apartamento

se perguntarem o que sobrou digo que
já levaram portas as janelas o escândalo
levaram até o cesto de pão, a inocência, o jarro de alfazemas secas  
no hall de entrada, ficaram as raízes  
deste apartamento sem vergonha  
et touts les temps qui reste: entra, é um convite; 
perdoa há muito não limparem
os pés ao entrar, talvez me tenha eu esquecido de pedir
ou começado a gostar desta coisa de ser suja, não sei, 
mas estas paredes (rabiscos adolescentes
antigamente sentados em manifestações mais políticas) 
são os turcos com lutas de cães em alexanderplatz
são pokhara, um hotel laranja decadente e um inglês
que não voltaria a ver, são tudo isso mais as peixeiras, estátuas de vénus
passeando na foz velha a celulite majestosamente texturada
e a areia-carvão naquela praia açoriana que mais tarde repudiaria; 
estas paredes são os amantes e todas as tragédias gregas,  
pratos marcados a giz desenhando rotas de colisão indiscreta, tudo isso
o que fui e o que não quero voltar a ser à custa de não poder. 
sobrará no fim a medida exacta do que divide
as paredes que aqui vês, solidamente entregues  
ao hábito de nem os ossos deixar no prato. entra, é um convite, 
mas à saída leva-te contigo: 
aqui só eu não sou de passagem.

Revoada de trinta-réis

O cheiro das goiabas invadia a casa, de assalto, como enxame de vespas. Era um cheiro doce de arder as narinas e dar água na boca. Sara havia arrumado tudo com esmero redobrado. Varrera a casa com vassoura de alecrim, passara pedra na chapa do fogão Venax nº 2, ariara a chaleira onde mais tarde aqueceria a água pro mate, juntara, ao redor da casa, gravetos para o fogo, e do paiol trouxera palhas, algumas das quais amaciara, passando por várias vezes as costas da faca. Quanto mais macias melhores são para a feitura dos cigarros. Flores do campo, brancas, amarelas e azuis, sobre a tosca mesa da sala. Ranhuras disfarçadas pela surrada, porém limpinha, toalha xadrez. Agora era sentar no alpendre, na cadeira de balanço de encosto alto e imponente e esperar. Faria crochê contornando uns panos de copa duplamente alvejados com Quiboa, e esperaria. Alaor não tardaria a chegar, suado, cansado, poeira nos vincos do rosto e do pescoço, cabelos ensebados sob o chapéu de palha. Traria pra ela algumas pitangas das grandes ou algumas guabirobas, um ovinho colorido de passarinho, que não chocou… Ele sempre tinha um carinho nas mãos calejadas. Era só esperar. Não tardaria a casa teria vida. Lampião aceso, fumaça na chaminé, conversas e cheiro de comida que ela prepararia com amor. Depois, era lavar a louça, passar a lixa nos garrões dele e com a pontinha do canivete de cortar fumo desencardiria-lhe as unhas. Deitariam, e na cama-de-vento, conversariam um pouco mais sobre o dia que passou e o próximo que viria. O cheiro das goiabas parece agora está no colchão de palhas, no travesseiro de penas e nos lençóis. No alpendre, sentada na cadeira de balanço de encosto alto e imponente, Sara esperou por três noites e dois dias até ser visitada pelo delegado. Da cozinha, o cheiro das goiabas podres infestava a casa, de assalto, como enxame de vespas… Ao longe, ao movimento dos homens que traziam o corpo na padiola improvisada por galhos de guamirim, revoada de trinta-réis.


