envelhecendo
toma o meu e o teu se houver tal coisa como o amor

hoje sou mais do que aquele que outrora conheceste
não olhes pois para trás para esse caminho pisado
vão-se aluindo as casas a história
aperta-se na sua trama
não haverá nunca recomeço só o que pesa
se sente mais suportável menos desgostoso
as máscaras bem ajustadas o futuro despido

sei que haverá um instante em que todos os corpos
e tempos e imagens por fim se reconhecem
virá por um brilho de miragem como por um
sopro fremindo as superfícies nivelando água
e terra num mesmo horizonte ondeado
como as praias ao fim da tarde e o vento arruma a vista
para o violeta medeando noite e dia

a vida começa aí numa variação de ritmos e síncopes
ondulações sovando estes corpos do estômago à garganta
e o pensamento faz-se limite aéreo de uma morada
escura e selvagem atormentada pelo fundo feminil
de teus olhos e faz-se igualmente anjo de duplo traço a néon
pirilampo que me guiará após a tua morte
através da memória onde jazes num banho a ouro
sombreando o tranquilo argênteo mar

tu
esse instante que foi uma singularidade irrepetível
e se unindo a mim o gesto de quem se tocou tocando
de quem se escolheu a ser escolhido
para tornar outra a vida
partilhando tudo o que se queria até a rotina
o enquadramento de uma coreografia dos corpos
em que a dança procura o encontro para a grafia da pupila
por onde o mundo presta vassalagem para se arquivar em nós

e eu
ser-te-ei ainda um mistério
como quando tu me surges ao despertar
ou serei frio fogo e pálido céu de descontentamento
anúncio indício do fim
lançarás ainda a fateixa dos teus braços
ancorando este bote à deriva neste mar

e não respondendo sair-te-á ainda a fúria
pelos teus olhos fulminando-me com o silêncio
guiando e ditando-me os meandros do medo
enrolar-te-ás numa concha afundando-te noutra
dimensão como revirado olho de furacão
aspirando a que fique desaparecendo e ascenda
à ausente presença dos anjos e deus
e perdido por estes corredores e quartos
grave o amor escrito noutras páginas
quando a tua mão se apertar noutra

e após a tua partida definitiva se eu permanecer
diz-me como farás chegar a resposta a
quem te ama e não acredita noutro mundo
e tempo senão o da partilha
quanto dura um coração no escuro
de nenhum porto uma despedida
quantos dias faz
quanto mais de vida é preciso perder
no luto
e o acontecimento de tu ou eu
qual a sua palavra ou escrita quando
somente se pode fechar o espaço pelo toque