O Marco Aurélio de Odivelas

O Marco Aurélio de Odivelas, descendente do imperador romano e fervoroso chupador de cigarros sem filtro, navegava no seu Peugeot vintage, colheita de 1994, arrebatado pela música romântica de alto gabarito que roufenhas colunas bufavam, no exacto momento em que uma descarga eléctrica proveniente de um buraco negro no espaço lhe plantou na cachola a ideia de contar à esposa que o batom que trazia na camisa e no focinho pertencia a Adélia, colega de repartição que, desde o seu primeiro dia de contrato, comparecia no trabalho embonecada por saias que lhe revelavam entre dez a quinze por cento das nádegas, e que as suspeitas fragrâncias que por vezes lhe empestavam a viatura cheiravam ao pescoço da tigresa Adélia, setenta e três quilos de pura delícia, e que um bilhete esquecido tempos antes na mesa de cabeceira, contendo a mensagem “rua das viúvas secas, nº 73, 2º esquerdo, abrigo de amor, beijoca grande”, constituía GPS que o remetia para o colchão eléctrico de Adélia, exótica beijoqueira, a pôr língua em tudo, até nos dedos dos pés, e que os amuos recentes, a falta de disposição para conversas, as lambadas na miudagem e os pontapés no rafeiro Scooby tinham origem num ardor que lhe rasgava as tripas ao recordar o cabelo platinado e os saltos altos e os decotes que nunca resguardavam os sedosos peitos da divorciada Adélia.

- De onde caiu o martelo?

Que a esposa estrebuchasse, estracinhasse as vestes à dentada ou pranteasse perpetuamente por sonhos aniquilados, isso compreenderia Marco Aurélio, afinal eram mais de vinte e cinco anos de casório atirados à sarjeta, sem mencionar o luxuoso apartamento junto à Ramada ainda por pagar ao banco e outras dívidas que divórcio algum abateria. Agora que a sua senhora se encrespasse e lhe rachasse a cana do nariz ao murro, com situações dessas nunca a sua alma virada para a moderação contara. Ainda a boca não desembuchara o nome/poema “Adélia” e já uma mão fechada o punha a roncar como um anjinho caído do céu. Este impulsivo, mas nem por isso causador de arrependimento, gesto da desonrada Pureza, logo pelo filósofo de Odivelas considerado mais grave do que adultério e merecedor de queixa na polícia judiciária, inauguraria uma nova fase do seu pensamento, resumida pela seguinte jóia: “És menos responsável pelo que te sucede do que pelas tuas reações aos acontecimentos.”

Aquartelado num t-1 apimponado por jardim e vista para um bairro de lata na Amadora, e por isso a fazer uma vida de solteiro que não apascentava um medo de dormir sozinho nascido na meninice, Marco Aurélio não tardou a ofertar anel de noivado à cavalona Adélia e a dar-lhe rédea solta para o imoderado uso de cartões de crédito, e não muito a seguir vieram o mau-humor e as discussões e desilusões como a de constatar que, desprovidas de meias, as pernas de Adélia exibiam salientes varizes e que os peitaços, aqueles peitaços lindos, agora desciam ao umbigo quando Adélia desmaiava na cama a desfazer cigarradas, e tudo isto acabaria por descambar na revelação de que Adélia encontrara outro garanhão, neste caso não tão garanhão, que o doutor Margaça, desde aquilo da asma e do derrame, desafortunado, safava-se o dinheiro. Marco Aurélio, moderado, aceitou as traições, ele próprio se dirigiria à ex-mulher, pedindo muito moderadamente para regressar a casa, e mais bofetadas lhe inchariam as bochechas.  

- Não perco a serenidade.

Adélia partiu com o garanhão, perdão, doutor Marçal, viúvo, contabilista, pessoa bem-posta na sociedade. Estava-se numa manhã de nevoeiro, Marco Aurélio de Odivelas dizia adeus da janela, adeus à Adélia das fotocópias, e esta, sem olhar para trás, a espetar a língua no bigode do doutor Marçal, um nojo. Também a ex-mulher encontrou novo parceiro, coisa séria, amor em estado selvagem.

- Não há mal que sempre dure.

 Marco Aurélio, sereno como o manso mar das sete da tarde, dava passos curtos e firmes, ia ao fundo, as ondas passavam-lhe por cima, Marco Aurélio não via nada e a água gelada engolia-o e ele engolia a água, lembrava que tudo começara com Adélia e que não se arrependia de nada, que fora feliz na perseguição dos seus desejos, não se arrependia de ter vivido cinco minutos.

Nota de leitura (7)

Retratos de Família

 

3.

 Às vezes, eu ia recolher com a boca
as gotas de chuva do beiral
e nelas sentia o gosto do mundo.
Nuvens, vento, céu pardo.
Eu chorava essas horas de prisioneiro na sala da varanda
entre flores que minha mãe adorava
e a miragem de um dia de sol, lá fora,
com a bola de futebol no largo da escola.

Fernando Namora

As Frias Madrugadas

Publicações Europa-América, 1971, p. 114.

 

Novamente, o poeta encontra no quotidiano motivos poéticos suficientes para dizer aquilo que muitas vezes fica por dizer. Fernando Namora (que foi mais romancista do que poeta) consegue, em poucos versos, recriar todo um imaginário: que poderia ser o de qualquer um. Quem é que nunca recolheu gotas de chuva? Só os pobres de espírito, de certeza.

Penso que este poema cumpre a questão da universalidade que já aqui mencionei. É tudo menos umbiguista. Não existe nele qualquer tipo de palavreado oco. É honesto e não procura, quanto a mim, fazer bonito. Não recorre à intertextualidade ou à sabedoria académica bacoca. Nele não é necessário citar Deleuze para dizer o que tem de ser dito. Tudo está. Nada falta.

Sete poemas

POEMA DO AMADO PARA SEU AMADO

 

“Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo”

Ana Paula Tavares, Manual para amantes desesperados, 2007.

a)

os dentes
teus amanhecem quando me veem
e compreendo
o inerte ofício das pedras
– plenas completas alegres.

 

b)

a voz amanhece na tua boca
ilumina: da garganta
ruminando o que não fora dito,
inaudito, e o que se ficou por dizer

pois

a voz amanhece na tua boca
e o contorno do sol posto
fica pregado
fica pregado
nas pálpebras

fechadas de pôr do sol
 

c)

e tua boca anoitece
quando o silêncio pousa e faz ninho nos teus lábios

até que
então nasce outra vez
o sol
da tua garganta áspera
raia outra vez, já à espera paciente
da hora de se pôr

flor
que anoitece

– e o eclipse do corpo meu
é violento


CANTO DE DISSOLUÇÃO

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.


SE QUESTO È UN UOMO

 

Como é possível
um homem?
Pra quê? Pra que
lhe deram nome?
Que faz o homem?
Se, mal existe,
já some?

Como é possível
haver um homem?
Melhor seria
tivessem gasto
a Criação
em rios, em pedra,
em bicho, em prado,

em homem não.

O homem nasce,
vê, come e morre
já sem perdão.


O ÚLTIMO POEMA OU RIO LETE

A cabeça no limbo do tempo.
Descansar já sem rosto e sem nome
e, deitado no córrego insone,
esquecer-se do bicho, do homem
e, com o tempo, esquecer-se do tempo.


é lícito um poema onde ecoem passos
de um único homem ou de sua sombra os passos?
é lícito o poema de uns pés descalços, limpos, sobre um
pátio ainda mais? lícito
é que água ainda não convexa de toques nem
de rostos outros espelhados que um só rosto, que essa água
reste?
ecos, passos, sombras, pés descalços, toques?
é lícito que haja? é lícito que haja tão rara palavra:
lícito?

é lícito que haja o que haver em versos
como estes
se os tiroteios furam a pele de uma mãe, de um pai, de um filho e de um que não nasceu e não nascerá num canto escuro qualquer desse país que nem me digno a saber enquanto escrevo um poema sobre escrever um poema sobre um revólver calibre 38 que resolve anular o tempo?


as partículas todas
agrupadas ou prestes a
na dança comum do ir sendo
e a
multiplicação
pródiga de tudo o que foi,
é, será ou pode vir a ser
e o cair de tudo isso do colo abarrotado do tempo

fulminam alguém num apartamento de classe média alta no dividido Brasil de PECs 55


INÚTIL

 

Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
                    [igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
                            [e próprio
 

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.